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	<title>Marco Zero Conteúdo</title>
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	<description>Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</description>
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	<title>Marco Zero Conteúdo</title>
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		<title>Por que o sururu está desaparecendo dos rios do Recife</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Maria Carolina Santos]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 02 Sep 2026 20:14:13 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Socioambiental]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Enquanto cata sururu na Ilha de Deus num fim de manhã, Cíntia Alves, 49 anos, conta que estava grávida de nove meses do segundo filho quando passou o dia todo na maré. Chegou em casa, tirou a lama do corpo e foi para a maternidade. Criou sozinha os dois filhos com o dinheiro que conseguia [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Enquanto cata sururu na Ilha de Deus num fim de manhã, Cíntia Alves, 49 anos, conta que estava grávida de nove meses do segundo filho quando passou o dia todo na maré. Chegou em casa, tirou a lama do corpo e foi para a maternidade. Criou sozinha os dois filhos com o dinheiro que conseguia vendendo o que pegava na maré. Hoje, diz que isso não é mais possível. Há muitos anos que ninguém mais pega sururu na Ilha de Deus. Para encontrar o marisco, pescadores têm que ir para depois da ponte do Pina: lá para os arredores da escultura de Brennand, na ponte do Limoeiro ou até em Olinda. O sururu, tão amado pelos recifenses, está sob ameaça.</p>



<p>Moradora da Comunidade do Bode, no Pina, outro território pesqueiro do Recife, Juliana Maria dos Santos, de 45 anos, começou a pescar aos sete anos com os pais e segue até hoje. Aprendeu cedo que em época de chuva o sururu diminui. Mas a cada ano essa diminuição tem se acentuado. &#8220;Eu fui para a maré ontem [final de julho] e peguei dois quilos de sururu. Isso é muito pouco. Está um bolinho aqui, um bolinho ali. Não é mais como antigamente”, afirma, dizendo que o tempo de procura pelo sururu tem aumentado. &#8220;Eu ando duas, três horas para poder achar o sururu e depois mergulhar”.</p>



<p>O sururu vende fácil, mas a margem é curta. Segundo as pescadoras, uma galé cheia rende cerca de três quilos de massa limpa quando o marisco está magro, como está agora. Desses, R$ 30 vão para quem cata. O quilo é revendido por algo entre R$ 25 e R$ 30.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/09/juliana-sururu.jpg" alt="Juliana dos Santos é uma mulher negra sentada no interior de um barco de madeira com casco vermelho, ancorado à beira de um rio de águas escuras e calmas. Ela veste uma blusa regata laranja com renda no decote e short verde, com os braços apoiados sobre as pernas e o olhar sereno voltado para o lado esquerdo da imagem. Ao fundo, a paisagem é composta por vegetação de manguezal densa, coqueiros, outros barcos de madeira parcialmente visíveis e uma pequena construção de concreto sob um céu azul claro com nuvens dispersas, sugerindo uma comunidade ribeirinha em dia ensolarado." class="" loading="lazy" >
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	                                        <p class="m-0">A pescadora Juliana Maria demora mais tempo procurando sururu do que efetivamente pescando.
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Em Brasília Teimosa, a marisqueira Edileuza Silva do Nascimento, mais conhecida como Leu, de 72 anos, diz que de vez em quando ainda sai para mergulhar. “Mas sururu não tem mais de jeito nenhum. A gente vai e às vezes não pega um. Marisco a gente só pega um pouquinho, mas não como antes. É muita poluição, muito lixo, muita garrafa pet, muito vidro. A poluição acabou com o rio Capibaribe”, lamenta ela, que, em 2024, recebeu o título de patrimônio vivo do Recife por seu notório saber na pesca.</p>



<p>Os motivos para a escassez do sururu são muitos e nem todos consensuais entre pesquisadores, pescadores e marisqueiras. O mais citado é a falta de saneamento, somada ao lixo despejado no estuário e ao assoreamento dos rios. Mas há também o que não se resolve localmente: o aquecimento dos oceanos e a alteração no regime de chuvas, efeitos das mudanças climáticas. Entram na lista ainda a pesca de mariscos pequenos demais e o possível aparecimento de uma espécie invasora.</p>



<p>“Na bacia do Pina existe pelo menos uma dúzia de causas para a quantidade de sururu variar, e elas atuam simultaneamente”, diz a oceanógrafa Mônica Costa, professora e pesquisadora da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).</p>



<p>Mônica Costa afirma que as reclamações sobre a escassez do sururu no Recife são válidas, mas não são novas. “Se a gente for buscar nos registros, desde o século XIX que os pescadores estão falando disso. O que não diminui a importância do alerta, porque eles estão lá todo dia, estão vendo que as coisas mudam”, diz. &#8220;Qualquer dia, ou semana, ou mês que os pescadores voltam para casa com menos do que o esperado forma um rombo enorme num orçamento que já é muito pequeno&#8221;, acrescenta.</p>



<p>A oceanógrafa explica que as mudanças que têm acontecido no estuário são importantes, principalmente o acúmulo de sedimentos. Mas não adianta apenas fazer dragagens em pontos específicos, já que toda a bacia do rio Capibaribe está comprometida. Dragagens, sozinhas, não resolvem o problema. </p>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/zeis-recife-comunidades-pesqueiras/" class="titulo">Zeis no Recife: os limites da lei nas comunidades pesqueiras</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/opiniao/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Opinião</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/moradia/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Moradia</a>
			        </div>
	            </div>
        </div>

		


<p>&#8220;Desce muita terra para os rios por causa da erosão, da falta de mata ciliar e isso acaba assoreando a bacia. Essa mudança é silenciosa. Vai acontecendo aos pouquinhos e quando você vê está tudo diferente. A questão do Capibaribe tem solução técnica conhecida, mas não tem solução política. O problema não é só no Recife. O problema é integrado, desde lá de Poção até aqui embaixo&#8221;, afirma Mônica Costa, acrescentando que a revitalização do rio é um projeto longo, que ultrapassa o ciclo eleitoral: &#8220;precisa de uma política pública que amarre o pé e a mão do governador e dos prefeitos, com obrigação de fazer, porque quatro anos não é suficiente”.</p>



<p>O biólogo Gilberto Rodrigues, professor de ecologia na UFPE, explica como as mudanças nas chuvas e o assoreamento dos rios influenciam na quantidade de sururu disponível. “O sururu precisa de uma variação de tempo dentro e fora da água para se reproduzir e crescer. No período em que ele está submerso, ele se alimenta e engorda. No período em que está fora da água, ele metaboliza. O sururu ou está ficando muito tempo no seco, sem se alimentar, ou está ficando muito tempo dentro d&#8217;água e não consegue metabolizar o alimento e acaba morrendo”, diz. Essa falta de equilíbrio também é a provável causa da diminuição do tamanho do marisco. &#8220;Não se pega mais sururu gordo”, afirma.</p>



<p>Para Mônica Costa, as mudanças climáticas podem ser a “pá de cal” na pesca artesanal do Recife. “A tendência é que a água vá ficando mais quente, e água quente significa menos possibilidade de sobrevivência. As espécies não conseguem se adaptar tão rápido quanto a mudança acontece”, diz. &#8220;É possível que a atividade pesqueira exista, desde que ela não seja a principal fonte de renda”, acrescenta, afirmando que o mais urgente é uma solução social e econômica, que garanta a dignidade das famílias pesqueiras mesmo em períodos de baixa produção.</p>


	<div class="informacao mx-md-5 px-5 py-4 my-5" style="--cat-color: #7BDDDD;">
		<span class="titulo text-uppercase mb-3 d-block">Projeto analisa situação da pesca artesanal no Nordeste</span>

		<p><span style="font-weight: 400;">Nenhum órgão público registra quanto sururu sai dos estuários do Recife. A estatística pesqueira nacional ficou 13 anos sem ser publicada e o painel lançado pelo Ministério da Pesca em 2025 não inclui a pesca de mariscos catados em rios urbanos.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Uma pesquisa do projeto <a href="https://www.instagram.com/rede.maris/" target="_blank" rel="noopener">Rede Maris</a>, com financiamento do CNPq, está aprofundando a análise sobre o que está acontecendo com a produção de marisco no litoral nordestino. É um projeto que envolve universidades de todo o Nordeste, como a Universidade de Pernambuco (UPE). A pescadora e estudante de biologia Ana Mirtes Ferreira participou da pesquisa de campo na Ilha de Deus. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">“Acompanhamos os pescadores da Ilha desde agosto de 2025 até julho deste ano e o que vimos é que a pesca está bem precária. Os pescadores dizem que não é mais garantido sobreviver só da pesca na cidade do Recife. Dizem que pegam mais lixo do que sururu. Antes, em questão de uma hora, se pegava até oito baldes, agora passam cerca de três, quatro horas para pegar a mesma quantidade. É mais tempo caçando o sururu do que pescando o sururu”, relatou. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Outra angústia que a pesquisa capturou é que os pescadores e pescadoras não pretendem repassar os saberes tradicionais para seus filhos. “Não é porque é uma profissão que traz vergonha, e sim pela falta de segurança, de valorização também do próprio produto e também pelo risco de acidente com material hospitalar e material de construção. E muitas vezes o INSS não assegura, não associa os acidentes sofridos à atividade”, disse Mirtes. O projeto Rede Maris teve início em 2024 e a pesquisa completa deve ser publicada no começo do próximo ano. </span></p>
	</div>



<h2 class="wp-block-heading">Sem defeso, pesca do sururu não tem pausa no Recife</h2>



<p>Uma questão delicada para a escassez do sururu é a sobrepesca: quando a retirada do marisco é maior do que sua capacidade de se reproduzir. Pescador de Brasília Teimosa, Rosiélio Pereira de Paula, 80 anos, afirma que hoje há mais gente indo para a maré sem conhecer os ciclos do sururu e quando ele deve ser retirado ou não. “Tem muita gente que vai só para pegar e vender, sem ninguém para ensinar”, queixa-se.</p>



<p>As próprias lideranças reconhecem que a sobrepesca é hoje um dos muitos problemas do sururu. Edvalda Ramalho, mais conhecida como Valma, preside a Colônia de Pescadores Z-20, de Igarassu, que tem quase sete mil associados, sendo 90% deles mulheres marisqueiras. &#8220;Quando se passa a pegar o marisco que não está no tamanho ideal, passa a ser pesca predatória. O que vai acontecer é o maior impacto ambiental e o reflexo é acabar o sururu&#8221;, conclui.</p>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/poluicao-e-hidronegocios-ameacam-tradicao-e-sustento-da-pesca-artesanal-no-recife/" class="titulo">Poluição e hidronegócios ameaçam tradição e sustento da pesca artesanal no Recife</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/aguas/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Águas</a>
			        </div>
	            </div>
        </div>

		


<p>É esse impasse que a oceanógrafa Mônica Costa, da UFPE, tem em vista quando fala do papel da própria pesca na escassez. &#8220;Da mesma forma que eu compreendo que existe um lado fraco da corda, eles também estão puxando a corda&#8221;, afirma. &#8220;A pesca artesanal é uma questão de saber tradicional. Se você não se apropria desse saber, você ajuda a detonar o recurso.&#8221;</p>



<p>Ela se refere às regras que os pescadores mais velhos seguiam e que hoje estão se perdendo, como deixar uma área descansar depois de ter sido explorada. De família pesqueira, Jandira Rodrigues, da Comunidade do Bode, descreve como funcionava: quando acabava o sururu num ponto, todos corriam para outro, e quando voltavam, dias depois, o primeiro já tinha se recomposto. &#8220;Hoje não tem nem aqui, nem lá&#8221;, lamenta.</p>



<p>O problema é que ninguém pode parar. &#8220;O marisco se reproduz o ano todo e migra. Porém, no período chuvoso ele se reproduz mais ainda. Mas não é respeitado esse período. Porque o pescador, se não pescar, vai sobreviver de quê?&#8221;, questiona Valma. &#8220;Como é que eu vou proibir o pescador? Eu não tenho poder para isso, não é minha competência. Mas para eles deixarem de pescar e ser proibido, tem que ter um defeso. Tem que receber&#8221;, cobra a presidente da colônia.</p>



<p>A comparação que ela faz é com a lagosta, que tem defeso instituído e seguro pago pelo governo federal. &#8220;Os pescadores de lagosta ficam em casa, recebendo um salário mínimo&#8221;, diz. Para o marisco e o sururu, o que existe é apenas o Chapéu de Palha, um programa estadual que beneficia também pescadores e pescadoras artesanais.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 ">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/09/sururu-cintia-edilene.jpg" alt="A imagem mostra duas mulheres em um espaço simples e rústico, coberto por telhas de zinco e sustentado por madeiras. À direita, uma mulher de pele escura, corpo robusto e cabelos curtos está sentada em uma cadeira plástica branca, vestindo uma blusa vermelha estampada e shorts coloridos, com expressão serena e olhar voltado para cima. À esquerda, mais ao fundo, outra mulher de pele escura e porte magro usa uma bandana azul e roupas escuras, concentrada em separar ou limpar conchas sobre uma mesa improvisada. O ambiente é modesto, com caixas plásticas, baldes e mesas simples, sugerindo um local de trabalho artesanal ou comunitário." class="w-100" loading="lazy" >
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	                                        <p class="m-0">Beneficiamento do sururu está mais demorado e expõe marisqueiras a riscos de saúde. Na foto, Cíntia e Edilene, da Ilha de Deus
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero</span>
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                    </figure>

	


<p>Sandra da Silva Lima, presidente da colônia de pescadores Z-1, no Recife, conta que já foram feitas várias reuniões para que esse defeso seja estabelecido, mas falta apoio político. &#8220;Nesse período de chuvas, são quatro meses que a gente tem o programa Chapéu de Palha, que não impacta muito devido a alguns vínculos que tem com o Bolsa Família”, explica. &#8220;O defeso seria justamente para esse período mais difícil para as marisqueiras, para que elas pudessem manter suas casas”, cobra.</p>



