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	<title>Marco Zero Conteúdo - Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</title>
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		<title>Doze mulheres chegam ao Senado. Por quais portas?</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 05 Oct 2026 21:42:58 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Por Ana Carolina Marsicano*e Maria Eduarda Antonino* O plenário do Senado brasileiro tem 81 cadeiras. Durante quase toda a história da República, nem se reuníssemos todas as mulheres que já haviam passado por elas conseguiríamos ocupá-lo inteiro. Isso mudou agora. Antes das eleições de 2026, apenas 78 mulheres haviam exercido o mandato de senadora em [&#8230;]</p>
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<p><strong>Por <em>Ana Carolina Marsicano</em>*<em>e Maria Eduarda Antonino</em>*</strong></p>



<p>O plenário do Senado brasileiro tem 81 cadeiras. Durante quase toda a história da República, nem se reuníssemos todas as mulheres que já haviam passado por elas conseguiríamos ocupá-lo inteiro. Isso mudou agora. Antes das eleições de 2026, apenas 78 mulheres haviam exercido o mandato de senadora em mais de dois séculos de história da Casa. Com as 12 eleitas neste domingo, o número chegou a 90. Pela primeira vez, se todas as senadoras da história brasileira pudessem ocupar o plenário ao mesmo tempo, faltariam cadeiras para elas. A imagem ajuda a medir o tamanho da ausência.<br><br>Desde a criação do Senado, em 1826, mais de mil homens passaram pela Casa. Uma mulher só ocuparia uma de suas cadeiras 153 anos depois. Em 1979, Eunice Michiles, da Arena, tornou-se a primeira senadora do Brasil. Não havia sido eleita titular: era suplente de João Bosco de Lima e assumiu após a morte dele. Uma de suas primeiras propostas buscava retirar do Código Civil o dispositivo que permitia ao marido pedir a anulação do casamento caso descobrisse que a mulher não era virgem.</p>



<p>Dois anos depois, outra morte abriu caminho para a segunda mulher no Senado. Laélia de Alcântara, suplente de Adalberto Sena pelo Acre, tomou posse em 1981 e tornou-se também a primeira mulher negra a exercer o mandato. A instituição estava tão pouco preparada para recebê-la que, no juramento de posse, precisou declarar-se “senador”, no masculino. Durante seu curto mandato, defendeu o ingresso de mulheres na Aeronáutica e mudanças no Código Civil para dividir entre marido e mulher a direção da família. Por mais de uma década, a suplência seria uma das principais portas de entrada das mulheres no Senado. A barreira das urnas só foi rompida em 1990, quando Júnia Marise, por Minas Gerais, e Marluce Pinto, por Roraima, se tornaram as primeiras mulheres eleitas diretamente para a Casa.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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	                                        <p class="m-0">Antes das eleições de 2026, apenas 78 mulheres haviam exercido o mandato de senadora em mais de dois séculos de história do Senado.</p>
	                
                                            <span>Edilson Rodrigues/Agência Senado</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>A mudança ganhou outra dimensão em 1994. Benedita da Silva, Emília Fernandes, Marina Silva e Marluce Pinto conquistaram diretamente uma cadeira. Somadas a Júnia Marise, fizeram o Senado começar 1995 com cinco mulheres. Havia algo novo naquela geração. Marina Silva, seringueira do Acre e alfabetizada aos 16 anos, chegou aos 36 como a senadora mais jovem da República. Benedita da Silva, nascida na favela da Praia do Pinto e filha de uma lavadeira, tornou-se a primeira mulher negra eleita diretamente para o Senado. Mulheres começavam não apenas a conquistar suas próprias cadeiras, mas a chegar por caminhos que raramente conduziam até ali. </p>



<p>A arquitetura, no entanto, continuava contando outra história. O Congresso foi inaugurado em 1960, mas o banheiro feminino dentro do plenário do Senado só surgiu mais de meio século depois. Até então, as senadoras precisavam deixar o espaço das votações para usar outro sanitário. E até 1997 sequer podiam usar calças compridas no plenário. Em 2026, outro marco foi alcançado. <strong>Doze mulheres foram eleitas de uma só vez, o maior número desde a redemocratização. A partir de 2027, a bancada feminina deverá chegar a 18 senadoras.</strong> É um recorde histórico — e, ao mesmo tempo, apenas 22,2% das 81 cadeiras.</p>



<p>Mas há outra mudança importante. Durante décadas, a presença feminina pôde ser narrada como abertura progressiva de uma instituição construída por homens. Hoje, saber que mais mulheres chegaram já não basta para dizer em que direção política a Casa está se movendo. Entre as eleitas estão algumas das principais lideranças da direita brasileira. No Distrito Federal, pela primeira vez, as três cadeiras serão ocupadas simultaneamente por mulheres: Damares Alves, Michelle Bolsonaro e Bia Kicis, formando um núcleo expressivo da direita religiosa e bolsonarista. Depois de quase dois séculos perguntando <strong>quando as mulheres chegariam ao Senado</strong>, talvez seja hora de mudar a pergunta: <strong>elas chegaram. Mas que política chega com elas?</strong></p>



<p>As novas senadoras não chegam à Casa pelo mesmo caminho. Algumas acumulam décadas de mandatos e militância partidária; outras estrearam nas urnas após ocuparem posições de primeira-dama; há quem tenha transformado sobrenomes conhecidos em carreiras próprias e quem tenha crescido junto com a reorganização da direita na última década. </p>



<p>A ampliação da representação feminina, portanto, não produziu uma bancada homogênea. Entre as trajetórias mais longas está a de <strong>Luizianne Lins (Rede-CE)</strong>, que passou pela Câmara de Fortaleza, Assembleia Legislativa, Prefeitura da capital e Câmara dos Deputados. Sua atuação se vincula a proteção social, direitos das mulheres, educação, cultura e desenvolvimento regional. <strong>Marília Campos (PT-MG)</strong> também chega depois de décadas de construção política, iniciada no movimento estudantil e sindical e seguida por mandatos legislativos e quatro passagens pela Prefeitura de Contagem. Já <strong>Teresa Surita (MDB-RR)</strong> construiu seu principal capital político em sucessivos mandatos como prefeita de Boa Vista. Nos três casos, o Senado representa uma nova escala de carreiras já consolidadas.</p>



<p>Outras eleitas construíram projeção primeiro em funções não eletivas e redes familiares de poder. <strong>Gracinha Caiado (União-GO)</strong> disputou sua primeira eleição aos 67 anos, depois de passar pela União Democrática Ruralista, trabalhar nos escritórios políticos do marido, Ronaldo Caiado, e ganhar visibilidade como primeira-dama de Goiás e coordenadora das políticas sociais do governo. Sua vitória transformou em votos um capital acumulado entre agronegócio, gestão social e família política. Em Alagoas, <strong>Marina JHC (PSDB)</strong> também chega ao Senado na primeira disputa, após atuar como primeira-dama de Maceió. Sua campanha levou para a escala estadual programas ligados à primeira infância, autismo, saúde e empreendedorismo feminino. </p>



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	                                        <p class="m-0">Fonte: Agência Senado
</p>
	                
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>No Amapá, <strong>Rayssa Furlan (Podemos)</strong>, médica, ex-primeira-dama e ex-secretária municipal, conquistou seu primeiro mandato com uma agenda de saúde, inclusão e autonomia econômica das mulheres, ao mesmo tempo em que defende a exploração de petróleo na Margem Equatorial. A família também pesa na trajetória de <strong>Marília Arraes (PDT-PE)</strong>, mas de outra maneira. Bisneta de Miguel Arraes, herdou um sobrenome central na política pernambucana, porém construiu carreira própria como vereadora, deputada federal e candidata à Prefeitura do Recife e ao governo de Pernambuco. Sua trajetória combina herança política e autonomia eleitoral.</p>



<p>No Rio Grande do Norte, <strong>Samanda de Lula (PT)</strong> representa outra rota. Sua experiência eletiva é recente, mas a formação partidária vem dos anos 1990. Trabalhou por anos com Fátima Bezerra, ocupou cargos no governo estadual e presidiu o PT no estado. Eleita vereadora de Natal em 2024, chegou ao Senado dois anos depois, numa candidatura cuja associação ao lulismo aparece já no nome de urna.</p>



<p>Os patrimônios declarados também mostram a heterogeneidade do grupo. Entre os valores levantados, há uma distância que vai de <strong>R$ 476,7 mil</strong>, declarados por Samanda de Lula, a <strong>R$ 8,48 milhões</strong>, de Teresa Surita. Gracinha Caiado declarou cerca de R$ 3,94 milhões; Marília Arraes, R$ 2,6 milhões; Marília Campos, aproximadamente R$ 1,8 milhão; e Carol de Toni, R$ 1,41 milhão. O patrimônio, sozinho, não explica a força eleitoral dessas candidaturas, mas evidencia a diversidade de recursos combinados a redes familiares, estruturas partidárias e mandatos anteriores.<strong></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading"><a></a><strong>A força das mulheres da direita</strong></h2>



<p>Se a eleição ampliou a presença feminina, ela também deslocou essa representação para a direita. Entre as 12 eleitas, a maioria pertence a partidos situados à direita ou à centro-direita. O <strong>PL concentra três — Michelle Bolsonaro, Bia Kicis e Carol de Toni —</strong>, enquanto Republicanos, União Brasil, PSDB e Podemos elegeram uma representante cada. Juntas, essas siglas somam sete das 12 novas senadoras. À esquerda e centro-esquerda aparecem PT, Rede e PDT; o MDB ocupa posição mais ao centro. </p>



<p>O crescimento da bancada feminina, portanto, não correspondeu a uma inflexão progressista no Senado. No Distrito Federal, <strong>Michelle Bolsonaro e Bia Kicis</strong>, ambas do PL, expressam duas formas dessa ascensão. Michelle chega às urnas após ter sido primeira-dama do Brasil e presidente do PL Mulher. Sua candidatura articula capital familiar, liderança partidária e religião, combinando linguagem evangélica, defesa da vida desde a concepção, família, apoio a Israel e pautas de inclusão.</p>



