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	<title>Marco Zero Conteúdo - Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</title>
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	<description>Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</description>
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	<title>Marco Zero Conteúdo - Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</title>
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		<title>Tejucupapos é o novo coletivo de comunicação independente de Pernambuco</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 23 Jan 2024 19:03:45 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[Comunicação Comunitária]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Helena Dias, do Coletivo Tejucupapos Qual o papel da comunicação no desenvolvimento de territórios periféricos do Recife e da Região Metropolitana? É com essa pergunta e a fim de resgatar diversas reflexões e ações que o Coletivo Tejucupapos se lança no Recife, na próxima quinta-feira (25/10), a partir das 17h, no Quiosque das Palafitas. [&#8230;]</p>
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<p><strong>por Helena Dias, do <a href="https://www.instagram.com/tejucupapos/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Coletivo Tejucupapos</a></strong></p>



<p>Qual o papel da comunicação no desenvolvimento de territórios periféricos do Recife e da Região Metropolitana? É com essa pergunta e a fim de resgatar diversas reflexões e ações que o Coletivo Tejucupapos se lança no Recife, na próxima quinta-feira (25/10), a partir das 17h, no Quiosque das Palafitas. O evento é gratuito, totalmente aberto e pretende reunir pessoas para celebrar o nascimento de mais um coletivo pernambucano incentivando o debate político e social com centralidade na comunicação.</p>



<p>O Tejucupapos nasceu em meados de 2023, com a reunião de comunicadoras e educadoras populares que constroem em Pernambuco organizações nacionais como o Movimento de Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais Sem Terra (MST), o Levante Popular da Juventude e o Movimento Brasil Popular. O coletivo também faz parte do Balaio Nordeste de Jornalismo Independente.</p>



<p>“A gente vivenciou diversos processos de luta e de educação popular, principalmente no período da pandemia, e começou a se perguntar maneiras de como a comunicação poderia ser mais parte do todo. Estamos enfrentando complexos projetos políticos de desinformação do povo há mais de 10 anos e acreditamos que a conexão com os territórios é essencial para fortalecer o desenvolvimento local, a democracia e combater os avanços da crise climática. Apostamos na Teju olhando para esses horizontes”, conta Helena Dias, integrante do coletivo.</p>



<p>O grupo iniciou sua atuação produzindo o guia “Prato Firmeza: um diálogo entre campo e cidade”, em parceria com a Énois Laboratório de Jornalismo e vários coletivos, que conta a história de estabelecimentos da gastronomia periférica de 10 capitais do Brasil e as suas relações com produtores de alimentos locais e do campo. O lançamento do livro no Recife acontecerá durante o evento em Brasília Teimosa. Nas últimas duas semanas, o Tejucupapos tem feito visitas aos estabelecimentos recifenses que foram mapeados para o Prato Firmeza e distribuído os guias impressos.</p>





<ul class="wp-block-list"><li>A versão online do guia “Prato Firmeza: um diálogo entre campo e cidade pode ser baixada no site da Énois: <a href="https://pratofirmeza.com.br/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">https://pratofirmeza.com.br/</a></li><li>Contato: tejucupapos@gmail.com &#8211; (81) 99611.8159 &#8211; Julia Aguilera</li></ul>
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		<title>Locutor de rádio pública no Piauí é afastado pela prefeitura de Teresina após criticar Bolsonaro</title>
		<link>https://marcozero.org/locutor-de-radio-publica-no-piaui-e-afastado-pela-prefeitura-de-teresina-apos-criticar-bolsonaro/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 14 Apr 2022 13:59:41 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Reportagens]]></category>
		<category><![CDATA[censura]]></category>
		<category><![CDATA[jornalismo e democracia]]></category>
		<category><![CDATA[jornalismo independente]]></category>
		<category><![CDATA[Piauí]]></category>
		<category><![CDATA[Prefeitura de Teresina]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Luan Matheus Santana, do coletivo O Corre Diário Marco Aurélio de Morais Siqueira é locutor concursado da FM Cultura de Teresina há 23 anos. Apresenta o programa Usina do Som, que vai ao ar de segunda a sexta-feira, das 17h às 18h. Há cerca de um mês, de forma impositiva, ele foi removido do [&#8230;]</p>
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<p><strong>por Luan Matheus Santana, do coletivo <a href="https://ocorrediario.com/locutor-denuncia-censura-e-interferencias-politicas-na-fm-cultura-de-teresina/">O Corre Diário</a></strong></p>



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<p>Marco Aurélio de Morais Siqueira é locutor concursado da FM Cultura de Teresina há 23 anos. Apresenta o programa Usina do Som, que vai ao ar de segunda a sexta-feira, das 17h às 18h. Há cerca de um mês, de forma impositiva, ele foi removido do seu local de trabalho para a Secretaria de Finanças do município. Segundo ele, a remoção se deu em razão de alguns comentários feitos durante os programas, em especial, com relação às críticas ao Governo Federal e à privatização da Petrobras e Eletrobras. Procuramos a Secretaria Municipal de Comunicação que, em nota, afirmou que a “Prefeitura de Teresina não vai se manifestar sobre o assunto”.</p>



<p>Em entrevista ao <em>Ocorre Diário</em>, Marco explicou como tudo aconteceu. Segundo ele, em fevereiro deste ano houve uma orientação da direção da emissora para não fazer comentários políticos durante seu programa. Uma orientação que, para o locutor, fere direitos importantes como a liberdade de expressão, o interesse público no exercício profissional e o direito à informação da população. “Acredito que as informações que passei no ar sobre as privatizações da Petrobras e Eletrobras devem ser, de fato, o motivo da minha absurda e autoritária remoção”, explicou.</p>



<p>“Dentro da FM Cultura impera hoje uma linha editorial em que não se pode falar nada que contrarie os interesses da agenda bolsonarista. Outros colegas e o próprio jornalismo da rádio já sofreram interferências para que não se fale nada sobre qualquer assunto que desagrade os simpatizantes do bolsonarismo”, complementa o radialista. O programa apresentado por Marco Aurélio, Usina do Som, mistura música, poesia e pitadas de informação de interesse social. “Sou vítima de uma perseguição política e minha remoção para outra secretaria contraria meus direitos como servidor público, porque fui concursado para ser locutor da rádio e qualquer outro cargo, se configura desvio de função”, diz.&nbsp;</p>



<p>Marco ressalta ainda que até o momento não recebeu nenhum documento dando ciência da sua remoção, com uma justificativa da sua retirada dos quadros de locutores da FM Cultura. O locutor está sendo acompanhado pelos advogados do Sindicato dos Servidores Públicos Municipais de Teresina (Sindserm) e aguarda resposta da Secretaria Municipal de Comunicação para informar qual a decisão que será tomada por eles.</p>



<p>Em setembro de 2021, a FM Cultura de Teresina passou por uma modernização, recebendo uma nova sede. A obra contou com um investimento de R$ 179.521,74 com recursos próprios do município e levou para a nova sede, estúdios com proteção acústica, sistema de som e câmeras.&nbsp;</p>



<p>À época, o prefeito de Teresina, Dr. Pessoa, afirmou que “a rádio Cultura FM, deve dar voz aos teresinenses, sendo uma rádio pública, terá uma equipe capacitada, composta por jornalista e técnicos competentes para ouvir as demandas da população e oferecer uma programação diferenciada”.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong><strong>Interesse público x interesses políticos</strong></strong></h2>