<p>Representante voluntária da colônia Z-1 na Ilha de Deus, Érika Romão explica que há desconto no Chapéu de Palha para quem é beneficiário do Bolsa Família. “Acho que isso é uma injustiça. Eu e meu esposo somos pescadores: sou do Bolsa Família e ele é do meu cadastro. Recebe só R$ 150. Eu tenho uma irmã, também pescadora, que recebe pouco mais de R$ 380, porque ela não tem Bolsa Família”, explica. “Eu já acho um dinheiro tão pouco. Porque não dá para sobreviver com um salário direito, imagina com R$ 150&#8243;.</p>



<p>Procurado pela reportagem, o Governo de Pernambuco confirmou, por meio da Secretaria de Planejamento, Gestão e Desenvolvimento Regional (Seplag), que há um teto menor para quem recebe o Bolsa Família. O benefício do Chapéu de Palha no segmento da pesca artesanal é de até R$ 387,94, pagos em até cinco parcelas. Para quem também for beneficiário do Bolsa Família, o governo do estado paga apenas R$ 150, valor definido como bolsa mínima pela Lei nº 14.492/2011.</p>



<p>Sobre o pedido das colônias para desvincular os dois programas e equiparar o valor a um salário mínimo, a Seplag não informou se há avaliação em curso. Respondeu apenas que, em 2023, a legislação foi alterada para aplicar reajuste de aproximadamente 38% e acrescentar uma quinta parcela ao programa. Em 2026, foram beneficiadas 6.032 pessoas em 58 municípios, sendo 600 no Recife, com investimento de aproximadamente R$ 6,4 milhões. O pagamento vai de maio a agosto, período que, segundo a secretaria, corresponde à escassez natural dos estoques de sururu e marisco no litoral e aos meses mais chuvosos.</p>



<p>Para receber o benefício é preciso comprovar a atividade por meio do Registro Geral da Pesca, emitido pelo órgão federal, e não estar recebendo aposentadoria ou pensão do INSS, seguro-desemprego ou seguro-defeso. Não há previsão para quem cata e beneficia o pescado sem registro, que é a situação de parte das mulheres ouvidas nesta reportagem.</p>



<p>Questionado sobre ações do estado diante da queda na produção da Bacia do Pina, seja de apoio à renda, saneamento ou dragagem, o Governo de Pernambuco não respondeu: limitou-se a dizer que as ações do Chapéu de Palha seguem o que estabelece a lei do programa.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 ">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/09/barco-sururu.jpg" alt="A imagem mostra uma vista aérea de um pequeno barco azul navegando sozinho sobre águas de tom esverdeado. O barco tem formato estreito e alongado, com uma cobertura simples na parte traseira e alguns objetos dentro, como caixas e equipamentos. Um homem aparece próximo ao centro do barco, aparentemente conduzindo ou trabalhando. A luz do sol reflete na superfície da água, criando pontos brilhantes que destacam o contraste entre o movimento do barco e a imensidão tranquila ao redor." class="w-100" loading="lazy" >
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	                                        <p class="m-0">Pescadores têm que ir cada vez mais longe para achar sururu. 
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<h2 class="wp-block-heading"><strong>Lixo dá mais trabalho no beneficiamento do sururu</strong></h2>



<p>Para se fixar em pedras, pontes e cascos de navio, o sururu produz um filamento de proteína que endurece em contato com a água, o bisso. Esses fios também prendem os indivíduos uns aos outros, formando um &#8220;tapete&#8221; no leito do estuário. Quando mergulham, os pescadores trazem à superfície a manta inteira. E como o sururu não escolhe onde se fixar, vem junto o lixo que se acumulou no fundo: embalagens, caco de vidro, até agulhas.</p>



<p>Em todas as catações que a Marco Zero registrou na Ilha de Deus e no Bode havia muito lixo. E isso faz com que o trabalho das catadoras, quase sempre mulheres, demore muito mais. &#8220;Antigamente o sururu vinha limpinho. Agora a gente tem que estar com cuidado para não pegar uma agulha, para não pegar um vidro”, diz Edilene Maria Alves da Silva, 58 anos, nascida e criada na Ilha de Deus.</p>



<div class="wp-block-media-text is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:33% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="533" height="799" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/09/sururu-vert.jpg" alt="" class="wp-image-76593 size-full" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/09/sururu-vert.jpg 533w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/09/sururu-vert-200x300.jpg 200w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/09/sururu-vert-150x225.jpg 150w" sizes="(max-width: 533px) 100vw, 533px" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p>Antes de ser vendido, e depois da catação para separá-lo do lixo, o sururu é fervido, para a abertura da casca, retirado na unha e novamente catado. Se antes era comum ver muitas mulheres na maré, hoje elas ficam mais nas etapas feitas em terra. &#8220;As mulheres não estão indo pescar. A maioria está catando. Os homens vão na baiteira, recolhem, trazem para elas beneficiarem. Eles é que fazem o mergulho. Tem algumas mulheres que vão, mas hoje 80% são homens&#8221;, detalha Sandra da Silva Lima, da colônia Z-1.</p>
</div></div>


	<div class="informacao mx-md-5 px-5 py-4 my-5" style="--cat-color: #7BDDDD;">
		<span class="titulo text-uppercase mb-3 d-block">Espécie invasora pode ameaçar o sururu nativo</span>

		<p><span style="font-weight: 400;">Nas muitas entrevistas realizadas para esta reportagem, vários pescadores e pescadoras citaram um sururu que “não prestava para comer” ou um “sururu branco”. &#8220;O sururu que dá junto do shopping Rio Mar é aquele sururu branco, que não tem carne, nem nada. Não adianta pegar ele. Está lastrado lá, mas de sururu branco”, contou Juliana Maria dos Santos. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O professor Gilberto Rodrigues acredita que pode se tratar de uma espécie invasora, já registrada em Alagoas. “Eu ainda não tenho o registro dele no Recife, mas não significa que ele não esteja aqui”, diz. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Marisqueiras ouvidas pela Marco Zero dizem que o sururu branco não é tão saboroso quanto o sururu nativo. Os relatos de Alagoas, onde mais de 3 mil pessoas sobrevivem da pesca do sururu, afirmam que é um marisco de casca fina e que se desfaz ao ser cozinhado, o que inviabiliza o consumo e a venda, causando prejuízo econômico. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;"><a href="https://noticias.ufal.br/ufal/noticias/2023/3/pesquisadores-da-ufal-estudam-especie-exotica-de-sururu-na-laguna-mundau" target="_blank" rel="noopener">Pesquisa da Universidade Federal de Alagoas (Ufal)</a> mostrou que o sururu branco tolera melhor do que o nativo as condições da água poluída: pouco oxigênio, muito sedimento, salinidade e temperatura altas. Isso pode ser uma vantagem no estuário do Recife. E como as duas espécies ocupam o mesmo habitat, o risco é que o branco vença a disputa.</span></p>
	</div>



<h3 class="wp-block-heading">Infecções, lesões e sol: os riscos do trabalho das marisqueiras</h3>



<p>A saúde também é cobrada. Edilene reclama que não enxerga mais bem no sol. Cíntia Alves parou porque não aguentava mais as dores no corpo. Mesmo na catação há riscos. Edilene estende as mãos recém-curadas de feridas que coçavam muito. Foram duas semanas afastadas do beneficiamento do sururu, com uma doença dermatológica que ela acredita ter contraído separando o sururu do lixo e da lama poluída. &#8220;A médica disse que era germe da lama”, conta. &#8220;Sou nascida e criada aqui na Ilha de Deus, sempre pesquei e nunca peguei essas coisas, nunca tive esse negócio de germe, nada. Estou com medo que volte de novo. Recomendaram a luva, mas eu não sei trabalhar com luva”, afirma.</p>



<p>Mestre em saúde pública, Alyne Nascimento afirma que é preciso pensar em soluções coletivas para proteger a saúde das marisqueiras. &#8220;É muito difícil a gente chegar e falar: precisa usar luva. Na verdade, o debate precisa ser outro, para além disso: precisamos muito mais dar atenção às questões coletivas, à raiz do problema, que é a questão da poluição, do que focar no risco individualmente”, afirma a biomédica e sanitarista, que pesquisa na Ilha de Deus desde 2020, quando participou de inquérito epidemiológico sobre os impactos do derramamento de óleo de 2019 no litoral pernambucano.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 ">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/09/marisqueiras-sururu.jpg" alt="A foto mostra um par de mãos femininas de pele escura trabalhando sobre uma mesa rosa, limpando pequenos mariscos conhecidos como sururu. As mãos estão molhadas e cobertas de resíduos, com as unhas pintadas de azul, revelando o esforço manual envolvido na atividade. Ao fundo, há mais mariscos espalhados e um recipiente branco, sugerindo um ambiente de preparo ou separação dos frutos do mar. A imagem transmite a dedicação e o contato direto com o trabalho artesanal da pesca e do beneficiamento do sururu." class="w-100" loading="lazy" >
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	                                        <p class="m-0">O trabalho de beneficiamento do sururu é majoritariamente feito por mulheres
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Pós-doutorando em saúde pública na Fiocruz Pernambuco, o pesquisador José Erivaldo Gonçalves participou da condução de uma cartografia com pescadoras da Ilha de Deus, dentro do Laboratório de Saúde, Ambiente e Trabalho da Fiocruz. &#8220;Quando elas foram mapeando os lugares que pescavam sururu, esses lugares estavam muito interligados aos lugares que têm água poluída, que têm o despejo de esgotos naquela região”, afirmou.</p>



<p>Foram identificados vários problemas de saúde por conta do trabalho na maré, como infecções geniturinárias recorrentes. &#8220;Há também muitos problemas dermatológicos, inclusive o câncer de pele. Muitas vezes não usam protetor solar, porque é caro. O que muitas mulheres fazem é passar querosene na pele, por conta dos mosquitos que têm no mangue. Então, é mais um processo de exposição a hidrocarbonetos. Ao mesmo tempo que elas se dizem felizes fazendo esse trabalho, ele também é adoecedor”, pondera Erivaldo.</p>



<p>Outro problema encontrado na saúde das mulheres que trabalham ou trabalharam na maré foi por conta da postura durante a coleta dos mariscos. “É um trabalho que exige ficar na mesma posição durante muito tempo. Acaba por ocorrer lesões por esforço repetitivo, doenças osteomusculares&#8221;, detalha Alyne.</p>



<p>Com o sururu sob ameaça, o meio ambiente degradado, pescadoras adoecidas e políticas públicas insuficientes, o futuro da pesca artesanal no Recife é incerto. Ao posar para uma foto desta reportagem, Érika Romão teme que a profissão que o pai ensinou a ela vá parar no museu. “Esta foto vai ficar para, no futuro, dizerem: ‘aqui era uma pescadora, isso aqui era um barco, isso aqui era um sururu que existia, mas não existe mais’”, disse. “Quando eu engravidei, há 19 anos, meu pai perguntou: ‘como você vai criar seu filho, pescando?’ E eu criei meu filho na pesca. Hoje em dia eu tenho uma menina de oito anos e eu não sei mais o que é pescar. Vou criar minha filha na pesca? Não dá mais”.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/09/erika-sururu.jpg" alt="A foto mostra Érika Romão, uma mulher de pele morena, cabelos longos e lisos, sentada sobre uma estrutura de concreto decorada com conchas verdes e azuis, à beira de um rio. Ela veste uma blusa rosa, shorts jeans e tênis vermelhos, sorrindo suavemente enquanto olha para a câmera. O cenário ao fundo revela uma paisagem natural com manguezais e, ao longe, uma linha de prédios sob um céu parcialmente nublado e iluminado pelo sol." class="" loading="lazy" >
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	                                        <p class="m-0">Érika Romão teme pelo futuro da profissão que aprendeu com o pai
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

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		<title>&#8220;Fiquei com mais medo do odor&#8221;. Fala de Medina sobre protesto de mulheres negras gera nova denúncia de racismo</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Raíssa Ebrahim]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 01 Sep 2026 22:24:26 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[bolsonarista]]></category>
		<category><![CDATA[Câmara Municipal do Recife]]></category>
		<category><![CDATA[extrema direita]]></category>
		<category><![CDATA[Jô Cavalcanti]]></category>
		<category><![CDATA[racismo]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>“Eu fiquei com mais medo do odor de quando eu cheguei do que com as falas que estavam sendo proferidas ali”. A frase é do vereador de extrema direita do Recife Thiago Medina (PL), candidato a deputado federal, durante sessão plenária desta terça-feira, 1º de setembro. Ele se refere ao protesto que aconteceu, pela manhã, [&#8230;]</p>
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<p>“Eu fiquei com mais medo do odor de quando eu cheguei do que com as falas que estavam sendo proferidas ali”. A frase é do vereador de extrema direita do Recife Thiago Medina (PL), candidato a deputado federal, durante sessão plenária desta terça-feira, 1º de setembro. Ele se refere ao protesto que aconteceu, pela manhã, na entrada da Câmara do Recife, em defesa da vereadora Jô Cavalcanti (PSOL).</p>



<p>Um grupo de aproximadamente 30 pessoas, com presença majoritária de organizações sociais e coletivos de mulheres negras, esteve em ato para denunciar episódios de racismo e misoginia contra Jô. Única parlamentar negra da atual legislatura, ela, que também é candidata a deputada estadual, vem, há meses, acusando Medina de perseguição.</p>



<p>“Thiago Medina subiu à tribuna para dizer que mulheres negras fedem. Essas mulheres estavam aqui em ato de solidariedade ao nosso mandato, que está sofrendo perseguição política na Casa”, disse a vereadora, em pronunciamento, nas redes sociais, logo após o ocorrido.</p>



<p>“Isso vem sendo uma ação coordenada da extrema-direita para perseguir as populações mais vulneráveis, LGBTQIAPN+ e de religiosidades. Eles estão tentando legitimar cada vez mais esse discurso para se tornar comum”, afirmou ela, à tarde.</p>



<p>Interrupções, gritos, zombarias, dedo em riste, intimidação e constrangimento público passaram a integrar a rotina da atual legislatura da Câmara Municipal. Vereadoras relatam um ambiente sistemático de violência política de gênero e apontam parlamentares da extrema-direita, com destaque para Medina, como responsáveis pelos ataques.</p>



