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	<title>Arquivo de Educação - Marco Zero Conteúdo</title>
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	<description>Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</description>
	<lastBuildDate>Wed, 15 Apr 2026 16:29:55 +0000</lastBuildDate>
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	<title>Arquivo de Educação - Marco Zero Conteúdo</title>
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		<title>A luta de uma mulher com deficiência para ser nomeada professora no Recife</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 14 Apr 2026 16:16:33 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Diversidade]]></category>
		<category><![CDATA[concurso público]]></category>
		<category><![CDATA[pessoa com deficiência]]></category>
		<category><![CDATA[prefeitura do Recife]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Mariana Clarissa, do site Eficientes O que começou como um inchaço no joelho transformou-se em uma jornada de 17 anos de cirurgias, radioterapia e dores agudas para Milena Barros Gomes, hoje professora de Geografia. Aos 19 anos, ela enfrentou uma sinovite vilonodular pigmentada, uma inflamação rara tratada como tumor, que desgastou sua cartilagem e [&#8230;]</p>
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<p><strong>por Mariana Clarissa, do site <a href="https://eficientes.org.br/2026/04/14/pessoas-com-deficiencia-enfrentam-obstaculos-para-nomeacao-na-prefeitura-do-recife/">Eficientes</a></strong></p>



<p>O que começou como um inchaço no joelho transformou-se em uma jornada de 17 anos de cirurgias, radioterapia e dores agudas para Milena Barros Gomes, hoje professora de Geografia. Aos 19 anos, ela enfrentou uma sinovite vilonodular pigmentada, uma inflamação rara tratada como tumor, que desgastou sua cartilagem e a fez usar muletas até a implantação de uma prótese de joelho em 2023. Ironicamente, a maior barreira que ela encontrou não foi a doença, mas o poder público.</p>



<p>Após ser aprovada no concurso da Prefeitura do Recife, em 2023, para as vagas reservadas a pessoas com deficiência (PcD), Milena foi desclassificada em uma perícia médica que, de acordo com ela, durou poucos minutos. Segundo a professora, a médica da banca sequer analisou o raio-X que mostrava a prótese metálica em sua perna, alegando que sua condição era meramente estética. O caso de Milena não é isolado e ilustra o capacitismo estrutural que permeia as instituições brasileiras, onde a lei de cotas é frequentemente contornada por interpretações subjetivas e restritivas.</p>



<p>O conceito de deficiência no Brasil, consolidado pela Lei Brasileira de Inclusão (LBI), deveria seguir o modelo biopsicossocial, que considera não apenas o impedimento físico, mas as barreiras que impedem a participação plena do indivíduo na sociedade. Na prática, porém, as bancas examinadoras, como a do <a href="https://www.cebraspe.org.br/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Cebraspe</a>, no caso de Milena, muitas vezes recuam para um modelo puramente médico e, por vezes, negligente.</p>



<p>A justificativa de que uma prótese total de joelho, que impede a candidata de correr, pular ou ficar longos períodos em pé, seria uma questão estética ignora o caráter funcional e permanente da deficiência. &#8220;Ao negar minha condição, nega-se quem eu sou, o meu corpo, as minhas dores, tudo o que vivi&#8221;, afirma Milena. Esse tipo de avaliação é apontado por especialistas como uma forma de violência institucional, onde a sobrecarga da prova recai sobre a pessoa com deficiência.</p>



<p>A resistência em reconhecer direitos estende-se ao Poder Judiciário. No processo movido por Milena contra a Prefeitura do Recife e o Cebraspe, o Ministério Público opinou pela realização de uma nova perícia médica para sanar as dúvidas. Enquanto Milena concordou prontamente, tanto o município quanto a banca organizadora se posicionaram contra o novo exame, alegando que a decisão administrativa deveria prevalecer. Os advogados do Cebraspe, no entanto, teriam perdido um prazo e o caso seguirá com uma nova perícia médica.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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	                                        <p class="m-0">Justiça acatou pedido de Milena e determinou nova perícia
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Reprodução</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Essa postura revela uma contradição profunda: o mesmo Estado que emite uma identidade oficial de pessoa com deficiência para Milena, por meio da Secretaria de Defesa Social, é o que tenta barrar sua entrada no serviço público sob o argumento de que ela não se enquadra nos requisitos legais. Para a candidata, a lentidão e a insensibilidade do poder público funcionam como um adiamento deliberado de um direito conquistado no mérito das provas.</p>



<p>Enquanto a decisão judicial não vem, o custo é emocional e financeiro. Como arrimo de família, Milena precisa se desdobrar em até três empregos e a espera gera uma situação de vulnerabilidade que afeta a autonomia e o planejamento de vida.</p>



<h1 class="wp-block-heading">O custo da exclusão</h1>



<p>Embora a Constituição Federal e a LBI garantam a reserva de vagas (que pode chegar a 20% em alguns editais), a implementação dessas cotas é cercada de armadilhas burocráticas. A sensação descrita por quem passa por esse processo é de que o sistema é desenhado para que os candidatos percam a força de insistir em ocupar seus lugares por direito.</p>



<p>O caso de Milena e tantas outras pessoas expõe que o cumprimento da Lei de Cotas está refém de bancas que executam falhas na transparência e vão de encontro à realidade clínica dos candidatos. A docente destaca que quem hoje se prepara para concursos públicos sendo PcD, a orientação é amarga. &#8220;Prepare-se para precisar de justiça e contar com a sorte&#8221;.</p>



<p>A reportagem enviou questionamentos detalhados à Prefeitura do Recife e ao Cebraspe sobre os critérios técnicos que levaram à desclassificação de Milena, a qualificação dos profissionais da banca e os motivos para a resistência em realizar a nova perícia médica sugerida pelo Ministério Público. Até o fechamento deste texto, não obtivemos resposta de nenhum dos órgãos citados. O espaço permanece aberto para que as instituições enviem seus esclarecimentos sobre os pontos questionados.</p>



<ul class="wp-block-list">
<li><strong>Atualização 15/04/2026, às 13h30min:</strong> após a publicação desta reportagem, o Cebraspe enviou nota informando que os questionamentos da candidata são tratados no âmbito de ação judicial e que, por essa razão, os esclarecimentos são feitos exclusivamente nos autos do processo.</li>
</ul>



<p></p>
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			</item>
		<item>
		<title>Mães se queixam de falta de profissionais e material escolar nas creches do Recife</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Jeniffer Oliveira]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 02 Apr 2026 13:07:05 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[creches]]></category>
		<category><![CDATA[João Campos]]></category>
		<category><![CDATA[prefeitura do Recife]]></category>
		<category><![CDATA[Primeira Infância]]></category>
		<category><![CDATA[programa de creches]]></category>
		<category><![CDATA[Recife]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Quatro mães, três bairros, o mesmo problema. Pais e responsáveis com filhos matriculados nas creches municipais do Recife denunciam que, desde o início do ano letivo no início de fevereiro, as crianças não tiveram uma semana de aula com os horários completos. A informação que recebem é que isso acontece por falta de auxiliares de [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Quatro mães, três bairros, o mesmo problema. Pais e responsáveis com filhos matriculados nas creches municipais do Recife denunciam que, desde o início do ano letivo no início de fevereiro, as crianças não tiveram uma semana de aula com os horários completos. A informação que recebem é que isso acontece por falta de auxiliares de desenvolvimento infantil (ADIs) que estão com o quadro incompleto ou estão em campanha salarial.</p>



<p>Enquanto o João Campos (PSB) posta os feitos da prefeitura nas redes sociais &#8211; inclusive inauguração de novas creches -, responsáveis e profissionais da educação fazem reivindicações nos comentários do perfil do prefeito e candidato a governador. Além da questão da carga horária que impacta diretamente na rotina dos responsáveis, outro ponto questionado é que, um mês e meio do início do ano letivo, parte dos estudantes aguarda por fardamentos, materiais escolares e livros.</p>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/o-que-joao-campos-nao-conta-sobre-as-creches-do-recife/" class="titulo">O que João Campos não conta sobre as creches do Recife</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/educacao/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Educação</a>
			        </div>
	            </div>
        </div>

		


<p>No Jordão Alto, zona sul do Recife, a Creche Cristo Rei está liberando os estudantes todos os dias mais cedo, desde o início das aulas. Joserlania Balbino é diarista e tem uma filha de dois anos matriculada na instituição, com os horários não sendo cumpridos ela perde dias de trabalho e reveza com o marido que é motorista de aplicativo. “A gente não tem condições de trabalhar pra tá na creche às 11h30 (para pegar as crianças), E isso tá complicando e dificultando a vida dos pais que trabalham, que precisam buscar uma renda fora”, conta.</p>



<p>Já em Boa Viagem, a situação é a mesma. As crianças da Creche Escola 14 Bis também não estão tendo os turnos completos. Na tarde da última terça-feira (24), os pais e responsáveis receberam o aviso que o atendimento dos dias seguintes funcionaria em rodízio, com três turmas na quarta-feira e outras três na quinta-feira. Apesar do rodízio, o comunicado diz que o horário será “normal”, das 7h às 16h. <br><br>Por lá, os responsáveis também têm dificuldades para manter suas rotinas de trabalhos porque são constantemente surpreendidos por alterações na oferta de aulas. Valquiria Balbino, também diarista e mãe de menino de um ano e nove meses, conta que é comum pagar uma pessoa para ficar com a criança enquanto trabalha. “Eu preciso trabalhar, porque moro de aluguel. Então preciso tirar da diária que recebo para uma pessoa pra ficar com ele à tarde”, afirma.</p>



<p>A promessa é que essa creche fosse inaugurada em 2025, mas só aconteceu este ano e, segundo as mães, já apresentam problemas estruturais como vazamentos, alagamento e até curto circuito. Aline Torres é uma dessas mães. Ela também tem um filho na 14 Biz que faz parte do grupo 03, com Transtorno do Espectro Autista (TEA). Segundo ela, as mães chegam a levar as crianças sem saber exatamente se vai ter aula ou não, porque os comunicados são feitos em cima da hora. O sentimento hoje é de frustração por ver o filho sem ter seu direito à educação atendido.</p>



<p>&#8220;Quando finalmente inaugura, inaugura sem horário integral, muitas vezes não tem aula, tem problemas estruturais e faltam profissionais, é muito frustrante mesmo. Me sinto imensamente triste, porque meu filho precisa ter aulas, a equipe da creche é perfeita, a diretora faz de tudo, corre atrás de melhorias e simplesmente não consegue, pois não dão a devida importância e atenção&#8221;, afirma Aline.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 ">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/04/creche-aline.jpg" alt="Na foto vemos Aline Torres, em frente ao portão de uma creche municipal em Recife. Ela veste um uniforme rosa claro e está de braços cruzados, transmitindo uma postura firme e confiante. Aline tem pele clara, cabelos escuros presos para trás e aparece em pé diante de um grande painel azul e laranja com o brasão da prefeitura. O cenário ao redor inclui uma parede revestida de azulejos, árvores ao fundo e um caminho pavimentado." class="w-100" loading="lazy" >
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Aline Torres diz estar frustrada com atendimento na creche do filho
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Mas esse não é um problema apenas das instituições da zona sul. No bairro de Engenho do Meio, zona oeste, a Creche Ceape até chegou a ter aulas com carga horária completa, mas não a semana inteira. São dois dias com aula integral e três não, isso quando o expediente não é paralisado para reparos estruturais, como aconteceu no início da semana passada, quando a bomba quebrada precisou ser consertada.</p>



<p>Uma mãe que preferiu não se identificar informou que na última semana de março, na segunda e terça-feiras não teve aula. Já nesta semana, na segunda-feira (30), o atendimento foi até às 14h30, mas nos dias seguintes foi normalizado. &#8220;É um sistema bom, só que a gente tem que ter sempre uma segunda opção para ficar com nossos filhos, porque a gente não pode depender só disso (a creche)&#8221;, desabafa. </p>



<h2 class="wp-block-heading">A falta que fazem os ADIs</h2>



<p>No início do ano, o prefeito da cidade comemorou o aumento de 1.800 vagas em creches, chegando à marca de 18 mil vagas ofertadas para a educação infantil &#8211; ou <a href="https://www.instagram.com/p/DWmo8jXj4Pb/?igsh=NGc5OHphYngxMHZt">19 mil, segundo a publicidade da prefeitura</a>. Acontece que uma categoria essencial para que essa demanda seja atendida com qualidade, os auxiliares de desenvolvimento infantil, trabalham em situação precária. A informação passada para as mães procede: são poucos os ADIs, como são chamados, e os que estão em atividade reivindicam melhores condições de trabalho e salário.</p>



<p>De acordo com a diretora interina da Associação dos Auxiliares de Desenvolvimento Infantil do Recife (Assadir), Gabrielli Silva, a principal reivindicação é que a gestão municipal reconheça os ADIs com a regulamentação da Lei Federal 15326/26 no município. Se isso ocorrer, seriam reconhecidos como professores de educação infantil, baseados na exigência de formação docente para ocupar o cargo.</p>



<p>No último concurso, em 2024, foi estipulado que para ser ADI é preciso ter formação em Magistério, Pedagogia ou alguma licenciatura plena. Segundo a nota de esclarecimento divulgada na época, “a formação de educadores para atuar na educação infantil e nos anos iniciais do ensino fundamental foi reformulada pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) de 1996”.</p>