<p>O jornalista e mestre em comunicação Roberto Araújo desenvolveu recentemente uma pesquisa sobre Radiodifusão pública no Brasil, onde se aprofundou na compreensão da legislação desses veículos. Segundo ele, não temos uma legislação clara sobre a radiodifusão pública no território nacional. Ele explica que a Constituição Federal estabelece uma divisão do sistema de radiodifusão em público, estatal e privado, onde o público deve ter um financiamento público, mas o conteúdo e a organização da emissora estaria subordinada a um conselho com participação de diferentes segmentos da sociedade civil, de modo a impedir que interesses do governo e interferir na qualidade e no conteúdo. Por outro lado, uma emissora estatal teria esse cunho de comunicação institucional do governo.</p>



<p>“No entanto, alguns autores sugerem que, por serem ambas vinculadas ao setor público, devem ter um conteúdo de interesse público, que atenda às populações menos favorecidas da sociedade e que leve em conta a necessidade de conteúdos educativos e culturais em suas programações”, afirma Roberto.&nbsp;</p>



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	                                        <p class="m-0">José Pessoa (Republicanos), prefeito de Teresina. Crédito: PMT</p>
	                
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<p>No caso da FM Cultura de Teresina, Roberto explica que se trata de uma emissora vinculada à Prefeitura de Teresina, no entanto, na lei de fundação, existe a previsão de um conselho de programação que deveria ter como característica avaliar o interesse público do conteúdo nessa programação.&nbsp;</p>



<p>“Dessa forma, nós podemos dizer que sim, a FM Cultura é uma rádio pública, mas é preciso que se faça essa ressalva, por não haver uma legislação clara sobre o tema, poderíamos dizer que faltam elementos que garantem a isenção e distanciamento que a emissora deveria ter do chefe do Palácio da Cidade, que é o que defendemos para as emissoras públicas”, afirma.</p>



<p>“Sem dúvidas é um tipo de censura”, diz Roberto a cerca das interferências praticadas na Rádio FM Cultura. O pesquisador explica que, em um plano ideal, não deveria haver interferência nenhuma de governos em emissoras públicas.&nbsp; “O interesse e o objetivo das emissoras públicas é atender às questões da sociedade, que devem estar presentes por meio de mecanismos de participação. Quando não há participação por meio de um conselho de representantes da sociedade, quando o conteúdo sofre o crivo de pessoas ligadas diretamente ao prefeito, ou governador, ou presidente, há uma desconfiguração do caráter público dessas emissoras, que deixam de atender às premissas do interesse público, para ficar apenas uma camuflagem para os interesses dos governantes da hora”, afirma Roberto Araújo.</p>



<p>Para o pesquisador, uma TV e uma rádio pública partem de um pressuposto de que há uma liberdade de pensamentos, pluralidade de ideias, e ali também é espaço para que se questione, se indague o poder municipal, o poder ao qual aquela rádio está vinculada.&nbsp;</p>



<p>“A rádio não é do prefeito, ela é do povo de Teresina, e nesse caso, a prefeitura apenas mantém estruturalmente que a rádio exista, mas não é para atender aos interesses do prefeito, é para atender aos interesses da sociedade, e por vezes pode ter algum conflito, então é possível que um jornalista pode fazer um comentário crítico, as pessoas que possam fazer parte daquela rádio, que é uma rádio delas, então é uma ação de censura ao cercear o comentário, a liberdade de pensamento de um profissional que está ali para prestar o seu serviço enquanto servidor público, cidadão, e que, enquanto jornalista, coloca pontos críticos à gestão municipal”, finaliza.</p>



<h3 class="wp-block-heading">Censura se aprofunda sob governo Bolsonaro</h3>



<p>Em 2020, funcionários da <a href="https://www.ebc.com.br/"><strong>Empresa Brasileira de Comunicação (EBC)</strong></a> elaboram dossiê em parceria com sindicatos e a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), com <a href="https://www.brasildefato.com.br/2020/08/26/conteudos-sobre-o-golpe-de-64-e-o-jornalista-vladimir-herzog-somem-de-site-da-ebc"><strong>denúncias</strong></a> de “censura ou governismo” em pautas e matérias da EBC, realizadas de janeiro de 2019 a julho de 2020. O dossiê mostrou que, nesse período, <a href="https://www.brasildefato.com.br/2020/05/22/decreto-de-bolsonaro-permite-privatizacao-da-ebc-servidores-repudiam-medida"><strong>o governo de Jair Bolsonaro interferiu</strong></a> 138 vezes no trabalho da empresa.&nbsp;</p>



<p>Em fevereiro de 2021, funcionários da <a href="https://www.ebc.com.br/"><strong>EBC</strong></a> lançaram uma<a href="https://static.poder360.com.br/2021/02/Carta-aberta-a-sociedade-brasileira-em-defesa-da-Empresa-Brasil-de-Comunicacao.pdf"> carta aberta </a>em rpúdio ao governo Bolsonaro (PL), denúnciado prática de censura e interferências políticas nas redações da empresa. Entre os pontos citados na carta, &nbsp;os funcionários denunciaram a falta de acompanhamento em relação à evolução da pandemia de covid-19, no Brasil, por exemplo. &nbsp;</p>



<p>“A TV Brasil ignorou a falta de oxigênio em Manaus e as Redes Sociais não puderam noticiar a primeira pessoa vacinada contra a covid”, afirmam no documento, que questiona o uso abusivo e reiterado dos veículos públicos para promoção pessoal do presidente da república, seus ministros e de seu projeto político.</p>



<p>Temas como desmatamento da Amazônia e o negacionismo científico sobre a pandemia também podiam ser pautados pelos jornalistas. “O jornalismo é o <a href="https://www.brasildefato.com.br/2020/11/11/trabalhadores-da-ebc-denunciam-interferencia-do-governo-no-programa-sem-censura"><strong>alvo central de decisões autoritárias e colegas têm sofrido perseguição</strong></a> até com mudança compulsória de setor. Repórteres recebem pautas vexatórias ou absurdas, com destaques, enfoques e temas favoráveis ao governo ou que apenas promovem a imagem do presidente e de ministros de Estado”, afirmam no documento.&nbsp;</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p><strong>A Rádio Tribuna FM de Teresina</strong></p><cite>A rádio foi fundada em 30 de dezembro de 1996, e teve seu projeto idealizado e iniciado na gestão do ex-prefeito Wall Ferraz. Inicialmente, a emissora começou como um órgão subordinado à Fundação Cultural Monsenhor Chaves; atualmente, a rádio é um veículo de comunicação vinculado à Secretaria Municipal de Comunicação, conforme consta na <a href="http://antigopgm.teresina.pi.gov.br/admin/upload/documentos/06958bbf14.pdf">Lei 2.546 de 30 de junho de 1997.</a><br><br>Em seu artigo 1º, parágrafo único, a lei estabelece que a “Rádio FM Cultura de Teresina não tem fins lucrativos nem finalidade comercial, seus fins são exclusivamente educativos, culturais e de prestação de informação e serviços da comunidade”.</cite></blockquote>