<p>O plenário virou um espaço de tensão permanente, como mostrou a <strong>Marco Zero</strong> em <a href="https://marcozero.org/entre-mimimi-e-silenciamento-camara-do-recife-vira-palco-de-violencia-contra-mulheres/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">reportagem</a> publicada em junho. As denúncias de Jô agora vão além. Além de misoginia, ela acusa Medina de racismo.</p>



<h2 class="wp-block-heading">A escalada</h2>



<p>A situação escalou, há pouco menos de 15 dias, após o parlamentar classificar o Projeto de Lei nº 147/2026, de autoria da vereadora, que propunha instituir o Dia Municipal da Mestra Ritinha, como “uma porcaria” e chamar a entidade espiritual da Jurema Sagrada de “mestra dos cabarés”. O projeto acabou sendo rejeitado em plenário por 12 votos a sete.</p>



<p>Após o acúmulo de episódios de violência e meses de denúncias sem que Medina tenha levado, até o momento, nenhuma advertência da Câmara do Recife — presidida pelo PSB, assim como a Comissão de Ética da Casa —, Jô terminou chamando-o de “racistinha de merda” e de “fascistinha” durante a sessão, em 17 de agosto.O episódio levou o vereador a entrar com uma representação, na Comissão de Ética, contra ela.</p>



<p>Alguns dias depois, em 20 de agosto, a subcomissão de Ética da Câmara aplicou uma medida de censura verbal contra a vereadora por palavras proferidas na tribuna em 3 de novembro de 2025, durante um debate sobre letalidade policial e direitos humanos após uma operação de grande repercussão no Rio de Janeiro.</p>



<p>Durante a reunião da subcomissão, a defesa da parlamentar demonstrou que a denúncia se baseou em uma leitura recortada e descontextualizada do episódio, ignorando o vídeo completo, as sucessivas interrupções sofridas por ela e a celebração que ocorria, por parte da bancada bolsonarista, das execuções da tragédia. </p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/09/54808211028_9449e83c16_c.jpg" alt="A imagem mostra a vereadora do Recife, Jô Cavalcanti, em ambiente interno, provavelmente durante uma sessão ou reunião. Ela veste uma blusa clara e usa óculos de armação escura. Seu rosto é arredondado, com pele morena, sobrancelhas grossas e bem definidas, nariz levemente largo e lábios cheios. O cabelo é escuro, liso e está solto, emoldurando o rosto. Sua expressão transmite atenção e seriedade, reforçando o contexto institucional da cena." class="" loading="lazy" >
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Única parlamentar negra da legislatura, Jô acusa Medina de racismo e misoginia
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Dias depois da notícia da censura verbal, nesta terça (1º), ao comentar o ato organizado em defesa da parlamentar, o vereador zombou da situação: “Desde a semana retrasada, quando a vereadora perdeu (a votação do Dia Municipal da Mestra Ritinha), ela se coloca como vítima. ‘Eu sou alvo de intolerância, eu sou alvo de racismo, ai eu perdi o Projeto de Lei, quem votou contra é racista’”, discursou em tom de deboche, com a voz em falsete.</p>



<p>“Ontem [segunda, 31] eu fiquei sabendo que hoje haveria uma manifestação contra a minha pessoa, contra o vereador Thiago Medina, por racismo religioso, intolerância religiosa, misoginia e todos os mimimi da esquerda”, falou também ao microfone. “Se eu gostasse de mimimi, eu comprava um gato gago, mas, como não gosto, estou aqui discursando”, debochou.</p>



<p>Em resposta aos ataques que vem denunciando, o mandato de Jô, além de protocolar projetos contra a violência de gênero e de raça na Câmara do Recife, entrou com uma representação contra Medina na Comissão de Ética da Casa e também no Ministério Público de Pernambuco por racismo e LGBTfobia.</p>



<p>“E nós representaremos novamente hoje contra esse parlamentar nas duas instâncias por reiteração da prática delitiva”, anunciou a vereadora.</p>



<p>“A Casa José Mariano é uma casa abolicionista, onde não pode acontecer o que vem acontecendo da última semana para cá. O Legislativo não pode tolerar, de forma alguma, esse tipo de postura de violência aos direitos fundamentais das pessoas. Por entender que nenhum vereador está acima de qualquer lei e sabendo que racismo é crime, estamos esperando que o Ministério Público tome as medidas cabíveis”, disse Jô ao falar com a <strong>MZ</strong>.</p>



<p>A reportagem procurou a assessoria de imprensa do vereador Medina, mas não obteve resposta até o fechamento desta matéria.</p>



<p>Também questionou a Câmara do Recife se alguma medida será tomada após o ocorrido desta terça (1º). Segue resposta na íntegra, assinada pelo presidente Romerinho Jatobá (PSB):</p>


	<div class="informacao mx-md-5 px-5 py-4 my-5" style="--cat-color: #7BDDDD;">
		<span class="titulo text-uppercase mb-3 d-block"></span>

		<p>&#8220;A Câmara Municipal do Recife vem a público reafirmar o seu compromisso com a garantia de direitos para todas as pessoas, conforme pressupõe a democracia que defendemos. Ao longo da sua história, a Casa de José Mariano sempre foi um espaço para as mais diversas manifestações populares que refletem a diversidade do povo recifense e de seus representantes. Por tudo isso, o respeito às diferenças deve nortear todos os pronunciamentos das vereadoras e dos vereadores&#8221;.</p>
	</div>



<p></p>
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			</item>
		<item>
		<title>Herdeiros do mesmo trono (parte 2): Orfeu e Sísifo</title>
		<link>https://marcozero.org/herdeiros-do-mesmo-trono-parte-2-orfeu-e-sisifo/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 01 Sep 2026 20:10:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Sem categoria]]></category>
		<category><![CDATA[eleições 2026]]></category>
		<category><![CDATA[Governo de Pernambuco]]></category>
		<category><![CDATA[João Campos]]></category>
		<category><![CDATA[Raquel Lyra]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Por Tiago Paraíba* e Michel Chaves** Tebas serviu de arquétipo para a disputa entre herdeiros em Pernambuco. Etéocles e Polinices nos deram a estrutura: dois filhos da mesma casa, disputando o mesmo trono, dentro dos mesmos muros que os formaram. Essa imagem explica quem disputa e por que a disputa é, no fundo, uma questão [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p><strong>Por Tiago Paraíba* e Michel Chaves</strong>**</p>



<p>Tebas serviu de arquétipo para a disputa entre herdeiros em Pernambuco. Etéocles e Polinices nos deram a estrutura: dois filhos da mesma casa, disputando o mesmo trono, dentro dos mesmos muros que os formaram. Essa imagem explica <em>quem</em> disputa e <em>por que</em> a disputa é, no fundo, uma questão de sucessão, e não de guerra entre mundos opostos. Mas a cidade dos sete portões não basta para explicar <em>como</em> cada um disputa — o gesto, a retórica, o método com que cada herdeiro tenta convencer Pernambuco de que é ele quem rompe o ciclo. Para isso, é preciso outro par de espelhos: Orfeu e Sísifo, dois mitos que não pertencem ao ciclo tebano, mas que emprestam a Tebas o que lhe falta — a psicologia da disputa. Se Etéocles e Polinices dizem o que está em jogo, Orfeu e Sísifo dizem como cada herdeiro joga. É nesse par contraditório que João Campos e Raquel Lyra se inscrevem. Ambos, contudo, evitam a pergunta que o estado deveria formular: o que resta além da sucessão do trono?</p>



<p>Essa disputa não nasce no vazio. Ela é herdeira de um processo concreto: entre 2007 e 2022, o PSB governou Pernambuco por quatro mandatos consecutivos, construindo uma engenharia partidária com alcance real no território.</p>



<p>A morte de Eduardo Campos não encerrou essa estrutura — ela abriu uma disputa interna sobre direção e herança, que a vitória de Paulo Câmara em 2018 ainda conteve dentro de casa. Foi a ruptura de 2022, com a derrota do grupo indicado pelos Campos e a vitória de Raquel Lyra, que rachou publicamente o que antes era administrado internamente. Hoje, dois polos disputam o comando dessa reorganização: de um lado, os Campos tentando recuperar o governo estadual; do outro, Raquel tentando consolidar uma nova hegemonia. Lula funciona como ativo central nessa disputa, mas — como já demonstrado na Parte 1 — apoio não é identidade: é tração eleitoral emprestada, não sangue da casa. É esse terreno fático, e não a mitologia em si, que autoriza a leitura simbólica que segue.</p>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/herdeiros-do-mesmo-trono-por-que-raquel-nao-e-bolsonaro-e-joao-nao-e-lula/" class="titulo">Herdeiros do mesmo trono: por que Raquel não é Bolsonaro e João não é Lula</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/opiniao/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Opinião</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/democracia/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Democracia</a>
			        </div>
	            </div>
        </div>

		


<p><strong>João Campos: o Orfeu que caminha para diante com o corpo virado para trás</strong></p>



<p>Orfeu obtém dos deuses a graça de resgatar Eurídice sob uma única interdição: não voltar ou olhar para trás até a superfície. João Campos opera em regime invertido. Seu discurso invoca futuro, inovação e modernização, mas sua legitimidade política repousa numa arqueologia permanente — um movimento que Walter Benjamin chamaria de escovar a história a contrapelo, com o objetivo de reivindicar glórias seletivas.</p>



<p>Eduardo Campos é o pai simbólico, herança imediata; Miguel Arraes, o bisavô mítico, que amplia a espessura temporal da linhagem; Lula, o fiador nacional, que ancora o projeto no presente do governo federal. Trata-se de engenharia eleitoral precisa: o passado fornece identidade, Lula oferece capilaridade, e o discurso da modernização tenta transformar essa matéria arcaica em promessa de futuro.</p>



<p>Mas a contradição é interna e cresce com o próprio recurso ao arquivo familiar. Quanto mais João evoca os seus antepassados para definir-se, menos responde ao que efetivamente pretende ser. E há um silêncio significativo nessa genealogia política: Paulo Câmara, seu antigo chefe de gabinete, é sistematicamente omitido. Não se trata de lapso, mas de operação calculada: exclui-se o elo que aproximaria o herdeiro do desgaste do ciclo PSB de dezesseis anos, preservam-se os ícones imunes à corrosão do tempo.</p>



<p>João é, assim, Orfeu que caminha para diante com o corpo virado para trás. Sua novidade não reside no conteúdo do projeto, mas na seleção dos mortos que o autorizam a falar em nome da vida futura.</p>



<p><strong>Raquel Lyra: Sísifo e a pedra da ruptura que não cessa de recomeçar</strong></p>



<p>Raquel Lyra constrói sua narrativa por outra via. Em 2022, sua vitória interrompeu a hegemonia do PSB, apresentando-se como antítese à velha ordem. A imagem de renovação tornou-se seu ativo central.</p>



<p>Sísifo, porém, adverte: condenado a rolar um bloco de mármore montanha acima, vê o esforço desfeito no instante em que o topo parece próximo e recomeça, eternamente, o mesmo gesto inútil. A pergunta que o mito impõe à governadora é incômoda: a ruptura de 2022 rompeu efetivamente as estruturas de poder ou apenas transferiu a mão que empurra a mesma pedra?</p>



<p>Sua trajetória não é externa ao universo que ela diz superar. Formada no PSB, forjada em suas redes, Raquel encarna menos uma cesura do que uma recomposição oriunda das elites — o que Maquiavel chamaria de novo príncipe com velhas clientelas. A pedra mudou de empunhadura, mas permanece a mesma: a concentração de poder, a dependência do Estado como mecanismo de reprodução de grupos, a baixa capilaridade das decisões econômicas. Renovação, nesse quadro, não pode se reduzir a troca de atores, estética ou alianças conjunturais. Exige alteração de prioridades, de matriz de desenvolvimento, de relação com as desigualdades estruturais — algo que o mito de Sísifo, justamente, nega ao condenar seu herói à repetição infinita do mesmo.</p>



<p><strong>O que a disputa oculta — e por que isso importa</strong></p>



<p>Os três registros míticos, lidos juntos, convergem. Tebas é o tabuleiro de herdeiros em disputa — a estrutura que Etéocles e Polinices desenham. Orfeu é João, que fala em porvir, mas retroalimenta-se de fantasmas. Sísifo é Raquel, que promete ruptura mas reproduz o ciclo. Ambos disputam o trono com gramáticas opostas — um reivindica a memória dos antepassados; a outra, a negação deles. Mas ambos operam dentro do mesmo horizonte: a sucessão, e silenciam sobre o que viria depois dela — exatamente como Etéocles e Polinices, cuja disputa termina em fratricídio nos portões da cidade, sem que nada realmente mude, e o poder simplesmente passa a Creonte por decreto.</p>



<p>O que está em jogo, portanto, não é a qualidade da herança, mas a própria herança como categoria política. Hegel, na Fenomenologia do Espírito, mostrou que o senhor só é senhor porque o escravo o reconhece como tal; o trono só existe enquanto os súditos aceitarem sua necessidade. A pergunta incômoda que nenhum dos dois candidatos formula é: por que Pernambuco precisa de um trono? Por que o futuro deve ser eternamente apresentado como escolha entre pretendentes de uma mesma linhagem, ainda que com roupagens diferentes?</p>



<p>Na falta de um projeto substantivo para o estado, a disputa simbólica torna-se o campo decisivo. João escava Arraes e Eduardo; Raquel escava a própria vitória de 2022 como fetiche de novidade. É uma eleição em que os candidatos competem menos pelo futuro de Pernambuco do que pela autoridade para interpretar o passado que lhes daria direito a ocupá-lo.</p>



<p>Essa é uma armadilha de época, em que o historicismo empático com os vencedores transforma a tradição em mercadoria de legitimação. Pernambuco não precisa saber quem é o mais legítimo herdeiro de Eduardo, o mais fiel a Arraes, o mais próximo de Lula ou o mais rompido com o PSB. Precisa saber qual projeto enfrenta a fome, o subemprego, a concentração fundiária, a precarização do serviço público — variáveis que nenhuma genealogia resolve.</p>



