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	<title>Arquivo de Território - Marco Zero Conteúdo</title>
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	<description>Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</description>
	<lastBuildDate>Sat, 25 Jul 2026 15:57:40 +0000</lastBuildDate>
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	<title>Arquivo de Território - Marco Zero Conteúdo</title>
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		<title>Mansão Harley Lundgren: cálculo mudou para viabilizar três prédios em jardim preservado</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Maria Carolina Santos]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 24 Jul 2026 18:56:16 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direito à Cidade]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A Prefeitura do Recife aceitou alterar o cadastro de área verde da Mansão Harley Lundgren, na Zona Norte, a pedido da construtora que vai erguer três torres de 19 andares nos jardins do casarão. O processo ainda está em tramitação, mas a versão atualizada do Estudo de Impacto de Vizinhança (EIV) informa que o pedido [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>A Prefeitura do Recife aceitou alterar o cadastro de área verde da Mansão Harley Lundgren, na Zona Norte, a pedido da construtora que vai erguer três torres de 19 andares nos jardins do casarão. O processo ainda está em tramitação, mas a versão atualizada do Estudo de Impacto de Vizinhança (EIV) informa que o pedido de revisão foi deferido e que a licença prévia ambiental já foi emitida. Por ser um Imóvel de Proteção de Área Verde (IPAV), o terreno é obrigado por lei a manter pelo menos 70% da área verde cadastrada. Segundo a prefeitura, o mínimo será cumprido. Mas só é alcançado porque houve mudança na forma como foi feito o cálculo da área verde.</p>



<p>Entre os bairros da Tamarineira e Parnamirim, a antiga moradia da família Lundgren – fundadora das Casas Pernambucanas e tema da série do Globoplay <em>O Testamento: O Segredo de Anita Harley</em> – tem duas proteções: uma, desde 1997, é de IPAV, que protege a vegetação do local, que possui <a href="https://marcozero.org/tres-predios-de-19-andares-serao-construidos-no-jardim-da-mansao-harley-lundgren/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">43 espécies catalogadas</a>. Outra proteção, aplicada na reunião de 2 de julho do Conselho de Desenvolvimento Urbano (CDU) em que foi aprovada a viabilidade dos três prédios, é a de Imóvel Especial de Preservação (IEP), uma classificação municipal que impede a derrubada do casarão.</p>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/tres-predios-de-19-andares-serao-construidos-no-jardim-da-mansao-harley-lundgren/" class="titulo">Três prédios de 19 andares serão construídos no jardim da Mansão Harley Lundgren</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/poder/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Poder</a>
			        </div>
	            </div>
        </div>

		


<p>Toda a discussão sobre o imóvel nesta reportagem gira em torno de dois parâmetros: quanto de área verde o terreno tem cadastrado e quanto dela o projeto preserva. A construtora pediu a redução do primeiro, de acordo com o EIV, documento público disponível no site de licenciamento da prefeitura. O segundo número depende de uma escolha metodológica: se conta como área verde apenas o que está em solo natural ou também a copa das árvores que se projeta sobre áreas pavimentadas.</p>



<p>Os documentos do processo de licenciamento, do CDU e da nota da prefeitura para a Marco Zero apresentam valores diferentes para as duas coisas.</p>



<p>O projeto dos prédios é da construtora OR Empreendimentos – vinculada ao grupo Novonor, antiga Odebrecht – e prevê investimentos vultosos de R$ 500 milhões. O cronograma é de 44 meses para a construção de três torres de 60 metros de altura e um estacionamento em três níveis com 362 vagas de garagem. Os 85 apartamentos do projeto são de alto padrão, entre 297 m² e 370 m².</p>



<h2 class="wp-block-heading">A sombra das árvores conta como área verde?</h2>



<p>Dos três EIVs apresentados pela construtora, os dois primeiros trazem uma seção específica que solicita à prefeitura redução da área verde cadastrada de 9.783,30 m² (dado de 1997) para 9.371,18 m² — o que representa 435 m² a menos em relação ao cadastro atualizado em 2013, com vistoria em 2016, e que tem 9.806,39 m² de área verde. O estudo foi elaborado pela EKOA Engenharia, consultoria de Salvador contratada pela OR. O argumento da consultoria é que o cadastro mais recente teria contado como área verde trechos pavimentados que estavam cobertos pela copa das árvores.</p>



<p>Refazendo o cálculo &#8220;sem sobreposição da copa&#8221;, a consultoria chega a uma área verde menor: pela conta dela, a área verde do IPAV é a soma do solo natural (8.545,21 m²) com uma parcela da copa das árvores que se projeta para além dele, chegando a 9.371,18 m². O estudo informa a copa total das árvores, de 7.853,85 m², mas não detalha quanto dela foi efetivamente computado como &#8220;excedente&#8221;, nem como esse cálculo foi feito.</p>