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		<item>
		<title>Franklin Martins e Jean Wyllys debatem como o jornalismo pode resistir aos algoritmos</title>
		<link>https://marcozero.org/franklin-martins-e-jean-wyllis-debatem-como-o-jornalismo-pode-resistir-aos-algoritmos/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Raíssa Ebrahim]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 08 Oct 2021 21:33:57 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[Ciências da Comunicação]]></category>
		<category><![CDATA[comunicação]]></category>
		<category><![CDATA[comunicação e política]]></category>
		<category><![CDATA[Franklin Martins]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>“A resposta para a ultra segmentação dos algoritmos está na rua, na ágora”. É o que defende Franklin Martins, jornalista e ministro-chefe da Secretaria de Comunicação Social, entre 2007 e 2010, no governo do ex-presidente Lula. “Tem que ter tecnologia, mas tem que ter a embocadura da praça pública. A ultra segmentação é coisa para [&#8230;]</p>
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<p>“A resposta para a ultra segmentação dos algoritmos está na rua, na ágora”. É o que defende Franklin Martins, jornalista e ministro-chefe da Secretaria de Comunicação Social, entre 2007 e 2010, no governo do ex-presidente Lula. “Tem que ter tecnologia, mas tem que ter a embocadura da praça pública. A ultra segmentação é coisa para impedir que a política seja feita e decidida em praça pública. Temos que sair da bolha, falar com quem pensa diferente da gente”.</p>



<p>Figura central na resistência contra a ditadura militar, Franklin falou, nesta sexta-feira, 8 de outubro, sobre “jornalismo de resistência” durante o <a href="https://marcozero.org/intercom-maior-evento-cientifico-de-comunicacao-comeca-segunda-feira-e-sera-promovido-pela-unicap/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">44º Intercom – Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação</a>. Descartando a contratação de um “super marqueteiro”, como nas disputas anteriores, Lula convidou Franklin para coordenar a comunicação de sua pré-campanha a 2022. O jornalista, naturalmente, não quis falar sobre as estratégias que serão adotadas ao ser perguntado sobre o convite ao final da mesa no congresso.</p>



<p>Franklin dividiu o momento com o jornalista e ex-deputado federal Jean Wyllys e o juiz federal Edevaldo de Medeiros. A mediação foi de Felipe Pena, jornalista, psicólogo, roteirista e professor da Universidade Federal Fluminense (UFF). <a href="https://marcozero.org/a-comunicacao-sob-a-otica-de-paulo-freire-no-centro-dos-debates-do-44o-intercom/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Paulo Freire e a comunicação como prática de liberdade, resistência e cidadania</a> são os grandes temas deste ano do maior evento científico da área de comunicação da América Latina, que acontece na Universidade Católica de Pernambuco (Unicap), no Recife, até este sábado, 9 de outubro.</p>



<p>A mesa &#8211; sem participação de nenhuma mulher, diga-se de passagem -, frisou o tempo inteiro: resistência é a palavra-chave para entender o momento brasileiro. Como disse Pena, citando o guerrilheiro Che Guevara, lembrando dos exatos 54 anos de seu assassinato, em 8 de outubro de 1967, “A revolução vai começar depois que vencermos essa guerra”.</p>



<p>Franklin também falou sobre censura e pluralidade: “Não é só a censura um gravíssimo problema. Ela é intolerável, inadmissível, mas ela é um dos perigos que ameaçam a liberdade de imprensa e do resto da sociedade de se informar. O outro é a falta de pluralidade. Se houver monopólio, com agentes decidindo entre si o que pode ou não ser publicado, eles estão controlando uma área essencial, da circulação da informação e da organização do debate político”.</p>



<p>“Jornalismo e resistência são duas coisas muito ligadas, principalmente nas épocas mais sombrias da sociedade”, pontuou Franklin, que fez parte do movimento estudantil e começou a fazer jornalismo ainda na adolescência, na boca do golpe militar. “Minha geração cometeu vários erros, mas não cometeu o pior erro, que seria não lutar&#8221;, relembrou, ao frisar que a ideia de insubmissão foi essencial na construção da democracia e do jornalismo no Brasil.</p>



<p>Tão crítico quanto otimista, Franklin defendeu que “o jornalismo de manipulação esconde os grandes interesses da sociedade para fazer com que discursos que não têm consistência na sociedade possam dominar”. A fala dele cabe perfeitamente no atual momento em que narrativas valem mais do que verdades e também na análise da cobertura da Vaza Jato e, agora mais recentemente, do Pandora Papers. Nas palavras do jornalista, “a imprensa sentou em cima” dessas coberturas ao não repercuti-las como “gravidade monumental”.</p>



<h2 class="wp-block-heading">O aquário das bigtechs</h2>



<p>Partindo também da própria experiência de resistência individual, Jean Wyllys, que precisou renunciar ao mandato de deputado federal e hoje vive em Barcelona, na Espanha, disse que vem estudando modos de furar as bolhas e como ter comportamentos que não nos aprisionem às redes. “Com diversificação de conteúdo, perfis e produções que não possam ser escrutinadas pelos algoritmos”, cita.</p>



<p>Para ele, “as tecnologias não são em si problemáticas, nós humanos é que somos”. Sobre seu retorno ao Brasil, Jean adiantou: &#8220;Vamos criar um cinturão sanitário em torno da direita e, quando isso acontecer, eu vou voltar, eu vou querer voltar”.</p>



<p>Os debates do Intercom têm sido bastante permeados pela <a href="https://marcozero.org/intercom-discute-os-efeitos-perversos-do-monopolio-das-cinco-gigantes-da-internet/">discussão em torno das bigtechs</a>, das cinco gigantes Google, Apple, Facebook, Amazon e Microsoft (“Gafam”). Sobre isso, Jean também defende a ideia das plataformas como colonizadoras do espaço e redutora das relações, num certo sentido: “Tínhamos um oceano a nossa frente e as plataformas e seus algoritmos, a forma como programa operam, criaram em torno de nós um aquário”. Tudo isso, complementa, para servir a um modelo de negócios, um capitalismo de plataforma, e que teve impactos negativos sérios nos processos democráticos e decisórios, levando à ascensão da extrema-direita em diferentes partes do mundo.</p>



<p>Não por acaso, em 2022, ano de eleições, o tema central do Intercom será desinformação.</p>



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		<title>Um salve ao velho jornalista</title>
		<link>https://marcozero.org/um-salve-ao-velho-jornalista/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Laércio Portela]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 31 Aug 2021 20:10:59 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Diálogos]]></category>
		<category><![CDATA[jornalismo]]></category>
		<category><![CDATA[jornalismo e democracia]]></category>
		<category><![CDATA[Nilson Lage]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Já se vão quase 30 anos de formação em jornalismo e uma questão sempre me intrigou durante a maior parte desse tempo: como nós jornalistas escrevíamos e analisávamos criticamente sobre tudo no mundo e nos dedicávamos tão pouco a refletir a respeito de nosso próprio trabalho, sendo condescendentes com erros grotescos e desvios éticos. E, [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Já se vão quase 30 anos de formação em jornalismo e uma questão sempre me intrigou durante a maior parte desse tempo: como nós jornalistas escrevíamos e analisávamos criticamente sobre tudo no mundo e nos dedicávamos tão pouco a refletir a respeito de nosso próprio trabalho, sendo condescendentes com erros grotescos e desvios éticos. E, confessemos, até apoio a regimes autoritários.</p>



<p>Esses problemas seguem firmes e fortes, agravados pelo imediatismo insano imposto pelo mundo digital, mas existem avanços a considerar. A academia se abre à sociedade e produz cada vez mais análise crítica sobre o fazer jornalístico, enquanto uma mídia independente vai se consolidando e tirando nossa profissão da zona de conforto que o mito da imparcialidade consagrou.</p>