<p>Bia Kicis, por sua vez, chega depois de dois mandatos como deputada federal e de uma carreira como procuradora. Católica, também mobiliza religião, mas sua atuação se organiza sobretudo em torno do conservadorismo moral e das disputas institucionais: oposição ao aborto e às políticas de identidade de gênero, defesa do acesso a armas, voto impresso, anistia aos condenados pelo 8 de janeiro, críticas ao STF e resistência à regulação das redes sociais. </p>



<p>Em Santa Catarina, <strong>Carol de Toni (PL)</strong> representa a rápida ascensão de uma liderança formada no ciclo político aberto em 2018. Em dez anos, passou de candidata a vereadora suplente em Chapecó a deputada federal, presidente da Comissão de Constituição e Justiça e senadora. No Acre, <strong>Mara Rocha (Republicanos)</strong> combina conservadorismo nos costumes e liberalismo econômico, com defesa da família, redução de impostos, acesso a armas, regularização fundiária e fortalecimento do setor rural.</p>



<p>A predominância da direita, porém, não se restringe ao bolsonarismo. Gracinha Caiado chega vinculada ao agronegócio e ao grupo político de Ronaldo Caiado; Marina JHC e Rayssa Furlan transformaram a projeção como primeiras-damas em candidaturas próprias, combinando agendas de cuidado com redes de poder já consolidadas. Há mais mulheres no Senado, mas elas carregam projetos políticos, bases sociais e trajetórias profundamente diferentes. <strong>Mais representação feminina não significa, por si só, maior peso de agendas progressistas de gênero.</strong></p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>As ausências também dizem muito</strong></h3>



<p>O deslocamento à direita também aparece quando se observa quem ficou de fora. Duas derrotas particularmente simbólicas foram as de <strong>Marina Silva (Rede)</strong> e <strong>Benedita da Silva (PT)</strong>, referências históricas da esquerda associadas, respectivamente, às agendas ambiental e socioambiental e às lutas por igualdade racial, direitos sociais e ampliação da representação política. O contraste é significativo: enquanto essas duas lideranças não chegaram ao Senado, cresceram as bancadas femininas de partidos de direita e centro-direita. De um lado, ficaram de fora trajetórias ligadas aos direitos sociais, ambientais e raciais; de outro, avançaram lideranças associadas ao conservadorismo moral, à segurança pública e, em alguns casos, à mobilização religiosa. </p>



<p>No Rio de Janeiro, a derrota de Benedita tem peso histórico adicional. Primeira mulher negra a ocupar uma cadeira no Senado, em 1994, ex-governadora, ministra e parlamentar com mais de quatro décadas de vida pública, ela ficou de fora em um estado onde as duas vagas foram conquistadas por candidatos do PL. Em São Paulo, a ausência de Marina Silva reduz no Senado uma das principais vozes nacionais ligadas à agenda climática e socioambiental. </p>



<p>O avanço numérico da representação feminina ocorreu, portanto, simultaneamente a uma recomposição ideológica da Casa em direção à direita. O contraste entre as ausências de Marina e Benedita e a entrada de Michelle Bolsonaro, Bia Kicis e Carol de Toni sintetiza essa mudança.<strong></strong></p>



<h3 class="wp-block-heading"><a></a><strong>Um mapa ainda desigual</strong></h3>



<p>O recorde também convive com uma grande ausência territorial. Em <strong>16 das 27 unidades da Federação</strong>, nenhuma das duas vagas ao Senado em disputa em 2026 foi conquistada por uma mulher. Amazonas, Bahia, Espírito Santo, Maranhão, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Paraná, Paraíba, Pará, Piauí, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Rondônia, São Paulo, Sergipe e Tocantins elegeram apenas homens. Isso não significa que esses estados nunca tenham tido senadoras. Vários já elegeram mulheres de projeção nacional, como Vanessa Grazziotin, Lídice da Mata, Rose de Freitas, Eliziane Gama, Simone Tebet, Gleisi Hoffmann, Daniella Ribeiro, Benedita da Silva, Ana Amélia Lemos, Maria do Carmo Alves e Kátia Abreu.</p>



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</p>
	                
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                    </figure>

	


<p>A exceção histórica é o <strong>Piauí</strong>, que se tornou o único estado do país que nunca elegeu diretamente uma mulher para o Senado. O recorde feminino, portanto, convive com uma representação territorial ainda desigual: mais da metade dos estados saiu da eleição sem acrescentar nenhuma mulher às suas bancadas.</p>



<p>A eleição de 2026 mostra que a pergunta já não pode ser apenas quantas mulheres foram eleitas. É preciso perguntar também <strong>quais mulheres chegam ao poder, por quais partidos, por quais caminhos, sustentadas por quais redes e levando que projetos políticos para o Senado</strong>. Em algumas trajetórias, a política municipal funcionou como escola e base eleitoral. Em outras, primeiras-damas transformaram visibilidade em votos. Há ainda o peso das famílias tradicionais, das máquinas partidárias, do sindicalismo e das novas redes conservadoras. <strong>O número de mulheres importa. Mas, para entender o Senado que emerge das urnas, é preciso olhar também para a política que essas mulheres representam.</strong></p>


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        <span class="titulo text-uppercase mb-2 d-block"></span>

	    <p>Ana Carolina Marsicano é pós doutoranda na UNICAMP e pesquisadora do Laboratório de Estudos de Religião e Política &#8211; Laberp, da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj).</p>
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<div class="text-lg leading-6 font-medium text-darker">Maria Eduarda Antonino é doutora em Sociologia pela Universidade Federal de Pernambuco e pesquisadora do Laberp.</div>
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		<title>A poupança que junta gente: o movimento das mulheres que transformou a Ilha de Deus</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Maria Carolina Santos]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 05 Jun 2026 19:45:30 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[empoderamento]]></category>
		<category><![CDATA[ilha de deus]]></category>
		<category><![CDATA[mulheres]]></category>
		<category><![CDATA[poupança comunitária]]></category>
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<p>O ano era 2008 e a comunidade pesqueira de Ilha de Deus vivia a efervescência de um processo de urbanização verdadeiramente participativo. A luta e a união da comunidade geraram uma promessa de campanha em 2006 do então candidato Eduardo Campos: transformar as precárias palafitas daquela área de estuário em uma vila com saneamento básico, serviços públicos e moradias dignas. Entre as muitas reuniões e encontros que aconteciam naquela época, uma atraiu as então pescadoras e donas de casa Elivânia Rocha e Maria de Fátima da Silva. Seria uma reunião fechada para organizações e coletivos que atuavam na comunidade, mas elas foram mesmo assim.</p>



<p>Lá, foi apresentado um projeto de empoderamento feminino e de gestão financeira que não interessou a nenhuma das organizações presentes naquela reunião. Mas fez os olhos das duas mulheres brilharem. “Na reunião tinha um rapaz de São Paulo que participava de uma poupança comunitária, então quando ele falou sobre como a comunidade se organizava para poupar, eu pensei: &#8216;e por que a gente não traz para a nossa comunidade?'&#8221;, lembra Elivânia.</p>



<p>Surgia assim a Poupança Comunitária da Ilha de Deus, a primeira experiência do tipo em Pernambuco. As atividades não começaram envolvendo diretamente dinheiro. Primeiro, as mulheres fizeram um censo na comunidade. </p>



<p>Cercada pela água dos manguezais, de três rios e do mar da Bacia do Pina, a Ilha de Deus tem apenas um acesso por via terrestre – a ponte Vitória das Mulheres, inaugurada em 2009. Mesmo sendo uma área pequena, de cerca de 10 hectares na parte urbana, as futuras tesoureiras encontraram muitos moradores que haviam ficado de fora do cadastro da prefeitura do Recife. “A gente achava que conhecia o vizinho do lado. Mas a partir desse censo, a gente pôde se conhecer melhor, conhecer o nosso território, as nossas reais necessidades. Muitas famílias não iam receber casas, mas acabaram ganhando lugar onde morar graças ao nosso censo”, relembra Maria de Fátima.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 ">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/06/ilha-de-deus-2.jpg" alt="A imagem mostra uma vista aérea da Ilha de Deus, uma comunidade ribeirinha localizada no Recife. Em primeiro plano, há uma praça circular com um mosaico colorido no chão, formado por triângulos em tons de vermelho, amarelo, verde e azul, lembrando uma flor ou um sol. No centro da praça, ergue-se um mastro de bandeira, e ao redor há degraus concêntricos que formam uma espécie de anfiteatro. À esquerda e ao fundo, vê-se um conjunto de casas simples com telhados de barro e paredes pintadas em cores variadas — azul, branco, bege — cercadas por árvores e vegetação. O céu está azul e repleto de nuvens brancas, e ao longe, na linha do horizonte, aparece o perfil moderno da cidade do Recife, com seus prédios altos contrastando com o ambiente mais tradicional e tranquilo da comunidade." class="w-100" loading="lazy" >
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	                                        <p class="m-0">A poupança comunitária ajudou a mudar a ilha desde que foi criada
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Com esse mapeamento da população, chegou a hora de entrar em campo para fazer com que as pessoas poupassem. Com cerca de 1,1 mil moradores em dados oficiais, as lideranças do projeto calculam que pelo menos 300 pessoas já foram poupadoras em algum momento. Qualquer pessoa da comunidade pode abrir uma caderneta, depositando o valor que quiser. O depósito é feito diretamente com uma das tesoureiras: cada um fica com um caderno onde os repasses são anotados.</p>



<p>“A gente sempre estimula que as pessoas façam também cadernetas coletivas, para juntar dinheiro para um objetivo em comum”, conta Maria de Fátima. Antes de entrar no grupo, cada poupador define um objetivo. Os mais frequentes são reformar a casa, fazer uma festa para o filho, comprar um eletrodoméstico, adquirir um barco. “Quando alguém vem sacar o dinheiro para outra coisa, a gente sempre lembra e reforça que estão poupando para um objetivo. Quando a Ilha de Deus não era urbanizada, muitos poupavam para ajeitar a casa, botar uma cerâmica, comprar algum móvel. Esses eram as metas mais comuns. E, quando eles vinham retirar o dinheiro, a gente dizia para esperar mais um pouquinho, não gastar e focar no objetivo”, lembra Elivânia.</p>


	<div class="informacao mx-md-5 px-5 py-4 my-5" style="--cat-color: #7BDDDD;">
		<span class="titulo text-uppercase mb-3 d-block">Poupar para fortalecer vínculos</span>

