Sylvia Moretzsohn: “Globo promove cortina de fumaça para esvaziar revelações do Intercept”

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Passada uma semana das primeiras revelações das conversas por telegram entre procuradores da Lava Jato e o juiz Sérgio Moro, divulgadas pelo The Intercept Brasil, a Rede Globo é a empresa de comunicação da grande mídia que mais tem investido na questão do “hackeamento” das mensagens e minimizado a gravidade do conteúdo. É o que o aponta a professora aposentada de Jornalismo da Universidade Federal Fluminense Sylvia Moretzsohn, que concedeu entrevista por e-mail à Marco Zero Conteúdo desde Portugal, onde faz pós-doutorado na Universidade do Minho e pesquisa a dinâmica da formação de crenças e convicções nas bolhas virtuais e os desafios do jornalismo no contexto do mundo digital.

Para Sylvia, Globo e Estadão (jornal Estado de SP) são os veículos da grande mídia que mostraram-se mais resistentes a reconhecer a importância das revelações feitas pelo Intercept, mas o jornal paulista até já publicou editorial pedindo a renúncia do ministro Moro. “Só sobrou a Globo, que investe pesadamente nessa história de hackeamento e promove uma tremenda cortina de fumaça para tentar esvaziar a força do material divulgado pelo Intercept. A ponto de sugerir, agora, que tudo pode ter sido forjado, e que o jornal estaria ajudando a disseminar fake news”, critica. Neste contexto, Sylvia lembra a fala do editor do Intercept, Glenn Greenwald, em entrevista à Agência Pública, quando afirmou que “ a Globo era aliada, amiga, parceira, sócia da Lava Jato”.

As mensagens publicadas pelo The Intercept Brasil deixam claro como o apoio da opinião pública aos procedimentos da Lava Jato era considerado estratégico para os procuradores de Curitiba e o juiz Sérgio Moro. Que papel a grande mídia brasileira desempenhou nesse processo?

No artigo que escreveu sobre a Operação Mãos Limpas, em 2004, portanto dez anos antes do início dessa operação “saneadora”, Moro afirmou justamente que o apoio da opinião pública seria essencial para levar à frente um projeto desses. O Greenwald, numa entrevista à Pública, disse que a Globo era aliada, amiga, parceira, sócia da Lava Jato. Certamente ele tem elementos objetivos para dizer isso, diante do material que obteve. Mas não foi só a Globo que agiu assim, a imprensa de modo geral foi cúmplice. Do contrário, e se cumprisse o papel que anuncia em seus princípios editoriais, teria um comportamento crítico em relação aos evidentes abusos praticados desde o início, e denunciados por tanta gente, dentro e fora do meio jurídico. A grande imprensa, de modo geral, foi cúmplice dessa conspiração.

Os procuradores reclamam do vazamento de informações no caso Intercept, mas foram os vazamentos das delações premiadas que conduziram o noticiário em torno da operação Lava Jato. Algumas dessas delações, como as do então senador Delcídio Amaral, mostraram-se inconsistentes, não antes de virarem manchete. Faltou investigação jornalística às grandes redações brasileiras? Houve acomodação ou engajamento automático à agenda ditada pela Lava Jato?

Nem precisava de investigação, na maioria dos casos. As ilegalidades eram flagrantes. Mesmo um jornalismo mais preguiçoso, baseado apenas na velha regra de ouvir os dois lados, já teria permitido apresentar o contraditório. O problema é que a orientação editorial, a julgar pelo noticiário, era no sentido de apoiar a Lava Jato, que era, como ficou claro e está mais do que evidente agora, uma força poderosa para forjar o sentimento antipetista e associar a corrupção ao PT, como se a corrupção não fizesse parte da nossa história.

Como avalia o fato de que muitas das denúncias feitas pelos procuradores de Curitiba terem sido baseadas em matérias dos jornais da grande imprensa do Rio e de São Paulo? Como aconteceu, por exemplo, no caso da denúncia do triplex do Guarujá contra Lula, que deixou inseguro Deltan Dellagnoll às vésperas da sua memorável apresentação de power point?

É óbvio que reportagens não servem como prova, pelo motivo simples de que elas podem ser distorcidas ou ter falhas. Poderiam ser o ponto de partida para uma investigação que produzisse provas consistentes juridicamente. Mas isso dá trabalho. Como isso foi possível? Porque a mídia jogava a favor.