<p>Toda essa reflexão me veio à mente quando soube do <a href="https://marcozero.us18.list-manage.com/track/click?u=6903930ec168971e947bb728b&amp;id=3e905a58ad&amp;e=9fbeba70dd" target="_blank" rel="noreferrer noopener">falecimento </a>, na segunda (23), do <a href="https://marcozero.us18.list-manage.com/track/click?u=6903930ec168971e947bb728b&amp;id=36273bcbc2&amp;e=9fbeba70dd" target="_blank" rel="noreferrer noopener">professor e jornalista Nilson Lage</a>, 84, vítima de um câncer de pulmão. Carioca, Lage começou a trabalhar nos anos 50, passou por jornais, revistas e TV. Graduado em Letras, mestre em Comunicação e doutor em Linguística lecionou, a partir dos anos 70, em seis universidades antes de se aposentar em 2006 na UFSC.</p>



<p>É autor de <a href="https://marcozero.us18.list-manage.com/track/click?u=6903930ec168971e947bb728b&amp;id=755c4652cd&amp;e=9fbeba70dd" target="_blank" rel="noreferrer noopener">livros de referência</a> sobre o jornalismo, tais como <em>Ideologia e Técnica da Notícia</em> (1979), <em>Estrutura da Notícia</em> (1987), <em>Controle da Opinião Pública</em> (1998) e <em>A Reportagem: teoria e técnica da pesquisa jornalística</em> (2001). Construiu uma teoria do jornalismo, a partir da prática, com apego aos fatos, mas reconhecendo as pressões objetivas e ideológicas às quais a narrativa jornalística está submetida, como os interesses das elites e a força do capital.</p>



<p>Em maio de 2016, escolhi seis pesquisadores para analisar a cobertura da mídia no processo de impeachment da então presidenta Dilma. Encabeçando a lista estava Nilson Lage. Nosso contato se deu por e-mail e ele só encaminhou as respostas por escrito às minhas perguntas quase um mês depois. Pediu desculpas listando outras tantas entrevistas e trabalhos que o tinham ocupado no período. “Se não deu tempo de publicar como programado, faça o uso que achar conveniente”, dizia.</p>



<p>A reportagem havia sido encomendada pela Revista Continente, que depois me comunicou que não publicaria mais o texto por falta de “condições políticas”, e ela acabou saindo – junto com as entrevistas – <a href="https://marcozero.us18.list-manage.com/track/click?u=6903930ec168971e947bb728b&amp;id=308e259fec&amp;e=9fbeba70dd" target="_blank" rel="noreferrer noopener">no site da</a><strong><a href="https://marcozero.us18.list-manage.com/track/click?u=6903930ec168971e947bb728b&amp;id=a2ba682064&amp;e=9fbeba70dd" target="_blank" rel="noreferrer noopener"> Marco Zero Conteúdo</a></strong>.</p>



<p>Lage foi cirúrgico na <a href="https://marcozero.us18.list-manage.com/track/click?u=6903930ec168971e947bb728b&amp;id=42f4b89b20&amp;e=9fbeba70dd" target="_blank" rel="noreferrer noopener">sua análise sobre o papel da mídia</a> na ruptura institucional quando perguntado sobre a Operação Lava Jato e o impeachment: “Não houve, a bem dizer, cobertura política… Por toda parte, jorrou propaganda, com informações mentirosas e vazamentos dirigidos. Movimentos de massas mereceram análises superficiais e convenientes. A mídia deixou de fornecer dados confiáveis ao historiador do futuro”.</p>



<p>Essa perspectiva de que a maneira como montamos as notícias no tempo presente vai impactar as visões e enquadramentos no futuro (depois de Temer temos Bolsonaro) é muito potente porque dá a nós, jornalistas, uma dimensão da responsabilidade política que gostamos de colocar sobre outros ombros.</p>



<p>Termino esse texto, que já está ficando longo, com as palavras da matemática Clara Lage, filha caçula do velho jornalista: “Meu pai me abriu caminhos para perguntas que sem ele eu talvez jamais faria e me deu ferramentas para respostas que vou buscar por toda minha vida”. Uma bela definição do potencial do jornalismo, hein?</p>



<p>Fica aqui um salve à memória de Nilson Lage.</p>



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		<title>O vírus não está em guerra</title>
		<link>https://marcozero.org/o-virus-nao-esta-em-guerra/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Luiz Carlos Pinto]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 03 Apr 2020 15:35:44 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[ciência]]></category>
		<category><![CDATA[coronavírus]]></category>
		<category><![CDATA[jornalismo e democracia]]></category>
		<category><![CDATA[mídia]]></category>
		<category><![CDATA[opinião]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A pandemia do Covid-19 tem feito acionar discursos que clamam pela valorização da ciência, do jornalismo e de outras coisas gestadas pela Modernidade. Não são poucos os (bons) argumentos que têm associado a necessidade de resgatar esses valores, em particular no Brasil e noutros países em que a extrema-direita negacionista chegou ao poder. Cabe, no [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>A pandemia do Covid-19 tem feito
acionar discursos que clamam pela valorização da ciência, do jornalismo e de
outras coisas gestadas pela Modernidade. Não são poucos os (bons) argumentos
que têm associado a necessidade de resgatar esses valores, em particular no
Brasil e noutros países em que a extrema-direita negacionista chegou ao poder.
Cabe, no entanto, uma reflexão sobre como e para quem a retomada ou respeito a
esses campos de atuação podem e devem acontecer. Mas eu também acho que, nessa
crise toda, há também uma outra demanda a ser contemplada, que é entender,
também espiritualmente, tanto a crise quanto suas possíveis soluções táticas em
um contexto de herança colonial como o nosso.</p>



<p>É verdade que a pandemia do novo
coronavírus exige ainda mais que a linguagem jornalística seja usada e esteja
bem presente, desmistificando os mitos de toda espécie que empestam o cenário.
Mas também é verdade que parte do descrédito daqueles protagonistas que
poderiam estar ajudando mais (com estruturas de informação eficientes e em
rede) foi criado por eles mesmos, numa busca obtusa por influência política e
econômica na vida nacional – ou simplesmente por verbas publicitárias. Ainda
que os principais grupos de comunicação do país tenham resolvido voltar a fazer
um jornalismo sério, praticaram nos últimos 30 anos o jornalismo de interesse
público a depender de cada ocasião. </p>



<p>E foi nessa pisada que os
jornalões deterioraram o principal capital do jornalismo, de seus protagonistas
e de suas empresas: a credibilidade. E aí, quando se perde a confiança, é
difícil voltar a confiar depois de passada a crise. </p>



<p>O mesmo se pode dizer da ciência,
em cuja agenda de universalização do ocidentalismo, negou as chamadas
epistemologias do Sul global. Essa agenda esteve, e ainda está, em franca
articulação com os projetos de colonização e com a agenda da exploração – em
particular da exploração capitalista. Então, se precisamos resguardar a
necessidade e urgência dos conhecimentos científicos que salvam vidas, na mesma
medida precisamos reconhecer o divórcio crescente entre o desenvolvimento dos
conhecimentos científicos e técnicos, por um lado, e a cultura comum, por outro
– coisa que se expressou na história da manufatura e da fábrica automática, no
decorrer do capitalismo industrial, mas que também acontece agora com a
emergência do capitalismo de vigilância.</p>