		<p>A poupança comunitária nasceu na Índia nos anos 1970, a partir de um grupo de mulheres de baixa renda que viviam em condições precárias e sofriam ameaças de despejo. Elas decidiram juntar o pouco dinheiro que sobrava do dia a dia para formar um fundo coletivo. Com ele, conseguiram construir suas próprias casas – priorizando as que estavam em situação de maior vulnerabilidade.</p>
<p>O modelo atravessou fronteiras e chegou ao Brasil disseminado pela Slum Dwellers International (SDI), organização presente em 33 países da África, Ásia e América Latina, formada por uma rede de entidades da sociedade civil e iniciativas populares baseadas na autogestão.</p>
<p>No Brasil, a metodologia é representada pela Rede Interação, associação sem fins lucrativos fundada em 2004 em São Paulo, que já atuou em mais de 70 cidades em 18 estados. Foi por meio dessa rede que a poupança comunitária chegou à Ilha de Deus, em Recife, em 2008, trazida por Lúcia Siqueira, coordenadora da Rede Interação no Recife, que conhecia lideranças locais envolvidas no processo de urbanização da ilha.</p>
<p>Segundo a Rede Interação, a poupança tem dois propósitos centrais: melhorar a gestão financeira individual e coletiva e, principalmente, construir relações de confiança e fortalecer vínculos dentro da comunidade. “Não é um projeto, mas um processo. A metodologia que trabalhamos com organização comunitária é apoiada em um tripé com poupança comunitária, intercâmbios e autorrecenseamento”, explica Lúcia. “Eu acredito muito nessa metodologia. Primeiro, porque não personifica em uma liderança só, tem como base a organização comunitária. E não é um projeto pontual, é algo que coloca o protagonismo nas mulheres, que eram donas de casa e aos poucos foram se empoderando”, afirma a coordenadora.</p>
	</div>



<p>O dinheiro é depositado pelas tesoureiras em uma conta não solidária da Caixa Econômica Federal, que é uma conta conjunta que exige a assinatura de todos os envolvidos para fazer a retirada do dinheiro. Assim, quando um poupador avisa que pretende sacar o dinheiro que juntou, é preciso que as três tesoureiras do grupo compareçam juntas ao banco.</p>



<p>É um mecanismo que ajuda a evitar compras por impulso, ainda mais quando se leva em conta o índice de endividamento de 80,2% das famílias brasileiras registrado em março de 2026, o maior da série histórica iniciada em 2010, segundo a Confederação Nacional do Comércio. “Tem gente que tem cartão de crédito e pede para abrir uma poupança porque sabe que aqui consegue juntar o dinheiro”, conta Ana Mirtes Ferreira. “Essa exigência também ajuda as pessoas que já estão viciadas nesse negócio de jogo de tigrinho e nessas bets a economizar alguma coisa”, diz Fátima.</p>



<figure class="wp-block-embed aligncenter is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<div class="ratio ratio-16x9"><iframe title="A poupança que junta gente: o movimento das mulheres que transformou a Ilha de Deus" width="500" height="281" src="https://www.youtube.com/embed/QU9KVJXnAKY?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
</div></figure>



<h2 class="wp-block-heading">Poupança ajuda a realizar sonhos</h2>



<p>Na Ilha de Deus, a maioria da população está envolvida de um jeito ou de outro com a pesca. A compra de um barco significa independência e a possibilidade de fazer um dinheiro rápido e certo. &#8220;Tem pessoas que têm cursos técnicos, formações de grau superior e, mesmo assim, pescam. A maré dá essa estabilidade para o pescador de fazer o seu horário, de não ter necessidade de bater ponto, nem de dar satisfação a ninguém”, diz Fátima.</p>



<p>Mãe solo de quatro filhos, Noêmia Fernandes dos Santos passava os dias nas águas da bacia do Pina e do porto do Recife. Ia em busca do sururu, que por tantos anos sustentou a família dela e de tantas outras mulheres da comunidade, mas lida diária era prejudicada por não ter um barco próprio: um balde de sururu ou marisco era usado como pagamento para o usar o barco dos outros.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 ">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/06/ilha-de-deus-1.jpg" alt="A imagem mostra uma cena tranquila à beira de um rio, onde um homem e uma criança observam um pequeno barco que navega lentamente pela água. O homem está de pé, descalço, usando uma camiseta vermelha e preta com o número 7 nas costas, um chapéu azul e segurando um galão azul na mão direita. Ao seu lado, a criança está sentada, vestindo uma camiseta colorida com números e letras e um chapéu de aba larga. No fundo, o barco de madeira leva duas pessoas — uma de camisa cinza e outra de camisa rosa — enquanto a margem oposta é coberta por vegetação verde e densa, provavelmente um manguezal. A cena transmite calma e simplicidade, como um momento cotidiano de contemplação entre o adulto e a criança diante do movimento sereno do rio." class="w-100" loading="lazy" >
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	                                        <p class="m-0">Possuir um barco significa a garantia de autonomia para quem vive da pesca
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>“Com muita dificuldade, fui economizando pouco a pouco, a poupança me ajudou a ter meu próprio barco. Confesso que foi muito difícil, porque criei quatro filhos sozinha, sem ajuda de ninguém”, conta Noêmia. “A minha trajetória de economizar meu trocado para fazer um barco para mim serviu para incentivar outras mulheres a economizarem também”, diz ela, que, em 2012, se tornou uma das tesoureiras do projeto. “Já teve muitas mulheres que pouparam comigo. Umas fizeram barco, outras construíram um muro ou reformaram a casa”.</p>



<p>Para ela, a poupança comunitária transformou mais do que a parte financeira. &#8220;Antes da poupança eu era dona de casa, pescadora, não participava de nada, não tinha vez e voz para nada. Quando comecei a formar grupos de poupança, veio fortalecimento tanto para mim como para outras mulheres”, reforça.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Da Ilha de Deus para o mundo</strong></h2>



<p>As líderes da poupança comunitária já fizeram intercâmbios em vários países, como Bolívia, África do Sul, Filipinas e Índia, para conhecer como funciona a poupança nesses países e trazer novas experiências para a Ilha de Deus. São lugares em que a vida é ainda mais difícil do que na Ilha de Deus – onde quase todo mundo tem casa de alvenaria com saneamento básico, há creche e posto de saúde para atender a comunidade.</p>



<p>Quando Fátima foi visitar a Índia, conheceu mulheres que faziam grupos de poupança para construir banheiros nas casas delas. “Elas poupam também para alimentação, para fazer sua moradia. Quando fui para a Índia, o que mais me interessou é que muitas delas não sabiam ler nem escrever, então usavam os lenços delas para usar como medida, no lugar da fita métrica, nas construções que faziam”, lembra a líder comunitária. “Muitas poupavam também para comprar comida em grande quantidade e, assim, economizar”, acrescenta.</p>



<p>Na Ilha de Deus, as necessidades também não são as mesmas de 18 anos atrás. Antes e durante a urbanização, que foi entregue em três etapas, fazer reformas e reparos nas casas eram os principais objetivos. Isso mudou com a entrega das casas aos moradores. “Em países como a Índia não existem as políticas públicas que a gente tem aqui, como habitação, benefícios sociais como o Bolsa Família, escola pública para todo mundo. Então lá as mulheres têm mais necessidades e levam mais a sério o hábito de poupar, porque eles poupam para construir, para educação. Aqui, com as melhorias que tivemos, já se poupa para algo individual”, compara Mirtes.</p>



<h3 class="wp-block-heading">O futuro da poupança comunitária</h3>



<p>Na terceira vez que foi para a África do Sul, Fátima não viajou sozinha. Ao lado dela foram quatro jovens de outras comunidades do Grande Recife: Ilha de Deus, Caranguejo Tabaiares, Afogados e Tururu, em Paulista. Lá, conheceram experiências de jovens que se juntavam e poupavam um dólar por semana para produzir vídeos de conscientização sobre a importância da reciclagem, por exemplo.</p>



<p>A poupança jovem é vista pelas mulheres como uma forma de mobilizar o futuro da Ilha de Deus e fomentar novas lideranças. “Trabalhamos com temáticas. Por exemplo, pegamos o tema do direito da juventude e levamos os adolescentes para participar de fóruns da juventude, seminários, tudo voltado para que eles possam entender que existe uma lei que assegura os direitos da juventude na cidade do Recife. Os jovens começaram a se interessar e foram convidando um amigo, convidando outro e assim está crescendo”, diz Mirtes.</p>



<p>O tema das mudanças climáticas também é forte nas ações da Poupança Comunitária. “Não é só sobre dinheiro. O nosso objetivo principal é juntar as pessoas, formar novas lideranças. Mobilizar a comunidade para pensar sobre o futuro, pensar em modificar a nossa realidade juntos. Para a gente, é de extrema importância trabalhar com a juventude, porque eles darão continuidade a essa mobilização. O nosso trabalho não vai parar, nem vai morrer com a gente”, afirma Mirtes.</p>


    <div class="box-explicacao mx-md-5 px-4 py-3 my-3" style="--cat-color: #1E69FA;">
        <span class="titulo"><+></span>

        <div class="int mx-auto">
	        <p>Quem quiser apoiar as ações da Poupança Comunitária pode fazer uma doação via Pix: <a class="underline underline underline-offset-2 decoration-1 decoration-current/40 hover:decoration-current focus:decoration-current" href="mailto:noemiafsantoslinda@gmail.com">noemiafsantoslinda@gmail.com</a></p>
        </div>
    </div>
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		<title>Pesquisa quer escutar mulheres trabalhadoras do terceiro setor no Brasil</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Jeniffer Oliveira]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 25 Feb 2026 18:30:14 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[movimento social]]></category>
		<category><![CDATA[mulheres]]></category>
		<category><![CDATA[terceiro setor]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A pesquisa nacional inédita “Senso Mulheres do Terceiro Setor” está em andamento para ouvir e registrar as experiências das mulheres que atuam no chamado terceiro setor brasileiro. A iniciativa é conduzida pelo Instituto Incube, Gênero e Número e Instituto Lamparina, que convidam as trabalhadoras de organizações da sociedade civil a responderem um questionário online. Segundo [&#8230;]</p>
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<p>A pesquisa nacional inédita “Senso Mulheres do Terceiro Setor” está em andamento para ouvir e registrar as experiências das mulheres que atuam no chamado terceiro setor brasileiro. A iniciativa é conduzida pelo Instituto Incube, Gênero e Número e Instituto Lamparina, que convidam as trabalhadoras de organizações da sociedade civil a responderem um questionário <a href="https://pt.surveymonkey.com/r/Mulheres-Terceiro-Setor" type="link" id="https://pt.surveymonkey.com/r/Mulheres-Terceiro-Setor" target="_blank" rel="noreferrer noopener">online</a>. Segundo dados da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS), do Ministério do Trabalho e Emprego, elas representam 65% da força de trabalho nesse campo, mas ainda são pouco ouvidas sobre suas condições e trajetórias.</p>