<p>Comparando com o cadastro de IPAV mais atualizado, a redução pedida nos primeiros documentos é de 435 m². O EIV, porém, fala em 412 m², porque compara com o primeiro registro, de 1997. Em nota para a MZ, a Prefeitura do Recife também usa o número de 1997.</p>



<p>Reduzir a área cadastrada reduz também o piso legal: o mínimo a preservar cairia de 6.864 m² para 6.560 m². O primeiro pedido de alteração da área verde teria sido indeferido pela prefeitura. O EIV mais recente, de 12 de junho, afirma que a prefeitura &#8220;reconsiderou o entendimento anteriormente apresentado&#8221; e que &#8220;foi reconhecida a adequação da metodologia proposta para o caso específico&#8221;.</p>



<p>Já o parecer aprovado pelo CDU reproduz a ficha cadastral com os 9.806,39 m² — o número maior, mais atualizado — e declara o projeto em conformidade com o IPAV, sem mencionar em nenhum trecho que o EIV pediu a redução desse número.</p>



<hr class="wp-block-separator has-alpha-channel-opacity"/>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/07/plantaharleylundgren-1024x640.png" alt="A imagem apresenta uma planta arquitetônica de implantação, mostrando a disposição dos edifícios em blocos, áreas verdes com árvores preservadas, uma piscina central com espaços de lazer, além de vias e estacionamentos que organizam a circulação de veículos e pedestres; no canto inferior direito há um quadro técnico com informações do projeto e da equipe responsável, compondo uma visão geral de como o conjunto se integra ao terreno." class="" loading="lazy" >
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                                            <span>Crédito: Reprodução</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	

    <div class="box-explicacao mx-md-5 px-4 py-3 my-3" style="--cat-color: #1E69FA;">
        <span class="titulo"><+></span>

        <div class="int mx-auto">
	        <p>A Marco Zero submeteu a planta do empreendimento, assinada pelo escritório Metro Arquitetura, a uma medição digital via Python que calculou, dentro dos limites do lote, o que o desenho representa como área verde e o que representa como construção e pavimento. A medição tem margem de cerca de três pontos percentuais.</p>
<p>O resultado: 55,7% do terreno aparecem como verde – sendo 38,9 pontos de copas de árvores e 16,8 de grama e canteiro – contra 44,3% de área construída ou pavimentada. É praticamente o que o próprio quadro de áreas declara: 6.151,20 m² de solo natural mais 130,15 m² de solo permeável equivalem a 55,69% do lote. O verde desenhado na planta do projeto da construtora equivale a aproximadamente 64% da área verde cadastrada, abaixo do mínimo legal.</p>
        </div>
    </div>



<hr class="wp-block-separator has-alpha-channel-opacity"/>



<p>Por sua vez, a Prefeitura do Recife, em nota para a Marco Zero, afirmou que o projeto preserva 72,74% da área verde, 7.116,82 m², com base no cadastro de 9.783,30 m². A Prefeitura do Recife não detalhou como compôs o número, que supera em cerca de mil metros quadrados o solo natural declarado no projeto arquitetônico.</p>



<p>No EIV, a nova metodologia proposta para a área verde do imóvel diz somar ao solo natural &#8220;a projeção excedente da copa das árvores&#8221;, sem citar a norma que estabeleceria esse critério.</p>



<p>Ou seja, o estudo do empreendedor usa o argumento da copa das árvores nas duas direções: quando pede a redução do cadastro, sustenta que a projeção da copa não pode se sobrepor a áreas impermeáveis no cálculo; para chegar ao número que propõe, soma ao solo natural justamente a copa que se projeta para fora dele. Vale ressaltar que a Lei 16.176/1996, que criou a categoria IPAV, define área verde como &#8220;toda área de domínio público ou privado, em solo natural, onde predomina qualquer forma de vegetação&#8221;.</p>



<p>Como a Marco Zero não teve acesso à licença prévia ambiental nem ao Parecer Técnico SLAUP nº 20/2026, não é possível saber o que exatamente a prefeitura deferiu: se a redução da área cadastrada, se a metodologia que soma ao solo natural a copa das árvores projetada sobre áreas pavimentadas, ou ambas.</p>



<p>O certo é que os números na nota da Prefeitura do Recife não batem com o que está apresentado no EIV mais recente. O EIV descreve como &#8220;grande área verde a ser preservada&#8221; uma superfície de 5.740,68 m², o equivalente a 58,7% da área cadastrada em 1997. É o mesmo valor que, no quadro de parâmetros do estudo, aparece na linha de solo natural.</p>



<p>Em nota, a prefeitura afirmou que o projeto ainda será analisado “pelos órgãos municipais competentes e deverá atender integralmente à legislação urbanística, edilícia, ambiental, patrimonial e de acessibilidade, bem como às exigências específicas decorrentes da classificação do imóvel como IPAV e IEP”.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Qual a área verde da Mansão Harley Lundgren?</strong></h2>