<p><strong>Recusar a tragédia tebana</strong></p>



<p>É nesse ponto que a esquerda, em particular, deve escapar do papel de coro auxiliar de um dos irmãos em contenda. Não lhe cabe escolher entre Orfeu e Sísifo, entre o nostálgico e o reiterativo — nem torcer, como o coro de Tebas, para ver qual herdeiro cai primeiro nos portões da cidade.</p>



<p>A tarefa é outra, mais espinosana: distinguir entre <em>potentia</em> (capacidade de agir coletivamente) e <em>potestas</em> (poder constituído sobre os corpos). O trono é <em>potestas</em> pura — concentração que se perpetua. A política que interessa é a que não quer ocupar o trono, mas dissolver sua própria necessidade; que não pergunta qual dos dois será o próximo faraó, mas por que ainda há faraós.</p>



<p>Essa recusa, porém, não pode ficar apenas no plano simbólico — sob risco de repetir, em chave filosófica, o mesmo silêncio que se cobra dos herdeiros. Dissolver a necessidade do trono significa, concretamente, perguntar o que nenhum dos dois candidatos pergunta: quais propostas enfrentam o déficit habitacional, o saneamento básico e a precarização do trabalho? Que caminhos para a segurança pública não se limitam ao repertório da punição como substituto de política? Como garantir desenvolvimento do interior para além de obras dissociadas de sustentação econômica e participação social? Como tratar a concentração econômica e a desigualdade racial como problema estrutural, e não como promessa episódica de governo? É nessas perguntas, e não na genealogia de quem tem o sangue mais legítimo, que se mede a diferença entre potentia e potestas.</p>



<p>João olha para trás para forjar o amanhã. Raquel empurra a pedra da renovação em direção ao mesmo cume. Ambos disputam Tebas. Mas Pernambuco talvez precise de uma política que não deseje apenas herdar o reino, e sim tornar o reino irrelevante.</p>



<p>Essa, sim, seria a verdadeira ruptura. Não escolher entre Orfeu e Sísifo.</p>



<p>É sair de Tebas.</p>


    <div class="infos mx-md-5 px-5 py-4 my-5">
        <span class="titulo text-uppercase mb-2 d-block"></span>

	    <p><strong>*</strong> Tiago Paraíba integra a executiva nacional do PSOL e militante da Ação Negra.</p>
<p><strong>**</strong>Michel Chaves é historiador e economista.</p>
    </div>
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		<title>Dinheiro, fé e antifeminismo: como a direita disputa o voto das mulheres cristãs em 2026</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Raíssa Ebrahim]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 31 Aug 2026 16:04:04 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Diversidade]]></category>
		<category><![CDATA[eleições 2026]]></category>
		<category><![CDATA[extrema direita]]></category>
		<category><![CDATA[feminismo e política]]></category>
		<category><![CDATA[feminismo e religião]]></category>
		<category><![CDATA[mulheres cristãs]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A disputa pelo voto feminino entrou em uma nova fase. Se, nas eleições de 2022, a corrida parecia mais concentrada no segmento evangélico, com a direita mobilizando fortemente a &#8220;pauta de costumes&#8221; em torno de temas como aborto, &#8220;ideologia de gênero&#8221;, &#8220;kit gay&#8221; e &#8220;mamadeira de piroca&#8221;, para 2026 esse repertório foi ampliado. Assuntos como [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>A disputa pelo voto feminino entrou em uma nova fase. Se, nas eleições de 2022, a corrida parecia mais concentrada no segmento evangélico, com a direita mobilizando fortemente a &#8220;pauta de costumes&#8221; em torno de temas como aborto, &#8220;ideologia de gênero&#8221;, &#8220;kit gay&#8221; e &#8220;mamadeira de piroca&#8221;, para 2026 esse repertório foi ampliado.</p>



<p>Assuntos como violência contra a mulher, maternidade, cuidado, família, autonomia financeira e empreendedorismo também passaram a integrar o discurso de setores conservadores, ao mesmo tempo em que ganha força um ativismo cristão antifeminista, que inclusive disputa a própria definição do que significa ser mulher.</p>



<p>Para falar sobre esses e outros temas em torno do voto feminino cristão nestas eleições, a <strong>Marco Zero</strong> conversou com a socióloga da religião e doutoranda em Sociologia na Universidade de São Paulo (USP) Tabata Tesser, pesquisadora associada do Instituto de Estudos da Religião (Iser).</p>



<p>Socióloga, ela tem estágio doutoral na Universidade de Barcelona (UB) e é mestre em Ciência da Religião pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). No ISER, integra a pesquisa <em>Cristianismos e Aborto: disputas nas instituições públicas brasileiras (2010-2025)</em>. Também faz parte do Laboratório de Antropologia da Religião (LAR-Unicamp) e do grupo de estudos de Investigações em Sociologia da Religião (Isor), da Universidade Autônoma de Barcelona.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/08/voto-Tabata-1-1024x726.jpg" alt="A foto mostra Tabata Tesser sentada confortavelmente em uma poltrona de madeira clara com laterais de palhinha trançada. Ela tem cabelos longos e castanhos, usa um macacão azul escuro sem mangas e está sorrindo de forma serena. Seu braço esquerdo repousa sobre o encosto, enquanto o direito apoia a cabeça num gesto descontraído. Usa pulseiras douradas, anel e esmalte vermelho, e há uma almofada verde ao seu lado. O ambiente é elegante e acolhedor, com parede neutra e persiana ao fundo, transmitindo uma sensação de tranquilidade e confiança." class="" loading="lazy" width="666">
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">
</p>
	                
                                            <span>Crédito: acervo pessoal</span>
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                    </figure>

	


<p>Marco Zero — <strong>Nas eleições de 2022, a pauta de costumes parecia mais concentrada no segmento evangélico. Em 2026, vemos novas personagens, como <a href="https://religiaoepoder.org.br/artigo/quem-e-a-catolica-que-emerge-como-um-dos-principais-rostos-femininos-da-campanha-de-flavio-bolsonaro" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Daniella Marques</a>, num movimento que une identidade católica, tradicionalismo, perfil de elite e discurso sobre mulheres e família. O que mudou na forma como a direita está tentando falar com essas mulheres? O que essa mudança revela sobre o eleitorado feminino cristão no Brasil?</strong></p>



<p><strong>Tabata Tesser —</strong> Acho que a primeira mudança importante é que estamos começando a perceber que falar de mulheres cristãs não é falar apenas de mulheres evangélicas. Existe uma espécie de miopia na cobertura eleitoral brasileira que transforma o eleitorado evangélico em sinônimo de eleitorado cristão, quando, na verdade, o cristianismo brasileiro tem um rosto fortemente feminino e o maior contingente de mulheres cristãs é católico.</p>



<p>O Censo de 2022 mostra que as mulheres são 55,4% dos evangélicos e 51% dos católicos. Quando olhamos para esse conjunto, estamos falando de dezenas de milhões de mulheres. São mulheres que não apenas frequentam igrejas, mas sustentam boa parte da vida cotidiana dessas instituições por meio do trabalho voluntário, da catequese, da assistência e do cuidado.</p>



<p>A emergência de uma figura como Daniella Marques é interessante justamente porque ela permite à direita fazer uma operação diferente daquela que vimos em 2022. Ela combina uma identidade católica explicitamente assumida, credenciais técnicas, pertencimento às elites econômicas e um discurso sobre mulheres, família, empreendedorismo e autonomia financeira. É uma tentativa de construir uma interlocutora feminina que não seja apenas a mulher religiosa tradicional, mas uma mulher profissional, economicamente bem-sucedida, empreendedora e, ao mesmo tempo, conservadora nos valores.</p>



<p>Isso é importante porque revela que a direita percebeu que não basta falar de aborto, ideologia de gênero ou sexualidade para disputar as mulheres cristãs. É preciso falar também de dinheiro, trabalho, cuidado, maternidade, violência e família, temas que já fazem parte do cotidiano dessas mulheres.</p>



<p>Ao mesmo tempo, eu teria cuidado para não interpretar isso como se essas mulheres estivessem simplesmente migrando para uma nova liderança. O voto cristão não é um voto que se entrega por atacado. A pesquisa do Iser com mulheres evangélicas mostra justamente isso: elas escutam pastores e familiares, mas fazem suas próprias escolhas, pesquisam e interpretam a política a partir de suas experiências.</p>



<p>Então, mais do que perguntar quem vai “ficar” com as mulheres cristãs, eu acho que precisamos perguntar o que essas mulheres estão dizendo sobre política. E, quando fazemos isso, encontramos um eleitorado muito mais complexo do que os rótulos permitem enxergar.</p>



<p>Marco Zero — <strong>Janja Lula da Silva e Michelle Bolsonaro são mulheres muito diferentes e que também representam maneiras muito diferentes de construir politicamente a imagem da mulher. Até que ponto elas conseguem produzir uma identificação para além das já eleitoras de seus respectivos campos políticos?</strong></p>



<p><strong>Tabata</strong> <strong>— </strong>Eu acho que existe um limite importante na própria ideia de primeira-dama como representante das mulheres. Janja e Michelle constroem imagens femininas muito diferentes, mas ambas estão inseridas em projetos políticos bastante identificados com seus respectivos campos.</p>



<p>Michelle Bolsonaro conseguiu construir uma identificação muito forte especialmente entre mulheres evangélicas e setores conservadores, mobilizando uma linguagem de fé, família, maternidade e testemunho cristão. Janja, por outro lado, constrói uma imagem pública que dialoga com outras formas de participação feminina, com pautas sociais, direitos e uma linguagem mais próxima de setores progressistas.</p>



<div class="citacao ms-auto my-5">
	<p class="m-0">&#8220;As mulheres cristãs, por exemplo, não são homogêneas. Classe, raça, geração, território, família, experiência religiosa e cotidiano produzem diferenças enormes&#8221;.</p>
</div>


<p>E há uma questão que considero particularmente importante: a tentativa de “recuperar” ou “entregar” as mulheres cristãs por meio de primeiras-damas ou lideranças religiosas acaba dizendo mais sobre a estratégia dos partidos do que sobre essas mulheres. Elas não são um eleitorado que necessariamente acompanha uma mulher porque ela é mulher ou porque ela é cristã.</p>



<p>A identificação política acontece quando a mulher reconhece sua própria vida naquela agenda. E aí chegamos a temas muito concretos: o preço do supermercado, a consulta médica, a segurança dos filhos, a violência dentro de casa, o trabalho, a renda e a possibilidade de cuidar de quem depende dela.</p>



<p>Por isso, acho que tanto Janja quanto Michelle podem produzir identificação para além de seus campos, mas isso não acontece automaticamente pela imagem feminina ou pela religião. Depende da capacidade de falar com mulheres que não necessariamente se reconhecem integralmente em nenhum dos dois projetos.</p>



<p>Marco Zero — <strong>Como você já colocou</strong>, <strong>as mulheres evangélicas não formam um bloco homogêneo. Suas posições políticas são atravessadas por questões de classe, raça, geração, território, família e cotidiano. Que peso a pauta de costumes ainda tem como caminho para conquistar essas eleitoras? Ou temas como endividamento, cuidado, violência, trabalho, renda, saúde e segurança podem ser mais decisivos nas eleições de 2026?</strong></p>



<p><strong>Tabata</strong> <strong>—</strong> Eu diria que a chamada pauta de costumes continua sendo importante, mas talvez ela seja superestimada quando tentamos explicar o voto das mulheres cristãs.</p>



<p>A pesquisa <a href="https://iser.org.br/publicacao/mulheres-evangelicas-politica-e-cotidiano-2024/" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><em>Mulheres evangélicas, política e cotidiano</em></a>, do Iser, é muito interessante nesse sentido porque mostra mulheres de diferentes regiões, majoritariamente negras e das classes C e D, falando sobre política a partir da própria vida. E o que aparece no centro não é necessariamente aborto ou ideologia de gênero. Aparecem cuidado, infância, maternidade, família, saúde, segurança, violência contra a mulher, preço dos alimentos e políticas públicas.</p>



<p>Existe uma frase que resume muito bem isso, essas mulheres conhecem a política pelo lado de quem espera o salário, a consulta médica e a condução.</p>



<p>Isso não significa que elas não tenham posições sobre aborto, sexualidade ou educação. Elas têm. Mas essas posições convivem com experiências concretas. Uma mulher pode, por exemplo, ter uma visão bastante conservadora sobre família e, ao mesmo tempo, defender educação sexual nas escolas porque viveu uma experiência de violência na infância. Isso mostra como é inadequado transformar essas mulheres em caricaturas.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 ">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/08/voto.webp" alt="A foto mostra um auditório cheio de pessoas sentadas, voltadas para um palco com cortinas vermelhas abertas e uma grande tela de projeção ao centro. Na tela, lê-se em letras grandes e coloridas “Mulher Potência Empreendedora”, indicando um evento da Prefeitura do Rio de Janeiro voltado ao tema do empreendedorismo feminino. O ambiente é de expectativa e atenção, com luzes baixas e foco na tela, sugerindo o início ou andamento de uma apresentação sobre o poder e a iniciativa das mulheres." class="w-100" loading="lazy" >
            </picture>

	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Empreendedorismo feminismo faz parte da pauta das mulheres de direita
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Tânia Rêgo/Agência Brasil</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Então, para 2026, eu acho que quem quiser compreender esse eleitorado precisa olhar menos para a pergunta “qual é a posição dela sobre a pauta de costumes?” e mais para “como ela está vivendo?”. Ela está endividada? Consegue cuidar dos filhos? Tem acesso à saúde? Sente-se segura? Tem renda? Quem cuida dela quando ela precisa cuidar de alguém?</p>



<p>E existe uma dimensão religiosa muito importante aí: a igreja muitas vezes funciona como rede de apoio justamente porque o Estado não chega de maneira suficiente. Por isso, políticas públicas também são questões religiosas para essas mulheres, porque atravessam diretamente suas vidas e suas comunidades.</p>