<p>Aliás, a pandemia descortina não
somente a insuficiência interior do neoliberalismo para lidar com crises como
essas. Aponta mais além: a aparência não-econômica do Covid-19 (uma decorrência de um processo natural já elucidado por
biólogos do <a href="https://www.scripps.edu/">Scripps Research
Institute</a> e que virou <a href="https://www.nature.com/articles/s41591-020-0820-9">artigo</a> na revista Nature) e de outras crises ambientais
que estão na agenda do amanhã, já sugerem e justificam a intensificação da
invasão de privacidade, de autoritarismos estatais, e <a href="http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2019-2022/2020/Mpv/mpv930.htm">da
apropriação de recursos públicos para sanar os apuros do sistema financeiro</a>.</p>



<p>É preciso encontrar outras
gramáticas, mas também outro cotidiano.</p>



<p>Eu sigo torcendo para que a
iminência do fim do mundo seja o início real de outro nível de combate global
em que não prevaleça esse jornalismo de interesse público a depender da
ocasião; tão pouco uma crença acrítica e ahistórica na ciência e o associado
apagamento de povos e de seus conhecimentos.</p>



<p>No presente brasileiro de
genocídio em curso, esses povos – das matas, das ruas e dos morros –, já
acionaram o instrumento
conceitual operativo que organiza de forma constante e confiável os meios de
defender sua sobrevivência física e cultural. Tal modelo associativo se
desenvolveu no país e se atualiza como ideia-força há quatro séculos, e já assumiu
as formas de rede de irmandades, confrarias, clubes, grêmios, terreiros,
centros, tendas, afoxés, escolas de samba e gafieiras. A essa práxis, Abdias
Nascimento deu o nome de quilombismo.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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	                </figure>

	


<p> Como escreveu um amigo meu um dia desses, é um fio instável e que muitas vezes reflete uma memória coletiva, sua solidariedade ancestral, que sempre se manteve mais ou menos ativa, no difícil trabalho de<br> proteger-se do Estado e do mercado – como já o fez no passado, como faz<br> agora e como o fará mais à frente. Essa ideia-força nem sempre aparece<br> no noticiário. Parece difícil desconsiderar o papel que o quilombismo pode ter associado às tecnopolíticas de cuidado, mais do que nunca necessárias no contexto atual. </p>



<p>Também
parece difícil não considerar a necessidade de lidar com a morte, a peste, a
cura e a doença, bem como com a natureza e suas expressões no cotidiano e não
apenas episodicamente. É curioso que o discurso de diversas autoridades no
Brasil e <a href="https://www.bloomberg.com/opinion/articles/2020-03-17/macron-and-merkel-s-war-on-virus-will-bite-as-factories-close">noutros países</a> seja de enfrentamento do vírus,
de <a href="https://www.reuters.com/article/us-health-coronavirus-germany/merkel-tells-germans-fighting-virus-demands-war-time-solidarity-idUSKBN2153GX">guerra ao vírus</a> – também uma herança dos modos
de pensar Modernos, essa de declarar guerras… O vírus não quer guerra com
ninguém.</p>



<p>Mas ele suscita, isso sim, uma necessária reflexão de como eliminar o desperdício de comida, de recursos energéticos, de relações, de tempo. Ele deveria nos indicar a repensar nossa disposição para o cuidado coletivo e a atenção real que damos aos mais velhos e às crianças. Mais além: a pandemia do Covid-19 exige a disposição para considerar necessário a ideia de renda básica aos mais pobres.  Há uma reinvenção do cotidiano nos convocando todos os dias, assim como acontece de as idéias também nos chamarem para a ação. </p>



<p>São
todas feridas que não cuidamos e que requerem cura sistêmica, não uma guerra –
por mais que a metáfora possa parecer útil. Que apontam, também para a morte –
o que muda, forçosamente, a perspectiva das coisas. É nesse sentido que evoco
outro rastro não ocidental: o poder de cura de Omolu, a divindade que cuida das
pestes e das curas no sistema espiritual Yorubano. Um dos itans sobre esse
Orixá relata como ele precisou se esconder entre palhas para que não vissem as
feridas da peste que portava e das quais tinha vergonha. Até então Omolu, que
era velho, estava recolhido e em silêncio, em meio à festa que os outros Orixás
faziam, na qual dançavam e se divertiam.</p>