<p>A participação é aberta a mulheres em qualquer função e em diferentes tipos de organizações da sociedade civil. O levantamento busca compreender desigualdades, sobrecargas, percursos militantes e os atravessamentos de gênero, raça e geração que impactam suas vidas dentro e fora do ambiente institucional. </p>



<p>O questionário é voluntário e gratuito, e quanto mais diversa for a adesão, mais fiel será o retrato produzido. Os resultados, previstos para o segundo semestre de 2026, serão divulgados em relatório público e servirão de base para reportagens, análises e debates sobre trabalho, desigualdades e o papel do Terceiro Setor no Brasil.</p>



<p>O nome da pesquisa, escrito com “S” e não com “C”, é proposital, segundo os organizadores, remete a sentir, perceber e refletir. Mais do que coletar dados, o objetivo é registrar histórias, sensações e desafios enfrentados por mulheres que sustentam o trabalho social no país, muitas vezes invisibilizadas em levantamentos tradicionais.</p>
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		<title>Livro abre arquivos da DOPS-PE e revela histórias inéditas de mulheres na ditadura Vargas</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Maria Carolina Santos]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 29 Dec 2025 13:09:37 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[arquivo]]></category>
		<category><![CDATA[comunismo]]></category>
		<category><![CDATA[ditadura]]></category>
		<category><![CDATA[era vargas]]></category>
		<category><![CDATA[livro]]></category>
		<category><![CDATA[mulheres]]></category>
		<category><![CDATA[repressão]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Em 1931, foi criada em Pernambuco a Seção de Ordem Política e Social, que surgiu junto com a Secretaria da Segurança Pública do estado. Em 1934, a Inspetoria de Ordem Política e Social. Um ano depois, a Delegacia de Ordem Política e Social, a famosa DOPS, que só foi extinta em 1990, por decreto do [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Em 1931, foi criada em Pernambuco a Seção de Ordem Política e Social, que surgiu junto com a Secretaria da Segurança Pública do estado. Em 1934, a Inspetoria de Ordem Política e Social. Um ano depois, a Delegacia de Ordem Política e Social, a famosa DOPS, que só foi extinta em 1990, por decreto do então governador Miguel Arraes. Lançado no final de 2025, o livro online <em>Mulheres e Resistências &#8211; caminhos de insubmissão nos arquivos da Delegacia de Ordem Política e Social de Pernambuco</em> mergulha nos arquivos dos anos iniciais da DOPS até 1946 com um recorte original: as mulheres que foram fichadas em Pernambuco durante a ditadura do Estado Novo, os anos mais autoritários de Getúlio Vargas no poder.</p>



<p>O livro, <a href="https://drive.google.com/file/d/1Ctwfr02tMQQEReieNdqUZl6YMMjupuYF/view?usp=sharing" target="_blank" rel="noreferrer noopener">de acesso gratuito por meio deste link</a>, foi idealizado pela jornalista e produtora cultural Clarice Hoffmann, responsável também pela sistematização dos dados dos cerca de 400 prontuários analisados, e traz ensaios das sociólogas Anita Pequeno e Sophia Branco. Os prontuários da DOPS estão no Arquivo Público de Pernambuco, no centro do Recife, e foram digitalizados em 2017.</p>



<p>O livro foi lançado em 16 de dezembro com uma mesa de debates no auditório do Arquivo Público, com a participação das autoras e mediação de Maria Betânia Ávila, uma das fundadoras do SOS Corpo – Instituto Feminista para a Democracia. Na mesa, ela falou sobre o apagamento da memória e o silenciamento das vozes femininas. </p>



<p>“Esse apagamento é ferramenta histórica de regimes autoritários para manter estruturas de poder, ao excluir as mulheres da narrativa oficial da resistência. Tradicionalmente, a história do Brasil, seja da repressão ou do exílio, é contada a partir de uma perspectiva masculina, enquanto as mulheres foram frequentemente reduzidas a um papel biológico ou natural, o que as situava fora do processo histórico. Esse mecanismo, sustentado pelo patriarcado, pelo capitalismo e pelo racismo, busca negar às mulheres o status de sujeitos sócio-históricos e políticos, consolidando uma dominação que é também de natureza colonial e epistemológica”, disse.</p>



<p>Para Sophia Branco, esse material é uma oportunidade de ter acesso a uma parte da vida política do Recife pouco conhecida, que é a atuação de mulheres comunistas em classes populares. “Mulheres negras, operárias, tecelãs, lavadeiras e de várias outras ocupações que se organizavam em associações, em sindicatos, que se organizavam em partidos. E eram perseguidas porque se organizavam politicamente, porque estavam em reuniões, nas ruas, porque recebiam e distribuíam jornais . Quando se pensa na memória da atuação comunista, que foi muito efervescente na cidade do Recife, se pensa no nome de comunistas homens, e não em mulheres, sobretudo não em mulheres com esse perfil social”, afirmou a socióloga na mesa de lançamento do livro, no Arquivo Público de Pernambuco.</p>


	<div class="informacao mx-md-5 px-5 py-4 my-5" style="--cat-color: #7BDDDD;">
		<span class="titulo text-uppercase mb-3 d-block">Onde ler o livro Mulheres e Resistências:</span>

		<p><span style="font-weight: 400;">O e-book está disponibilizado gratuitamente através de link no perfil </span><a href="https://www.instagram.com/mulhereseresistencias" target="_blank" rel="noopener"><span style="font-weight: 400;">@mulhereseresistencias </span></a><span style="font-weight: 400;">e </span><a href="https://www.instagram.com/arquivopublicodepernambuco" target="_blank" rel="noopener"><span style="font-weight: 400;">@arquivopublicodepernambuco </span></a>no<span style="font-weight: 400;"> Instagram. <a href="https://drive.google.com/file/d/1Ctwfr02tMQQEReieNdqUZl6YMMjupuYF/view?usp=sharing" target="_blank" rel="noopener">Também está neste link aqui</a>. Todas as imagens do livro são audiodescritas, possibilitando o acesso de pessoas com deficiência visual. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O projeto</span><i><span style="font-weight: 400;"> Mulheres e Resistências </span></i><span style="font-weight: 400;">foi contemplado no Edital de Ações Criativas LPG e conta com o apoio do Arquivo Público Estadual Jordão Emerenciano (Apeje) e o incentivo do Governo do Estado de Pernambuco e Ministério da Cultura.</span></p>
	</div>



<p>Entre as várias mulheres citadas no livro, estão também figuras históricas como Adalgisa Cavalcanti – a primeira mulher eleita deputada estadual na história da Assembleia Legislativa de Pernambuco (Alepe), em 1947, e que inspirou o <a href="https://marcozero.org/category/adalgisas/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">projeto Adalgisas, da Marco Zero</a> – e a primeira vereadora do Recife, Júlia Santiago. Ambas eram mulheres negras, comunistas e que tiveram suas rotinas monitoradas pela polícia.</p>



<p>O DOPS-PE possuía centenas de páginas sobre Adalgisa Cavalcanti, revelando que ela foi vigiada pela polícia por décadas, inclusive durante seus mandatos parlamentares. Os delegados da DOPS a descreviam com preconceito, afirmando que ela &#8220;relegava a vida doméstica a um plano secundário&#8221; em favor do comunismo. “Bem que dona Adalgisa já se aproximando dos seus sessenta anos assaz vividos, poderia estar ao lado do seu marido, cuidando do bom velho, fazendo tricô e ouvindo novela. Mas, qual o que, prefere andar por aí afora, tramando contra tudo e contra todos […] Tem jeito não, para dona Adalgisa.”, diz trecho de um pedido de prisão contra ela.</p>



<p>“Assim como esse, existem outros exemplos desses julgamentos morais sobre a conduta dessas mulheres. É um relato quase cômico, mas é importante que se diga que esse tipo de gesto estava muito mais próximo da perversidade do que da loucura ou da graça”, contextualizou Sophia no evento. “Esse mesmo delegado, Álvaro Gonçalves da Costa Lima, por exemplo, está na lista dos torturadores da ditadura militar que foram denunciados na Comissão Estadual da Verdade”, disse.</p>



<p>A socióloga Anita Pequeno lembrou que o anticomunismo tem uma forte dimensão moral: no discurso oficial da Era Vargas, o comunismo era acusado de destruir famílias e desvirtuar homens e mulheres. Misoginia e anticomunismo caminhavam juntos. “No contexto específico da Era Vargas, a mulher aparece como muito fundamental, quase como o sustento da nação. Mas qual mulher? A mãe de família, a mulher que seria responsável pelo governo do lar. É quase aquela expressão: &#8216;bela, recatada e do lar&#8217;. Então, se esperava que a mulher encarnasse esse ideal público. Que a honra dessa mulher fosse a própria encarnação da moral pública. As mulheres que apresentassem qualquer dissidência – como algumas que foram listadas associadas à prostituição, ou mulheres que perdiam a virgindade muito cedo – eram assunto de polícia. A virgindade das mulheres era assunto de polícia porque a honra delas tinha a ver com a honra pública”, afirmou Anita Pequeno no evento de lançamento do livro.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Complacência com as mulheres nazistas</h2>



<p>Apesar das afinidades ideológicas de Vargas com o nazifascismo, em 1942 o Brasil entrou na II Guerra Mundial contra os países do Eixo. Com isso, a repressão política em Pernambuco passou a focar intensamente em mulheres estrangeiras (sobretudo alemãs, italianas e japonesas) sob suspeita de espionagem e nazismo.</p>