<p>A pauta de costumes não desapareceu. O que muda é que ela precisa ser compreendida dentro de uma vida cotidiana muito mais complexa.</p>



<p>Marco Zero — <strong>A direita nunca falou tanto das mulheres. De 2022 para cá, setores conservadores passaram a disputar temas tradicionalmente associados à esquerda e ao feminismo, como violência contra a mulher, cuidado, autonomia financeira e maternidade. Mas o que vemos é um ativismo cristão antifeminista ganhando força. Como você avalia esse movimento?</strong></p>



<p><strong>Tabata</strong> <strong>—</strong> Eu acho que esse é um dos movimentos mais interessantes — e também mais importantes — para entendermos o conservadorismo atual.</p>



<p>Durante muito tempo, determinados temas foram identificados quase exclusivamente com a esquerda e com os feminismos. Agora, setores conservadores perceberam que não precisam abandonar seus valores para falar sobre mulheres. Eles podem disputar a própria definição do que significa proteger uma mulher, cuidar, falar de violência, defender autonomia econômica ou valorizar a maternidade. No fim, o que está em disputa é a pergunta “o que é ser uma mulher?”.</p>



<p>É aí que entra o ativismo cristão antifeminista. Ele não significa simplesmente ausência de uma agenda para mulheres. Pelo contrário: existe uma disputa ativa pela categoria “mulher” virtuosa e pelo significado de conceitos como autonomia, liberdade, cuidado, família e violência.</p>



<p>O caso da Daniella Marques é interessante porque mostra uma dessas formulações. A autonomia feminina aparece associada sobretudo à capacidade de gerar renda, empreender, acessar crédito e adquirir educação financeira. É uma agenda que pode produzir efeitos concretos, mas parte de uma concepção muito específica de desigualdade: a ideia de que a inclusão econômica individual seria um dos principais caminhos para a emancipação.</p>



<p>Isso é diferente de uma perspectiva feminista que olha para as estruturas sociais, econômicas, culturais e políticas que produzem a desigualdade entre homens e mulheres.</p>



<div class="citacao ms-auto my-5">
	<p class="m-0">&#8220;Aí está a novidade: elas estão disputando o feminismo e, em alguns casos, disputando a própria linguagem feminista&#8221;.</p>
</div>


<p>E acho que os feminismos precisam prestar atenção nisso. Porque feministas e antifeministas estão, muitas vezes, falando sobre problemas semelhantes, violência, maternidade, cuidado, dinheiro, saúde, mas a partir de diagnósticos, linguagens e repertórios políticos completamente diferentes e chegando em concluíres distintas sobre a categoria mulher e gênero.</p>



<p>É uma disputa não apenas pelo voto das mulheres, mas pela definição do que é uma mulher, do que ela precisa e de quem deve protegê-la. E isso está acontecendo tanto no campo progressista como na direita. No campo progressista, vide o crescimento de discursos antigênero e antitrans buscando justamente responder a pergunta “o que é ser mulher?”.</p>



<p>Marco Zero — <strong>Projetos sobre misoginia, violência contra a mulher, educação, família e infância têm mobilizado a direita na Câmara e no Senado, para além de temas como aborto, diversidade, “ideologia de gênero” e “mamadeira de piroca”. A pauta de costumes mudou no Congresso Nacional?</strong></p>



<p><strong>Tabata</strong> <strong>—</strong> Sim, e eu acho que a principal mudança é justamente essa ampliação do repertório. A pauta de costumes não desapareceu. Aborto, diversidade, sexualidade e gênero continuam sendo temas fundamentais para a direita religiosa. Mas eles passaram a conviver com uma agenda muito mais ampla sobre família, infância, adoção, doulagem, educação, violência contra a mulher, misoginia, maternidade e cuidado.</p>



<p>Isso acontece porque esses temas são capazes de produzir uma conexão muito mais direta com a experiência cotidiana das mulheres. E a direita percebeu que pode disputar esses assuntos sem necessariamente adotar o diagnóstico feminista sobre eles.</p>



<p>Por exemplo, falar de violência contra a mulher não significa necessariamente reconhecer as mesmas estruturas de gênero que os feminismos reconhecem. Falar de maternidade não significa necessariamente defender políticas de autonomia reprodutiva e múltiplas capacidades reprodutivas. Falar de cuidado não significa necessariamente reivindicar sua socialização pelo Estado.</p>



<p>É justamente aí que a disputa fica mais sofisticada. Vide a direita que defende armar mulheres para combater a violência doméstica.</p>



<p>Acho que estamos vendo uma passagem de uma pauta de costumes mais caricatural e episódica, aquela dos grandes pânicos morais, como “ideologia de gênero” e “mamadeira de piroca”, para uma disputa mais cotidiana sobre quem define família, infância, educação, proteção, violência e a própria categoria mulher.</p>



<p>Isso não torna a pauta menos conservadora. Ao contrário, torna o conservadorismo potencialmente mais capilarizado, porque ele passa a ocupar temas que fazem parte da vida concreta das pessoas para além de fantasmagorias.</p>



<p>E há uma consequência importante para quem pesquisa ou cobre eleições: não podemos mais procurar o conservadorismo apenas quando ele fala de aborto ou sexualidade. Ele também pode aparecer quando fala de cuidado, empreendedorismo feminino, maternidade, proteção da infância, liberdade educacional ou combate à violência.</p>



<p>Por isso, eu diria que a pauta de costumes mudou menos porque abandonou seus temas tradicionais e mais porque ampliou seu território de disputa. E as mulheres estão no centro dessa disputa. E outra questão: mulheres conservadoras/virtuosas não precisam mais de interlocutoras. Estão online e roteando o antifeminismo cristão numa desconfortável, mas importante contradição: são feministas conservadoras na prática.</p>
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		<title>“Voto pela convivência com o Semiárido” é a nova campanha da ASA para as Eleições 2026</title>
		<link>https://marcozero.org/voto-pela-convivencia-com-o-semiarido-e-a-nova-campanha-da-asa-para-as-eleicoes-2026/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 28 Aug 2026 18:35:02 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Socioambiental]]></category>
		<category><![CDATA[Articulação do Semiárido (ASA)]]></category>
		<category><![CDATA[eleições 2026]]></category>
		<category><![CDATA[Semiárido]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Helena Dias*, publicado originalmente pela Articulação do Semiárido Brasileiro Seca é seca, falta de água é decisão política. É por isso que não dá para lutar pela convivência com o Semiárido sem falar de eleições e democracia, principalmente em um ano tão decisivo como 2026, em que a população decidirá entre projetos opostos de [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p><strong>por Helena Dias*, publicado originalmente pela <a href="https://asabrasil.org.br/2026/08/25/voto-pela-convivencia-com-o-semiarido-2026/">Articulação do Semiárido Brasileiro</a></strong></p>



<p>Seca é seca, falta de água é decisão política. É por isso que não dá para lutar pela convivência com o Semiárido sem falar de eleições e democracia, principalmente em um ano tão decisivo como 2026, em que a população decidirá entre projetos opostos de Brasil, seja no voto para a presidência da República, governos e assembleias estaduais, para a Câmara e o Senado Federal.</p>



<p>É neste contexto que a Articulação Semiárido Brasileiro (ASA) apresenta a campanha “Voto pela convivência com o Semiárido” com foco na conscientização sobre a direta ligação entre o avanço das políticas públicas de convivência e o voto em candidaturas comprometidas com a vida das pessoas do território. Sua primeira ação foi o lançamento da <a href="https://asabrasil.org.br/2026/08/17/asa-lanca-carta-politica-para-as-eleicoes-2026/">Carta Política da ASA para as Eleições 2026</a>.</p>



<p>“Nós só vamos conseguir disputar o orçamento público para as políticas de convivência com o Semiárido se a gente tiver um governo democrático, votar para isso. Precisamos avançar no nosso projeto político e isso só vai acontecer se a gente conseguir manter o país nesse caminho que ele está agora, ir avançando na democracia. Tendo a possibilidade de debater, de discutir, de dialogar, de apresentar propostas e de disputar o orçamento do país”, aponta Cícero Félix, da coordenação executiva da ASA.</p>



<p>A campanha se posiciona na defesa da reeleição do presidente Lula (PT) e tem caráter de mobilização territorial, seu público alvo são as famílias do Semiárido, sobretudo mulheres e juventudes. As mulheres continuam sendo maioria do eleitorado brasileiro (52,8%) e o Nordeste é a região que concentra a maior parte de eleitores e eleitoras jovens (entre 16 e 18 anos) do país, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/08/ASA-1.webp" alt="A imagem mostra um grupo de pessoas reunidas ao ar livre, segurando várias bandeiras brancas com o logotipo e o texto “ASA – Articulação Semiárido Brasileiro”. As bandeiras têm um desenho colorido que lembra um globo, e os participantes usam bonés claros. O cenário é ensolarado, com árvores ao fundo, e transmite a ideia de um evento coletivo ou manifestação organizada em defesa de causas relacionadas ao semiárido e à sustentabilidade." class="" loading="lazy" >
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Campanha quer alcançar e mobilizar famílias do Semiárido brasileiro
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Acervo/ASA Brasil</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>O diálogo com as juventudes é prioritário quando o assunto é voto e participação política. Entre 2022 e 2026, o registro eleitoral de pessoas com 16 a 17 anos caiu de 42,9% para 27,6%. Ou seja, 70% da população brasileira nessa faixa etária chegará às eleições deste ano sem título de eleitor. Historicamente, essa participação das juventudes nas eleições vem diminuindo desde 2014.</p>



<p>“A gente não pode perder de vista a nossa capacidade de articulação da base, o Semiárido é isso. Eu acho que a gente tá conseguindo trazer os companheiros e as companheiras para esse debate, para incidir nos nossos territórios. Nossas vidas todas, nossa forma de viver nos próximos anos está em jogo”, pontua Roselita Vitor, da coordenação executiva da ASA.</p>



<p>A iniciativa da Articulação tem parceria com outras campanhas, como é o caso da<a href="https://drive.google.com/drive/folders/1VQWKFudAAS08Yj5P8mW3HbutWnBskdBI?usp=drive_link" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Agroecologia nas Eleições</a>, da Articulação Nacional de Agroecologia (ANA).</p>



<h2 class="wp-block-heading">A força dos territórios</h2>



<p>Com caravanas territoriais e estratégias digitais de comunicação, a iniciativa centra forças no orgulho do povo do Semiárido pelas conquistas de políticas como o <a href="https://asabrasil.org.br/projeto/p1mc/">Programa Um Milhão de Cisternas (P1MC)</a>, <a href="https://asabrasil.org.br/projeto/p12/">Uma Terra e Duas Águas (P1+2)</a>, <a href="https://asabrasil.org.br/projeto/sementes-do-semiarido/">Sementes do Semiárido</a> e o projeto <a href="https://asabrasil.org.br/projeto/quintais-das-margaridas/">Quintais das Margaridas</a>.</p>



<p>A campanha incentiva a valorização dessas políticas resgatando a memória de luta da ASA como forma de demarcar os avanços que o Semiárido deseja a partir das Eleições 2026: universalização da primeira e da segunda água, saneamento rural, democratização do acesso à energia fotovoltaica, fortalecimento do combate à violência contra a mulher e da divisão justa do trabalho doméstico.</p>



<p>Todos os temas abordados na “Voto pela convivência com o Semiárido” estão detalhados na Carta Política da ASA. Apesar das ações priorizarem as famílias do território, a Articulação pretende engajar a sociedade civil em geral por este voto. Candidaturas novas e à reeleição, próximas ao Semiárido, ao campo agroecológico e da agricultura familiar estão sendo mapeadas para dialogar com as reivindicações da campanha.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/08/ASA-5-Joao-Gabriel-Marins-1-300x169.jpg">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/08/ASA-5-Joao-Gabriel-Marins-1.jpg" alt="A imagem mostra um homem e uma mulher em um ambiente rural, cercados por vegetação verde e céu azul. O homem, de camisa azul, segura uma bandeja com uma abóbora e vários tomates pequenos, enquanto a mulher, de blusa vermelha e chapéu de palha, segura um grande repolho. Ambos sorriem, transmitindo orgulho pela colheita. O cenário sugere uma horta ou pequena propriedade agrícola, com plantas e árvores ao fundo, simbolizando o cultivo sustentável e o vínculo com a terra." class="" loading="lazy" >
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Divisão justa do trabalho doméstico é um dos focos da campanha
</p>
	                
                                            <span>Crédito: João Gabriel Marins/ASA Brasil</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<h3 class="wp-block-heading">Histórico</h3>



<p>Historicamente, a Articulação vem denunciando o clientelismo eleitoral no território, por meio da campanha <a href="https://asabrasil.org.br/campanha/nao-troque-seu-voto/">Não Troque Seu Voto</a>. A nova campanha, “Voto pela convivência com o Semiárido”, vem para ampliar a reflexão, mantendo a voz de denúncia, mas também evidenciando a necessidade de um voto afirmativo em defesa do território.</p>



<p>A troca de voto por favores ainda é muito recorrente no Semiárido, fragiliza a autonomia política das famílias e alimenta relações de dependência. No Brasil, uma em cada cinco pessoas (22%) diz já ter recebido oferta para vender o voto em algum período eleitoral, de acordo com pesquisa da Ipsos-Ipec. Segundo dados da Polícia Federal, a compra de votos está entre os principais motivos para a instauração de inquéritos policiais no âmbito do Codigo Eleitoral, em 2026.</p>



<p>Diante desse cenário, a ASA quer evidenciar que a troca do voto pode oferecer uma vantagem imediata, mas não garante políticas públicas capazes de transformar a vida das famílias de forma duradoura.</p>