<p>Iansã,
rainha dos raios e trovoadas, apiedou-se do senhor das pestes e lançou um
feitiço na forma de vento, que levantou as palhas que escondiam as chagas de
Omolu e as fez explodirem no alto, em forma de pipoca. Omolu deixa de ser velho
e revelou ali sua face jovem e bela, Obaluaiyê. O itan nos serve como uma
referência para entender a necessidade do recolhimento (muito além da
quarentena), que sirva a uma mirada interior, direcionada a nossos cotidianos,
para que possamos sarar tantas chagas em nosso corpo social e que incluem a dificuldade Moderna de compreensão holística, a
arrogância, as desigualdades crônicas, a indiferença. </p>
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		<title>Jornalismo independente e democracia no Brasil</title>
		<link>https://marcozero.org/jornalismo-independente-e-democracia-no-brasil/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Laércio Portela]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 15 Oct 2019 12:20:49 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Diálogos]]></category>
		<category><![CDATA[democracia]]></category>
		<category><![CDATA[Glenn greenwald]]></category>
		<category><![CDATA[jornalismo e democracia]]></category>
		<category><![CDATA[jornalismo independente]]></category>
		<category><![CDATA[Roda Viva]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>* Texto originalmente produzido para o Dossiê Comunicação e Democracia da Revista Coletiva A cena do editor-chefe do The Intercept Brasil, Glenn Greenwald, sendo inquirido sobre a legalidade e a legitimidade da Vaza Jato por jornalistas da grande mídia durante o programa Roda Viva, da TV Cultura, no início de setembro de 2019, é a [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><strong>* Texto originalmente produzido para o <a href="https://www.coletiva.org/dossie-comunicacao-e-democracia">Dossiê Comunicação e Democracia da Revista Coletiva</a></strong></p>
<p>A cena do editor-chefe do The Intercept Brasil, Glenn Greenwald, sendo inquirido sobre a legalidade e a legitimidade da Vaza Jato por jornalistas da grande mídia durante o programa Roda Viva, da TV Cultura, no início de setembro de 2019, é a prova mais evidente de que a produção de conteúdo jornalístico é um campo em disputa no Brasil atual. E de que não há como falar em comunicação e democracia em pleno governo Jair Bolsonaro sem abordar a crise de credibilidade da mídia tradicional e o fortalecimento gradual da mídia independente nativa digital.</p>
<p>Ignorar o evidente interesse público das revelações das conversas no telegram dos procuradores de Curitiba e do juiz Sérgio Moro fala muito sobre o jornalismo praticado pelos veículos de comunicação de massa no período mais quente da Lava Jato. A operação da proclamada “República de Curitiba” jogou um papel crucial no impeachment da ex-presidenta Dilma Rousseff e na eleição do atual presidente da República ao prender e tirar da disputa o seu mais forte adversário, o ex-presidente Lula, e alçar o tema da corrupção ao panteão do debate público nacional.</p>
<p>O jornalista e pesquisador do Objethos – Observatório de Ética Jornalística, da Universidade Federal de Santa Catarina, Rogério Christofoletti, <a href="http://marcozero.org/a-lava-jato-domesticou-a-imprensa-brasileira-diz-pesquisador/">expôs em entrevista para a Marco Zero Conteúdo</a> os desvios éticos da grande mídia na cobertura da Lava Jato: “É claro que o jornalismo brasileiro tinha obrigação de cobrir os eventos, mas colecionamos uma série de problemas desde então. Um deles foi a cobertura condescendente e servil às autoridades policiais, sem qualquer contestação ou senso crítico. O que se dizia a partir de Curitiba tinha um tom inquestionável, e isso domesticou a imprensa de uma forma geral”.</p>
<p>Para Christofoletti, a imprensa fechou os olhos a abusos da operação. “Tivemos outros problemas como a espetacularização, a idolatria em torno de alguns personagens, as frequentes invasões de privacidade, algumas exposições públicas criminosas, assim como a corrosão paulatina de um importante fator: a presunção de inocência. Durante a cobertura, o que menos o jornalismo fez foi investigar. Foi basicamente descritivo, relatorial e declaratório. Cartorial. O jornalismo não cobriu a Lava Jato; ele deu cobertura a ela”.</p>
<p>A operação Lava Jato é a ponta do iceberg de uma crise de credibilidade que também está associada à crise do modelo de negócio de uma mídia que passou todo um século ancorada na venda de publicidade para se financiar e vê hoje parte expressiva dos recursos migrar para as contas de grandes players digitais como o Google e o Facebook. Para se ter uma ideia do quão disruptivo é esse novo modelo, em 2018 a eMarketer estimava que, juntas, as duas empresas abocanhavam cerca de 60% do mercado publicitário norte-americano.</p>
<p>Exemplo gritante da incapacidade da mídia tradicional de se adaptar aos novos tempos sem comprometer sua missão de bem informar o público é o boom dos publieditoriais, que vieram para derrubar os muros que, pelo menos em tese, separaram por muito tempo o setor comercial do editorial. Assim, “o agro é pop, é vida, é tudo…” O avanço da cobertura sensacionalista policial para outros ramos do trabalho jornalístico, a política incluída, fez o resto do trabalho. Em meio ao caos informativo da internet, quando mais se precisava de quem separasse fato de crença, informação de opinião e de entretenimento, a mídia tradicional juntou o joio ao trigo e serviu para sua plateia.</p>
<p>Em Impérios da Comunicação – do Telefone à Internet da AT&amp;T ao Google, Tim Wu pergunta já na introdução: “como você ouve as vozes dos líderes políticos? De quem é a dor que você sente? De onde vêm suas aspirações, seus sonhos de uma vida boa?”. O sociólogo norte-americano, que estudou os ciclos de nascimento, crescimento, resistência e morte dos monopólios da comunicação nos Estados Unidos, substituídos periodicamente por novos e disruptivos monopólios, responde: “tudo isso provém de um ambiente de informação”.</p>
<h2>O ambiente de informação hiperconectado</h2>
<p>No Brasil, e no mundo, esse ambiente de informação é um campo em disputa aguda com fortes impactos nas instituições do Estado e na ideia de democracia, como a entrevista de Greenwald ao Roda Viva evidenciou. Com a digitalização da vida, a internet transformou-se na arena privilegiada dessa disputa que agrega velhos e novos atores da comunicação e também da política. Suas plataformas mudam, mas sua influência só aumenta. Primeiro o facebook, o twitter… agora o whatsapp com seus 120 milhões de usuários no país&#8230;</p>
<p>Os fluxos tradicionais de informação vão ruindo… O poder da mídia tradicional concentrado na propriedade cruzada de TV, rádio, jornais e revistas está agora submetido ao modelo de organização dos grandes players digitais que não só controlam os caminhos pelos quais as informações chegam aos usuários (o celular é a nova tela para o mundo) como também o modo como essas informações são monetizadas.</p>
<p>É nesse cenário, e impulsionada pelo barateamento da produção e distribuição de conteúdo trazido pela internet, que surge e vai se ampliando a mídia independente no Brasil. Quando entrou no ar em 2016, o Mapa de Jornalismo Independente produzido pela Agência Pública contava com 79 experiências. Em setembro de 2019, já passavam de 200 as iniciativas de jornalismo independente citadas. Segundo a Agência Pública, estão ali selecionados grupos que “nasceram na rede, fruto de projetos coletivos e não ligados a grandes grupos de mídia, políticos, organizações ou empresas”.</p>
<p>O monopólio da seleção e do enquadramento dos acontecimentos relevantes da vida econômica, política e cultural do Brasil e da mediação dessa realidade construída a partir das grandes redações com o público leitor (e eleitor) caiu.</p>
<h2>Novos atores e novos olhares na comunicação</h2>
<p>O novo ecossistema da mídia independente que vai se estruturando aos poucos se insere em perspectivas mais diversas de cobertura, maior proximidade com o público e o território onde ele está inserido. Nasce sob a genética da transparência (a nova objetividade, segundo expressão cunhada por David Winberger) e foco na precisão das informações. Em muitos casos, pratica-se um jornalismo segmentado cobrindo as áreas de segurança ou mobilidade, urbanismo, meio ambiente, gênero e raça.</p>
<p>São grupos que se estruturam em coletivos, tentando estabelecer maior horizontalidade na tomada de decisões e, de alguma forma, romper com práticas tradicionais de comando e chefia das redações da mídia corporativa. Veem na diversidade de fontes um traço essencial do fazer jornalístico. Mas entendem que a diversidade de gênero, raça, classe e território deve começar dentro das redações, entre os produtores de conteúdo que, com olhares e vivências distintas, vão trazer mais amplitude e complexidade para os temas abordados.</p>