<p>Na ficha da alemã Hertha Dorotea Sachser está escrito, que em sua declaração, ela afirmou que “como alemã, consequentemente, é nazista e que tem certeza da vitória da Alemanha. Diz que não praticou nenhum ato de espionagem, mas que considera o espião um bom patriota”.</p>



<p>Mas há uma grande diferença entre o tratamento da polícia com essas mulheres e com o das mulheres brasileiras comunistas da classe operária. “É interessante a dinâmica que se dá aqui em Pernambuco. Essas mulheres, as que eram nazistas de fato, tinham uma ideia de que eram superiores de tal forma que elas diziam isso na cara dos policiais. E a impressão que dá é que os policiais concordavam que elas eram melhores que eles. Os policiais eram muito mais complacentes com elas. Então, essa dinâmica racial também estava apresentada”, disse Anita Pequeno.</p>



<p>No último texto do livro, que se chama <em>Notas Cromáticas</em>, as pesquisadoras se dedicam a escrever sobre como era minuciosa a descrição dos corpos das mulheres que eram fichadas. “Nas mulheres mais pobres, essa parte da cor está sempre preenchida e nas outras nem tanto. Nós vimos que nas mulheres negras, nas mulheres racializadas, a semântica das cores era muito complexa”, disse Anita Pequeno.</p>



<p>“Termos tais como “parda”, “parda clara”, “parda escura”, “morena”, “branca trigueira”, “preta” e “preta fula” aparecem como marcas de uma lógica classificatória ambígua que, longe de neutralizar o racismo, o sofisticava. Historicamente, as gradações de cor, associadas ao acesso desigual à cidadania, pavimentaram o caminho para a formulação posterior do mito da democracia racial e buscavam fragmentar a identidade dessa parcela da população. Como sabemos, apesar dos malabarismos orquestrados pelo Estado para camuflar e perpetuar as hierarquias sociais, e mesmo com o fortalecimento do mito da democracia racial — forjado desde o Império e consolidado como ideologia nacional —, o racismo seguia operando de forma estruturante”, diz trecho do livro.</p>
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			</item>
		<item>
		<title>Sudene lança edital de R$ 4 milhões para projetos de inovação liderados por mulheres</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 05 Mar 2024 21:59:36 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Diversidade]]></category>
		<category><![CDATA[governo Lula]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Com o objetivo de estimular propostas inovadoras para o desenvolvimento social e econômico e fortalecer o empreendedorismo feminino dos 11 estados, a Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene) lançou, nesta terça-feira, o edital Inova Mulher. O investimento da Sudene será de R$ 4 milhões e os projetos submetidos por empresas, cooperativas e associações de mulheres [&#8230;]</p>
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<p>Com o objetivo de estimular propostas inovadoras para o desenvolvimento social e econômico e fortalecer o empreendedorismo feminino dos 11 estados, a Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene) lançou, nesta terça-feira, o edital Inova Mulher. O investimento da Sudene será de R$ 4 milhões e os projetos submetidos por empresas, cooperativas e associações de mulheres devem oferecer propostas nas áreas de economia criativa, bioeconomia e educação.</p>



<p>Com a expectativa de que sejam desenvolvidos 51 projetos – cada um recebendo cerca de R$ 80 mil – o apoio será viabilizado por meio de chamada pública, que será executada com recursos oriundos de 1,5% do retorno das operações do Fundo de Desenvolvimento do Nordeste (FDNE). O edital será publicado na próxima sexta-feira, 08 de março, data em que começam as inscrições, se estendendo até o dia 22 de abril, e poderá ser acessado no site da Sudene. O resultado final deverá ser divulgado em 5 de julho.</p>



<p>Para participar da chamada pública, as iniciativas precisam ser gerenciadas e lideradas por mulheres ou por pessoas que pertençam a um grupo minoritário de gênero. A partir do edital, a Sudene espera contribuir, entre outras coisas, para a sustentabilidade ambiental, economia circular, atração de investimentos, ampliação do mercado de trabalho, valorização da mulher na sociedade, geração de emprego e renda, inclusão social e digital. </p>



<p>Segundo o superintendente da Sudene, Danilo Cabral, o lançamento do edital é “mais um passo que damos para reconectar a Autarquia com as pautas da sociedade. São 60 milhões de pessoas na área de atuação da Superintendência e 53% desse universo é formado por mulheres”.</p>
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		<title>Conheça a mulher que virou zeladora do cemitério para ficar perto do túmulo do filho</title>
		<link>https://marcozero.org/conheca-a-mulher-que-virou-zeladora-do-cemiterio-para-ficar-perto-do-tumulo-do-filho/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Géssica Amorim]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 21 Sep 2023 18:20:15 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Principal]]></category>
		<category><![CDATA[Reportagens]]></category>
		<category><![CDATA[Caruaru]]></category>
		<category><![CDATA[Coletivo Acauã]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Géssica Amorim, em parceira com o Coletivo Acauã Quem percorre as alamedas do cemitério São Roque, em Caruaru, para acompanhar um enterro ou visitar o túmulo de parentes, costuma encontrar uma mulher solitária, encurvada sobre os túmulos, regando e cuidando das flores que ela mesmo plantou. É comum confundi-la com uma funcionária da prefeitura, [&#8230;]</p>
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<p><strong>por Géssica Amorim, em parceira com o <a href="https://instagram.com/coletivoacaua?igshid=MzRlODBiNWFlZA==" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Coletivo Acauã</a></strong></p>



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<p>Quem percorre as alamedas do cemitério São Roque, em Caruaru, para acompanhar um enterro ou visitar o túmulo de parentes, costuma encontrar uma mulher solitária, encurvada sobre os túmulos, regando e cuidando das flores que ela mesmo plantou. É comum confundi-la com uma funcionária da prefeitura, mas, na verdade, aos 77 anos, Edite Maria não tem qualquer vínculo empregatício com o município, apesar de ter começado a “trabalhar” no cemitério em 1983.</p>



<p>A presença de Edite passou a ser uma constante no cemitério depois da morte do seu filho, Elenildo Lima, assassinado por engano aos 21 anos, numa encomenda de morte destinada a outra pessoa. “Ele ia entrar pro Exército, mas tiraram a vida dele. Foi por engano, eu não sei nem contar direito. Meu menino gostava de ficar num bar perto de casa, e encomendaram a morte de uma pessoa que também gostava de ir pra esse bar e confundiram com ele. Abri a porta já com os tiros”.</p>



<p>Elenildo foi morto em 19 de outubro daquele ano e,logo depois, a sua mãe começou a visitar o cemitério com regularidade, diminuindo cada vez mais os intervalos entre uma visita e outra. A dedicação e o modo como dona Edite passou a cuidar da sepultura do filho chamou a atenção de pessoas que sepultaram parentes e amigos no mesmo cemitério, então ela começou a receber propostas para zelar por outros túmulos. Hoje, ela cuida de aproximadamente 30. “As pessoas me pedem pra eu tomar conta [da sepultura] de algum parente e me dão alguma ajuda. Não é todo mundo que me paga, mas eu cuido mesmo assim. Fica por minha conta. Eu gosto de estar aqui, as pessoas gostam do meu trabalho. E não é nada demais, fincar umas plantas, aguar, tirar o mato do chão”.</p>



<p>Todos os dias, ao final da manhã, já entrando pelo meio do dia, Dona Edite deixa a sua casa na Rua Boa Ventura, no bairro Petrópolis, e caminha até o campo santo, localizado no bairro Centenário. São quase dois quilômetros a pé. “Eu venho caminhando. Costumo chegar aqui no cemitério perto de uma hora da tarde. Às vezes, demoro mais. Tem dia que venho me distraindo com uma coisa ou outra pela rua, mas todos os dias eu venho. Vou embora só umas cinco da tarde”.&nbsp;</p>



<p>Dona Edite não mora com nenhum parente, vive sozinha, e diz não fazer questão de manter amizade com ninguém. Encostada no portão de um compartimento construído ao lado da sepultura do filho, onde acende velas e guarda vassouras, baldes e outras ferramentas de jardinagem, ela fuma um cigarro como se olhasse a rua, da porta de casa, enquanto fala da sua rotina e do que sonha à noite, quando dorme. “Eu vivo só com Deus, mais ninguém. E não tenho e nem quero amizade. Ninguém tem amigo no mundo, eu prefiro andar só. Eu venho pra cá, passo o dia, chego em casa de noite e faço logo meu café. Deixo o corpo esfriar, me molho, espero mais um pedaço e vou me deitar. Tem noite que é uma agonia, sonho com uns cantos [lugares] estranhos, uns pés de árvores grandes, eu não sei explicar direito. Mas já estou acostumada”.&nbsp;</p>



<p>Para a zeladora, estar no cemitério São Roque é estar perto do filho falecido. “Vir pra cá, é como vir pra perto dele. Cuido do meu filho. Quando o pai [de Elenildo] me deixou, ele tinha oito meses de vida. Ficamos só nós dois, ele era minha companhia, um companheiro. Pra mim, foi ontem que tudo aconteceu”.&nbsp;</p>



<p>Suas palavras me fazem lembrar o livro <em>Medo Líquido</em>, publicado em 2006, no qual o sociólogo e filósofo polonês Zygmunt Bauman, já terminando “O Pavor da Morte”, primeiro capítulo da obra, diz que cada morte é uma perda definitiva, irreversível e irreparável de um mundo. Uma ausência eterna, que jamais acabará. Há 40 anos, Dona Edite tenta sustentar e acessar o mundo de Elenildo. Desafia a condição inapelável, sinistra e misteriosa da morte, usando como canal de comunicação entre mãe e filho, o cuidado.&nbsp;</p>



<p>Nas últimas quatro décadas, Dona Edite nunca pensou em deixar de ir ao cemitério São Roque. Ela conta que, em todo esse tempo, sequer pensou no dia em que isso poderia acontecer. “Eu nunca deixei de vir. Nunca pensei nisso. E faz tempo que eu vivo assim. O que eu sei, é que um dia eu venho de vez, não é mesmo?”</p>



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	                                        <p class="m-0">Edite Maria, na porta do túmulo do filho morto há 40 anos. Crédito: Géssica Amorim/Coletivo Acauã</p>
	                
