Margaridas marcham em Brasília por direitos no campo, autonomia das mulheres e democracia

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Quando a Marcha das Margaridas passava em frente à Biblioteca Nacional de Brasília, às 9h30 da manhã desta quarta-feira (14), mulheres que estavam no trio principal da mobilização cantavam “Vem, vamos embora, que esperar não é saber. Quem sabe faz a hora, não espera acontecer”. Bem próxima ao veículo, estava a delegação pernambucana que engrossava o coro da composição de autoria de Geraldo Vandré. Como muitos sabem, essa música é um símbolo de resistência ao regime militar estabelecido a partir do Golpe de 64 no país. E, já não é mais surpresa, que ela pode, sim, retratar o Brasil de 2019. Uma nação que oprime e pouco dialoga com o povo, um povo que não pode apenas esperar por mudanças.

Nos próximos dias, a Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (CONTAG) deve fazer um balanço da 6ª Marcha das Margaridas e já começar a se preparar para a próxima marcha que acontecerá daqui a quatro anos. Foi assim nas manifestações anteriores e os sindicatos rurais não pretendem arrefecer a força de luta que se renova em momentos como o de hoje. A organicidade vista em Brasília é resultado da formação política de base da população do campo, que se estrutura de maneira contínua e estratégica. É, também, fruto da articulação de diversos grupos feministas que ocuparam o Distrito Federal com uma agenda de peso nos últimos dias.

A construção coletiva da marcha mobilizou uma rede de movimentos e entre eles estavam a Articulação de Mulheres Brasileiras (AMB), a Marcha Mundial das Mulheres (MMM); a União Brasileira de Mulheres (UBM), o Movimento da Mulher Trabalhadora Rural do Nordeste (MMTR-NE) e a Central Única dos Trabalhadores (CUT).

A mesma característica está presente na Plataforma Política das Mulheres do Campo, da Floresta e das Águas apresentada oficialmente pelas margaridas na marcha desse ano. Elas não têm um plano só para a agricultura familiar do Brasil, elas têm um projeto inclusivo de país que está claramente desenhado em um documento de 39 páginas. São dez eixos políticos e várias proposições que estabelecem como esses eixos podem ser colocados em prática.

No texto, as margaridas afirmam que a plataforma revela os seus sonhos, os seus quereres e a utopia que as move em direção à transformação da sociedade.

Os 10 eixos políticos da Plataforma Política das Mulheres do Campo, da Floresta e das Águas

1 – Por terra, água e agroecologia
As margaridas defendem que a garantia do direito à terra, água e agroecologia para as famílias agriculturas é indispensável na transformação da sociedade. Isso inclui uma produção alimentar sem veneno e que respeite a vida e o meio ambiente, feita pela agricultura familiar para todo o país.

2 – Pela autodeterminação dos povos, com soberania alimentar e energética
O direito dos povos de escolherem seus destinos com liberdade. Escolherem a disposição das suas riquezas e seus recursos naturais. O direito de não serem privados dos seus meios de subsistência.

3 – Pela proteção e conservação da sociobiodiversidade e acesso aos bens comuns
O resgate, seleção e preservação não só das sementes a serem plantadas, mas também dos saberes e das práticas que dão autonomia à agricultura, para que ela não dependa do modus operandi tecnológico que rege as grandes empresas transnacionais.

4 – Por autonomia econômica, trabalho e renda
Garantia desses três pontos para que a mulher tenha a liberdade de fazer escolhas para a sua vida. Isso diz respeito a alterar a divisão sexual do trabalho, de maneira que o trabalho da mulher e do homem tenham o mesmo valor.

5 – Por previdência e assistência social, pública, universal e solidária
As margaridas são contra a Reforma da Previdência de Jair Bolsonaro (PSL). Afirmam que a proposta atual, em trâmite no Congresso Nacional, coloca as mulheres e homens em situação de desproteção social. Elas defendem a Seguridade Social, garantida pela Constituição de 1988, como um mecanismo de redistribuição da riqueza produzida pelo trabalho delas.

6 – Por saúde pública e em defesa do SUS
Principalmente, em defesa da Política de Atenção Integral à Saúde da Mulher e da Política Nacional de Saúde Integral das Populações do Campo, da Floresta e das Águas (PNSIPCFA).

7 – Por uma educação não-sexista e antirracista e pelo direito à educação no campo
Sobre uma educação que não reproduza opressões relacionadas ao gênero ou à raça. E, por uma educação no campo que valorize os saberes, costumes e a cultura de cada povo.

8 – Pela autonomia e liberdade das mulheres sobre o seu corpo e a sua sexualidade
Reivindica a garantia dos direitos sexuais e reprodutivos e da livre vivência da sexualidade das mulheres. A autonomia para escolher relacionar-se com homens e/ou mulheres, sobre ter ou não filhos.

9 – Por uma vida livre de todas as formas de violência, sem racismo e sem sexismo
As mulheres do campo estão mais expostas à violência física e a uma série de violências simbólicas e materiais, que desconsideram suas contribuições econômicas. Estão mais vulneráveis ao aumento da pobreza e à extrema pobreza rural.

10 – Por democracia com igualdade e fortalecimento da participação política das mulheres
As margaridas afirmam que, com o governo de Jair Bolsonaro (PSL), elas sentem que “todos os direitos que melhoraram a qualidade de vida da classe trabalhadora estão sendo sufocados”

Estão entre algumas das proposições da plataforma: fortalecer e ampliar o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) e a Política de Garantia de Preços Mínimos para os produtos da Sociobiodiversidade (PGPM-Bio); reorientar a política energética do país; e fortalecer o Plano de Monitoramento e Segurança das Barragens.

Na defesa desses eixos, o Nordeste foi protagonista. A Marcha das Margaridas se divide por estados e Pernambuco estava na segunda ala com cerca de duas mil mulheres. À frente da mobilização, estava o Maranhão que levou cerca de 4 mil e, na terceira ala, estava o Ceará com 1.400 participantes. Ao todo, 19 cidades de várias regiões integraram a delegação pernambucana. Com as músicas, os gritos de desordem e o chamado por Lula Livre presente em todos os momentos, o percurso seguiu tranquilo até o final do ato.

Chegando próximo ao Congresso Nacional, apenas o trio principal estacionou para o encerramento da caminhada. Lideranças rurais e políticos começaram a se posicionar para fazer as falas finais. A deputada Alice Portugal (PCdoB-BA) relembrou a liderança sindical e defensora dos direitos humanos que dá nome à marcha. “Estamos aqui mais uma vez e estaremos quantas vezes forem necessárias para honrar a luta e o sangue de Margarida Alves, morta pelo latifúndio da Paraíba. Mas que faz com que a cada quatro anos floresça na Esplanada dos Ministérios a vontade de lutar pela terra, por educação e contra a violência contra as mulheres”.

O candidato à presidência da República pelo PT, nas eleições de 2018, Fernando Haddad, leu uma carta escrita pelo ex-presidente Lula (PT) para as mulheres da Marcha das Margaridas. Ele pediu silêncio antes de começar a ler e a multidão atendeu. Em um trecho da carta, Lula questionou se algum presidente fora os do PT havia marchado com “as mulheres do campo” e as manifestantes responderam que não. Ao fim da fala de Haddad, perto das 11h da quarta-feira, a marcha começou a se dispersar e alguns manifestantes esperavam os comboios de ônibus para voltarem aos seus estados.

 

 

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