<p>Votar pela convivência com o Semiárido é defender água, comida saudável, produção de alimentos, acesso à terra, energia, direitos das mulheres, oportunidades para as juventudes e dignidade para quem vive no território. É defender políticas públicas para uma região onde vive cerca de 15% da população brasileira e que concentra quase 30% da agricultura familiar do país.</p>
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		<title>Como a IA reconfigura a ação política e por que é preciso definir regras rigorosas na disputa eleitoral</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 28 Aug 2026 17:24:46 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Sem categoria]]></category>
		<category><![CDATA[eleições 2026]]></category>
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		<category><![CDATA[Inteligência Artificial]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Paulo Faltay*Em Pernambuco, a memória de Eduardo Campos faz campanha. Cerca de um mês separa duas publicações produzidas por IA que “reviveram” o ex-governador, ambas publicadas nas redes do filho, candidato ao governo em 2026. Em 28 de maio, com a legenda anunciando que “o legado vai continuar”, o ex-governador aparece em um vídeo [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p><strong>por Paulo Faltay*</strong><br><br>Em Pernambuco, a memória de Eduardo Campos faz campanha. Cerca de um mês separa duas publicações produzidas por IA que “reviveram” o ex-governador, ambas publicadas nas redes do filho, candidato ao governo em 2026. Em 28 de maio, com a legenda anunciando que “o legado vai continuar”, o ex-governador aparece em um vídeo cedendo ao filho o lugar no tradicional “caixote” usado em suas campanhas. Já em 27 de julho, outro vídeo mostra Eduardo empunhando uma bandeira do estado e a passando para João Campos. “A Missa do Vaqueiro é tradição passada de geração em geração”, narra a postagem.</p>



<p>A rememoração é um recurso até batido em campanhas políticas: mobilizar o passado, lembrar de onde viemos para produzir sentido sobre o que podemos ser. Uma fotografia de Eduardo Campos pode evocar sua trajetória, um registro antigo pode relembrar as realizações dos seus governos. Sua imagem pode funcionar como uma espécie de atalho para uma memória política compartilhada. Aliás, tem sido assim há cinco eleições desde a sua morte. Há, porém, uma diferença fundamental entre o gesto de lembrar uma figura política e fazê-la voltar a agir.</p>



<p>A inteligência artificial vai além do arquivo. Ela traz à presença a figura política ausente. É uma tecnonecromancia eleitoral. Uma liderança pode continuar aparecendo, falando e mobilizando apoiadores mesmo quando seu corpo já não está disponível para participar da disputa.</p>



<p>A tecnologia reconstrói a imagem, a fala e os gestos de alguém para produzir momentos que nunca aconteceram. A crescente indistinção entre verdadeiro e falso, entre invencionice e fato é um problema grave, ainda mais em contextos sensíveis como o eleitoral. Mas não quero discutir a capacidade da IA produzir imagens mais ou menos convincentes. A inquietação com os vídeos de Eduardo Campos produzidos por IA me parece ser de outra ordem. É preciso discutir quais são as consequências políticas quando uma figura política ausente não é simplesmente rememorada e passa a ter a capacidade de intervir diretamente no presente. Duas questões são centrais aqui: como a tecnologia está reconfigurando a presença e a ação política e como o domínio desigual dessas ferramentas pode aprofundar assimetrias na própria disputa democrática.</p>



<p>O primeiro aspecto nos convoca a pensar coletivamente novas formas de equacionar e regular plataformas digitais, modelos generativos, campanhas eleitorais, normas jurídicas e práticas de circulação de comunicação política. O segundo aspecto, decorrente do primeiro, carrega a preocupação de como o uso dessas ferramentas pode aprofundar desequilíbrios no próprio jogo democrático. Afinal, grupos políticos com maior capacidade de compreender o funcionamento dessas tecnologias, de mobilizar recursos técnicos especializados e de investir financeiramente na produção e na disseminação desses conteúdos passam a dispor de possibilidades de intervenção, circulação e persuasão que não estão igualmente disponíveis aos demais atores políticos.</p>



<p>Tomemos o exemplo do que aconteceu na convenção do PL que oficializou Flávio Bolsonaro como candidato à Presidência. Em um vídeo também produzido com IA, uma representação de Jair Bolsonaro aparece dizendo que escolheu o filho para substituí-lo e pede aos apoiadores que o recebam de braços abertos. A tecnologia não foi utilizada apenas para recordar Bolsonaro. Ela foi mobilizada para fazer com que ele continuasse a falar, para que pudesse demonstrar uma escolha e para legitimar politicamente seu sucessor.</p>



<p>A controvérsia jurídica que se desenrolou após a exibição do vídeo explicita meu ponto. A inteligência artificial altera as próprias condições de presença dos atores políticos. Neste sentido, importa menos se as representações de IA são autênticas, ou se o vídeo em questão poderia ser enquadrado enquanto uma <em>deepfake</em>. O desafio é compreender como os sistemas de IA transformam o próprio significado de representação e participação política. Proibido de se manifestar publicamente, Bolsonaro continuou a participar do debate público com o vídeo. Ou seja, quando a tecnologia permite que uma pessoa continue falando depois que seu corpo perde as condições biológicas ou jurídicas de se manifestar, estamos diante de uma mudança nas próprias condições de ação política.</p>



<p>A política moderna sempre esteve profundamente associada à presença corporal. Discursos, comícios, entrevistas e debates pressupõem um corpo presente, capaz de falar, de se tornar visível e de mobilizar afetos e eleitoras. Este corpo político também se coloca na posição de ser observado, interrompido, confrontado e responsabilizado por suas declarações. A presença física sempre implicou uma forma de exposição às contingências da interação democrática. A inteligência artificial rompe parcialmente essa associação ao dissociar duas dimensões que historicamente caminhavam juntas: a presença política e a vulnerabilidade política. Os avatares preservam a capacidade de estar presente no debate público, mas reduzem a exposição às formas convencionais de contestação.</p>



<p>A ação política passa a ser produzida por uma infraestrutura sociotécnica que permite sua disponibilidade contínua sem submetê-la às mesmas condições de confronto, imprevisibilidade e responsabilização que caracterizam a atuação de um agente político vivo. Nesse sentido, o uso de IA, mais do que uma estratégia de comunicação política, deve ser entendida como a transformação das condições materiais sob as quais esta presença é exercida, deslocando sua dependência do corpo para uma rede composta por modelos computacionais, arquivos digitais, sistemas de recomendação das plataformas, algoritmos e estratégias de campanha.</p>



<p>É bem verdade que a IA não inaugura a distribuição da pessoa política. Nas campanhas digitais, a presença da figura política depende da ação compartilhada de apoiadores e dos algoritmos das plataformas. Mas nem todos os candidatos, partidos e grupos conseguem fazer uma mensagem circular com a mesma intensidade. Capacidade financeira para impulsionar conteúdos, domínio técnico das ferramentas de segmentação e produção, organização de redes de apoiadores, maior adequação às lógicas de funcionamento e mesmo o alinhamento ideológico às políticas das big techs vêm se convertendo em vantagens concretas na disputa pela atenção pública.</p>



<p>As plataformas, portanto, já aprofundaram assimetrias nas condições de visibilidade na disputa política. Com a IA generativa, esse fenômeno passa a depender também de modelos capazes de produzir novas enunciações em nome dessa liderança. A agência deixa de ser apenas distribuída e passa a ser computacionalmente reencenada, permitindo que determinadas capacidades políticas continuem operando mesmo na ausência do corpo biológico. Esse deslocamento transforma a presença política, que permanece disponível para agir, mas em condições profundamente diferentes daquelas que caracterizam a participação democrática tradicional.</p>



<p>Mais do que simples representação mimética da pessoa, os avatares sintéticos passam a funcionar como atualizações parciais da capacidade de agir politicamente. Ou seja, ao invés de reproduzir integralmente o indivíduo, os avatares reativam capacidades específicas, como endossar candidatos, mobilizar afetos e conferir legitimidade, contribuindo para a manutenção de uma figura política que continua produzindo efeitos mesmo na impossibilidade biológica ou jurídica da presença.</p>



<p>Passamos assim para o segundo ponto da inquietação. A democracia depende de uma determinada distribuição e equalização das capacidades de agir. Candidatos podem falar, adversários podem responder, jornalistas podem questionar, eleitores podem avaliar e instituições podem responsabilizar. Em outras palavras, a democracia organiza a participação no debate público, estipulando quem pode agir sobre quem. Quando uma campanha mobiliza um avatar póstumo ou de alguém proibido juridicamente de se manifestar, essa paridade é parcialmente rompida. Enquanto os candidatos vivos e presentes continuam submetidos às regras ordinárias da disputa, podendo ser criticados, responder a acusações, cometer erros, rever posições e prestar contas de suas declarações, o avatar permanece sobretudo como uma fonte estabilizada de autoridade. Ele não improvisa, não pode ser colocado em contradição por novas circunstâncias, não responde a críticas e não está sujeito às formas habituais de responsabilização política. Ainda assim, continua produzindo efeitos no presente ao participar do debate público. A inteligência artificial, nesse sentido, redistribui as condições sob as quais a autoridade pode ser exercida e, sobretudo, contestada na democracia. Os avatares de IA consistem em agentes eleitorais que reúnem capacidades políticas antes incompatíveis. Sua participação é seletiva: preserva a capacidade de influenciar, mas elimina parte das vulnerabilidades inerentes à participação democrática.</p>



<p>A inteligência artificial pode aprofundar as condições de visibilidade desiguais &#8211; já presente nas campanhas plataformizadas &#8211; ao ampliar ainda mais a capacidade daqueles que já dispõem de recursos financeiros, técnicos e organizacionais para produzir conteúdos em escala, testar formatos, ocupar diferentes espaços de circulação e manter determinadas figuras e narrativas permanentemente disponíveis. O risco do uso de IA nas eleições, portanto, reside na concentração desigual da capacidade de produzir presença, visibilidade e influência política.</p>



<p>O problema colocado pela IA nas eleições não pode se restringir à checagem do que é verdadeiro ou falso. Se a plataformização da política já transformou poder econômico, conhecimento técnico e capacidade de mobilização digital em vantagens assimétricas, a expansão das tecnologias generativas pode tornar essas diferenças ainda mais determinantes. Grupos com mais dinheiro podem adquirir maior capacidade de produzir, experimentar, segmentar, distribuir e fazer circular ações políticas. Quando essas capacidades se distribuem de maneira profundamente desigual, o que está em jogo é a própria busca por paridade das condições da disputa eleitoral.</p>



<p>O desafio que se coloca, portanto, é coletivo. Cabe às instituições eleitorais, às instâncias reguladoras, aos agentes políticos, à imprensa e à sociedade discutir quais usos da inteligência artificial devem ser permitidos ou proibidos. Ainda, e mais importante, devemos deliberar sobre quais condições materiais e tecnológicas devem ser estabelecidas para que eleições possam ser disputas paritárias. Preservar a democracia diante das transformações tecnológicas significa enfrentar as desigualdades na capacidade de produzir visibilidade e influência política. Uma eleição democrática não depende apenas de garantir que diferentes atores possam falar, mas de impedir que a capacidade financeira e tecnológica de alguns torne a voz dos demais progressivamente inaudível.</p>


    <div class="infos mx-md-5 px-5 py-4 my-5">
        <span class="titulo text-uppercase mb-2 d-block"></span>

	    <p><strong>*</strong>Paulo Faltay é professor de Comunicação no campus do agreste da UFPE, coordenador do Estopim -Laboratório de Tecnopolítica, Comunicação e Subjetividade, do Programa de Pós-graduação em Comunicação da UFPE.</p>
    </div>
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		<title>Data centers previstos para Sergipe devem consumir mais energia do que todo o estado</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 24 Aug 2026 20:07:18 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Socioambiental]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Wendal Carmo, do site Mangue Jornalismo Cerca de 186% mais eletricidade do que o atual consumo de todo o estado de Sergipe: esse é o custo energético do primeiro data center de hiperescala previsto para instalação no menor estado do Brasil. Projetado para uma área às margens da BR-101, no município de Nossa Senhora [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p><strong>por Wendal Carmo</strong>, <strong>do site <a href="https://manguejornalismo.org/vampiros-de-recursos-naturais-data-centers-previstos-para-sergipe-devem-consumir-mais-energia-do-que-todo-o-estado/">Mangue Jornalismo</a></strong></p>



<p>Cerca de 186% mais eletricidade do que o atual consumo de todo o estado de Sergipe: esse é o custo energético do primeiro data center de hiperescala previsto para instalação no menor estado do Brasil. Projetado para uma área às margens da BR-101, no município de Nossa Senhora do Socorro, o empreendimento consumirá 2 gigawatts quando estiver em total funcionamento; o atual consumo de Sergipe é de 700 megawatts.</p>



<p>Com o avanço das Inteligências Artificiais (IAs), cresceu a necessidade de grandes empresas de tecnologia como Meta (dona do Instagram, Facebook e WhatsApp), Alphabet (dona do Google), ByteDance (dona do TikTok), Amazon e Microsoft por data centers de hiperescala. Essas são estruturas pensadas para o processamento e armazenamento de enormes volumes de dados, como os necessários para treinar IAs e possibilitar operações com criptomoedas.</p>



<p>Com o grande interesse no Brasil devido à sua larga oferta de energia de fontes renováveis, água e falta de regulamentação, empresas de data centers nacionais e estrangeiras têm negociado diretamente com estados e municípios os termos dos acordos de instalação, lógica aplicada também em Sergipe.</p>



<p>Há cerca de dois anos, o governo de Fábio Mitidieri (PSD) negocia a instalação de um data center da empresa estadunidense Optimus Technology Group, que inaugurará a Zona de Processamento de Exportação (ZPE) de Sergipe. Empreendimentos instalados em ZPEs recebem generosas desonerações fiscais e devem exportar pelo menos 80% de sua produção. O data center da Optimus ocupará 440 mil m² do total de 880 mil m² da ZPE de Sergipe e terá um centro de formação em IA, segundo comunicados oficiais do governo estadual.</p>



<p>O que parece uma boa notícia para a economia do estado esconde, na verdade, a altíssima demanda de energia para manter as operações ininterruptamente, além da água para resfriamento das máquinas, inclusive com a possibilidade de utilizar captação do Rio São Francisco.</p>