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		<title>Júlia Gabriela de Jesus, uma toada de coragem</title>
		<link>https://marcozero.org/julia-gabriela-uma-toada-de-coragem/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 26 Dec 2022 08:36:32 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Entrevista]]></category>
		<category><![CDATA[Principal]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Géssica Amorim*, do Coletivo Acauã Moradora do povoado Maravilha, na zona rural do município de Custódia (sertão de Pernambuco), a vaqueira Julia Gabriela de Jesus, 20, começou a se interessar por pegas de boi no mato quando ainda era criança. No entanto, ela só passou a participar desse tipo de evento vestindo chapéu e [&#8230;]</p>
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<p><strong>por Géssica Amorim*, do <a href="https://www.instagram.com/p/CmP4pO5Lrhc/?igshid=YmMyMTA2M2Y%3D" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Coletivo Acauã</a></strong></p>



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<p>Moradora do povoado Maravilha, na zona rural do município de Custódia (sertão de Pernambuco), a vaqueira Julia Gabriela de Jesus, 20, começou a se interessar por pegas de boi no mato quando ainda era criança. No entanto, ela só passou a participar desse tipo de evento vestindo chapéu e gibão de couro há pouco mais de um ano.</p>



<p>“Eu sempre gostei de bicho. De cavalo, principalmente. Quando era criança, eu admirava, mas não imaginava que poderia ser [vaqueira]. Tinha a vontade, mas era como se não fosse possível”, relata Julia.</p>



<p>Nas pegas, os animais são soltos na caatinga e os vaqueiros e vaqueiras que conseguem recuperá-los vencem a disputa estabelecida ali. Em geral, os prêmios são em dinheiro ou são entregues troféus, selas, arreios e até animais para quem consegue voltar do mato com um boi no laço.</p>



<p>Com pouco incentivo da família e muita coragem, a cada pega de boi da qual participa, Julia enfrenta touceira de xique-xique, espinho de jurema e o desafio de, quase sempre, ser a única mulher a integrar grupos de vaqueiros compostos majoritariamente por homens. “A minha família diz o que a gente costuma ouvir, mesmo. Que é coisa de homem, que é perigoso. Em casa, eu só tenho o apoio da minha avó Severina e da minha namorada, Valessa. Nas pegas, sempre aparecem os vaqueiros que acham que estou ali por estar. Pensam que mulher não enfrenta o desafio de verdade”.</p>



<p>Na essência, as pegas de boi no mato ainda destacam e valorizam principalmente características e posturas que costumamos associar apenas aos homens, que são maioria nesse tipo de evento. A presença e a influência de mais mulheres nesses espaços, para abrir mais caminhos para que outras vaqueiras participem ativamente das pegas de boi, é algo importante para Julia. “Eu acredito que as mulheres devem ocupar esses lugares, mesmo. Pra gente mostrar que também podemos fazer isso. Que podemos participar das pegas de verdade e não ficar só assistindo. Acredito que, assim, nós podemos ajudar a quebrar o preconceito das pessoas que acham que é coisa só de homem”. </p>





<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p><strong>Uma questão importante!</strong></p><cite>Colocar em prática um projeto jornalístico ousado custa caro. Precisamos do apoio das nossas leitoras e leitores para realizar tudo que planejamos com um mínimo de tranquilidade. Doe para a Marco Zero. É muito fácil. Você pode acessar nossa <a href="https://marcozero.org/assine/" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><strong>página de doaçã</strong></a><strong><a href="https://marcozero.org/assine/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">o</a> </strong>ou, se preferir, usar nosso <strong>PIX (CNPJ: 28.660.021/0001-52)</strong>.<br><br><strong>Apoie o jornalismo que está do seu lado</strong>.</cite></blockquote>
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		<title>Mães afetadas pela fome e sem acesso à água vão às urnas por cisternas e geração de renda</title>
		<link>https://marcozero.org/maes-afetadas-pela-fome-e-sem-acesso-a-agua-vao-as-urnas-por-cisternas-e-geracao-de-renda/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 20 Sep 2022 12:59:51 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[agricultoras]]></category>
		<category><![CDATA[Agricultura Familiar]]></category>
		<category><![CDATA[cisternas]]></category>
		<category><![CDATA[mulheres]]></category>
		<category><![CDATA[semiárido brasileiro]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Adriana Amâncio* Para as mães de crianças de 0 a 6 anos do Semiárido brasileiro, essas eleições são decisivas. Elas consideram o voto a última cartada para solucionar dois sérios problemas que voltaram a assolar as suas vidas na região: a fome e a escassez hídrica. Na região Nordeste, onde quatro de cada dez [&#8230;]</p>
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<p><strong>por Adriana Amâncio*</strong></p>



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<p>Para as mães de crianças de 0 a 6 anos do Semiárido brasileiro, essas eleições são decisivas. Elas consideram o voto a última cartada para solucionar dois sérios problemas que voltaram a assolar as suas vidas na região: a fome e a escassez hídrica. Na região Nordeste, onde quatro de cada dez famílias não têm certeza sobre o que vão comer, quase metade dos lares com crianças com até dez anos não tem certeza se conseguirá se alimentar todos os dias. No estado do Maranhão, por exemplo, o percentual é de 63%; em Alagoas, quase 60% dessa população se encontra na mesma situação, revelam os novos dados do 2º Inquérito <a href="https://olheparaafome.com.br/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Vigisan</a>.</p>



<p>Já a falta de acesso à água faz parte das vidas de 350 mil famílias, aproximadamente 1 milhão de pessoas, segundo dados divulgados na publicação <a href="https://www.asabrasil.org.br/images/UserFiles/File/Acesso_a_agua_para_populacoes_do_Semiarido_brasileiro.pdf" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Acesso à água</a> para a população do Semiárido Brasileiro, da Articulação Semiárido Brasileiro (ASA). Historicamente, sempre coube às mulheres e às crianças o ofício de abastecer a casa com água. Por essa razão, tanto mães quanto crianças sabem bem o quanto custa não ter uma cisterna. Ainda cabe às mães o trabalho exclusivo de cuidado com os filhos, por isso, quando a barriga deles ronca, elas são as que escutam primeiro. Assim, as mães da primeira infância no Semiárido, afetadas pela fome e pela sede, vão às urnas por cisterna e geração de renda.</p>



<p>O professor da Universidade Federal Rural do Paraná (UFRPR) e pesquisador da Rede Brasileira em Soberania e Segurança Alimentar (Penssan), Nilson de Paula, explica que a incerteza sobre o que vai comer é a tradução das condições de insegurança alimentar moderada ou grave. Na prática, quer dizer que hoje a família consegue algo para comer, mas amanhã, já não sabe como vai ser. “Para uma criança em pleno desenvolvimento das suas capacidades isso é muito grave. No aspecto social psicológico e social, a criança viver um drama na sua autoestima, sem interação social, sem lazer, e, no futuro, com limitações para desenvolver as suas competências”, alerta.</p>



<p>A enfermeira e professora associada do Departamento de Saúde Pública da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará (UFCE), Márcia Machado, afirma que tanto o acesso à água quanto à alimentação deficientes comprometem o funcionamento do cérebro da criança em seus anos iniciais de vida. “[Nesta fase] a criança está formando um monte de conexões cerebrais. Se nós quisermos que ela se desenvolva bem, é preciso garantir, no mínimo, três refeições ao dia”, destaca.</p>



<p>A informação trazida pelo coordenador do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) para o Semiárido, Dennis Larsen, a condição para o bom desenvolvimento cognitivo das crianças brasileiras nos últimos anos não foi garantida. Dennis frisa que os cuidados essenciais nos primeiros mil dias de vida da criança, a exemplo de vacinação, alimentação e acesso à água foram comprometidos durante a pandemia, impactando no futuro dessas crianças. “Durante a pandemia, a pobreza cresceu e muitas crianças não puderam, por exemplo, ter três refeições por dia”, informa. Segundo dados do Ministério da Saúde, em 2021, 14% do total de crianças brasileiras estavam abaixo do peso adequado. O estudo Epicovid19 da Universidade Federal de Pelotas (Ufpel) constatou que 22,7% das crianças mais pobres deixaram de ser vacinadas em 2020.</p>



<p>A universalização do acesso à água no Semiárido se tornou uma realidade mais distante, quando a principal política de combate à escassez hídrica na região sofreu drásticos cortes no orçamento. Para se ter uma ideia, o Programa Cisternas executou, em 2021, o menor orçamento da sua história, pouco mais de 32 milhões de reais e implementou apenas 4.305 tecnologias (inclui os diversos tipos de cisternas, barragens subterrâneas etc), segundo dados do Ministério da Cidadania. Sem água, as caminhadas das mulheres e, em alguns casos com a ajuda das crianças, em busca do recurso voltaram a se tornar comuns na região. O problema também afeta as escolas municipais, que somam 3 mil sem abastecimento hídrico e <a href="https://www.unicef.org/brazil/comunicados-de-imprensa/unicef-lanca-campanha-aguahigienenasescolas-e-faz-webinario-sobre-o-tema">21 mil</a>com abastecimento inadequado, segundo o Unicef.</p>



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	                                        <p class="m-0">Larsen avalia impacto da pandemia nas famílias e escolas. Crédito: Ascom/Unicef</p>
	                
                                    </figcaption>
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<h2 class="wp-block-heading"><strong>Auxílio Brasil não resolve</strong></h2>



<p>Mãe de Luigi Ribeiro, garoto que acaba de completar sete anos, a agricultora e quilombola da comunidade, Lucimara Ribeiro, que mora na Lagoa da Firmeza, em São Raimundo Nonato, no semiárido piauiense, enfrentou a fome já durante a gestação, quando foi abandonada pelo companheiro. Antes da gravidez, ela trabalhava no projeto Mais Educação do Governo do estado do Piauí, mas ficou desempregada antes mesmo de dar à luz e nunca mais conseguiu trabalho.</p>



<p>A rotina diária de Lucimara é marcada por caminhadas em busca de água, pois a única fonte adequada para consumo humano com que a agricultora pode contar é a cisterna de 16 mil litros do pai. Essa tecnologia é capaz de suprir as necessidades de uma família de até cinco pessoas por oito meses, tempo que normalmente dura o período de estiagem no semiárido. Se for compartilhada por duas ou mais famílias, a água acaba mais rápido. É justamente o que acontece na casa de Lucimara. A cisterna, que atende à família dela e do pai, esvazia com pouco tempo de uso. Quando não tem previsão de chuva para encher o reservatório novamente, a família passa então a depender da chegada do carro &#8211; pipa, que visita a comunidade a cada três meses.</p>



