Já se vão quase 30 anos de formação em jornalismo e uma questão sempre me intrigou durante a maior parte desse tempo: como nós jornalistas escrevíamos e analisávamos criticamente sobre tudo no mundo e nos dedicávamos tão pouco a refletir a respeito de nosso próprio trabalho, sendo condescendentes com erros grotescos e desvios éticos. E, confessemos, até apoio a regimes autoritários.

Esses problemas seguem firmes e fortes, agravados pelo imediatismo insano imposto pelo mundo digital, mas existem avanços a considerar. A academia se abre à sociedade e produz cada vez mais análise crítica sobre o fazer jornalístico, enquanto uma mídia independente vai se consolidando e tirando nossa profissão da zona de conforto que o mito da imparcialidade consagrou.

Toda essa reflexão me veio à mente quando soube do falecimento , na segunda (23), do professor e jornalista Nilson Lage, 84, vítima de um câncer de pulmão. Carioca, Lage começou a trabalhar nos anos 50, passou por jornais, revistas e TV. Graduado em Letras, mestre em Comunicação e doutor em Linguística lecionou, a partir dos anos 70, em seis universidades antes de se aposentar em 2006 na UFSC.

É autor de livros de referência sobre o jornalismo, tais como Ideologia e Técnica da Notícia (1979), Estrutura da Notícia (1987), Controle da Opinião Pública (1998) e A Reportagem: teoria e técnica da pesquisa jornalística (2001). Construiu uma teoria do jornalismo, a partir da prática, com apego aos fatos, mas reconhecendo as pressões objetivas e ideológicas às quais a narrativa jornalística está submetida, como os interesses das elites e a força do capital.

Em maio de 2016, escolhi seis pesquisadores para analisar a cobertura da mídia no processo de impeachment da então presidenta Dilma. Encabeçando a lista estava Nilson Lage. Nosso contato se deu por e-mail e ele só encaminhou as respostas por escrito às minhas perguntas quase um mês depois. Pediu desculpas listando outras tantas entrevistas e trabalhos que o tinham ocupado no período. “Se não deu tempo de publicar como programado, faça o uso que achar conveniente”, dizia.

A reportagem havia sido encomendada pela Revista Continente, que depois me comunicou que não publicaria mais o texto por falta de “condições políticas”, e ela acabou saindo – junto com as entrevistas – no site da Marco Zero Conteúdo.

Lage foi cirúrgico na sua análise sobre o papel da mídia na ruptura institucional quando perguntado sobre a Operação Lava Jato e o impeachment: “Não houve, a bem dizer, cobertura política… Por toda parte, jorrou propaganda, com informações mentirosas e vazamentos dirigidos. Movimentos de massas mereceram análises superficiais e convenientes. A mídia deixou de fornecer dados confiáveis ao historiador do futuro”.

Essa perspectiva de que a maneira como montamos as notícias no tempo presente vai impactar as visões e enquadramentos no futuro (depois de Temer temos Bolsonaro) é muito potente porque dá a nós, jornalistas, uma dimensão da responsabilidade política que gostamos de colocar sobre outros ombros.

Termino esse texto, que já está ficando longo, com as palavras da matemática Clara Lage, filha caçula do velho jornalista: “Meu pai me abriu caminhos para perguntas que sem ele eu talvez jamais faria e me deu ferramentas para respostas que vou buscar por toda minha vida”. Uma bela definição do potencial do jornalismo, hein?

Fica aqui um salve à memória de Nilson Lage.