<p>O curta-metragem documental <a href="https://www.youtube.com/watch?v=pQrg-OrKHeI"><em>Vampiros de recursos naturais</em></a>, dirigido por Sarah Lima e as repórteres da Mangue Jornalismo Ana Paula Rocha e Rossella Cecília apresenta essas e outras informações resultantes de meses de investigação. A proposta foi selecionada na 18ª edição do Prêmio Fernando Pacheco Jordão para Jovens Jornalistas, organizado pelo<a href="https://br.linkedin.com/company/instituto-vladimir-herzog?trk=public_post-text" target="_blank" rel="noreferrer noopener"> Instituto Vladimir Herzog</a>. Foram repassados R$ 6 mil para a realização do curta, que teve orientação da professora Ana Carolina Cavalcanti (DCOS/UFS) e mentoria da jornalista Angelina Nunes.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<div class="ratio ratio-16x9"><iframe title="Sergipe e os “vampiros de recursos naturais” na corrida da IA | 18º Prêmio Jovem Jornalista" width="500" height="281" src="https://www.youtube.com/embed/pQrg-OrKHeI?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
</div></figure>



<p>Uma das descobertas foi o avanço não de um, mas dois projetos de data centers – o segundo está previsto para o município de Barra dos Coqueiros, mas não foram publicizados números sobre consumo de energia ou água. A localização exata também não foi definida ainda, porém, em entrevista para o documentário, o gestor da Zona de Processamento de Exportação (ZPE) de Sergipe, Carlos Augusto de Albuquerque, afirmou que o data center estará próximo à termelétrica da Eneva, no povoado de Jatobá.</p>



<p>As realizadoras percorreram diferentes localidades para entender qual a situação energética e hídrica dos municípios possivelmente<em></em>afetados caso as estruturas sejam instaladas. Elas constataram a cooperação entusiasmada das administrações públicas locais.</p>



<p>Nossa Senhora do Socorro, por exemplo,<a href="https://www.socorro.se.gov.br/sites/socorro.se.gov.br/files/renuncias-de-receitas/Lei%20Ordin%C3%A1ria%201844%202025%20de%20Nossa%20Senhora%20do%20Socorro%20SE.pdf"> aprovou uma lei em julho de 2025</a> que “Institui o Programa Municipal de Incentivo à Instalação de Data Centers mediante concessão de benefícios tributários e urbanísticos, e dá providências correlatas”. Dentre as benesses, está a isenção do Imposto sobre a Propriedade Predial e Territorial Urbana (IPTU) “pelo prazo de até 10 (dez) anos, prorrogável por mais 5 (cinco) anos, mediante requerimento fundamentado”.</p>



<p>Já em Barra dos Coqueiros, a proximidade com a termelétrica da Eneva e a construção de uma segunda unidade a gás da mesma empresa sugerem que o data center que irá para a cidade pode ser alimentado com energia fóssil, caminho inverso ao preconizado por cientistas climáticos de todo o mundo. Apesar de menos poluente que o carvão mineral ou a queima de petróleo e seus derivados, o consumo de gás é um dos causadores do efeito estufa. Hoje, 20% de toda a reserva conhecida de gás fóssil no Brasil está em Sergipe, e o lobby pró-gás no estado é forte, como mostrou o segundo episódio do podcast<a href="https://open.spotify.com/episode/4YRAGttapu39VzVEmOW4cV"> </a><em><a href="https://open.spotify.com/episode/4YRAGttapu39VzVEmOW4cV" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Sergipe verde, Sergipe fóssil</a>,</em> lançado pela Mangue em dezembro de 2025.</p>



<p>Segundo levantamento do site <a href="https://www.datacentermap.com/brazil/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Data Center Map</a>, o Brasil tem 218 data centers em operação, mas nem todos são de hiperescala. A região Sudeste concentra a quantidade dessas estruturas no país. </p>



        <figure class="wp-block-image my-5 ">
            <picture>
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/08/Virginia_Tech_-_data_center_Christopher-Bowns.jpg" alt="A imagem mostra o interior de um centro de dados — um ambiente técnico onde ficam fileiras de servidores organizados em racks metálicos pretos. O piso é branco e elevado, típico para permitir a passagem de cabos e ventilação. No teto, há arcos e luminárias que iluminam o corredor central. Ao fundo, vê-se uma porta de vidro que leva a outra sala. O logotipo azul “sgi” indica que o equipamento pertence à Silicon Graphics International, empresa especializada em computação de alto desempenho." class="w-100" loading="lazy" >
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Brasil tem 218 data centers em operação
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Christopher Bowns/Wikimedia Commons</span>
                                    </figcaption>
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		<title>Na COP 17, ASA defende combate à desertificação que fortaleça comunidades tradicionais</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 21 Aug 2026 20:13:14 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Socioambiental]]></category>
		<category><![CDATA[Articulação do Semiárido (ASA)]]></category>
		<category><![CDATA[COP]]></category>
		<category><![CDATA[desertificação]]></category>
		<category><![CDATA[Meio Ambiente]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Ulaanbaatar (Mongólia) &#8211; Água, alimentos, renda, direitos territoriais e melhores condições de vida para as comunidades. Mais do que o replantio de árvores esses são os elementos essenciais para a restauração das terras secas. “Recuperar a vegetação é importante, mas não é suficiente. Precisamos cuidar também de quem historicamente cuida desses territórios”, enfatizou Luís Piritiba, da [&#8230;]</p>
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<p><strong>Ulaanbaatar (Mongólia</strong>) &#8211; Água, alimentos, renda, direitos territoriais e melhores condições de vida para as comunidades. Mais do que o replantio de árvores esses são os elementos essenciais para a restauração das terras secas. “Recuperar a vegetação é importante, mas não é suficiente. Precisamos cuidar também de quem historicamente cuida desses territórios”, enfatizou Luís Piritiba, da organização baiana Instituto Regional da Pequena Agropecuária Apropriada (Irpaa), integrante da <a href="https://asabrasil.org.br/publicacao/brazilian-semi-arid-where-climate-solutions-already-thrive/">Articulação do Semiárido Brasileiro (ASA)</a></p>



<p>Essa foi uma das principais mensagens levadas pela delegação da ASA aos debates realizados nesta quarta-feira (19), durante a COP-17 da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação (UNCCD), em Ulaanbaatar, na Mongólia, quando representantes da entidades, organizações parceiras, do Governo Federal e de instituições de pesquisa participaram de atividades sobre manejo da Caatinga e do Cerrado, restauração socioprodutiva, cooperação Sul-Sul, financiamento climático e racismo ambiental.</p>



<p>Embora organizados a partir de diferentes perspectivas, os debates convergiram em um ponto: as populações das terras secas não podem ser tratadas apenas como beneficiárias de projetos. Agricultores e agricultoras familiares, mulheres, indígenas, quilombolas e demais povos e comunidades tradicionais precisam participar das decisões e ser reconhecidos como sujeitos centrais da restauração.</p>



<p>Durante o painel “Manejo e Restauração de Florestas em Terras Secas: Propostas para Mitigar e Reverter a Degradação da Terra na América Latina”, foram abordadas as práticas de regeneração dos territórios e as condições políticas e financeiras necessárias para ampliar essas experiências.</p>



<p>Entre os alertas apresentados esteve o avanço de áreas semiáridas no Brasil. Segundo um estudo do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), de 2023, no qual analisou o período entre os anos 1960 a 2020, as áreas do semiárido do país têm crescido a uma taxa média superior a 75 mil km² a cada década.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p>“Esse processo acontece em territórios nos quais milhares de estabelecimentos da agricultura familiar produzem grande parte dos alimentos consumidos pela população. Isso não é apenas uma ameaça à terra, mas também à segurança e soberania alimentar dos povos”, disse o Diretor de Combate à Desertificação da Secretaria Nacional de Povos e Comunidades Tradicionais e Desenvolvimento Rural Sustentável do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), Alexandre Pires.</p>
</blockquote>



<p></p>
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		<title>Maria da Penha além do ambiente doméstico: decisão do STF reforça a urgência de criminalizar a misoginia</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 21 Aug 2026 18:42:09 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[Lei Maria da Penha]]></category>
		<category><![CDATA[STF]]></category>
		<category><![CDATA[violência contra a mulher]]></category>
		<category><![CDATA[violência de gênero]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Lua Lacerda* Uma mulher não precisa mais ser namorada, esposa ou familiar de um agressor para ter direito às medidas protetivas previstas na Lei Maria da Penha. Nesta quarta-feira (19), o Supremo Tribunal Federal decidiu, por unanimidade, que essa proteção também deve alcançar casos de violência de gênero ocorridos fora dos contextos doméstico, familiar [&#8230;]</p>
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<p><strong>por Lua Lacerda*</strong></p>



<p>Uma mulher não precisa mais ser namorada, esposa ou familiar de um agressor para ter direito às medidas protetivas previstas na Lei Maria da Penha. Nesta quarta-feira (19), o Supremo Tribunal Federal decidiu, por unanimidade, que essa proteção também deve alcançar casos de violência de gênero ocorridos fora dos contextos doméstico, familiar ou afetivo. Em situações de assédios, ameaças e perseguições, por exemplo, o que deve importar é a motivação de gênero da violência, e não o vínculo entre vítima e agressor.</p>



<p>Mas é importante explicar o que mudou para não haver confusões: a decisão não altera a letra da Lei Maria da Penha nem cria um novo tipo de crime. O que ela faz é ampliar o acesso a uma das principais formas de proteção hoje disponíveis às vítimas: as medidas protetivas de urgência. Segundo dados citados no julgamento, 53% dos pedidos são decididos no mesmo dia, e os demais, em até dois dias. A rapidez da resposta é essencial diante do risco e agora a Justiça agora busca ampliar seu alcance para mais vítimas. Vale lembrar que as medidas protetivas têm natureza cível e cautelar, servem para afastar o agressor, impor distância e prevenir a violência de imediato, independentemente de haver um processo criminal em andamento. Já a punição penal depende da tipificação do crime. É por isso que garantir o socorro urgente do STF é um passo essencial, mas não substitui a necessidade de criminalizar a conduta no Código Penal.</p>



<p>A realidade da violência de gênero no país é aterrorizante, mas precisa ser encarada: até essa decisão, diversas mulheres ficaram sem acesso a medidas protetivas porque a Justiça considerava que, sem a demonstração de vínculo, a Lei Maria da Penha não poderia ser aplicada. Foi o que aconteceu com um caso em Formiga-MG, que motivou a decisão. Uma mulher relatou que era ameaçada havia seis meses por um vizinho que dizia que se casaria com ela, a levaria para casa e poderia matá-la. As ameaças provocaram crises de pânico, mas a Justiça mineira negou a medida protetiva por entender que não havia relação doméstica, familiar ou afetiva entre os dois.</p>



<p>Por isso, a decisão é tão fundamental. Ela comunica que a violência de gênero não é uma questão de afeto, mas uma questão de poder. Só que essa decisão também vai exigir de nós, enquanto sociedade, fiscalização para que os casos ocorridos fora do contexto doméstico não continuem sendo sistematicamente subnotificados. Na prática, é possível que a mudança ainda enfrente resistência, desinformação e dificuldades de aplicação, sobretudo porque muitas autoridades continuam associando automaticamente a violência contra mulheres à figura do companheiro ou ex-companheiro.</p>



<p>A legislação sobre feminicídio já demonstra o problema dessa leitura limitada. Desde 2024, o feminicídio é um crime autônomo, previsto no artigo 121-A do Código Penal, e pode ser reconhecido quando o assassinato envolve violência doméstica e familiar ou menosprezo ou discriminação à condição de mulher. Ou seja, a relação íntima anterior não é uma exigência legal. Ainda assim, pesquisas como a de Jaíne Pereira têm observado que agentes responsáveis pela apuração e pelo enquadramento dos casos muitas vezes tratam a existência dessa relação como se fosse uma condição para reconhecer o crime como sendo feminicídio.</p>



<p>Nessa conta, os jornalistas precisam ser especialmente chamados à responsabilidade. Quando uma autoridade deixa de reconhecer a dimensão de gênero de um crime, a imprensa não pode simplesmente reproduzir essa classificação. É preciso questionar os critérios adotados, investigar os traços misóginos evidentes em muitos dos casos e observar se o fato de vítima e agressor não terem mantido relação íntima está sendo usado para afastar, indevidamente, a hipótese de feminicídio ou de outra forma de violência de gênero. A subnotificação institucional e a omissão do jornalismo formam, ao longo dos últimos anos, uma combinação que tem nos impedido de avançar no debate público sobre a violência de gênero não íntima.</p>



<p>O resultado é que concentramos nossa atenção, esmagadoramente, nos casos de violência doméstica, deixando em segundo plano a violência contra mulheres ocorrida no espaço público. Como observa Ana Paula Portella em seu trabalho sobre as configurações da violência letal contra mulheres, muitas dessas mortes acabam diluídas nas estatísticas gerais da criminalidade e da violência urbana, sem que se investiguem as dinâmicas específicas de gênero que também as atravessam.</p>



<p>O ponto é que essa decisão levanta uma questão central: seria suficiente alterar o texto da Lei Maria da Penha para incluir oficialmente esses casos? Ou isso seria admitir que o problema ultrapassa o contexto doméstico e exige que a misoginia seja, enfim, reconhecida como crime no Brasil? Ao estender as medidas protetivas para além das relações íntimas, o STF tornou visível uma importante lacuna de proteção e nos provocou a pensar o que fazer com os infindáveis casos de violência de gênero que ainda não encontram uma resposta específica na lei. Se o vínculo com o agressor não define a violência, fica cada vez mais difícil justificar por que a misoginia ainda não é crime no Brasil. </p>



<p>É justamente aí que entra o Projeto de Lei 896/2023, conhecido como Lei da Misoginia. A proposta inclui na legislação sobre discriminação e preconceito os crimes praticados por ódio ou aversão às mulheres e também altera o Código Penal. O Senado já aprovou o texto em março de 2026. Agora, o projeto está na Câmara dos Deputados, pronto para ser incluído na pauta do Plenário.</p>