<p>No entanto, na prática e no salário, a categoria não recebe como educadora. Segundo a representante da associação, hoje o salário inicial de um ADI com carga horária de 40 horas semanais é de R$ 2.180,56, para quem tem diploma de Magistério e R$ 2.278,68 para quem é graduado em algum curso superior.</p>



<p>Gabrielli afirma que a categoria também reivindica um novo concurso público para o cargo. “O déficit de profissionais é alto devido à desvalorização da carreira e o não enquadramento na carreira do Magistério. O que deixa o salário do ADI abaixo do piso nacional, fazendo com que os profissionais migrem para outras redes que paguem melhor, isso ocasiona os rodízios e horários reduzidos nas unidades de educação infantil do Recife”, avalia a diretora.</p>



<p>Esse é um cargo que foi criado em 2005, pela lei 17.161, na gestão do então prefeito João Paulo. À época, foram criadas 1.545 vagas. Silva explica que “isso foi há 20 anos atrás, hoje a realidade é que o número de vagas nas creches foi triplicado e não houve uma recomposição de quadro efetivo. Para você ter ideia, no último concurso de 2024 foi chamado todo o cadastro reserva em menos de dois anos. Não acabou a validade do concurso e já tinham chamado 1.000 ADIs em uma seleção com oferta inicial de 300 vagas&#8221;. Segundo, dos 1.000 que tomaram posse quase a metade já pediu exoneração”.</p>



<p>Segundo a representante da categoria, muitos desses profissionais recebem as crianças sozinhos, pois o professor regente só chega às 07h30, ou até mesmo ficam sem tirar hora de almoço pois está sozinho em sala de aula, visto que o professor regente larga às 11h30.</p>



<p>“O ADI não pode abandonar a turma, então muitas vezes fica sozinho na sala de aula e tem que almoçar por lá mesmo enquanto as crianças dormem. Caso aconteça alguma coisa com uma criança e o ADI precise dar um apoio, as outras crianças da sala ficam desamparadas, o que é um perigo, pode configurar até abandono de incapaz, porém muitas gestoras assediam os ADIs para que eles fiquem na sala de aula mesmo nessas condições”, garante.</p>



<p>Atualmente, a lotação das salas de aula na educação infantil se organiza conforme a Portaria nº 156/2016 (e sua retificação) e a Resolução CME nº 14/2004, da seguinte forma: </p>



    <div class="lista mx-md-5 px-5 py-4 my-5" style="--cat-color: #EBEB01;">
        <span class="titulo text-uppercase mb-3 d-block"></span>

                    <div class="lista__item">
                <p class="m-0"><span>1. </span>Até 16 crianças por turma no berçário, com a proporção de um professor para cada cinco crianças, com dois ADIs no turno da manhã e três no turno da tarde;</p>
            </div>
                    <div class="lista__item">
                <p class="m-0"><span>2. </span>Nos grupos 01 e 02 são até 21 crianças, com um professor para cada sete crianças, com dois auxiliares/ADIs pela manhã e três à tarde; </p>
            </div>
                    <div class="lista__item">
                <p class="m-0"><span>3. </span>No grupo 03 são até 21 crianças, com um professor para cada 11 crianças, com um ADI no turno da manhã e dois no turno da tarde; </p>
            </div>
                    <div class="lista__item">
                <p class="m-0"><span>4. </span>Nos grupos 04 e 05 são até 26 crianças por turma, considerando um professor e um auxiliar.</p>
            </div>
            </div>



<p>Existe um grupo de trabalho em andamento que envolve a Assadir, o Sindicato dos Trabalhadores da Educação do Recife (Simpere) e outras entidades para discutir reformulações na educação do Recife, incluindo a recomposição nessa distribuição dos ADIs. A proposta que se discute é que o grupo 03 tenha um professor com dois auxiliares no turno da manhã e três no turno da tarde. Nos grupos 04 e 05, um professor com um auxiliar em um turno e, se for integral, dois no contraturno.</p>



<h3 class="wp-block-heading">A denúncia que o MP arquivou</h3>



<p>Além disso, há uma denúncia sobre o acúmulo de funções e a falta de Agentes de Apoio ao Desenvolvimento Escolar Especial (AADEE), profissionais que trabalham diretamente com crianças e adolescentes atípicos. “A gerência de educação especial, que é responsável pelos AADEEs, não manda eles para as unidades de educação infantil, o que acaba sobrecarregando ainda mais os ADIs. Sem contar os desvios de função, onde em algumas unidades temos os Auxiliares de Serviços Gerais dentro de sala de aula cuidando das crianças, o que é um absurdo”, denuncia.</p>



<p>O Ministério Público de Pernambuco esteve investigando a denúncia sobre o acúmulo de função de funcionários terceirizados. Em nota, o MPPE afirma que “desde então, o Ministério Público requisitou informações à Secretaria de Educação do Recife e promoveu diligências. Contudo, a denúncia não foi comprovada e o inquérito acabou arquivado”.</p>


	<div class="informacao mx-md-5 px-5 py-4 my-5" style="--cat-color: #7BDDDD;">
		<span class="titulo text-uppercase mb-3 d-block">Confira a resposta da Prefeitura do Recife na íntegra: </span>

		<p>&#8220;A Secretaria de Educação do Recife informa que as situações relatadas em unidades da rede municipal são pontuais e também estão relacionadas ao contexto atual de mobilização da categoria, em função da campanha salarial em curso. A pasta esclarece que as paralisações e assembleias convocadas pelo sindicato têm impacto no funcionamento de algumas unidades, podendo ocasionar ajustes temporários na rotina escolar, como reorganização de horários e atendimento das turmas.</p>
<p>A Secretaria de Educação reforça que segue atuando de forma permanente para minimizar quaisquer prejuízos às famílias e aos estudantes, com a convocação contínua de profissionais e adoção de medidas administrativas para garantir a recomposição do atendimento o mais breve possível&#8221;.</p>
<p>&nbsp;</p>
	</div>



<p>Também perguntamos por qual motivo os materiais e os fardamentos ainda não foram entregues nessas e em outras unidades do Recife. Além disso, solicitamois dados sobre a realidade das creches e ADIs que existem hoje na rede, como o número total atualizado de creches, creche escolas e creches parceiras da Rede Municipal; o número total de vagas preenchidas nessas instituições; o número total de auxiliares de desenvolvimento infantil concursados, contratados e terceirizados na Rede Municipal.</p>



<p>No entanto, a prefeitura não respondeu a esses questionamentos.</p>
<p>O post <a href="https://marcozero.org/maes-se-queixam-de-falta-de-profissionais-e-material-escolar-nas-creches-do-recife/">Mães se queixam de falta de profissionais e material escolar nas creches do Recife</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
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		<title>UFPE apresenta detalhes das perseguições da ditadura a professores, técnicos e estudantes</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 26 Mar 2026 17:49:02 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[Comissão da Verdade]]></category>
		<category><![CDATA[ditadura militar]]></category>
		<category><![CDATA[golpe de 1964]]></category>
		<category><![CDATA[UFPE]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A Comissão da Verdade, Memória e Reparação da UFPE sobre a ditadura de 1964 apresentará, no próximo dia 31 de março, os resultados parciais de seu levantamento. Realizado desde junho de 2025, o trabalho identificou pelo menos 649 professores, estudantes e técnicos da universidade que foram alvo de práticas autoritárias do regime militar, que vão [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>A Comissão da Verdade, Memória e Reparação da UFPE sobre a ditadura de 1964 apresentará, no próximo dia 31 de março, os resultados parciais de seu levantamento. Realizado desde junho de 2025, o trabalho identificou pelo menos 649 professores, estudantes e técnicos da universidade que foram alvo de práticas autoritárias do regime militar, que vão desde investigações sobre atividades “subversivas” até demissões, cancelamentos de bolsas e expulsões. Desse total, 132 pessoas foram presas ou detidas e, pelo menos, seis estudantes foram mortos pela repressão.</p>



<p>O evento <em>A UFPE e o compromisso com as memórias</em> acontece a partir das 9h, no auditório João Alfredo, na Reitoria, em uma data simbólica: os 62 anos do golpe militar. Além de detalhar os números e perfis das vítimas, a comissão anunciará as próximas etapas do trabalho de investigação e reconstrução histórica da repressão na instituição entre 1964 e 1985. </p>



<p>Como parte das atividades, serão remontadas exposições organizadas pelo Núcleo de Documentação sobre os Movimentos Sociais Dênis Bernardes (Nudoc) da UFPE: <em>Lutas de Classes sob a ditadura de 1964-1985</em> e <em>Tecendo memórias e lutas</em>, com foco nos assassinatos políticos de Soledad Barret e padre Henrique. Também será lançado um conjunto de vídeos de três minutos sobre estudantes da UFPE mortos pela repressão, que passarão a ser exibidos como interprogramas na TVU a partir das 18h.</p>



<p>Os produtos de memória são resultado de uma experiência pedagógica que envolveu estudantes de jornalismo no semestre passado, sob orientação das professoras Paula Reis e Yvana Fechine. Alunos produziram os vídeos no Laboratório de Imagem e Som (LIS) e também realizaram 18 reportagens e entrevistas que serão disponibilizadas no site da comissão. O levantamento de dados, por sua vez, conta com a participação de estudantes voluntários e bolsistas, sob supervisão de especialistas.</p>



<p>A escolha do Auditório João Alfredo, no prédio da Reitoria, carrega simbolismo histórico. João Alfredo Costa Lima, reitor da então Universidade do Recife à época do golpe de 1964, foi vítima da repressão e acabou renunciando ao cargo poucos meses depois, sob pressão de militares e setores que o acusavam de abrigar “comunistas” na instituição.</p>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/dossie-revela-como-militares-interferiam-na-vida-academica-da-ufpe/" class="titulo">Dossiê revela como militares interferiam na vida acadêmica da UFPE</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/poder/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Poder</a>
			        </div>
	            </div>
        </div>

		


        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/militares-vigiavam-ate-os-reitores-da-ufpe-durante-a-ditadura/" class="titulo">Militares vigiavam até os reitores da UFPE durante a ditadura</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/democracia/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Democracia</a>
			        </div>
	            </div>
        </div>

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		<title>A universidade que aprende com o quilombo</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Giovanna Carneiro]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 10 Feb 2026 21:58:59 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Diversidade]]></category>
		<category><![CDATA[Conceição das Crioulas]]></category>
		<category><![CDATA[educação quilo]]></category>
		<category><![CDATA[educação quilombola]]></category>
		<category><![CDATA[quilombolas Pernambuco]]></category>
		<category><![CDATA[UFPE]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Há pouco menos de um ano, no dia 30 de maio de 2025, a Comunidade Quilombola de Carapotós, em Caruaru, no agreste pernambucano, recebeu a certificação da Fundação Cultural Palmares. O reconhecimento marca um novo momento para os moradores do Sítio Carapotós, o início de uma trajetória ainda mais consolidada do processo de fortalecimento e [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[	<div class="informacao mx-md-5 px-5 py-4 my-5" style="--cat-color: #7BDDDD;">
		<span class="titulo text-uppercase mb-3 d-block"></span>

		<p><span style="font-weight: 400">A série de reportagens </span><i><span style="font-weight: 400">Ciência dos saberes ancestrais: a força da Educação Quilombola</span></i><span style="font-weight: 400"> parte do pioneirismo da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) ao criar a licenciatura em Educação Escolar Quilombola, baseada na resolução nº 8/2012 do Conselho Nacional de Educação. A iniciativa reconhece a relevância cultural, social e histórica das comunidades quilombolas e reforça que seus modos de ensinar e produzir conhecimento também constituem ciência. A proposta da série é expor a importância da educação quilombola, suas potências pedagógicas, os desafios de implementação e a valorização de tecnologias e saberes tradicionais, contribuindo para ampliar o compromisso de outras instituições de ensino com essa modalidade educacional.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400">Com três reportagens, a série percorre tanto o ambiente acadêmico quanto o próprio território quilo,bola, articulando a formação de docentes na licenciatura da UFPE com a prática educacional desenvolvida nas comunidades. O foco recai especialmente sobre Conceição das Crioulas, em Salgueiro, referência histórica na construção de um projeto educativo próprio, enraizado na coletividade, na cultura e na luta por direitos.</span><span style="font-weight: 400"> A série foi contemplada na “Seleção Petrobras de Jornalismo – Ciência e Diversidade”. </span></p>
	</div>



<p>Há pouco menos de um ano, no dia 30 de maio de 2025, a Comunidade Quilombola de Carapotós, em Caruaru, no agreste pernambucano, recebeu a certificação da Fundação Cultural Palmares. O reconhecimento marca um novo momento para os moradores do Sítio Carapotós, o início de uma trajetória ainda mais consolidada do processo de fortalecimento e resistência da identidade cultural quilombola.</p>