<p>Já a água destinada à lavagem de roupas, ao banho e aos demais usos, é salgada e vem de um poço, localizado nos arredores da casa. A única fonte de renda da agricultora é o Auxílio Brasil, que neste período de inflação, não garante alimento para um mês inteiro. “Se comprar os 600 reais [de alimento], dá para duas semanas, sem botar a mistura [carne]. Às vezes, a gente ganha doações para complementar, mas ultimamente está difícil. Quando ele [Luigi] diz: ‘mãe, tô com fome!’ Aí eu caço [procuro] uma coisa, caço outra e não tem nada, fazer o quê, né! Assim a gente vai enganando. ”, explica.</p>



<p>Lucimara lembra que, após a pandemia, a situação piorou. Ela perdeu um trabalho informal de venda de materiais de limpeza. Com as aulas paralisadas, a merenda foi suspensa e, mesmo quando a escola passou a distribuir cestas básicas, não adiantou muito, pois, segundo ela, a doação continha poucos itens apenas “arroz” e “massa de milho”, “o grosseiro”, classifica. Mesmo assim, ao longo da pandemia, “foram distribuídas duas vezes apenas”, queixa-se. Quando a criança faz birra e chora, a jovem sente desânimo e busca alternativas para distrair a atenção dele. Mesmo com desanimada, Lucimara cultiva uma esperança no coração, que compartilha comigo em meio às lágrimas e soluços que consigo ouvir do lado de cá do telefone.</p>



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	                                        <p class="m-0">Crédito: Acervo pessoal/Lucimara Ribeiro</p>
	                
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<p>“Eu até fico emocionada porque o pessoal do Sul diz que o nordestino é preguiçoso, quer viver de renda [benefício social], mas não é isso, é que principalmente quem é quilombola, que vive no campo, precisa [de apoio]. Eu tenho esperança de ir às urnas votar em um candidato que ajude as pessoas. Eu quero ter emprego, ter a minha cisterna, que já teve uma política pública que distribuía cisterna e, agora, está parada. E quero outras políticas públicas principalmente para nós, mulheres. Eu agradeço o Bolsa Família [ Auxílio Brasil], mas eu quero mesmo é estar trabalhando para sustentar o meu filho”, desabafa.</p>



<p>A professora Márcia Machado avalia que fome e insegurança hídrica estão relacionadas. Dados do <a href="https://olheparaafome.com.br/pesquisa2020/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">1º Inquérito Vigisan</a> comprovariam essa afirmação. Em 2020, a pesquisa constatou que a insegurança alimentar saltou de 21,8% para 44,2% nas casas sem acesso à água. “Se a família não tem água para produzir alimentos in natura, acaba buscando alimentos não perecíveis [ultraprocessados], que são danosos à saúde. É preciso assegurar cisternas para que as famílias produzam o seu próprio alimento saudável”, observa. No Semiárido, é comum as mulheres que possuem acesso à água, construírem um canteiro produtivo nos arredores de casa de onde tiram alimentos frescos. Esses canteiros possuem um papel relevante na segurança alimentar das famílias.</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Quando a</strong> comida acaba</h3>



<p>Em outra parte do Semiárido, na região oeste da Bahia, a agricultora Ariana Pereira, de 32 anos, vive com o companheiro, pai de um dos seus três filhos, na Fazenda Buriti, no município de Correntina, no Vale do Arrojado. Há três anos, ela se tornou totalmente dependente do extinto Bolsa Família, hoje Auxílio Brasil, após perder a única fonte hídrica da qual dispunha para cultivar os alimentos consumidos pela família. Ela contava com dois córregos abastecidos com água do rio Corrente, que secaram, segundo ela, devido aos desmatamentos constantes para o avanço do monocultivo de soja na região.</p>



<p>Ariana vive na região do chamado Matopiba eminentemente formada por Cerrado e que reúne os estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia. O local abriga grandes fazendas de monocultura de soja, que para produzir, além da prática do desmatamento, demandam grandes volumes de água. Garantir alimento para o mês inteiro com os 600 reais do Auxílio em um momento de alta nos preços, “não dá”, sentencia a agricultora, que é mãe de uma garota de seis anos e dois meninos de 10 e 13 anos.</p>



<p>&#8220;A gente mudou praticamente tudo, porque o dinheiro não dá pra comprar carne. A gente tá comendo mais alimento industrializado e quando acaba, às vezes, a minha mãe doa. Quando não tem, a gente come o que aparece. Meus filhos foram criados com dificuldade. De manhã, a maioria das crianças quer pão, bolacha, eu dou a eles uma farofa de ovo e eles comem. Já teve dia deles perguntarem ‘mãe tem o quê pra comer?’ Eu respondo que não tem nada. É triste vê o seu filho pedir comida e não poder dar nada. O pior é que o pai dos meus dois filhos mora perto e não dá nada. ”, explica a agricultora.</p>



<p>Ariana dispõe de água potável na torneira, mas não tem água para produzir alimentos, por isso, o cardápio da família é majoritariamente formado por comida ultraprocessada. Quando perguntei se a agricultora gostaria de ter de volta água para plantar, ter uma cisterna de 52 mil litros, tecnologia destinada à produção e consumo dos animais, por exemplo, ela respondeu “sim, quem dera!”. E Complementou: &#8220;plantar a comida na área é mais seguro, barato e saudável para mim e os filhos”.</p>



<p>Quando plantava, Ariana relembra que o tempo era de fartura. Tinha fava, cana-de-açúcar, legumes e verduras. Agora, a dieta é composta de mortadela, salsicha, cuscuz pré-cozido e o açúcar refinado que tomou o lugar da rapadura. Quando comparamos a alimentação que Ariana teve na infância com a dos seus filhos, a diferença é enorme. Ela comia o que vinha da terra, enquanto eles comem o que vem do mercadinho e que, mesmo assim, não basta para suprir a família por um mês. A água que Ariana consome, junto com a família, é potável e fornecida pela prefeitura, de forma racionada. Ela é bombeada direto do rio Corrente e chega à casa, por meio de uma rede de abastecimento. Ariana já definiu a pauta que vai determinar o seu voto nas urnas. “Olha, eu vou votar confiando que quem vai ganhar, vai priorizar os nordestinos, vai melhorar essa situação da fome, vai trazer cisternas”, afirma.</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Problemas de saúde</strong></h3>



<p>A fome e a insegurança alimentar acentuadas pela pandemia da covid-19 podem ocasionar déficits que acompanharão as crianças ao longo de muito tempo, alerta a professora Márcia Machado. “A vitamina A, por exemplo, está presente em muitos alimentos e a sua ausência afeta a visão. Com isso, as crianças têm dificuldade de enxergar, o que impacta no rendimento escolar. A deficiência nutricional resseca a pele, atrofia o crescimento e limita a capacidade cognitiva, motora e de assimilação de palavras”, explica.</p>



<p>Ainda segundo a professora, na região semiárida é muito comum crianças nascerem com lábio leporino, uma fenda que atinge o lábio superior e o nariz. Essa má formação é resultado de gestações de mães com grande deficiência de ácido fólico. Por fim, a vitamina B12 estimula a imunidade, ou seja, a criação da defesa que protege o organismo contra os ataques de doenças causadas por vírus e bactérias. “Uma criança com déficit de vitamina B12, não desenvolve a lactoferina, uma enzima que luta contra as bactérias que podem entrar no organismo, por exemplo, através da ingestão de água contaminada. Sem esta enzima, a criança desenvolve a diarreia em sua forma mais grave”, explica.</p>



<h4 class="wp-block-heading"><strong>A primeira infância e as eleições</strong></h4>



<p>O artigo 227 da Constituição Brasileira afirma que as crianças são prioridade absoluta. Os dados de fome e escassez hídrica que comprometem a primeira infância, mencionados neste texto, acendem um alerta sobre o descumprimento deste artigo. Nessa direção, as eleições deste ano também têm sido vistas como uma oportunidade de eleger pessoas comprometidas com a superação das desigualdades que atingem mulheres e crianças.</p>



<p>A diretora de Comunicação e Relações Governamentais da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, Mariana Montoro, considera essas eleições especiais para a primeira infância. “É o momento em que nós vamos escolher os gestores públicos que enfrentarão os gravíssimos impactos da pandemia nas infâncias &#8211; e isso não é trivial. Apesar de as políticas públicas voltadas para a primeira infância estarem em grande parte no âmbito da gestão municipal, os governos estaduais e federal também têm uma contribuição importante nesta seara. A colaboração entre os entes federativos é uma discussão importantíssima a ser feita para que a gestão pública possa atuar em três eixos estruturantes: transferência de renda, programas de visitação domiciliar e oferta de creches”.</p>



<p>O coordenador do Unicef Dennis Larsen defende que os novos governantes priorizem políticas públicas de fortalecimento da educação, levando em conta o impacto da pandemia sobre a área. “O investimento em educação é uma iniciativa prioritária, pois a pandemia levou cerca de 5 milhões de crianças para fora da escola, sendo que a escola é um lugar de proteção, de alimentação e de garantia de direitos para as crianças”, conclui.</p>



<p><strong>Esta matéria é uma das selecionadas pela bolsa de reportagens &#8220;Eleições e primeira infância&#8221; do Nós, mulheres da periferia, apoiada pela Fundação Maria Cecília Souto Vidigal.</strong></p>