<p>Ou seja, não nos falta uma proposta. Falta à Câmara colocá-la em votação. Uma nova lei não protegerá, sozinha, todas nós, mas isso não pode continuar servindo de desculpa para que a misoginia permaneça subnotificada e invisibilizada. É preciso reconhecer o ódio que atravessa as diversas violências sofridas por mulheres nas ruas, no trabalho, na universidade, na vizinhança e até aqui, no mundo virtual. O STF fez a sua parte e o debate está posto. Resta saber até quando o Congresso escolherá adiar a proteção das mulheres brasileiras.</p>


    <div class="infos mx-md-5 px-5 py-4 my-5">
        <span class="titulo text-uppercase mb-2 d-block"></span>

	    <p><b>*</b>Lua Lacerda<span style="font-weight: 400;"> é jornalista, escritora e doutoranda em Comunicação pela UFPE. </span></p>
    </div>
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		<title>Sem auxílio, famílias de Olinda ainda sofrem com os estragos da enchente de 1º de maio</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Raíssa Ebrahim]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 20 Aug 2026 20:50:31 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Socioambiental]]></category>
		<category><![CDATA[Governo de Pernambuco]]></category>
		<category><![CDATA[Mirella Almeida]]></category>
		<category><![CDATA[mudanças climáticas]]></category>
		<category><![CDATA[Prefeitura de Olinda]]></category>
		<category><![CDATA[Raquel Lyra]]></category>
		<category><![CDATA[rio Beberibe]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Três meses após as chuvas de 1º de maio, que deixaram seis pessoas mortas e quase 3 mil desabrigadas ou desalojadas em Pernambuco, a Marco Zero voltou ao bairro de Peixinhos, na periferia de Olinda, para saber como ficou a vida das famílias que, atingidas por mais uma enchente do rio Beberibe, não receberam do [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Três meses após as <a href="https://marcozero.org/a-espera-da-dragagem-rio-beberibe-transborda-lixo-lama-e-doencas/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">chuvas de 1º de maio</a>, que deixaram seis pessoas mortas e quase 3 mil desabrigadas ou desalojadas em Pernambuco, a <strong>Marco Zero</strong> voltou ao bairro de Peixinhos, na periferia de Olinda, para saber como ficou a vida das famílias que, atingidas por mais uma enchente do rio Beberibe, não receberam do Governo do Estado o Auxílio Pernambuco, no valor de R$ 2,5 mil. O que a reportagem encontrou foi um misto de revolta e desesperança.</p>



<p>A gestão Raquel Lyra (PSD) destinou R$ 8,75 milhões a 3,5 mil famílias nos 27 municípios que tiveram situação de emergência decretada, na época, na Região Metropolitana do Recife (RMR), na Zona da Mata e agreste. O dinheiro, porém, não foi, nem de longe, suficiente para atender todo mundo que teve casas danificadas e perdeu móveis e eletrodomésticos.</p>



<p>Somente Olinda, Recife e Goiana (um dos municípios mais atingidos, localizado na Zona da Mata Norte) cadastraram, juntos, 13.782 pessoas. Essa soma é quase quatro vezes maior que o total de famílias beneficiadas com Auxílio do governo estadual em todo o estado (3,5 mil famílias).</p>



<p>O reflexo dessa diferença pode ser visto nas comunidades Beira-Rio, Condor, Cabo Gato, Boa Esperança, Cuscuz e Embalo, todas em Peixinhos, onde moradores ainda não conseguiram se reestabelecer totalmente.</p>



<p>A título de comparação, a gestão do ex-governador Paulo Câmara (na época, no PSB) destinou R$ 150 milhões para 100 mil famílias atingidas pelas chuvas de maio de 2022, que deixaram 130 mortos e quase 130 mil desabrigados ou desalojados no estado. O valor do auxílio, na época, foi de R$ 1,5 mil.</p>



<p>No Recife, o então prefeito João Campos (PSB), hoje candidato a governador na disputa com Raquel, e a Câmara Municipal, adicionaram mais de R$ 1 mil à ajuda do governo estadual, criando o Auxílio Municipal e Estadual (AME), de R$ 2,5 mil para quase 2,5 mil pessoas.</p>



<p>Apesar de o desastre de 2022 ter sido bem maior, as comunidades de Olinda relataram, em maio, que naquela comunidade o impacto da enchente foi bem maior este ano, quando moradores “nadaram”, dentro de casa, com lixo, ratos e cobra. Naquele dia, a lama invadiu até mesmo casas mais distantes das margens do Beberibe, que teve sua última obra de dragagem feita em 2013. Relembre <a href="https://marcozero.org/a-espera-da-dragagem-rio-beberibe-transborda-lixo-lama-e-doencas/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">aqui</a>.</p>





<h2 class="wp-block-heading">Cadastro tardio e verba insuficiente</h2>



<p>Em Olinda, a gestão Mirella Almeida (PSB) cadastrou, tardiamente, quatro mil moradores após as chuvas de maio, mas o pagamento foi direcionado a apenas 726 pessoas, isto é, 18,15% dos cadastros. Nas comunidades que a <strong>MZ</strong> visitou pela segunda vez este ano, conta-se nos dedos quem recebeu o dinheiro, porém é grande a quantidade de pessoas que perderam mobílias ou tiveram danos graves nas residências. Das três mulheres entrevistadas pela reportagem, apenas uma recebeu o benefício.</p>



<p>No dia das chuvas, Daniele Freitas, de 34 anos, e Ketilyn Ferreira, de 23 anos, beneficiárias do Bolsa Família e moradoras da comunidade do Cuscuz, viram suas casas racharem com o aumento da intensidade das chuvas. Ao passo que o aguaceiro ia aumentando, as casas iam rachando ainda mais.</p>



<p>Ketilyn mora com Andreza Beatriz, de 21 anos, e o filho de cinco anos com autismo nível três de suporte, no final da comunidade, uma das últimas casas. A base alta da construção não impediu que houvesse danos. O piso abriu e a água começou a minar do chão, então a parede cedeu e começou a se afastar da base.</p>



<p>Nessa altura, a família de Ketilyn estava ilhada. Ela só conseguiu sair com a ajuda do pai e do irmão, que saíram do bairro de Campo Grande, no Recife, para resgatá-los.</p>



<p>Se não fosse a mobilização da família, a casa ainda estaria rachada, pois elas não teriam condições de minimamente recuperar o imóvel. “Meu pai e minha mãe se juntaram, pediram para um homem ajeitar e botaram calha. Mas pode ver que, onde tem a ferragem, já está rachando de novo. Aí a mesma coisa agora com a última cheia [chuvas que aconteceram no começo de julho]. A água entrou por debaixo do piso e estourou todinho”, detalha.</p>



<p>Ketilyn está cadastrada no CadÚnico e luta para receber ao benefício a que o filho tem direito. Mesmo assim, não conseguiu acesso ao Auxílio Pernambuco. A frustração toma conta da família. Andreza reflete: “Como o auxílio foi para as pessoas que tinham crianças, pessoas que perderam a casa, que foram danificadas, a gente ficou sem entender porque não recebeu. Porque a gente tem ele e os documentos estão todos certos”.</p>



<p>No começo do beco, Daniele passou por algo parecido, mas a casa está ainda sem móveis, sem telhado e com rachaduras grandes. Ela precisou alugar outra residência, por R$ 250, para morar com a filha e o marido, pois, no momento, não tem condições de fazer os reparos necessários para retornar.</p>



<p>A dor de perder tudo relembra o que viveram em 2022. “Eu já não tinha quase nada. Porque já foi problema para eu conseguir dar uma ajeitadinha na casa, aquela cheia em 2022 me atingiu também, e muito. Cedeu a minha casa. Como a cheia entrou com força, a correnteza da água vinha todinha para cá. Aí, com os R$ 1,5 mil que eu recebi na época [do governo Paulo Câmara], tive como ajeitar. Também peguei emprestado, arrumei um cartão para comprar material. Eu já não tinha condições, já fiz o máximo possível para dar uma ajeitadinha para eu ficar aqui”, relata Daniele.</p>



<p>Próximo dali, na comunidade do Bote, Alexandre José, de 40 anos, mora há mais de dez anos em um barraco de madeira às margens do rio Beberibe. “Tentei salvar a geladeira, mas não deu tempo”, conta o homem que perdeu tudo. Três meses depois, ainda vê sua casa revirada junto com os poucos móveis e eletrodomésticos que não foram arrastados pelas chuvas.</p>



<p>Também beneficiário do Bolsa Família, Alexandre complementa a renda fazendo a travessia dos moradores de Peixinhos para Cajueiro pelo rio. O pouco dinheiro que pegou, nos últimos dias, foi para recuperar o bote com que trabalha. “Não chega ninguém para ajudar a gente aqui, não. Se não formos eu e ele aqui, acabou. Como se diz aqui, a gente é esquecido”, lamenta.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>A vulnerabilidade extrema da falta de documentos</strong></h2>



<p>Se a verba do Auxílio Pernambuco não foi suficiente para os cadastrados, a possibilidade ficou ainda mais distante para quem não tem nem os documentos básicos. É o caso do flanelinha Zenon Ferreira, de 69 anos. O idoso, que não é aposentado, quase perdeu a vida dentro do barraco onde mora. As paredes improvisadas com madeiras, telhas e papelões foram embora com a correnteza.</p>



<p><strong>&#8220;</strong>Foi a pior cheia. Já teve cheia grande também, viu? Faz tempo, há uns 10 anos ou mais. Mas essa de maio foi a pior que teve&#8221;, lamenta Zenon, que mora no local há 31 anos. Agora, ele está com os documentos em dia para tentar a aposentadoria.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/08/peixinhos-Zenon-300x200.jpg">
                <source media="(min-width: 800px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/08/peixinhos-Zenon.jpg">
                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/08/peixinhos-Zenon.jpg" alt="Um homem idoso está sentado em uma cadeira branca no interior de uma casa precária, com piso de terra batida irregular e paredes de madeira cobertas por um telhado de zinco ondulado que deixa entrar raios de luz por entre as frestas. Ele veste camiseta amarela com estampa colorida, shorts xadrez, chinelos vermelhos e um boné listrado, e olha para cima com as mãos sobre as pernas, enquanto ao seu redor se veem baldes, recipientes, um barril com etiqueta, panos pendurados fazendo divisórias e troncos de madeira sustentando a estrutura, num ambiente de pouca luz marcado pelo contraste entre claridades que entram pelas brechas e sombras profundas." class="" loading="lazy" >
            </picture>

	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Agora, a esperança de Zenon Ferreira é conseguir se aposentar
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Segundo a gestão estadual, o pagamento do Auxílio Pernambuco usou como base a quantidade de cadastros repassada ao governo pelas prefeituras no princípio da situação de emergência provocada pelas chuvas do dia 1º. Havia pressa por causa da situação e da necessidade de envio do Projeto de Lei à Assembleia Legislativa de Pernambuco (Alepe).</p>



<p>“Naquele momento, os municípios tinham formado aquela quantidade de famílias e foi a quantidade que nós trabalhamos. Então algumas famílias que estão reclamando ou não estavam no critério ou realmente chegaram depois e não estavam nesse critério de priorização”, afirmou a secretária estadual de Assistência Social, Combate à Fome e Políticas sobre Drogas (SAS), Andreza Pacheco, em julho, após uma onda de protestos.</p>



<p>O decreto do Auxílio Pernambuco priorizou pessoas com deficiência, gestantes e mulheres responsáveis pelo núcleo familiar.</p>



<h3 class="wp-block-heading">Mobilização da comunidade</h3>



<p>Os cadastros em Olinda foram realizados tardiamente após pressão popular. Em Peixinhos, a gestão de Mirella Almeida começou a realizar os cadastros nas comunidades em 21 de junho. Em 26 de junho de 2026, a gestão ainda informava que estava realizando o cadastramento das famílias atingidas no bairro de Rio Doce.</p>



<p>A visita às casas afetadas aconteceu ao lado de mobilizadores locais integrantes do Comitê Popular de Luta pelo Direito à Vida. Um mês depois do início dos cadastros, o comitê se reuniu com moradores e representantes do Governo do Estado para tratar desse e de outros assuntos.</p>



<p>Com mais de 30 pessoas presentes, os moradores compartilharam suas angústias e a sensação de insegurança e desamparo. No entanto, Josiane Silva, diretora da Secretaria Estadual de Periferias de Pernambuco, foi categórica ao afirmar que não haveria mais pagamentos a quem se cadastrou e não foi contemplado.</p>



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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/08/peixinhos-reuniao.jpg" alt="Em uma sala de paredes brancas com piso de cerâmica clara, dezenas de pessoas — homens e mulheres de diferentes idades, alguns de máscara e roupas casuais — estão sentadas em cadeiras plásticas dispostas em duas fileiras que se enfrentam, formando um corredor central, enquanto participam de uma reunião comunitária; o ambiente é decorado com bandeirinhas coloridas de festa junina, fotos e documentos afixados nas paredes, e ao fundo, além de um arco, vê-se uma parede azul-clara com um crucifixo e um ventilador de teto, sugerindo um espaço de caráter religioso ou comunitário." class="" loading="lazy" >
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	                                        <p class="m-0">Moradores pressionaram representantes do governo estadual em reunião
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                                            <span>Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero</span>
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<p>Questionada pelos moradores sobre a escolha das pessoas que receberiam o dinheiro, a representante afirmou que quem selecionou e encaminhou para o Governo do Estado foi a própria prefeitura.</p>



<p>A <strong>MZ</strong> perguntou à Prefeitura de Olinda sobre os critérios de seleção utilizados e por que tantas pessoas ficaram de fora. A gestão respondeu “realizou os cadastros em conformidade com os critérios estabelecidos pelo Governo do Estado. Além de atender às exigências do processo, o levantamento também servirá como instrumento de mapeamento da realidade local, permitindo a coleta de informações que subsidiem a elaboração de políticas públicas voltadas à população”.</p>
<p>O post <a href="https://marcozero.org/sem-auxilio-familias-de-olinda-ainda-sofrem-com-os-estragos-da-enchente-de-1o-de-maio/">Sem auxílio, famílias de Olinda ainda sofrem com os estragos da enchente de 1º de maio</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
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