<p>“Nós sempre escutamos muitas histórias das pessoas mais velhas da comunidade e através de uma pesquisa de campo, com ajuda de cientistas, fizemos um estudo e produzimos um relatório para enviar para a Fundação Palmares”, conta o professor e morador da comunidade quilombola, Jonathan Arruda. Formado em licenciatura nos cursos de História e Geografia, Jonathan revela que o fortalecimento da identidade quilombola entre os moradores do sítio ainda é um desafio a ser solucionado e acredita que a educação é o melhor caminho para isso. Foi pensando em ampliar o acesso à educação para a sua comunidade que o professor se tornou um dos primeiros alunos a ingressar no curso de Licenciatura em Educação Escolar Quilombola da Universidade Federal de Pernambuco.</p>



<p>“A gente, como liderança comunitária, tem que sensibilizar o pessoal da comunidade para a questão da política pública, principalmente na política de educação. Por isso, a partir do momento que surgiu a oportunidade da licenciatura, eu comecei a sensibilizar as pessoas da nossa comunidade para que elas fizessem o curso também”, afirma Jonathan Arruda. Além do professor, outros três moradores da Comunidade Quilombola de Carapotós ingressaram na licenciatura.</p>



<p>O curso é uma das iniciativas pioneiras em Educação Escolar Quilombola no Brasil. Anunciado no segundo semestre de 2024, a iniciativa tem o objetivo de garantir a formação docente específica para as populações quilombolas do estado. Além da UFPE, a Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat) e a Universidade Federal de Sergipe (UFS) inauguraram o curso dedicado à população quilombola nos anos de 2024 e 2025, respectivamente.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2021/10/216491985_4422851654421289_2799464916813170336_n-300x225.jpg">
                <source media="(min-width: 800px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2021/10/216491985_4422851654421289_2799464916813170336_n-1024x768.jpg">
                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2021/10/216491985_4422851654421289_2799464916813170336_n-1024x768.jpg" alt="A imagem mostra o prédio principal do campus da UFPE em Caruaru, um prédio moderno de vários andares, com formato simétrico. A parte central tem muitas janelas pequenas organizadas em grade, enquanto as laterais têm estruturas verticais vermelhas com grandes janelas espelhadas. Na frente há uma entrada larga, com escadas e uma rampa. O chão é pavimentado e há apenas um carro prateado estacionado. O céu está nublado e ao redor não há muita vegetação ou construções." class="" loading="lazy" >
            </picture>

	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Prédio central do campus da UFPE em Caruaru
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Divulgação/UFPE</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<h2 class="wp-block-heading">Homenagem a um líder</h2>



<p>Propondo um modelo de educação descentralizada, a Licenciatura em Educação Escolar Quilombola da UFPE teve início em julho de 2025. Além do pioneirismo da formação, o curso e sua base de formação homenageia o intelectual quilombola Antônio Bispo dos Santos, conhecido como Nêgo Bispo.</p>



<p>Filósofo, poeta, escritor, professor e ativista político, Nego Bispo foi uma liderança da comunidade quilombola Saco do Curtume em São João do Piauí e se tornou uma das vozes mais influentes do movimento quilombola no Brasil.</p>



<p>Como escritor, Nêgo Bispo publicou diversos livros e artigos, incluindo obras como <em>Quilombos, modos e significados</em> (2007); <em>Colonização, Quilombos: modos e significados</em> (2015); <em>A Terra dá, a Terra quer</em> (2023), nas quais apresenta seu conceito crítico de contracolonização, que propõe fortalecer culturas e organizações de povos tradicionalmente marginalizados como resposta à imposição colonial. O líder quilombola faleceu em dezembro de 2023, aos 63 anos, mas seu legado e suas obras seguem sendo uma grande referência no Brasil, e têm conquistado cada vez mais espaço nas universidades.</p>



<p>Tomando como referência os saberes de Nego Bispo, a fim de valorizar a cultura e o conhecimento dos povos tradicionais, a licenciatura da UFPE possui uma formação baseada na pedagogia da alternância, como explica o doutor em Antropologia e professor da UFPE, Sandro Guimarães: “a pedagogia da alternância considera uma carga horária na universidade e uma carga horária na comunidade. Isso contribui para uma articulação dos conhecimentos mais acadêmicos, mais compartilhados aqui na universidade, com a vivência nos quilombos, e isso é muito importante para que essa licenciatura seja um curso específico, diferenciado, intercultural, como a gente espera”.</p>



<p>“Nós pensamos também na importância de ter um currículo voltado para os interesses que dialoguem com as pautas das comunidades quilombolas, e que também reconheça uma dívida que a universidade e o Estado têm em relação às suas comunidades, no que diz respeito às epistemologias, esses saberes que por muito tempo não foram considerados. Portanto, tem essa dimensão técnica, porque a gente pretende formar professores, com todas as disciplinas que são importantes na formação de um professor, mas também dimensões outras, como a ética, a humanística, a política, a epistêmica”, conclui o professor que contribuiu no processo de formação da base curricular do curso.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
            <picture>
                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/02/negobispo-300x119.jpg">
                <source media="(min-width: 800px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/02/negobispo-1024x406.jpg">
                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/02/negobispo-1024x406.jpg" alt="Foto de Nego Bispo, um homem idoso, de barba grisalha, está sentado em uma sala iluminada, vestindo camisa listrada colorida. À sua frente, sobre a mesa, há dois livros vermelhos em destaque; o da frente traz o título ‘Colonização, Quilombos: Vozes e Sobrevivências’, com a imagem estilizada de um rosto em vermelho e preto. O ambiente lembra uma biblioteca ou sala de estudo, com janelas grandes e papéis espalhados" class="" loading="lazy" >
            </picture>

	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Antônio Bispo dos Santos é o intelectual quilombola que inspira a Licenciatura em Educação Escolar Quilombola da UFPE
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Acervo pessoal</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>O curso, que possui duração de oito semestres, foi estruturado por meio de uma parceria entre o Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Pernambuco (IFPE), Campus Garanhuns, e o Instituto Federal de Educação do Sertão Pernambucano (IFSertãoPE), contando ainda com o apoio da Coordenação Estadual de Articulação das Comunidades Quilombolas de Pernambuco. As parcerias possibilitaram uma formação descentralizada, uma vez que as aulas acontecem em quatro cidades de Pernambuco: em Garanhuns, no agreste do estado; e em Santa Maria da Boa Vista, no Sertão do estado; em Caruaru, também Agreste, e na capital, Recife.</p>



<p>A licenciatura tem como foco tanto a formação inicial de professores, oferecendo uma segunda graduação para docentes que já atuam em escolas quilombolas, mas que ainda não possuem a titulação exigida pela resolução nº 8/2012 do Conselho Nacional de Educação (CNE). Os profissionais formados poderão atuar em diferentes modalidades da educação básica, com ênfase nos anos iniciais do ensino fundamental, nas áreas de Pedagogia, Matemática, Ciências da Natureza e Ciências Sociais. Além da docência, a formação também habilita os egressos para funções de gestão escolar e para o desenvolvimento de práticas educativas em contextos escolares e não escolares, fortalecendo iniciativas que contribuam diretamente para o desenvolvimento das comunidades quilombolas.</p>



<p>Atualmente, o curso conta com 100 alunos matriculados e com entrada única, ou seja, só após a conclusão da primeira turma é que haverá a convocação para a próxima, como explica Sandro Guimarães: “O curso Intercultural Indígena criado aqui na UFPE foi utilizado como referência para nós e ele iniciou assim, com uma entrada única, só depois se tornou uma graduação com entrada anual, e é isso que nós esperamos que aconteça com a Licenciatura em Educação Escolar Quilombola”.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Racismo presente na sala de aula</strong></h2>



<p>O acesso de estudantes assentados da reforma agrária e de comunidades quilombolas à universidade pública esteve no centro de uma polêmica recente em Pernambuco. Após o anúncio da criação no país da primeira turma de Medicina vinculada ao Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária (Pronera), na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), no Campus Caruaru, a iniciativa passou a ser alvo de ataques e da disseminação de desinformação por parte de figuras públicas da extrema direita contrários à proposta.</p>



<p>Entre os argumentos utilizados por críticos da iniciativa estava a alegação de que o curso beneficiaria assentados e quilombolas em detrimento de outros candidatos, como se as vagas estivessem sendo “roubadas” do público geral. A disputa ganhou repercussão jurídica e o caso chegou à Justiça. Apesar das tentativas de barrar a iniciativa, a solenidade de abertura do curso foi realizada em dezembro de 2025.</p>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/por-que-curso-de-medicina-para-assentados-e-quilombolas-virou-alvo-de-ataques-e-fake-news/" class="titulo">Por que curso de Medicina para assentados e quilombolas virou alvo de ataques e fake news</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/educacao/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Educação</a>
			        </div>
	            </div>
        </div>

		


<p>A violência presente na tentativa de barrar o ingresso de pessoas quilombolas acaba por demarcar um lugar de privilégio no acesso às universidades públicas no Brasil. Diante disso, muitas pessoas pertencentes aos grupos tradicionais sentem dificuldade em se sentir parte da academia. O reflexo disso está nos casos de racismo que aconteceram com alunos de Licenciatura em Educação Escolar Quilombola. Apenas no primeiro semestre do curso pelo menos três casos foram registrados pela coordenação, como conta o professor Sandro Guimarães:</p>



<p>“Infelizmente, tivemos algumas denúncias de racismo vindas dos próprios estudantes. Tivemos um caso em Caruaru, um caso em Recife e também em Santa Maria da Boa Vista. E esse tem sido um grande desafio, porque a universidade não foi feita para a diferença, a universidade ainda está aprendendo a lidar com isso. Os professores, os estudantes, eles não estão preparados para isso. Então, é um outro paradigma com o qual a gente ainda está aprendendo a lidar com ele”.</p>



<p>“Os casos que tem provas a gente toma todas as providências possíveis e cabíveis, mas às vezes são insultos que são proferidos e os alunos não conseguem identificar quem fez”, disse Guimarães.</p>



<p>Devido a esse cenário, ainda há resistência de algumas pessoas em querer ocupar a universidade. “Ainda é um trabalho de formiguinha convencer as pessoas da comunidade quilombola que esse espaço é nosso, que nós temos que ocupar ele, até para poder desenvolver mais coisas para o nosso próprio território, mas nós estamos avançando e em um único semestre já fizemos coisas importantes”, diz Jonathan Arruda.</p>



<p>Em uma das disciplinas desse semestre o líder quilombola desenvolveu, junto com os demais moradores do quilombo que também integram o curso, materiais didáticos sobre a Comunidade Quilombola de Carapotós, entre eles um livro sobre a história do território.</p>



<p>Porém, muito antes da formação na Licenciatura em Educação Escolar Quilombola Jonathan Arruda e outros professores já tocavam iniciativas educativas na Escola Municipal Manoel Brajano de Arruda, a fim de fortalecer a identidade quilombola da comunidade. A construção dessa base educacional quilombola foi fundamental para a criação de um curso superior pensado exclusivamente em uma educação quilombola, como veremos na próxima reportagem da série <em>Ciência dos saberes ancestrais: a força da Educação Quilombola.</em></p>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/antes-da-universidade-o-quilombo-ja-ensinava/" class="titulo">Antes da universidade, o quilombo já ensinava</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/educacao/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Educação</a>
			        </div>
	            </div>
        </div>

		


<p></p>
<p>O post <a href="https://marcozero.org/a-universidade-que-aprende-com-o-quilombo/">A universidade que aprende com o quilombo</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
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			</item>
		<item>
		<title>Quando os saberes ancestrais e a pedagogia crioula ocupam o mundo acadêmico</title>
		<link>https://marcozero.org/quando-os-saberes-ancestrais-e-a-pedagogia-crioula-ocupam-o-mundo-academico/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Giovanna Carneiro]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 10 Feb 2026 21:41:27 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Diversidade]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Quilombola da comunidade Conceição das Crioulas, Rozeane Maria Mendes é uma das alunas da primeira turma do curso em Educação Escolar Quilombola da Universidade Federal de Pernambuco. Durante sua trajetória de vida na comunidade, a integrante da coordenação estadual das Comunidades Quilombolas sempre valorizou o modelo de educação e ensino desenvolvido na comunidade. “Nosso principal [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Quilombola da comunidade Conceição das Crioulas, Rozeane Maria Mendes é uma das alunas da primeira turma do curso em Educação Escolar Quilombola da Universidade Federal de Pernambuco. Durante sua trajetória de vida na comunidade, a integrante da coordenação estadual das Comunidades Quilombolas sempre valorizou o modelo de educação e ensino desenvolvido na comunidade.</p>



<p>“Nosso principal diferencial é a coletividade e a vivência comunitária que exercemos aqui no território. A gente procura viver a educação o máximo possível junto à comunidade e às famílias. Ao colocar em prática nosso próprio PPP, organizamos também um calendário adaptado à nossa realidade: temos feriados próprios na escola e, enquanto o recesso escolar geralmente acontece em julho, aqui ele ocorre em agosto. Também damos muita atenção aos adolescentes, com ações específicas voltadas para eles. Muitas dessas atividades são consideradas extraclasses, mas acabam contribuindo diretamente com a grade curricular”, afirma Rozeane Maria Mendes.</p>



<p>Para Rozeane, entrar no curso da UFPE representa uma oportunidade de fortalecer o movimento quilombola por meio do diálogo e da troca de experiências com comunidades de outras regiões, além de assegurar respaldo acadêmico às lutas dos quilombos, ampliando sua presença na universidade e a possibilidade de disputar espaços de produção de conhecimento e reconhecimento de saberes.</p>