<p>Essa mídia independente vai se projetando e está associada a dois movimentos que foram acontecendo em paralelo nos últimos anos no Brasil. De um lado, o processo de enxugamento das redações dos grandes veículos de comunicação tradicional que deixou muitos profissionais experientes fora do mercado. De outro, o processo corrente de empoderamento das populações periféricas das grandes cidades brasileiras, notadamente das populações negras mais jovens e relacionadas às temáticas feministas, de igualdade de gênero e raça.</p>
<p>Some-se a isso a abertura de vagas nas universidades públicas e privadas para as populações de mais baixa renda nos governos Lula e Dilma através de programas de interiorização e ampliação dos institutos federais de ensino superior e do subsídio de vagas nas instituições privadas. Ações que permitiram o acesso de jovens estudantes periféricos aos cursos de jornalismo, cinema, design e áreas afins.</p>
<p>Esses dois grupos, jornalistas que passaram por grandes redações e jovens periféricos com forte vínculo com seu território, têm se encontrado direta e indiretamente e trocado experiências no campo do jornalismo independente em formação no país. Os mais jovens trazem consigo a expertise do manejo das novas linguagens digitais multiplataformas.</p>
<p>Aliás, no ecossistema da produção independente de jornalismo, a ideia de colaboração ganha uma dimensão que não existe na mídia tradicional que disputa mercado contra seus concorrentes. Na mídia independente, a produção, edição e distribuição colaborativa de conteúdo enriquece a prática propriamente do jornalismo, especialmente do jornalismo investigativo e aprofundado que exige mais mãos e mentes envolvidas. A colaboração fortalece os parceiros, amplia sua visibilidade e a repercussão do material publicado. Tem sido também uma ferramenta de cofinanciamento de reportagens (reduzindo custos) e complementaridade de habilidades e conhecimentos.</p>
<p>Em quatro anos de existência, por exemplo, a Marco Zero Conteúdo – mídia independente de Pernambuco –, cujo signatário deste artigo é editor, fechou parceria com mais de uma dúzia de outros veículos de mídia independente, entre eles a Agência Pública, De Olho nos Ruralistas, The Intercept Brasil e Gênero e Número.</p>
<h2>O desafio da sustentabilidade financeira</h2>
<p>O compromisso com os valores democráticos, a independência em relação aos grupos políticos e econômicos hegemônicos e a denúncia das violações de direitos estão no cardápio editorial e ético da maior parte das iniciativas de jornalismo independente no Brasil. O grande desafio que está posto para essa nova mídia é a sustentabilidade financeira.</p>
<p>Para esses grupos, nativos digitais, o modelo clássico de remuneração da produção de conteúdo jornalístico via publicidade ou inexiste ou é apenas parte de uma estratégia mais ampla de captação de recursos. Na dissertação de Mestrado apresentada, em 2016, no Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal de Pernambuco, <a href="https://repositorio.ufpe.br/bitstream/123456789/21304/1/DANELADELACERDA-DISSERTACAO-MESTRADO.pdf">O Jornalismo digital independente no Brasil e a busca da credibilidade perdida</a>, Daniela Lacerda analisou seis veículos independentes (Ponte Jornalismo, Jornalistas Livres, Marco Zero Conteúdo, Amazônia Real, Cidade para Pessoas e InfoAmazonia). Entre as formas mais citadas de financiamento estavam o crowdfunding, o apoio de fundações estrangeiras e a realização de cursos e seminários.</p>
<p>Esse é um fenômeno mundial. No documento <a href="http://data.sembramedia.org/?lang=pt-br">Ponto de Inflexão – Impacto, ameaças e sustentabilidade, um estudo dos empreendedores digitais latino-americanos</a>, a SembraMedia (2017) analisou 100 grupos de mídia nativos digitais na região, 25 por país, incluindo Brasil, Argentina, Colômbia e México. Apesar da publicidade digital ser a principal fonte de renda de boa parte dessas iniciativas, vão crescendo novas formas de captação que passam por consultoria, treinamento, subsídios, eventos e crowdfunding.</p>
<p>Em que pese todas as dificuldades de arrecadação de recursos, há um esforço dos grupos de mídia independente do Brasil de contar cada vez mais com a colaboração dos seus leitores para pagar do próprio bolso o jornalismo independente que consomem.</p>
<p>O movimento dos doadores no Brasil nem chega perto do que acontece nos Estados Unidos, por exemplo, que tem uma cultura arraigada de doações, mas vem crescendo com o tempo. Segundo informe do Catarse – maior plataforma de financiamento coletivo do país – , entre dezembro de 2017 e fevereiro de 2019 saltou de 405 para 8.851 o número de assinantes que apoiavam projetos de jornalismo independente, com a arrecadação mensal passando de R$ 14,6 mil para R$ 163,3 mil. Esses números estão bem defasados agora depois da Vaza Jato. Considerando dados de setembro de 2019, só o The Intercept capta R$ 325 mil pelo Catarse mensalmente em assinaturas. O número de projetos de jornalismo cadastrados na plataforma era de 198 no mesmo mês.</p>
<p>É preciso ter em mente que iniciativas de jornalismo independente que vão se espalhando pelo Brasil são elementos reais de democratização da comunicação no país e estão desconstruindo paradigmas. Como aquele que associa o “jornalismo objetivo” a empresas comerciais que visam ao lucro e que seriam capazes de mobilizar seus valores normativos para escapar de pressões indevidas. A força do mercado, então, regularia o bom jornalismo.</p>
<p>No Brasil, os recursos captados pela maior parte da mídia independente buscam a sustentabilidade econômica de seus empreendimentos jornalísticos, enquanto que as empresas tradicionais de comunicação buscam a rentabilidade para a distribuição de dividendos a seus acionistas. Isso faz uma grande diferença, considerando que os principais donos e acionistas dos veículos tradicionais são grandes empresários, políticos e igrejas.</p>
<p>Faz diferença também porque os proprietários da grande mídia muitas vezes mantêm negócios em outros ramos da economia, como educação, saúde, mercado financeiro, mercado imobiliário e agronegócio. Conflitos de interesses que, na maioria dos casos, não ficam claros para os consumidores de notícias desses veículos.</p>
<p>Quando o assunto é financiamento, os desafios são enormes para a mídia independente. Não só pela escassez de recursos, mas também quando há excesso. Isso porque grandes empresas, como a Coca Cola, e os grandes players digitais como o Google, o Facebook e o Twitter têm se apresentado para financiar esse tipo de iniciativa. Nesse sentido, não podemos esquecer o papel que esses players digitais têm jogado na criação de bolhas na internet (as conhecidas câmaras de eco), no modelo de negócios remunerado por clic (um incentivador à proliferação de desinformação na rede) e na captura e comercialização de informações pessoais dos usuários, sem falar na falta de transparência no funcionamento dos algoritmos que organizam e distribuem conteúdos nas mídias sociais.</p>
<p>É importante estarmos atentos para o tipo de ecossistema de mídia que construiremos a partir de arranjos desse tipo. Atentos também à concentração de recursos de fundações internacionais e nacionais para veículos independentes do eixo Rio-São Paulo, como já acontece com os fundos disponibilizados pelos grandes players digitais. Atentos especialmente para que esse novo ecossistema que vai se estabelecendo não siga o modelo da mídia tradicional, com concentração de financiamento que reverbere na concentração de iniciativas no Sudeste e num certo controle editorial, nos moldes de cabeças de rede, sobre as iniciativas regionais.</p>
<p>O modelo de comunicação de massa tradicional no Brasil está fortemente baseado na propriedade cruzada de meios, quando um grupo detém veículos em mais de uma mídia &#8211; como rádio, TV e jornal &#8211; no mesmo mercado. A concentração de propriedade gera concentração de audiência e coloca em risco a pluralidade no campo da comunicação como constatou o levantamento realizado pelo projeto <a href="https://brazil.mom-rsf.org/br/">Media Ownership Monitor Brasil 2017</a>, parceria entre o Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social e o Repórteres sem Fronteiras: Na TV, as quatro maiores emissoras (Globo, SBT, Record e Bandeirantes), todas sediadas no eixo Rio-São Paulo, detêm mais de 70% de toda a audiência.</p>
<h2>Jornalismo e construção de consensos</h2>