O vazamento do áudio da conversa da então presidenta Dilma com Lula foi decisivo para impedir que o ex-presidente assumisse a Casa Civil. Como avalia o comportamento de Deltan Dallagnoll e de Sérgio Moro no episódio à luz das mensagens reveladas pelo Intercept? A mídia poderia ter dado um outro tratamento a esse caso específico?

O que qualquer jornalista sério faria diante da flagrante ilegalidade cometida por Moro nesse episódio seria expor essa ilegalidade. Mas, como era cúmplice, fez o que era previsto: automaticamente divulgou o teor da conversa, e não só dessa, mas de outras que nada tinham a ver com o caso. Uma conversa banal, que foi tratada como conspiração para blindar Lula, o que não era verdade: era apenas uma tardia providência para tirá-lo do indevido foco da Lava Jato, para escapar de um julgamento viciado que agora está explícito.

Muito se fala na força do antipetismo e como ele teria sido decisivo na vitória de Jair Bolsonaro em 2018. Qual o papel da grande mídia na proliferação do antipetismo e na eleição de Bolsonaro?

A grande mídia, de modo geral, agiu no sentido de criminalizar o PT, o que é muito diferente de se comportar criticamente em relação ao governo, como deve ser em todos os casos, se quiser preservar a imagem de independência. Jornalismo não pode ser subserviente ao poder, qualquer que ele seja, embora tenha lado e exatamente por isso é necessária a pluralidade de meios. Demonizando o PT, atuando cada vez mais explicitamente para derrubar o governo, talvez não tenha calculado que abria caminho a Bolsonaro. Certamente a aposta era no retorno do PSDB, que, a rigor, foi o maior derrotado desse processo, porque praticamente se desfez, embora tenha liderado o golpe.

Como tem percebido até o momento a cobertura da grande mídia em relação aos vazamentos das mensagens divulgadas pelo The Intercept?]

Inicialmente a reação oscilou entre a reticência e a defesa de Moro, Dallagnol e da Lava Jato de modo geral. A ênfase da Globo e do Estadão na denúncia do (suposto) crime que estaria na origem da divulgação desse material foi uma forma de tentar diminuir o impacto do que ele revelava. Mas mesmo o Estadão já sugeriu que Moro deveria renunciar ao cargo que hoje ocupa. Só sobrou a Globo, que investe pesadamente nessa história de hackeamento e promove uma tremenda cortina de fumaça para tentar esvaziar a força do material divulgado pelo Intercept. A ponto de sugerir, agora, que tudo pode ter sido forjado, e que o jornal estaria ajudando a disseminar fake news. Já escrevi um artigo sobre isso.

Qual o significado de as comprovações da relação indevida entre procuradores e juiz na Lava Jato terem vindo à tona num veículo de jornalismo independente, natural do mundo digital, e não da mídia tradicional? O fortalecimento e crescimento da mídia independente pode colocar em xeque ou abalar a hegemonia dos grandes grupos de comunicação do país? Até que ponto mais diversidade de mídia significa mais democracia?

Eu não concordo muito com essa denominação de “jornalismo independente”, porque isso não existe: sempre somos dependentes de algum financiamento, como é também o caso do Intercept. A questão é a postura que assumimos, e a deles, ao que tudo indica, obedece aos princípios clássicos do jornalismo, que foram reiterados nessa série de reportagens, quando anunciaram a forma pela qual obtiveram aquele material e os procedimentos adotados para a divulgação daqueles diálogos. É claro que a multiplicação de meios alternativos qualificados como o Intercept são uma forma de confrontar o oligopólio da mídia, especialmente num país como o nosso. E certamente essa diversidade é fundamental para a democracia.

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Sobre o autor

É formado em Jornalismo pela Universidade Católica de Pernambuco. Foi repórter de Polícia do Jornal do Commercio; repórter, editor e colunista de Política do Diário de Pernambuco. Coordenou a área de comunicação social do Ministério da Saúde e ocupou os cargos de diretor de mídia regional e secretário-adjunto de Imprensa da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República. É co-autor do livro Vulneráveis – entre a emergência da vida e a incerteza do futuro, Editora Bagaço, 2015.

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