<p>“Eu acredito que, para além de enriquecer o currículo, o mais importante é essa troca de experiências, de práticas e de vivências com outras comunidades. É também aprender mais sobre a parte teórica, entender o que a universidade está discutindo e vivenciando em relação às comunidades quilombolas. Ao mesmo tempo, vejo que o curso não apenas soma para a gente, mas que nós também damos uma contribuição enorme à universidade. Pelo olhar do sistema, o certo seria a gente ir para a escola apenas para aprender, mas o curso traz essa possibilidade de, além de aprender, compartilhar nossos próprios conhecimentos com o saber teórico acadêmico”, defende Rozeane.</p>



<p>A geógrafa integra a turma que está tendo aulas no município de Santa Maria da Boa Vista, no Instituto Federal do Sertão (IFSertão). Como a instituição fica a 134 quilômetros de distância da comunidade, nos dias de aula Rozeane e outros dez alunos do curso precisam se deslocar até o local. As despesas de transporte e alimentação são custeadas através da bolsa-auxílio que recebem da universidade. De acordo com a aluna, sem essa ajuda de custo, não seria possível a permanência no curso.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/02/ufpe.jpg" alt="Na foto, vemos um grupo de cerca de vinte pessoas reunidas ao ar livre - maioria jovens mulheres negras -, debaixo de uma grande árvore, próximo a um rio ou lago. A maioria veste camisetas brancas iguais, com detalhes em vermelho e preto, indicando que participam de um mesmo evento ou atividade. Um homem à esquerda está com uma camiseta cinza, diferente das demais. O clima é ensolarado, o céu está limpo." class="" loading="lazy" width="676">
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	                                        <p class="m-0">Turma de Licenciatura em Educação Escolar Quilombola do IFSertão.
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Acervo pessoal</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>“Nós nos organizamos para assegurar que esse auxílio alcançasse todos os estudantes, algo essencial em um curso que tem a proposta de ser descentralizado. Mesmo assim, apenas esse recurso não é suficiente, por exemplo, para viabilizar atividades presenciais reunindo todos em um mesmo espaço. Para que esses encontros aconteçam, muitas vezes dependemos da articulação conjunta entre alunos e professores”, explica o professor Sandro Guimarães.</p>



<p>A coletividade é uma das bases pedagógicas do curso e isso se reflete na maneira com que os alunos se relacionam, como exalta Rozeane Mendes: “o primeiro semestre foi muito, houve muita ligação entre nós mesmos, quilombolas com quilombolas. Tivemos também professores que não são quilombolas, mas que demonstraram uma preocupação muito significativa com as questões que a gente desenvolve. É impressionante como o nosso próprio povo ainda precisa de muitas ações de autoafirmação, e eu senti isso de forma muito forte no curso”.</p>



<p>A aluna faz um apelo para que a iniciativa seja ampliada, defendendo que o curso alcance um número maior de pessoas e outras comunidades. Ela reconhece que se trata de uma turma piloto, pioneira nessa metodologia, mas acredita que a expansão para novos territórios poderia ampliar significativamente o acesso. “Por exemplo, se tivesse um polo em Salgueiro, facilitaria muito a participação de estudantes da própria cidade e de municípios vizinhos do Sertão Central, porque hoje muita gente precisa se deslocar até a região do São Francisco para conseguir frequentar as aulas”, afirma Rozeane.</p>



<p>A trajetória de Rozeane, que participou da construção do projeto político-pedagógico de Conceição das Crioulas e atualmente integra a primeira turma do curso de Educação Escolar Quilombola da UFPE, evidencia a força de um processo coletivo de formação e aprendizagem. Essa experiência contribui diretamente para a efetivação da Lei 10.639/2003, que torna obrigatório o ensino de História e Cultura Afro-Brasileira nas escolas públicas e privadas do ensino fundamental e médio. O fortalecimento de iniciativas como o curso da UFPE e da consolidação de escolas quilombolas nos territórios é fundamental para que a legislação seja aplicada de forma contextualizada, dialogando com as realidades e vivências das diferentes comunidades.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Políticas para ampliar a educação quilombola</h2>



<p>O Novo Pronacampo (Política Nacional de Educação do Campo, das Águas e das Florestas) é uma política do Governo Federal criada em 2024 para ampliar, qualificar e garantir o acesso, a oferta e a permanência dos estudantes nas escolas voltadas às populações do campo, das águas e das florestas, em todas as etapas e níveis de ensino. A proposta vai além do acesso à escola: ela fortalece o reconhecimento da diversidade, o protagonismo político, pedagógico e epistêmico dessas populações e promove ações de formação, produção de materiais didáticos, melhoria de infraestrutura e elaboração de diretrizes curriculares específicas, inclusive para realidades como classes multisseriadas, comuns em territórios tradicionais. A política também incorpora princípios como justiça climática, sustentabilidade e agroecologia, articulando educação e território.</p>



<p>Para a educação quilombola, o Pronacampo representa um eixo estratégico de fortalecimento. Ele incentiva a valorização dos saberes tradicionais, apoia a participação de mestres e mestras das comunidades na política educacional e reforça a implementação das Leis 10.639/2003 e 11.645/2008, que tratam do ensino de história e cultura afro-brasileira e indígena. A política também estimula a produção de conhecimentos a partir de perspectivas não eurocêntricas e a formação intercultural, reconhecendo as trajetórias históricas e epistemológicas dos territórios quilombolas. Iniciativas como a Escola Nacional Nego Bispo de Saberes Tradicionais, em parceria com instituto federal, exemplificam essa diretriz ao ofertar formação continuada em saberes afro-brasileiros, indígenas e quilombolas.</p>



<p>Além da dimensão pedagógica, o programa se materializa em investimentos concretos em infraestrutura escolar. De acordo com dados do MEC, por meio do Novo Programa de Aceleração do Crescimento (Novo PAC), em 2024 foram entregues 13 escolas indígenas e nove quilombolas. A previsão é de que sejam construídas ainda 117 escolas indígenas e 48 quilombolas. Outras 49 escolas indígenas e 13 quilombolas estão previstas, a partir de parceria entre o Ministério da Educação (MEC) — por meio do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) —, o Ministério das Relações Exteriores (MRE) — por meio da Agência Brasileira de Cooperação (ABC) — e o Escritório das Nações Unidas de Serviços para Projetos (Unops).</p>



<p>Segundo dados do Censo Escolar 2024 divulgados pelo MEC, o Brasil possui aproximadamente 2.618 escolas em comunidades remanescentes quilombolas.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 ">
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Mural na Comunidade Quilombola Conceição das Crioulas. 
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Giovanna Carneiro</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Márcia Crioula, integrante do Coletivo Nacional de Educação e da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ), reflete sobre os desafios e os avanços da educação quilombola.</p>



<p>“A gente vem construindo caminhos e também enfrentando muitos desafios, como o de ocupar a universidade, que deveria ser um espaço aberto a diferentes conhecimentos e saberes, mas que, na prática, ainda exclui quilombolas e indígenas. Ao mesmo tempo, vemos que a educação tem gerado frutos importantes. Pode até parecer pouco para quem olha de fora, mas é uma imensidão: a produção de livros pela própria comunidade, as pesquisas realizadas pelas crianças e pelos jovens, além da formação de professoras e doutoras quilombolas”, destaca.</p>



<p>A trajetória que liga Carapotós, Conceição das Crioulas e a UFPE revela que a educação quilombola não é apenas uma modalidade de ensino, mas um campo de produção de conhecimento, de disputa epistêmica e de reconstrução histórica. Ao entrar na universidade, esses saberes não deixam de ser territoriais, eles ampliam o território para dentro da academia. A licenciatura em Educação Escolar Quilombola, assim, não é ponto de chegada, mas parte de um movimento maior: o de afirmar que ciência, pedagogia e pensamento crítico também se constroem nos quilombos.</p>


    <div class="infos mx-md-5 px-5 py-4 my-5">
        <span class="titulo text-uppercase mb-2 d-block"></span>

	    <p>A série de reportagens <em>Ciência dos saberes ancestrais: a força da Educação Quilombola</em> foi contemplada na &#8220;Seleção Petrobras de Jornalismo – Ciência e Diversidade&#8221;.</p>
    </div>



<ul class="wp-block-list"></ul>



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		<title>Antes da universidade, o quilombo já ensinava</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Giovanna Carneiro]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 10 Feb 2026 21:03:33 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Diversidade]]></category>
		<category><![CDATA[comunidades quilombolas]]></category>
		<category><![CDATA[Conceição das Crioulas]]></category>
		<category><![CDATA[educação quilombola]]></category>
		<category><![CDATA[UFPE]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Localizada a pouco mais de 500 quilômetros do Recife, a comunidade Conceição das Crioulas, no município de Salgueiro, no Agreste pernambucano, é o território quilombola mais populoso do estado, segundo dados do Censo 2022 do IBGE. De acordo com levantamento, a localidade reúne pelo menos 2.370 moradores. A relevância da comunidade, no entanto, vai além [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Localizada a pouco mais de 500 quilômetros do Recife, a comunidade Conceição das Crioulas, no município de Salgueiro, no Agreste pernambucano, é o território quilombola mais populoso do estado, segundo dados do Censo 2022 do IBGE. De acordo com levantamento, a localidade reúne pelo menos 2.370 moradores. A relevância da comunidade, no entanto, vai além do número de habitantes e se expressa no forte investimento em educação no próprio território.</p>



<p>Conceição das Crioulas está entre os territórios tradicional com maior número de escolas quilombolas, somando quatro unidades: a Escola Quilombola Bevenuto Simão de Oliveira, a Escola Quilombola José Néu, a Escola Quilombola José Mendes e a Escola Estadual Quilombola Professora Rosa Doralina Mendes. As instituições atendem estudantes desde a educação infantil até o ensino médio, fortalecendo a formação educacional dentro da própria comunidade.</p>


	<div class="informacao mx-md-5 px-5 py-4 my-5" style="--cat-color: #7BDDDD;">
		<span class="titulo text-uppercase mb-3 d-block"></span>

		<p>Com mais de dois séculos de história, Conceição das Crioulas tem sua origem registrada tanto em documentos oficiais quanto na tradição oral mantida pelos mais velhos que relatam a chegada de seis mulheres negras livres (as crioulas) à região no fim do século XVIII.</p>
<p>Por meio da fiação de algodão, do cultivo agrícola e da produção artesanal, elas conseguiram adquirir as terras em 1802, marcando o início da consolidação do território. O próprio nome do quilombo reafirma o protagonismo dessas mulheres na conquista da terra e sua devoção a Nossa Senhora da Conceição, cuja imagem teria sido levada por elas ao local.</p>
	</div>



<p>O fortalecimento da identidade e da formação quilombola na comunidade ganhou força a partir da década de 1990, conduzido por lideranças locais que tiveram papel central no processo de reconhecimento do território como quilombo. Nascido e criado na própria comunidade, o líder João Alfredo de Souza recorda episódios marcantes da mobilização em defesa das terras quilombolas e do processo de afirmação identitária e cultural do grupo:</p>



<p>“Conceição das Crioulas já era um quilombo desde o século 18, pelo que contaram os mais velhos. Mas foi em 1802 que nós conseguimos uma escritura registrada com o título oficial de Conceição das Crioulas, título conquistado por um grupo de mulheres quilombolas que vieram pra cá. Depois de arrendar a área, as mulheres trabalharam e pagaram pela terra, assim hoje nós temos oficialmente cerca de 17 mil hectares. E até os anos 1990 a gente não aprofundava muito os debates sobre quilombo, sobre raça, mas decidimos ir atrás de registrar nossa história e foi nas ações das comunidades eclesiásticas de base que esse interesse foi despertado, principalmente em 1988 quando o tema da campanha da fraternidade foi “Fraternidade e o Negro”, isso chamou nossa atenção”.</p>



<p>“Foi a partir daí que nós começamos a entender e olhar para a nossa condição, tendo que enfrentar falta de água, de saneamento básico, de educação, um descaso do Estado com a gente, e com isso começamos a nos organizar para cobrar. E quando decidimos que iríamos buscar o desenvolvimento para a nossa comunidade nós definimos o que seria prioridade nessa luta e a educação era uma das principais”, concluiu o líder comunitário.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">João Alfredo de Souza em frente a Associação Quilombola de Conceição das Crioulas (AQCC)
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Giovanna Carneiro</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Graças a articulação dos líderes quilombolas, a primeira escola da comunidade, a Escola José Néu, foi inaugurada em 1994. Naquela época, os professores que atuavam na instituição de ensino eram em sua maioria de outros municípios e não eram quilombolas, e na comunidade apenas Givânia Maria, uma das fundadoras da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq), estava terminando a graduação para começar a lecionar. </p>



<p>Nesse cenário, a composição de um quadro docente formado integralmente por quilombolas tornou-se uma reivindicação central das lideranças locais, como recorda José Alfredo: “nós não queríamos escola de maquiagem, nós queríamos uma escola que ajudasse a fortalecer a nossa identidade, que pudesse ajudar aos alunos, nossos filhos, nossos netos, nossos irmãos, a poder ir para essa escola e resgatar na escola também a autoestima deles, e sobretudo garantir a identidade negra, cultural, para que ela não morresse”.</p>