<p>Quando dizemos que o jornalismo é um campo em disputa é por entender que a ação da mídia tem a capacidade de legitimar ou deslegitimar representações da sociedade que influem direta ou indiretamente em como as pessoas constroem suas empatias sociais e políticas. De acordo com os professores de Ciência Política na Universidade de Brasília, Flávia Biroli e Luis Felipe Miguel:</p>
<blockquote><p>“Quando consideramos que não existe um discurso hegemônico estável e estruturado de maneira permanente, o trabalho cotidiano dos jornalistas é o de lapidar consensos. Isso pode corresponder à acomodação dos conflitos entre segmentos (ou classes) sociais diferentes em representações do bem comum – ou seja, à sua organização em uma gramática moral comum que neutraliza os conflitos. E o jornalismo pode também e, concomitantemente, assumir o papel de árbitro nas disputas entre as elites políticas. Neste caso, o trabalho consistiria em atribuir significados ao comportamento dos atores e ao funcionamento das instituições, colando a eles julgamentos que exibem, diante do público, seu grau de adequação às práticas que seriam incontestavelmente adequadas e aos valores tidos como universais”.</p></blockquote>
<p>A chegada de novos atores no campo do jornalismo, disputando narrativas e colocando em xeque os consensos construídos a partir de supostos valores universais, mexeu com segmentos importantes da mídia tradicional. A reação de parte da grande mídia à divulgação pelo The Intercept das conversas entre os procuradores de Curitiba e o juiz Sérgio Moro pelo telegram, na Vaza Jato, é o exemplo mais relevante dessa reação, como já foi citado. Todas as baterias centradas em desacreditar as mensagens e criminalizar o trabalho jornalístico de um veículo independente a partir de material repassado por fonte anônima com evidente interesse público. O mesmo discurso das autoridades que tiveram seus desvios éticos revelados.</p>
<p>Não por acaso, as revelações do The Intercept colocaram na defensiva, pela primeira vez desde 2015, parte importante dos atores públicos que conduziram a agenda política nacional entre o impeachment da ex-presidenta Dilma Rousseff até a eleição de Bolsonaro, em 2018, comprometendo de forma inédita, no período, o agendamento do debate nacional pela grande mídia. Os questionamentos incisivos dos colegas jornalistas na bancada do programa Roda Viva a Glenn Greenwald são a imagem-síntese desse esforço de deslegitimação.</p>
<p>Esforço que visa classificar o conteúdo produzido pela mídia independente como ativismo, a serviço de grupos e movimentos políticos. Fora dos supostos parâmetros de objetividade e neutralidade que ela mesma (grande mídia) praticaria.</p>
<p>No final de 2018, portanto antes das revelações da Vaza Jato, a Folha de S. Paulo lançou uma campanha de assinatura onde pregava que “o jornalismo profissional é a melhor defesa da democracia”. A expressão “jornalismo profissional” como garantidor da democracia foi também o mote das comemorações dos 50 anos do Jornal Nacional da Rede Globo, no início de setembro de 2019.</p>
<p>Em <a href="https://medium.com/@ninaweingrill/falta-generosidade-no-jornalismo-profissional-brasileiro-48ce4ae043da">artigo publicado na plataforma Medium</a>, em novembro de 2018, ainda sob o calor da campanha da Folha, a editora da Enóis Conteúdo, uma bem-sucedida iniciativa de formação para a prática de jornalismo independente no país, Nina Weingrill (2018), criticava a “falta de generosidade” no chamado “jornalismo profissional” brasileiro.</p>
<blockquote><p>“Me parece que no Brasil estamos – como jornalistas – fazendo uma grande confusão que mais atrapalha do que ajuda não-jornalistas a entenderem o que é jornalismo. Quando a Folha qualifica seu jornalismo como ´profissional´, ela está querendo criar uma diferenciação. Como se houvesse um tipo de jornalismo amador ou não-profissional. Quero acreditar que ela faz isso para se distanciar dos sites que poluem nossas redes com notícias falsas e desinformação. Acontece que ao fazer isso ela também desqualifica, em muitas instâncias, todos os sites que estão no mapa de jornalismo independente da Pública – porque não possuem grandes estruturas, porque têm colaboradores voluntários, ou porque não são veículos da chamada mídia tradicional. Mas que, no entanto, também estão fazendo jornalismo”.</p></blockquote>
<p>A postura da Folha de S. Paulo no caso da Vaza Jato mostra que é, sim, possível estabelecer pontes entre a nova mídia e a mídia tradicional já estabelecida. O jornal foi o primeiro a fechar parceria com o The Intercept para apuração e publicação colaborativa das conversas vazadas. Viu o que de fato existia ali, jornalismo de qualidade e amplo material de interesse público. Seguiram-se parcerias do The Intercept com Reinaldo Azevedo, Revista Veja e, até o momento, com a Agência Pública. Esta última um veículo de mídia independente nativo digital.</p>
<p>A parceria funciona como uma vacina aos questionamentos sobre a veracidade dos diálogos – agora sob escrutínio de jornalistas da grande mídia – e monta uma rede de proteção institucional contra retaliações judiciais ou políticas do aparato do Estado e das autoridades públicas expostas nas conversas. No caso dos veículos corporativos situados no campo político conservador, como é o caso da Revista Veja, a parceria tem ainda a função de fazer o material circular entre o público apoiador do governo Jair Bolsonaro, para além da bolha crítica ao bolsonarismo.</p>
<h2>O ataque por dentro das instituições</h2>
<p>São muitos os desafios que estão postos no campo da comunicação e da política no Brasil atual governado por um presidente cuja plataforma de governo é retirar direitos adquiridos, promover o ódio entre adversários políticos para manter acesa a chama do seu núcleo duro de apoio, fragilizar ainda mais a posição social de grupos vulneráveis &#8211; como os indígenas, quilombolas e população LGBTQI &#8211; e cumprir a agenda econômica liberal de precarização do trabalho, privatização de áreas estratégicas do Estado brasileiro e subserviência a interesses do capital internacional.</p>
<p>Num ambiente em que a mídia corporativa disseminou por anos a ideia de que a política institucional está tomada por personagens corruptos, deslegitimou os movimentos sociais de contestação à violação de direitos e propagou que os valores da iniciativa privada se sobrepõem àqueles de interesse público, tudo fica ainda mais difícil.</p>
<p>“O risco, diante da ofensiva do bolsonarismo, é que a defesa da democracia pareça uma tentativa de proteger os defeitos do sistema político brasileiro”, avalia o sociólogo Celso Rocha de Barros no artigo Uma história de dois azares e um impeachment, publicado no livro Democracia em Risco? &#8211; 22 ensaios sobre o Brasil hoje (2019).</p>
<p>É preciso entender que o avanço do conservadorismo, no entanto, é um fenômeno internacional, como explica o professor emérito do Departamento de Filosofia da USP Ruy Fausto no artigo Depois do Temporal, do mesmo livro Democracia em Risco: “A vitória da extrema direita no Brasil se inscreve num movimento mundial de forças anti-emancipatórias. Seu segredo não é a liquidação direta e imediata da democracia, mas sua ocupação”.</p>
<p>Ao “ocupar a democracia”, dando ares de legalidade e legitimidade à quebra da institucionalidade por dentro, as lideranças conservadoras e autoritárias como Trump e Bolsonaro impõem desafios enormes aos defensores do Estado Democrático de Direito. Desafios que passam pela construção de novos significados sociais para fazer frente à narrativa autoritária, pela construção de conteúdos jornalísticos que denunciem e exponham os ataques à democracia e não os naturalizem.</p>
<p>No campo da legislação em comunicação há uma extensa agenda a ser seguida para proteger a democracia brasileira e que inclui preservar e fazer valer a Lei Geral de Proteção de Dados; defender o Marco Civil da Internet; discutir uma legislação que dê mais transparência e responsabilidade à organização dos fluxos de informação nas plataformas digitais; e regulamentar e cumprir os artigos do capítulo V da Constituição Federal, que proíbem, entre outras coisas, a censura e o monopólio da comunicação e preveem a complementaridade entre os sistemas público, estatal e privado na radiodifusão.</p>
<p>O fortalecimento da mídia independente se insere nessa agenda de democratização da comunicação no país. Precisamos de mais e não de menos jornalismo. De mais e não de menos vozes, rostos e pontos de vista colocados no debate público. E é bom que esse jornalismo independente seja diverso nas pautas, nos públicos, nos enfoques, nos territórios, nas linguagens e nas formas de financiamento. E dependente dos fatos. Para que reponha o jornalismo brasileiro no seu devido lugar de fiscal dos poderes privados e públicos constituídos e defensor dos direitos humanos e da democracia.</p>
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