<p><strong>* *Jornalista freelancer, com 12 anos de atuação na cobertura de pautas nas áreas de direitos humanos, meio ambiente e gênero.</strong></p>
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		<title>Mulheres de Flores vão às ruas pedir prisão de três homens que doparam e estupraram copeira</title>
		<link>https://marcozero.org/mulheres-de-flores-vao-as-ruas-pedir-prisao-de-tres-homens-que-doparam-e-estupraram-copeira/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Géssica Amorim]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 22 Dec 2021 19:53:49 +0000</pubDate>
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		<category><![CDATA[Reportagens]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A informação de que uma mulher havia sido estuprada por três homens, um deles primo do prefeito e filho de uma vereadora, espalhou-se rapidamente por Flores, município de 23 mil habitantes no sertão do Pajeú, a 391 quilômetros do Recife. Na terça-feira, 21 de dezembro, dezenas de mulheres precisaram apenas de algumas horas para organizar [&#8230;]</p>
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<p>A informação de que uma mulher havia sido estuprada por três homens, um deles primo do prefeito e filho de uma vereadora, espalhou-se rapidamente por Flores, município de 23 mil habitantes no sertão do Pajeú, a 391 quilômetros do Recife. Na terça-feira, 21 de dezembro, dezenas de mulheres precisaram apenas de algumas horas para organizar uma passeata pelas ruas da cidade para exigir justiça para a copeira de 29 anos que, na noite do domingo, dia 19, foi dopada, levada para um motel da cidade e estuprada várias vezes.&nbsp;</p>



<p>De acordo com informações oficiais da Polícia Civil, até o momento, três homens foram apontados como suspeitos do crime. Dois dos acusados são considerados foragidos pela polícia: Heitor Santana, filho da vereadora Flávia Santana (PSB) e primo do prefeito Marconi Santana (PSB), e João Victor Alves, ambos de 18 anos. O terceiro acusado, Josélio Siqueira, de 61 anos, foi preso e encaminhado para audiência de custódia na manhã desta quarta-feira, 22.&nbsp;A delegada Jessica Bezerra de Almeida comanda a busca dos dois fugitivos.</p>



<p>A copeira é funcionária da Câmara de Vereadores do município. Segundo informações fornecidas por sua irmã, ela chegou a ser babá de Heitor, que, na noite do crime, a encontrou casualmente e a convidou para tomar uma cerveja, enquanto ela saía do local onde fazia a prova de um concurso público. “Ela trabalhou muitos anos na casa dele como doméstica e babá. Ele a convidou para sair depois do concurso e ela foi. Confiou nele”, conta a irmã mais nova da vítima &#8211; cujo nome também será omitido para evitar que a família seja exposta.</p>



<p>Os homens gravaram os sucessivos estupros no quarto do motel e compartilharam os vídeos. No dia seguinte, perderam o controle da situação. Os vídeos viralizaram no Whatsapp por Flores e pelos municípios vizinhos. De acordo com a irmã da copeira, um dos rapazes chegou a procurar a vítima para oferecer dinheiro para que ela saísse da cidade. A moça não aceitou e contou aos seus familiares o que lembrava sobre a noite em que foi estuprada.</p>



<p>Em<a href="https://www.instagram.com/p/CXwDbftL5gN/"> nota</a> publicada em seu perfis nas redes sociais, o prefeito Marconi Santana afirmou que é &#8220;contra qualquer ato de violência contra mulher, seja ele físico, psicológico e ou sexual&#8221;. O político assegurou que sua família &#8220;não comunga com o ato praticado e que cabe às autoridades competentes a aplicação da norma jurídica para a matéria&#8221;.</p>



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		<title>Custo da menstruação aumenta desigualdade de gênero</title>
		<link>https://marcozero.org/custo-da-menstruacao-aumenta-desigualdade-de-genero/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Inês Campelo]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 08 Sep 2021 20:59:14 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
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		<category><![CDATA[absorventes]]></category>
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		<category><![CDATA[pobreza menstrual]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Absorvente é um item de primeira necessidade para 51% da população brasileira, mas não está incluído na cesta básica. Nem é doado em postos de saúde, escolas públicas ou presídios femininos. Em pleno 2021, uma a cada quatro pessoas com útero e que menstruam não tem acesso a absorventes no Brasil. A pobreza menstrual ainda [&#8230;]</p>
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<p>Absorvente é um item de primeira necessidade para 51% da população brasileira, mas não está incluído na cesta básica. Nem é doado em postos de saúde, escolas públicas ou presídios femininos. Em pleno 2021, uma a cada quatro pessoas com útero e que menstruam não tem acesso a absorventes no Brasil. A pobreza menstrual ainda precisa ser abordada porque ela aumenta a desigualdade de gênero.</p>



<p>No último dia 26, a Câmara dos Deputados aprovou o projeto de lei 4968 que pode melhorar a vida de cerca de 5,6 milhões de mulheres com a distribuição gratuita de absorventes.</p>



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	                                        <p class="m-0">Crédito: Inês Campelo/MZ Conteúdo</p>
	                
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<p>As beneficiadas serão estudantes de baixa renda, matriculadas em escolas públicas; mulheres em situação de rua ou de vulnerabilidade social extrema ou em privação de liberdade. No entanto, a lei aprovada só entra em vigor após apreciação de 68 homens e 13 mulheres que compõem o Senado e, depois, ainda ser sancionada por mais um homem, o presidente da República.</p>



<p>Até lá, Rute de Oliveira segue com medo que falte dinheiro para comprar absorventes. “Foi uma surpresa ruim menstruar, porque só tenho 10 anos. Achava que só ia acontecer quando  fizesse uns 12 anos. Às vezes, tenho medo que falte absorventes por conda da situação de dinheiro mesmo”, explica a estudante da Escola Municipal Santo Antônio de Pádua, em Catuama. Rute tem duas irmãs e a família sobrevive da pensão do pai e da renda da mãe, que é diarista.</p>



<p>Para entender a dimensão do problema basta dizer que aproximadamente 900 mil meninas não têm sequer acesso a água encanada em casa e<strong> </strong>6,5 milhões vivem em locais sem saneamento básico, segundo o estudo<strong> “<a href="https://www.unicef.org/brazil/relatorios/pobreza-menstrual-no-brasil-desigualdade-e-violacoes-de-direitos" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><strong>Pobreza Menstrual no Brasil: desigualdade e violações de direitos</strong></a>”,</strong> realizado pelo Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA) e Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef).</p>



<p>Ao longo da vida escolar, a falta do absorvente deixa uma entre quatro meninas brasileiras sem ir à escola. Em pleno século 21, a disparidade de gênero ainda é acentuada pela simples condição de nascer com útero.</p>





<p>Para Kaciane Arruda, professora da rede municipal, o papel da escola é fundamental nesse período da vida das meninas. “É indispensável a participação da escola na orientação dessas meninas, pois muitas vezes elas não recebem em casa informações suficientes para, por exemplo, reagir no momento da primeira menstruação. Falamos muito sobre não ter medo, não entrar em pânico e sobre como procurar ajuda”.</p>



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	                                        <p class="m-0">Débora menstruou a primeira vez aos 11 anos. Crédito: Ines Campelo/MZ Conteúdo</p>
	                
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<p>Débora Vitória Pires, de 13 anos, é aluna de Kaciane na Escola José Múcio Monteiro, no Ibura, zona sul do Recife. A única na turma do quinto ano que menstrua. A primeira vez aconteceu na escola. “Foi muito ruim porque não sabia quase nada do assunto e estava aqui na escola. Aí chamei a tia no banheiro e contei pra ela. Minha avó precisou até trazer uma roupa pra mim”, conta, desconcertada, ao acrescentar que sente muita cólica e tontura durante o ciclo, mas ainda assim consegue ir à aula.</p>



<p>Autora do projeto de lei que deu início ao Programa de Proteção e Promoção da Saúde Menstrual, a deputada Marília Arraes destaca a importância da aprovação da nova legislação. “O combate à pobreza menstrual é um compromisso que abracei há anos e ao qual tenho me dedicado desde o primeiro dia de trabalho na Câmara dos Deputados. Esse é o primeiro passo para que possamos efetivamente criar uma política nacional de superação da pobreza menstrual. A partir daí, atenderemos a outros grupos de mulheres. Quando você não tem dinheiro nem mesmo para comprar comida, itens de higiene como absorventes se transformam em artigos de luxo. Imagine essa realidade no Brasil da pandemia, que tem 19 milhões de pessoas passando fome”, apontou a parlamentar.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Pernambuco não tem programas específicos para combater a pobreza menstrual</strong></h2>





<p>Como a aprovação e a entrada em vigor da lei federal ainda são incertezas, a reportagem entrou em contato, por e-mail, com as secretarias estaduais que atuam diretamente com mulheres e homens trans para apurar se o Pernambuco avançou no combate a pobreza menstrual e se o assunto é tratado no âmbito das políticas públicas, ações ou projetos de algumas delas. Em linhas gerais, as respostas das secretarias buscam se isentar da responsabilidade sobre o problema.</p>



<p>A Secretaria de Saúde respondeu que ações de distribuição de absorventes não ficam com a pasta. Sugeriu que procurássemos a Secretaria de Desenvolvimento Social, Criança e Juventude (SDSCJ) ou mesmo Secretaria da Mulher.</p>



<p>A SDSCJ respondeu que não trabalha especificamente com a distribuição de absorventes. O papel de execução desse tipo de ação, segundo a resposta, é das gestões municipais. No entanto, por atuar e acolher adolescentes, a SDSCJ dispõe de kits de higiene em seus equipamentos socioassistenciais, como as Casas de Acolhimento, o Centro da Juventude e etc, mas para uso exclusivo de quem é acompanhado pelos serviços.</p>



<p>A Secretaria de Ressocialização, que atende as mulheres privadas de liberdade, informou que as instituições religiosas, em sua maioria, realizam doações frequentes de absorventes e kits de higiene às três unidades prisionais femininas. As mulheres que não recebem visitas têm prioridade na distribuição. Exatamente a mesma resposta que obtivemos ao conversar com Cristilane de Souza, 34 anos, que cumpriu pena na Colônia Prisional Feminina de Abreu e Lima. “Quando a visita não tinha condições financeiras de levar o absorvente naquele mês, eu me virava pedindo à Assistente Social ou a outras mulheres. O que a gestão de lá alegava é que era obrigação da visita levar, e não do sistema”.</p>



<p>De acordo com a assessoria da Secretaria de Educação e Esportes, a pasta não possui programa ou ação específica que atue neste âmbito, mas fomenta discussões acerca da temática nas unidades de ensino em todo o território pernambucano.</p>



<p>A Secretaria da Mulher respondeu que trabalha com a política pública de apoio às mulheres com prevenção, formação e enfrentamento das violências. A política é ampla no quesito de apoiar os municípios nessas ações mais pontuais, que ficam a cargo do município.</p>



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