	<div class="informacao mx-md-5 px-5 py-4 my-5" style="--cat-color: #7BDDDD;">
		<span class="titulo text-uppercase mb-3 d-block"></span>

		<p>Conceição das Crioulas recebeu um primeiro título de suas terras em 2000, por meio da Fundação Cultural Palmares, mas a permanência de ocupantes externos impediu a consolidação da posse plena do território. Em 2004 foi aberto um novo processo no Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), que segue em tramitação. O território reivindicado soma aproximadamente 17 mil hectares. Parte dessa área já foi assegurada: entre 2014 e 2015, o INCRA emitiu títulos de propriedade que totalizam aproximadamente 2.080 hectares, registrados em nome da Associação Quilombola Conceição das Crioulas. Ainda assim, o processo administrativo principal (n.º 54141.001339/2004-80), voltado ao reconhecimento, desapropriação e titulação de cerca de 16.865 hectares, permanece inconcluso. Embora o decreto de desapropriação tenha sido publicado em 2009, etapas como a retirada de fazendas sobrepostas, a regularização cartográfica e a titulação coletiva definitiva do território ainda não foram finalizadas.</p>
	</div>



<h2 class="wp-block-heading">Plano Político Pedagógico diferenciado</h2>



<p><a href="https://repositorio.unb.br/handle/10482/31319" id="https://repositorio.unb.br/handle/10482/31319">Em sua dissertação de conclusão do mestrado em Desenvolvimento Sustentável Junto a Povos e Territórios Tradicionais</a>, defendida na Universidade de Brasília, Márcia Juscilene do Nascimento, conhecida como Márcia Crioula, apresentou a pedagogia crioula, uma metodologia de ensino desenvolvida a partir da sua experiência como professora e também como liderança que integrou o projeto de construção do plano político e pedagógico das escolas de Conceição das Crioulas.</p>



<p>O trabalho desenvolvido pela professora e pesquisadora foi fundamentado a partir da sua experiência na Escola Professor José Mendes, primeira escola da comunidade que utilizou de um programa pedagógico que tem como base a cultura e a história do quilombo. De acordo com o PPP desenvolvido, a pedagogia crioula contém sete fundamentos principais, são eles: território, história, identidade, organização, saberes e conhecimentos próprios, gênero e interculturalidade.</p>



<p>Márcia Crioula explica que o Projeto Político-Pedagógico (PPP) das escolas de Conceição das Crioulas é anterior à formalização das próprias instituições de ensino, pois nasce das concepções, ideias e do projeto de vida da comunidade. Segundo ela, o PPP não pode estar desvinculado do que se pensa para o território e para o futuro coletivo, já que expressa os caminhos que o grupo escolhe trilhar. Assim, mais do que criar algo do zero, a comunidade sistematizou uma construção que já vinha sendo gestada desde o fim dos anos 1980, período em que as lutas sindicais também integravam esse processo de formação política e social.</p>



<p>“A gente começou com a prática. Mesmo antes de existir no papel o nosso PPP, sempre priorizamos a história e a cultura do nosso quilombo no processo de educação da comunidade. Entendemos que, se a história do nosso povo é uma história de resistência, baseada na luta coletiva, isso também precisava estar presente nas escolas, até para fortalecer a autoestima dos alunos”, conta Márcia Crioula sobre o processo de construção do PPP de Conceição das Crioulas.</p>



<p>De acordo com a dissertação de Márcia Jucilene do Nascimento, a pedagogia crioula é definida como uma concepção de educação construída a partir da experiência histórica, cultural e política do quilombo de Conceição das Crioulas, articulando escola, território, memória e luta coletiva. Mais do que um método de ensino, ela valoriza os saberes tradicionais, a história local, a identidade quilombola e as formas comunitárias de organização, entendendo a escola como parte do projeto de vida do território. </p>



<p>É a educação voltada ao fortalecimento da autoestima, do pertencimento e da consciência de direitos, em que ensinar e aprender também significam formar sujeitos politicamente engajados, afirmar a cultura negra e produzir conhecimento desde a realidade da própria comunidade, configurando uma pedagogia de resistência, territorializada e emancipatória.</p>



<p>“Graças ao trabalho coletivo da comunidade, hoje o nosso quilombo é referência em educação e um dos poucos territórios onde todos os professores são quilombolas”, celebra Márcia Crioula.</p>



<p>“Mas é importante também afirmar que nós não queremos que o nosso PPP seja um modelo universal para todas as comunidades quilombolas, muito pelo contrário. Nós queremos mostrar que é possível que cada comunidade crie seu plano de acordo com suas culturas porque cada território tem sua história”, conclui a professora.</p>



<p>A organização comunitária de Conceição das Crioulas se dá por meio da Associação Quilombola de Conceição das Crioulas (AQCC), que reúne associações de produtores e trabalhadores rurais dos diferentes sítios do território. A entidade estrutura sua atuação em diversas frentes, por meio de comissões temáticas que atendem áreas estratégicas da vida coletiva, como saúde, patrimônio, juventude, mulheres, geração de renda e educação. Esta última é coordenada por Márcia Crioula, que atua diretamente no fortalecimento das ações educacionais da comunidade.</p>





<h2 class="wp-block-heading"><strong>Trabalho comunitário na prática</strong></h2>



<p>Caminhar pela comunidade de Conceição das Crioulas e conhecer o interior de suas escolas é entender na prática o conceito da pedagogia crioula. Além do perfil do alunado e do professorado negro, as paredes falam. São painéis de arte, pinturas, frases, cartazes, desenhos, que contam a história da comunidade quilombola e também celebram toda uma história afro-brasileira. Além disso, consta no PPP das escolas o contato direto com lideranças e referências quilombolas que fazem parte da comunidade, como conta a gestora da Escola José Neu de Carvalho, Antônia Raimunda da Silva: “aqui nós trabalhamos em equipe, tanto com os pais dos alunos quanto com as pessoas mais velhas da comunidade, as lideranças. Para nós eles são a memória viva da nossa comunidade então muitas vezes eles vêm aqui para dar palestra, conversar com os alunos sobre a história e a cultura do quilombo e isso é muito importante porque a gente sente o envolvimento dos alunos nessas atividades”.</p>



<p>Segundo a gestora, a Escola José Neu, que atende aproximadamente 150 estudantes da educação infantil e do ensino fundamental, ainda não possui reconhecimento oficial do Ministério da Educação como escola quilombola, embora há anos se identifique dessa forma.</p>



<p>Outro passo importante foi a criação da primeira creche na comunidade, inaugurada em 2024. A professora quilombola e formadora da Creche Maria Auxiliadora de Jesus, Maria da Penha, conta como foi o processo de criação da instituição: “algumas pessoas da comunidade, inclusive lideranças, não defendiam a creche, por causa da vivência que as crianças têm com os mais velhos, de sentar no terreiro, tomar banho no mar sul, ouvir as histórias, e havia o medo de que a creche tirasse isso delas. Mas eu sempre fui defensora. Sempre disse que, quando essa política chegasse, a gente iria trabalhar do nosso jeito, respeitando a forma de ser e de se organizar da comunidade. A ideia de creche que vem da cidade é uma, mas aqui a pedagogia e a metodologia são voltadas para o nosso jeito de ser no quilombo”.</p>



<p>A pedagoga afirma que a defesa da creche na comunidade ocorre desde o início dos anos 2000, quando tiveram início as discussões sobre o projeto político-pedagógico das escolas. Atualmente, a unidade atende cerca de 40 crianças e conta com quatro professoras quilombolas concursadas por meio de seleção específica, além de uma coordenação composta por integrantes da própria comunidade. Os profissionais que atuam na creche também participam de formações contínuas e direcionadas, com o objetivo de aplicar, na prática, o PPP construído pela comunidade.</p>



<p>Com a implantação da creche, a comunidade de Conceição das Crioulas fortalece um percurso educativo que vai desde os primeiros anos de vida das crianças até o final da adolescência e início da vida adulta, sustentado por uma formação cultural e escolar baseada em demandas, valores e objetivos definidos pela própria comunidade. É um projeto de educação articulado ao projeto de vida coletivo que mobiliza educadores e educadoras do território.</p>



<p>“Os professores e professoras têm feito um trabalho maravilhoso e a gente vê o resultado no senso de pertencimento ao território, no olhar, no gesto, no movimento das crianças e dos jovens da comunidade e isso não tem preço, é algo que emociona”, enfatiza Maria da Penha.</p>



<p>O percurso educacional de Conceição das Crioulas mostra que a educação quilombola é um projeto de território, de vida e de futuro coletivo. Quando esse projeto encontra a universidade por meio da licenciatura da UFPE, não se trata apenas de formação superior, mas de um encontro entre dois sistemas de conhecimento. É nesse cruzamento que os saberes ancestrais, organizados em práticas como a pedagogia crioula, passam a ocupar o espaço acadêmico.Com a chegada do curso superior em Educação Escolar Quilombola, na Universidade Federal de Pernambuco, esse percurso formativo ganhou uma nova etapa que se conecta com a história de Conceição das Crioulas como veremos na próxima reportagem da série <strong>Ciência dos saberes ancestrais: a força da Educação Quilombola.</strong></p>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/antes-da-universidade-o-quilombo-ja-ensinava/" class="titulo">Antes da universidade, o quilombo já ensinava</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/educacao/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Educação</a>
			        </div>
	            </div>
        </div>

		

    <div class="infos mx-md-5 px-5 py-4 my-5">
        <span class="titulo text-uppercase mb-2 d-block"></span>

	    <p>Esta série de reportagens foi contemplada na “Seleção Petrobras de Jornalismo – Ciência e Diversidade”.</p>
    </div>
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			</item>
		<item>
		<title>Filha conta a história da mãe, mulher negra que aprendeu a ler aos 70 anos</title>
		<link>https://marcozero.org/filha-conta-a-historia-da-mae-mulher-negra-que-aprendeu-a-ler-aos-70-anos/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Jeniffer Oliveira]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 07 Jan 2026 20:47:20 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[analfabetismo]]></category>
		<category><![CDATA[Educação]]></category>
		<category><![CDATA[literatura infantil]]></category>
		<category><![CDATA[mulheres negras]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Na infância da educadora e escritora Luana Tolentino, os dias podiam ser marcados por ausências, mas havia algo que nunca faltava: livros. Eles ocupavam a casa como companheiros silenciosos, abrindo janelas para mundos possíveis. Foi nesse cenário, incentivada pelo pai, que Luana aprendeu que a educação podia ser um caminho para transformar a realidade. Ainda [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Na infância da educadora e escritora Luana Tolentino, os dias podiam ser marcados por ausências, mas havia algo que nunca faltava: livros. Eles ocupavam a casa como companheiros silenciosos, abrindo janelas para mundos possíveis. Foi nesse cenário, incentivada pelo pai, que Luana aprendeu que a educação podia ser um caminho para transformar a realidade.</p>



<p>Ainda menina, gostava de treinar autógrafos imaginários, como quem pressentia que as palavras seriam parte importante de sua vida. Professores reforçaram esse destino, aos 12 anos, ouviu que tinha “jeito de escritora”. Poucos anos depois, outro mestre levou um texto seu para mostrar ao escritor Roberto Drummond, um romancista mineiro responsável por obras como <em>Hilda Furacão</em>. Assim, a escrita se insinuava como horizonte desde cedo.</p>



<p>Com o passar dos anos esse amor se tornou carreira. Sua trajetória começou como professora de História na rede de educação básica, seguindo até se tornar mestra e doutora em Educação pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).</p>



<p>Nesse processo, escreveu obras para contribuir na discussão de raça no país, como <em>Outra educação é possível: feminismo, antirracismo e inclusão em sala de aula</em>, pela editora Mazza, <em>Sobrevivendo ao racismo: memórias, cartas e o cotidiano na discriminação no Brasil</em> e também co-organizou o <em>Por uma infância sem racismo: pesquisas, práticas e formação de professores</em>, ambas pela editora Papirus.</p>



<p>No entanto, o destino levou Luana para a literatura infantil com uma história com jeito de literatura ou filme. Em 2025, ela escreveu e lançou aquele que é provavelmente sua obra mais singular. <em>Mamãe aprendeu a ler</em> foi inspirado na história de sua mãe, Enelita Canuto Teles dos Santos, conhecida como dona Nelita.</p>



<p>Se o pai era o leitor que a incentivava desde criança, a mãe, Dona Nelita, trazia a lição de que nunca é tarde para aprender. Aos 70 anos, decidiu frequentar a escola pela primeira vez. Luana acompanhou cada passo, levando a mãe à sala de aula, esperando no pátio, assistindo às descobertas. Em pouco tempo, Dona Nelita já lia textos, orgulhosa de poder ler aquilo que antes só sabia com a ajuda de outras pessoas.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
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<p></p>
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<div class="wp-block-media-text is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:42% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="768" height="1024" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/12/WhatsApp-Image-2025-12-19-at-16.27.20-768x1024.jpeg" alt="" class="wp-image-73979 size-full" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/12/WhatsApp-Image-2025-12-19-at-16.27.20-768x1024.jpeg 768w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/12/WhatsApp-Image-2025-12-19-at-16.27.20-225x300.jpeg 225w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/12/WhatsApp-Image-2025-12-19-at-16.27.20-1152x1536.jpeg 1152w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/12/WhatsApp-Image-2025-12-19-at-16.27.20-640x853.jpeg 640w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/12/WhatsApp-Image-2025-12-19-at-16.27.20-150x200.jpeg 150w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/12/WhatsApp-Image-2025-12-19-at-16.27.20.jpeg 1200w" sizes="(max-width: 768px) 100vw, 768px" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p>“Ela mostrou o poder transformador da educação. Ela reforçou isso. A educação como um direito para todos. E como é grave quando esse direito é negado, né? Porque ela teve esse direito negado a vida toda. E quando ela pôde vivenciar, exercer esse direito em sua plenitude, como eu conto no livro, ela descobriu o mundo”, conta Luana.</p>
</div></div>



<p></p>



<p>Foi assim que a escritora decidiu documentar e contar sobre o processo nas redes sociais. “Minha mãe decide voltar para escola, decide aprender a ler e eu comecei a escrever muito sobre essa experiência dela, comecei a contar no Instagram e as pessoas foram ficando muito comovidas”, lembra Luana.</p>



<p>Mas o que ela não contava era que após quatro meses de iniciar na escola e aprender a ler, dona Nelita iria falecer. O ingresso da mãe na escola, o falecimento, a escrita e o lançamento do livro aconteceram em um intervalo de menos de dez meses. A escrita sobre a trajetória da mãe foi semente para a criação do livro, pois foi após sua morte que Luana decidiu materializar essa história. <br><br>“Antes dela falecer, eu já achava que eu tinha que trazer a história dela para um livro, só não sabia como. E eu também já tinha uma coisa pairando na minha cabeça, que eu queria escrever um livro para crianças. Então, 16 dias após ela falecer, eu estava no Uber, e aí o título veio como uma revelação mesmo: <em>Mamãe Aprendeu a Ler</em>”, explica.<br><br>Após essa &#8220;revelação&#8221; o livro foi escrito em apenas três dias e contou com ilustração de Anna Cunha para compor a construção narrativa. Lançado em novembro, segundo Luana, o livro tem impactado crianças de diferentes lugares e tem sido utilizado em sala de aula por professores e professoras, propondo a reflexão também desses profissionais.</p>



<p>No fim das contas, a obra não fala apenas sobre acesso à educação, fala sobre sonhos, maternidade e finitude de uma forma lúdica. &#8220;Esse livro tem mexido com os adultos, que era uma coisa que eu não pensava. Eu tenho contato mais com as professoras, de falar que o livro fez pensar na questão da maternidade, ou essa relação de mãe e filha, a mãe na velhice e a filha que assume esse lugar de mãe, que eu acho que aconteceu isso comigo também&#8221;, reflete Luana.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Divulgação</span>
                                    </figcaption>
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			</item>
		<item>
		<title>A peleja da agricultura familiar contra os salgadinhos e sucos de caixinha</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Inácio França]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 22 Dec 2025 17:31:26 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[Agricultura Familiar]]></category>
		<category><![CDATA[alimentos saudáveis]]></category>
		<category><![CDATA[Centro Sabiá]]></category>
		<category><![CDATA[Cumaru]]></category>
		<category><![CDATA[Rede Ater NE]]></category>
		<category><![CDATA[ultraprocessados]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>É hora da merenda na escola rural do Sítio Campos Novos, zona rural de Cumaru. Por alguns minutos, os 14 alunos deixam a sala de aula climatizada e seguem para o refeitório junto à cozinha, onde uma refeição com galinha guisada, macarrão e feijão-mulatinho acaba de ficar pronta. Três meninos, no entanto, recusam o que [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>É hora da merenda na escola rural do Sítio Campos Novos, zona rural de Cumaru. Por alguns minutos, os 14 alunos deixam a sala de aula climatizada e seguem para o refeitório junto à cozinha, onde uma refeição com galinha guisada, macarrão e feijão-mulatinho acaba de ficar pronta.</p>



<p>Três meninos, no entanto, recusam o que é servido, preferindo “lanchar” aquilo que trouxeram numa bolsa: sódio, gordura e açúcar em forma de salgadinhos industrializados em pacotes coloridos e suco ou achocolatado de caixinha.</p>



<p>Em Cumaru, a comida servida na escola é a merenda propriamente dita. O que os meninos levam de casa é chamado de lanche.</p>



<p>A princípio, a coordenadora da escola e as nutricionistas da secretaria municipal de Educação ficaram sem jeito, afinal a equipe da Marco Zero estava ali na manhã daquela terça-feira de dezembro para conhecer e fotografar a merenda saudável da rede municipal de ensino de Cumaru.</p>



<p>Pouco depois, mais à vontade, a coordenadora Edla da Silva Souza, de 36 anos, explica que a maior resistência à mudança dos hábitos alimentares vem das próprias famílias dos estudantes que, ironicamente, são agricultores: “no início deste ano fizemos oficinas com as mães, conversamos com os alunos sobre os problemas de saúde provocados pelos alimentos ultraprocessados, porém ainda há quem ceda à facilidade de colocar na lancheira um saco de salgadinho comprado no atacarejo”.</p>



<p>Coincidência ou não, nenhum morador de Campos Novos fornece alimentos para o PNAE. De acordo com a agroecóloga do Centro Sabiá, Íris Maria da Silva, isso faz muita diferença, pois as famílias que vendem para o PNAE acabam se envolvendo mais com o que filhos e netos comem na escola.</p>



<div class="wp-block-media-text is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:31% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img decoding="async" width="533" height="799" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/12/Cumaru-iris-vertical.jpg" alt="" class="wp-image-73948 size-full" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/12/Cumaru-iris-vertical.jpg 533w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/12/Cumaru-iris-vertical-200x300.jpg 200w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/12/Cumaru-iris-vertical-150x225.jpg 150w" sizes="(max-width: 533px) 100vw, 533px" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p>Formada em Agroecologia pela Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), Íris tem bastante experiência na assessoria técnica à agricultura familiar, afinal, enquanto fazia seu curso superior, ela já trabalhava como técnica agrícola na ONG Caatinga, no sertão do Araripe, uma das instituições pioneiras nessa área em Pernambuco.</p>
</div></div>



<p></p>



<p>Com tanta bagagem, ela acredita que “não basta implantar a política pública e garantir o acesso à política pública, é necessário oferecer formação para o público beneficiado por essa mesma política pública”. No caso de Cumaru, além das merendeiras terem sido capacitadas para lidar com os ingredientes saudáveis, o Centro Sabiá atuou diretamente junto a centenas de famílias, mas a resistência de algumas mães e pais exige mais tempo para ser superada.</p>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/articulacao-entre-ong-e-prefeitura-eliminou-ultraprocessados-da-merenda-escolar-em-cumaru/" class="titulo">Articulação entre ONG e prefeitura eliminou ultraprocessados da merenda escolar em Cumaru</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/educacao/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Educação</a>
			        </div>
	            </div>
        </div>

		


<h2 class="wp-block-heading">Embutidos fora</h2>



<p>Em 2025, enlatados e embutidos como mortadela, salsicha, salame e presunto foram eliminados da merenda escolar do município. Para se chegar a esse resultado, a equipe do Sabiá e das famílias agricultoras que se transformaram em fornecedoras de alimentos contaram com o reforço do conhecimento técnico das quatro nutricionistas da secretaria municipal de Educação.</p>



<p>Amanda Joelly Bezerra Gonçalves, de 25 anos, é uma dessas profissionais responsáveis por montar o cardápio de acordo com a faixa etária de cada escola, definir o que deverá ser comprado nas licitações e fiscalizar todos os itens que são entregues pelos fornecedores. Ela garante que “não há pressão por parte dos atacadistas ou distribuidores, pois alguns itens, necessariamente, continuam a ser comprados de grandes empresas”. É o caso do arroz, macarrão, extrato de tomate e óleo de soja, por exemplo.</p>



<p>Ao lado da colega Nadjane de Moura, de 24 anos, Amanda explica que a rede municipal de ensino tem 4.122 matrículas, mas isso não quer dizer que sejam 4.122 crianças e adolescentes. “Quem está matriculado em tempo integral, ou seja, fica para o programa de fortalecimento escolar no turno da tarde, conta como duas matrículas”. O vínculo duplo se explica porque alunos e alunas do ensino fundamental que recebem essas aulas de reforço fazem três refeições completas na escola.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 ">
            <picture>
                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/12/Cumaru-nutricionistas-300x200.jpg">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/12/Cumaru-nutricionistas.jpg" alt="A foto mostra Amanda Joelly e Nadjane de Moura em frente à Escola Municipal Inês Maria da Conceição. Amanda, à esquerda, veste uma blusa branca e sorri suavemente. Nadjane, à direita, usa uma camiseta azul escura e também está sorridente. As duas estão atrás de um portão azul, com a fachada da escola ao fundo — pintada em branco, azul e rosa, com telhado de cerâmica. A placa da escola está visível acima delas, destacando o nome da instituição e o logotipo da prefeitura." class="w-100" loading="lazy" >
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Amanda e Nadjane elaboram cardápios e fiscalizam os produtos entregues
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	

    <div class="infos mx-md-5 px-5 py-4 my-5">
        <span class="titulo text-uppercase mb-2 d-block"></span>

	    <p>Esta reportagem foi produzida em parceria com a <a href="https://redeaterne.org.br/">Rede Ater Nordeste</a>.</p>
    </div>
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			</item>
		<item>
		<title>Articulação entre ONG e prefeitura eliminou ultraprocessados da merenda escolar em Cumaru</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Inácio França]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 22 Dec 2025 17:20:44 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[alimentos saudáveis]]></category>
		<category><![CDATA[Centro Sabiá]]></category>
		<category><![CDATA[Cumaru]]></category>
		<category><![CDATA[merenda escolar]]></category>
		<category><![CDATA[Rede Ater NE]]></category>
		<category><![CDATA[ultraprocessados]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Cumaru (PE) &#8211; A macarronada praticamente sem molho vinha acompanhada de uma coisa enlatada chamada kitut, feita com sobras de carnes e impregnada de produtos químicos como tripolifosfato de sódio, corante, antioxidante eritorbato de sódio e conservante nitrito de sódio. Se não tivesse o tal kitut no estoque da prefeitura, a opção seria sardinha com [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p><strong>Cumaru (PE)</strong> &#8211; A macarronada praticamente sem molho vinha acompanhada de uma coisa enlatada chamada kitut, feita com sobras de carnes e impregnada de produtos químicos como tripolifosfato de sódio, corante, antioxidante eritorbato de sódio e conservante nitrito de sódio. Se não tivesse o tal kitut no estoque da prefeitura, a opção seria sardinha com óleo, também em lata. Para completar, biscoito de maisena.</p>



<p>Essa era a merenda com a qual Martilene Iraci do Nascimento acostumou-se quando era aluna da rede escolar de Cumaru, no início dos anos 2000. Na época, havia até uma barraquinha dentro da escola que vendia biscoitos recheados, salgadinhos, pirulitos e confeitos.</p>



<p>Hoje, aos 35 anos, ela e suas vizinhas produzem e fornecem as hortaliças, macaxeira, inhame e frutas oferecidas aos seus filhos e às outras crianças nas escolas do município.</p>



<p>“Sabe como a comida industrializada entra na mesa das famílias? Pela merenda das crianças, que pedem para os pais comprarem aquilo que comem na escola. Agora, está acontecendo o contrário, as famílias estão começando a optar por frutas frescas, por exemplo, porque os filhos e netos estão dando o exemplo”, garante Martilene, mãe de Gabriel, de 10 anos, e Gabrielly, de cinco.</p>



<p>A qualidade começou a mudar em 2020, quando a prefeitura passou a comprar os produtos para a merenda com recursos do Programa Nacional de Alimentação Escolar, o PNAE, que impõe aos municípios comprarem da agricultura familiar pelo menos 30% dos produtos. A mudança foi acelerada graças a uma soma de esforços pouco comum no Brasil: o poder público e entidades ligadas ao movimento social.</p>


    <div class="box-explicacao mx-md-5 px-4 py-3 my-3" style="--cat-color: #1E69FA;">
        <span class="titulo"><+></span>

        <div class="int mx-auto">
	        <p>A partir de 1º de janeirode 2026, de acordo com a nova <a href="https://www.gov.br/mec/pt-br/assuntos/noticias/2025/outubro/lei-amplia-compra-da-agricultura-familiar-para-o-pnae">lei federal 15.226</a>, esse percentual será de 45%. Como o orçamento do programa para 2026 é de R$ 5,5 bilhões, isso significa que R$ 2,4 bilhões serão destinados à agricultura familiar.</p>
        </div>
    </div>



<p>Como 76% das 2,4 mil propriedades rurais desse município de 16 mil habitantes no agreste pernambucano têm menos de cinco hectares, abriu-se uma janela de oportunidade com potencial para aumentar a renda das próprias famílias dos estudantes.</p>



<p>O problema é que, àquela altura, poucos agricultores estavam aptos a vender seus produtos ao poder público. O secretário de agricultura do município, Rogério Jerônimo da Silva, contou que, ao assumir o cargo em 2023, pouco menos de 500 agricultores tinham o CAF, o Cadastro de Agricultor Familiar. Sem esse documento, não é possível participar dos editais do PNAE. &#8220;Isso inviabilizava qualquer tentativa de implementar uma política pública&#8221;, explica o gestor.</p>



<p>Esse era o caso da maior parte das famílias de Lagoa de Aninha, onde vivem Martilene e sua vizinha Maria Aparecida da Silva, a Cida, presidente da associação de agricultores da localidade. Elas estão entre as mais de 2 mil camponesas e camponeses de Cumaru que, agora, possuem o CAF e estão habilitados a participar do PNAE e de outros programas governamentais, como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA).</p>



<p>O resultado desse incremento pode ser constatado nas planilhas de repasses do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação para o município. Em 2024, do total de R$ 307 mil usados na compra de alimentação escolar, 38,36% foram para a agricultura familiar, ou seja, acima do mínimo estabelecido pela lei. Até setembro de 2025, <a href="https://www.fnde.gov.br/pls/simad/internet_fnde.liberacoes_result_pc">foram mais de R$ 493 mil repassados ao município</a>.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 ">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/12/Cumaru-Martilene.jpg" alt="Martilene do Nascimento está em um curral pequeno, ao lado de vários cabritos que se alimentam em um cocho de madeira. Ela sorri e veste uma camiseta laranja com estampa branca e shorts bege. O espaço tem piso de madeira ripada, cobertura de telha metálica e paredes de concreto com aberturas para ventilação. A cena mostra um ambiente rural simples, destacando o cuidado com os animais e o trabalho no campo." class="w-100" loading="lazy" >
            </picture>

	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Com o cadastro no CAF, Martilene pôde vender produtos para a merenda escolar 
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<h2 class="wp-block-heading">As mulheres são as protagonistas</h2>



<p>Ao mesmo tempo em que a prefeitura procurou ampliar a quantidade de agricultores cadastrados, as organizações sociais que atuam na região passaram a mobilizar as famílias, principalmente as mulheres, para incrementarem e diversificarem a produção. O Centro Sabiá, organização não governamental que faz parte da Rede de Assistência Técnica e Extensão Rural de Agroecologia (Rede Ater Nordeste), é uma dessas entidades.</p>



<p>Presente em Cumaru desde 2004, o Sabiá trabalhou diretamente com 200 famílias em que as mulheres estavam à frente da propriedade, cultivando, cuidando dos filhos, dos animais de criação e fazendo a gestão da água nas cisternas. Pelo menos 100 dessas mães e esposas se habilitaram a fornecer produtos para a merenda durante os dois anos (2024-2025) em que as famílias receberam assessoria técnica da entidade.</p>


    <div class="box-explicacao mx-md-5 px-4 py-3 my-3" style="--cat-color: #1E69FA;">
        <span class="titulo"><+></span>

        <div class="int mx-auto">
	        <p><!-- wp:paragraph -->As atividades do Centro Sabiá em Cumaru neste período foram desenvolvidas junto com a organização de cooperação internacional Pão para o Mundo (Brot für die Welt, em alemão) e financiadas pelo ministério da Agricultura, Alimentação e Identidade Regional da Alemanha.</p>
<p><!-- /wp:paragraph --><!-- wp:paragraph -->O mesmo projeto apoiou ações em seis estados nordestinos &#8211; Bahia, Ceará, Paraíba, Pernambuco, Rio Grande do Norte e Sergipe -, algumas delas já abordadas pela Marco Zero na série de reportagens <em>A reinvenção do Nordeste.</em></p>
        </div>
    </div>



<p>“Meu marido trabalha num condomínio em Caruaru [a 64 quilômetros de distância], eu fico aqui cuidando de tudo nos quatro hectares que divido com minha cunhada. Quando precisa, eu mando Gabriel cortar palma para dar para os animais”, explica Martilene, se referindo ao filho mais velho. O protagonismo gerou relevância no trato com as autoridades municipais. Considerada uma das lideranças das agricultoras, ela ocupa a vice-presidência do Conselho de Desenvolvimento Sustentável de Cumaru.</p>



<p>Cida mora a menos de um quilômetro do sítio de Martilene. De temperamento mais reservado, ela supera a timidez para compartilhar com a amiga o papel de liderança dos agricultores familiares da Lagoa de Aninha e Queimada. Mãe de Diogo Fábio, de 15 anos, e Ana Beatriz, de 10, ela sente orgulho de ser uma das fornecedoras de alimentos para as escolas onde os filhos estudam: “na minha época de estudo era só kitut e sardinha, hoje eles comem inhame, batata e carne que o pessoal daqui produz”.</p>



<p>Ao falar sobre o passado recente, Cida conta que seu temperamento a atrapalhava até para ganhar um dinheiro extra. “Eu faço dudu [o mesmo que sacolé ou dindim, em outras regiões] de frutas da região para vender, mas tinha vergonha de oferecer, de levar para vender. Foi o pessoal do Sabiá que mudou meu jeito de pensar, pois nos eventos que eles realizavam na cidade, pediam para eu fazer mais para que pudessem comprar e servir no lanche”, recorda.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 ">
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Cida aumentou sua renda com a venda de picolés caseiros e bolos que produz
</p>
	                
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Ao receber R$ 4.600,00 do projeto tocado pela organização não-governamental, ela comprou um freezer vertical capaz de armazenar e preservar a produção de dudus. “Antes eu apertava no congelador da geladeira, dava para uns 20, no máximo. Agora, posso fazer 200 ou 300 que tenho onde guardar”, explica a agricultora.</p>



<p>Segundo a coordenadora territorial do Sabiá, Juliana Peixoto, a entidade “contribuiu fortemente para que mais gente pudesse ficar sabendo que o edital do PNAE estava aberto e que mais famílias poderiam se inscrever, além disso trabalhamos para uma maior aproximação da secretaria municipal de Agricultura com as comunidades rurais”.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>O poder do intercâmbio</strong></h2>



<p>Cida, no entanto, garante que não foi só a insistência para vender os picolés caseiros que quebrou a resistência imposta pela timidez. “O melhor do projeto do Sabiá foi poder conhecer o que outras mulheres fazem em outros lugares, poder participar de congressos de Agricultura Familiar em Brasília, em Juazeiro da Bahia”, afirma.</p>



<p>Foi em uma dessas viagens de intercâmbio que elas conheceram na Paraíba o fogão agroecológico, que gera mais calor com menos lenha. “Todas as mulheres daqui querem um igual, pois a gente viu na Paraíba como a vida de Maria Helena mudou depois do fogão”, conta Marcilene, sem saber que Maria Helena foi protagonista de uma das reportagens da Marco Zero em 2024. </p>



<p>Na Paraíba, elas também aprenderam que não precisam esperar pelo poder público ou por projeto de uma ONG para adquirir um fogão agroecológico – ou qualquer outra estrutura para suas propriedades. “Lá, tudo quanto é comunidade tem um fundo rotativo, que é uma espécie de consórcio. Nós vamos começar um com dez mulheres que estão interessadas no fogão e em telas para galinheiro”, revela Cida. O Centro Sabiá informou que irá ajudar com recursos para os dois primeiros fogões.</p>



<p>Para conhecer a história de Maria Helena e o fundo rotativo, é só clicar no link abaixo: </p>





<h3 class="wp-block-heading">Infraestrutura: o gargalo</h3>



<p>Sexta-feira sim, sexta-feira não, uma picape da prefeitura vai às comunidades de Lagoa de Aninha e Quebradas para levar as agricultoras e dezenas de engradados cheias de hortaliças, frutas, mel, bolos, carne de bode, ovos e tubérculos como inhame e macaxeira até a lateral da igreja matriz, no centro de Cumaru. Quando as mulheres chegam ao raiar do dia, as barracas já estão lá, montadas pela equipe da prefeitura, como um “puxadinho” da feira livre tradicional que acontece no largo formado pelas avenidas Pailu e Manoel Gonçalves de Lima.</p>



<p>A agroecóloga Íris Maria da Silva sabe como é importante a participação na feira da agricultura familiar. Assessora técnica do Centro Sabiá, ela passou os dois últimos anos acompanhando o cotidiano das agricultoras do município e via a necessidade de um espaço para comercializar aquilo que era produzido em suas terras. Afinal, as vendas para o PNAE não acontecem todo dia. “Já houve uma feira desse tipo no passado, mas só há pouco tempo foi possível reativá-la com ajuda da gestão municipal”, explica.</p>



<p>Viabilizar a feira é uma das maneiras encontradas pela prefeitura para compensar a falta de infraestrutura de um pequeno município nordestino.</p>



<p>Rogério Jerônimo, o secretário de agricultura, é quem explica: “a feira é uma conquista recente, mas é necessário apoiar o agricultor familiar também nas etapas anteriores. Na época de arar a terra, disponibilizamos 10 tratores que vão de sítio em sítio até fazer a aração completa. Quando chega a época de fazer a forragem, os agricultores têm acesso às quatro ensiladeiras da prefeitura”.</p>



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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/12/Cumaru-secretario.jpg" alt="Rogério Jerônimo está sentado em um sofá marrom acolchoado, em uma sala com paredes brancas e uma pequena janela com persianas verticais. Ele veste uma camisa polo azul-marinho com detalhes vermelhos e brancos na gola e nas mangas. Na camisa, há um logotipo com quatro quadrados coloridos e a palavra “CUMARU”. Rogério parece estar conversando ou sendo entrevistado, gesticulando com as mãos enquanto fala" class="w-100" loading="lazy" >
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Prioridade é cadastrar agricultores para garantir acesso a programas federais, afirma Rogério
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Cumaru não é um município rico. Longe disso.</p>



<p>De acordo com os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), seu Produto Interno Bruto (PIB) per capita o coloca em 123º lugar entre os 184 municípios pernambucanos. Já o seu IDH de 0,572 o classifica como de “baixo desenvolvimento humano”. Para efeitos de comparação, a média do estado é 0,673. Em um país com 5.570 municípios, Cumaru está na 4.802ª posição no <a href="http://www.atlasbrasil.org.br/ranking">ranking nacional de desenvolvimento humano</a>.</p>



<p>Segundo Íris Silva, com mais estrutura seria possível absorver ainda mais a produção dos agricultores locais no PNAE. Uma situação vivida por Maria Aparecida Silva ilustra bem isso. No segundo semestre de 2025, Cida vendeu 100 frangos para a merenda escolar, mas ainda não recebeu o dinheiro da venda. E por que isso tem a ver com a infraestrutura precária?</p>



<p>“Cumaru não tem abatedouro municipal de aves, então precisa fazer o abate em Caruaru, passando a depender da burocracia do outro município para fazer os pagamentos de acordo com a legislação do PNAE”, explica a agroecóloga do Centro Sabiá.</p>



<p>O leite e os ovos oferecidos aos alunos nas escolas cumaruenses não são produzidos nos sítios de lá. Mais uma vez, a explicação está na infraestrutura. “Aqui ainda não tem o SIM, o Selo de Inspeção Municipal”, resume Íris Silva. O SIM é uma exigência do PNAE.</p>



<p>O secretário Rogério Jerônimo garante, que, sozinho, o município não resolverá essas questões: “o Brasil precisa de mais políticas de incentivo e fomento com olhar para a agricultura familiar”.</p>


	<div class="informacao mx-md-5 px-5 py-4 my-5" style="--cat-color: #7BDDDD;">
		<span class="titulo text-uppercase mb-3 d-block">Água da transposição está perto</span>

		<p>Ao menos para solucionar o histórico problema de falta de água na área urbana, há, pelo menos, uma perspectiva, pois a água da transposição do rio São Francisco está para chegar a Riacho das Almas, a 29 quilômetros de distância. O próximo município seria Cumaru.</p>
<p>A área rural conta com 1.181 cisternas de 16 mil litros para o consumo doméstico, e de 322 cisternas com capacidade de armazenar 52 mil litros de água destinadas à produção. A maioria dessas cisternas foi construída pela Articulação do Semiárido Brasileiro (ASA), rede da qual o Centro Sabiá também integra.</p>
	</div>


    <div class="infos mx-md-5 px-5 py-4 my-5">
        <span class="titulo text-uppercase mb-2 d-block"></span>

	    <p>Esta reportagem foi produzida em parceria com a <a href="https://redeaterne.org.br/">Rede Ater Nordeste</a>.</p>
    </div>
<p>O post <a href="https://marcozero.org/articulacao-entre-ong-e-prefeitura-eliminou-ultraprocessados-da-merenda-escolar-em-cumaru/">Articulação entre ONG e prefeitura eliminou ultraprocessados da merenda escolar em Cumaru</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
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		<title>A nova cara da medicina no Brasil</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Raíssa Ebrahim]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 04 Dec 2025 21:35:02 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[Incra]]></category>
		<category><![CDATA[medicina]]></category>
		<category><![CDATA[Pronera]]></category>
		<category><![CDATA[UFPE]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Caruaru (PE) — “Nós temos políticas de saúde importantes e que poderiam andar lado a lado com as da medicina tradicional, essas dos hospitais”. Formada em História e professora, Ana Cláudia Mendes, 35 anos, quilombola de Conceição das Crioulas, agora é uma das 80 pessoas estudantes do curso inédito de Medicina exclusivo para assentados da [&#8230;]</p>
<p>O post <a href="https://marcozero.org/a-nova-cara-da-medicina-no-brasil/">A nova cara da medicina no Brasil</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p><strong>Caruaru (PE) —</strong> “Nós temos políticas de saúde importantes e que poderiam andar lado a lado com as da medicina tradicional, essas dos hospitais”. Formada em História e professora, Ana Cláudia Mendes, 35 anos, quilombola de Conceição das Crioulas, agora é uma das 80 pessoas estudantes do curso inédito de Medicina <a href="https://marcozero.org/por-que-curso-de-medicina-para-assentados-e-quilombolas-virou-alvo-de-ataques-e-fake-news/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">exclusivo para assentados da reforma agrária e quilombolas</a>, numa parceria com o Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária (Pronera), no Centro Acadêmico do Agreste (CAA), da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).</p>



<p>De Salgueiro, sertão central de Pernambuco, a 550 quilômetros do Recife, Ana Cláudia quer dar um olhar diferente à saúde. “A gente não vai mais olhar o médico como sendo só ele a pessoa que tem todo o saber. A gente vai poder olhar para ele de igual para igual”, comemorou, durante a solenidade de abertura do curso, na última terça-feira, 2 de dezembro, no campus de Caruaru.</p>



<p>Após ser alvo de fake news e discurso de ódio por parte da extrema direita e de repúdio por algumas associações médicas, como o Conselho Regional de Medicina de Pernambuco (Cremepe) e o Sindicato dos Médicos de Pernambuco (Simepe), a UFPE enfrentou uma <a href="https://marcozero.org/reitor-da-ufpe-garante-que-vai-ate-as-ultimas-instancias-em-defesa-do-curso-de-medicina-para-assentados-e-quilombolas/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">batalha judicial</a> que durou quase três meses e atrasou o cronograma do edital.</p>



<p>As atividades começaram esta semana com a universidade tendo <a href="https://marcozero.org/ufpe-tem-nova-vitoria-na-justica-federal-e-retoma-edital-de-medicina-do-pronera/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">vencido ao menos três ações na Justiça Federal</a>. Política pública consolidada, com quase três décadas de existência e criada no governo de Fernando Henrique Cardoso, o Pronera já formou quase 200 mil estudantes em 545 cursos em todos os estados brasileiros, da alfabetização à pós-graduação. Mas nunca em curso médico.</p>



<p>Agora alunas como Ana Cláudia vão poder estudar, numa turma extra de Medicina, para atuarem em seus territórios de origem — ou onde mais desejarem —, aliando o conhecimento acadêmico ao das parteiras, da medicina tradicional e das benzedeiras, por exemplo.</p>



<p>Conhecida pela luta e defesa da educação escolar quilombola, Conceição das Crioulas, formada no século XVIII por seis mulheres negras, tem 100% de seus professores oriundos do próprio território, além de currículo e projeto político-pedagógico específicos. Para Ana Cláudia, cursar Medicina pelo Pronera é mais uma vitória dessa construção coletiva.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 ">
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Ana Cláudia Mendes, 35 anos, do Quilombo Conceição das Crioulas é uma das estudantes
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>“A educação escolar quilombola nos dá base para seguirmos do meio educacional para a área da saúde e também para outras profissões. A gente costuma dizer para nossos jovens — e também seguimos essa política — que nós podemos ocupar todos os lugares e todas as profissões. Nós podemos tudo”, afirma.</p>



<p>“Foi muito tempo de exclusão e de expropriação dos nossos direitos. Então todas as oportunidades que nós conseguirmos, a partir de nossa luta, é necessário que a gente as vivencie. Nós somos o eco do sonho dos nossos ancestrais”, complementa Ana Cláudia, que agora entra na universidade com outros dois quilombolas de Conceição das Crioulas.</p>



<p>“Nós temos uma responsabilidade muito grande que é vir para a academia, para esse ambiente, sobretudo esse de Medicina, que costuma ser um curso elitizado, de pessoas brancas. Por isso também a gente enfrentou esse embate todo, com denúncias contra o curso e paralisação do processo seletivo. E que bom que conseguimos seguir e hoje estamos fazendo a aula inaugural”, comemora.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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                <source media="(min-width: 800px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/12/54959701792_7f382ba74c_c.jpg">
                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/12/54959701792_7f382ba74c_c.jpg" alt="A foto mostra um grupo de pessoas alinhadas segurando diversas bandeiras e cartazes de movimentos sociais e instituições. Elas estão em um ambiente interno com várias pessoas sentadas ao redor, aplaudindo a apresentação. A cena faz parte cerimônia de abertura do curso de Medicina pelo Pronera na UFPE campus Caruaru." class="" loading="lazy" >
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Os 80 estudantes do novo e inédito curso de Medicina foram recebidos em solenidade na UFPE
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero</span>
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<p>Ana Cláudia vai estudar com pessoas de vários estados do país, entre eles Paraíba, Rio Grande do Norte, Bahia, Sergipe, Ceará, Acre, São Paulo, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Paraná e Rio Grande do Sul. Cada aluno contará com suporte financeiro para alojamento, alimentação e transporte durante o curso. </p>



<p>Mais de mil candidatos se inscreveram no processo seletivo, que teve cerca de 600 inscrições homologadas. Aproximadamente 400 estudantes foram a Caruaru realizar a prova de redação, que somou-se ao histórico escolar, conforme previa o edital. Muitas, por não conseguirem arcar com o deslocamento, não realizaram a prova. Dos 80 aprovados, 59 são mulheres.</p>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/o-campones-e-a-medicina/" class="titulo">O camponês e a medicina</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/opiniao/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Opinião</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/saude/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Saúde</a>
			        </div>
	            </div>
        </div>

		


<h2 class="wp-block-heading"><strong>Do sonho coletivo à realidade, da ausência ao acesso</strong></h2>



<p>Quem também está vendo o sonho virar realidade são as jovens Maria Eduarda Nogueira, 18 anos, do assentamento do MST Virgulino Ferreira, em Serra Talhada, sertão pernambucano (foto que abre esta repostagem), e Amanda Paulino, 19 anos, do Movimento Atingidos por Barragens (MAB), de Jaguaribara, interior do Ceará. Militantes, filhas dos movimentos sociais, elas vivem uma mesma realidade: a falta de médicos e de transporte para acessar os serviços de saúde distantes de onde moram.</p>



<p>“A gente tem um posto de saúde, só que ele fica muito distante e é de difícil acesso por conta da locomoção. Só conseguimos médico uma vez no mês. Deveria haver ali a assistência todos os dias”, detalha Maria Eduarda, que também pretende atuar como médica na própria comunidade e em outros locais no meio rural.</p>



<p>A realidade de Amanda não é muito diferente. “Lá em Jaguaribara, no Vale do Jaguaribe, como em tantas outras cidades nos interiores, faltam médicos e não chegam recursos, muitas vezes são sucateados. Falta essa assistência humanizada que reconhece o paciente e não apenas o trata com uma forma hospitalar, medicamentosa”, relata.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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	                                        <p class="m-0">Amanda Paulino, 19 anos, de Jaguaribara (CE), é militante do Movimento dos Atingidos por Barragens
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero</span>
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<p>“Meu sentimento hoje aqui é de um pouco de orgulho também por ter conseguido e ter vencido todas essas etapas, inclusive os processos judiciais. Acho que o sentimento é também de tranquilidade porque eu sei que, de agora para frente, a gente vai conseguir vencer qualquer outra coisa que vier. Porque a gente já conseguiu botar o pé na universidade e, daqui, a gente só sai formados”, diz Maria Eduarda.</p>



<p>Para Amanda, se formar em medicina é “sobretudo uma forma de resistência e uma forma de construir a revolução, uma revolução construída por todos e todas”, porque, para ela, “também cabem, nesses espaços, termos médicos na construção desse projeto de sociedade que nós queremos e pelo qual tanto lutamos para ter”.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>UFPE prepara curso de Enfermagem e Odontologia pelo Pronera</strong></h2>



<p>O evento de abertura contou com a presença do reitor da universidade, Alfredo Gomes, do vice-reitor, Moacyr Araújo, de representantes do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), do Ministério da Educação, de movimentos e organizações sociais, da Prefeitura de Caruaru e da deputada estadual Rosa Amorim (PT), do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), entre outros nomes.</p>



<p>Emocionado, Gomes aproveitou a solenidade para anunciar que a instituição já está dando andamento a outros dois cursos na área de saúde pelo Pronera: Enfermagem e Odontologia. Num discurso com muitos agradecimentos, ele reiterou: “vai ter Medicina do Pronera na UFPE, sim”. No decorrer das ações judiciais, Gomes havia declarado que iria até as últimas instâncias em defesa do curso. As críticas e fake news da extrema direita foram quase todas direcionadas a pessoa dele.</p>



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	                                        <p class="m-0">Reitor da UFPE, Alfredo Gomes, recebeu os novos alunos no Centro Acadêmico do Agreste
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero</span>
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<p>Em seu discurso, Rosa Amorim declarou: “àqueles que disseram que filho de agricultor e de empregada doméstica e gente pobre nesse Brasil não deveria nunca ocupar uma cadeira da universidade, nós estamos aqui para dizer que vamos ocupar esse lugar porque ele nos pertence e a gente vai contar uma nova história”.</p>



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<h2 class="wp-block-heading has-text-align-center"><strong>“A terra dá sustento, mas é a educação que liberta”</strong></h2>



<p>A <strong>Marco Zero</strong> também conversou com a médica de família e comunidade Andreia Campigotto. Filha de assentados da reforma agrária no Rio Grande do Sul, ela é professora do curso de Medicina da UFPE, docente da turma do Pronera e mestra em Saúde Pública pela Fiocruz-PE. Andreia será docente da turma do Pronera.</p>



<p>Marco Zero<strong> &#8211; Qual a sua trajetória desde o assentamento até se tornar professora do curso de Medicina?</strong></p>



<p><strong>Andreia </strong>&#8211; Eu nasci e cresci em um assentamento da reforma agrária. Meus pais são assentados da reforma agrária desde o ano de 1983. Eles foram assentados meses antes do MST ser fundado, alguns meses depois, o meu pai estava no encontro onde foi fundado o MST. Então eu venho de uma geração do campo que cresceu sabendo que a terra dá sustento, mas a educação é que liberta. No assentamento onde eu nasci, onde meus pais conquistaram a terra, no início não foi nada simples.</p>



<p>Acessei a escola do ensino fundamental no meu assentamento e depois tive que me deslocar para outras comunidades para poder continuar os estudos porque não existia transporte na época que pudesse transportar essas crianças para a escola. O assentamento era cerca de 14, 15 km de distância da cidade. Então acho que é toda uma geração que, na verdade, insistiu que estudar realmente é um ato de resistência e que realmente é uma herança coletiva deixada. A minha trajetória até a universidade nunca foi individual. Ela foi uma construção com muitas mãos. Desde o vizinho que ajudava a cuidar da filha até a professora que sempre acreditou em mim, até o assentamento todo que celebrava cada passo, cada vitória.</p>



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	                                        <p class="m-0">Assentada da reforma agrária no RS, Andreia é professora de Medicina da UFPE há 11 anos
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero</span>
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<p>Então cheguei na medicina carregada do cheiro da terra e de muitas vozes dizendo que realmente era essa a possibilidade do povo do campo acessar o ensino superior. Hoje, como professora universitária há 11 anos, para mim, realmente é uma reafirmação do compromisso político e afetivo de que realmente a educação é transformadora e realmente eu não estou aqui sozinha.</p>



<p>Eu estou aqui com aqueles que me empurraram para frente quando o mundo parecia distante demais e ser professora hoje é devolver ao povo o que o povo me deu. É transformar a universidade num espaço em que a filha de assentados não apenas entra, mas agora ela ensina, ela pesquisa, ela decide e ela sonha. Então a minha trajetória é pessoal, sim, mas eu acredito que, acima de tudo, ela é profundamente coletiva.</p>



<p><strong>Qual a importância do curso de Medicina pelo Pronera?</strong></p>



<p>Sobre a primeira turma de Medicina do Pronera, para mim, na prática, é ver o Estado brasileiro finalmente reconhecendo que o campo não produz só alimento, mas também produz ciência, produz cuidado e agora vai produzir profissionais de saúde. É a universidade pública realmente cumprindo seu papel social ao abrir as suas portas para quem historicamente ficou do lado de fora. É uma política pública que está sendo efetivada, neste momento, não em discurso, mas em prática concreta.</p>



<p>E, politicamente, é um gesto de reparação histórica. Formar médicas e médicos vindos do campo significa devolver dignidade a territórios que, por décadas, viveram com ausência de assistência e também com invisibilidade. O que a gente tem que fazer é fortalecer o SUS, desde a sua raiz. É dizer também, com clareza, que o Brasil que queremos só será possível quando a universidade pública realmente conversar com o povo e quando o povo realmente ocupar a universidade. Então acredito que esse momento é um momento histórico para a universidade pública brasileira.</p>
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