<figure class="wp-block-table is-style-stripes" style="font-style:normal;font-weight:400"><table class="has-fixed-layout"><thead><tr><th><strong>Fonte</strong></th><th><strong>Área verde</strong></th><th class="has-text-align-left" data-align="left"><strong>O que representa</strong></th></tr></thead><tbody><tr><td>Cadastro de 1997</td><td>9.783,30 m²</td><td class="has-text-align-left" data-align="left">Registro original do IPAV 45</td></tr><tr><td>Cadastro de 2013</td><td>9.806,39 m²</td><td class="has-text-align-left" data-align="left">Atualização da SMAS; consta da ficha reproduzida no parecer do CDU</td></tr><tr><td>Nota da Prefeitura (2026)</td><td>9.783,30 m²</td><td class="has-text-align-left" data-align="left">Base usada para calcular os 72,74% preservados</td></tr><tr><td>Pedido do empreendedor (EIV)</td><td>9.371,18 m²</td><td class="has-text-align-left" data-align="left">Redução que a consultoria da OR solicitou à prefeitura<br></td></tr></tbody></table></figure>



<h3 class="wp-block-heading">Projeto usa 99,88% do potencial construtivo do terreno</h3>



<p>O quadro de parâmetros do Estudo de Impacto de Vizinhança também mostra que o projeto está encostando no limite construtivo permitido pelo zoneamento. O coeficiente de aproveitamento máximo permitido no local é de 3,5; o empreendimento apresenta 3,495. Em área, isso significa que o teto legal de construção no lote é de 39.477,52 m² e o projeto ocupa 39.430,69 m². Sobram apenas 46,83 m² de potencial construtivo não utilizado, ou 0,12% do total.</p>



<p>Os documentos públicos analisados pela Marco Zero não mostram como seria feita a construção dessas três torres sem que seja necessária a retirada de árvores para a passagem de máquinas de grande porte e caminhões pelo terreno. Como o projeto se encontra próximo, ou talvez abaixo do mínimo exigido pelo IPAV, qualquer árvore retirada para manobra de veículos durante a construção pode deixar a situação da área verde do imóvel ainda mais complicada.</p>



<p>No EIV, está escrito que será feito o plantio de 90 árvores como compensação em dobro pelas árvores que serão retiradas, o que corresponde ao corte de 45 árvores. O plantio será na área do empreendimento e na via pública adjacente, segundo o estudo. Árvores que, se bem cuidadas, demorarão décadas para terem copas tão frondosas quanto as que estão hoje no imóvel.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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	                                        <p class="m-0">Mansão onde morou a família Harley Lundgren fica entre os bairros da Tamarineira e Parnamirim
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<h3 class="wp-block-heading"><strong>Como foi a reunião do CDU que aprovou as torres</strong></h3>



<p>A Marco Zero teve acesso à ata da reunião do Conselho de Desenvolvimento Urbano (CDU) que aprovou a viabilidade do projeto de três edifícios nos jardins preservados da Mansão Harley Lundgren. Foi uma reunião online, indo das 9h10 às 13h06 do dia 2 de julho. O projeto no terreno do casarão da rua Padre Roma era o último assunto de uma pauta com quatro itens. Antes de chegar a ele, o presidente do conselho e secretário de Desenvolvimento Urbano e Licenciamento, Felipe Martins Matos, deixou a sessão. Ele informou que tinha reunião marcada com um ministro de Estado e passou a condução à suplente, Taciana Sotto-Mayor, secretária executiva de Licenciamento.</p>



<p>Foi ela quem propôs inverter a ordem da pauta, com a classificação do casarão como Imóvel Especial de Preservação sendo votada antes da viabilidade das três torres. A justificativa registrada em ata é que a sequência tornaria a discussão &#8220;mais clara e coerente&#8221;, permitindo ao conselho deliberar primeiro sobre a preservação do casarão e, em seguida, sobre &#8220;a implantação do empreendimento no restante do terreno&#8221;. Não houve objeções. A preservação municipal foi aprovada por 20 votos, sem nenhum contrário.</p>



<p>Na sequência, o arquiteto João Domingos apresentou o projeto das torres. Disse que o terreno tem aproximadamente 11 mil m², que é classificado como IPAV e que passaria a ser também IEP. Afirmou que o empreendimento &#8220;atende aos parâmetros urbanísticos previstos na legislação, destacando a preservação de área de solo natural superior ao mínimo exigido&#8221;. Não apresentou números.</p>



<p>Em seguida, o conselheiro relator Roberto Lemos Muniz foi convidado a falar, mas a presidente em exercício pediu que ele resumisse o parecer em vez de lê-lo integralmente, &#8220;considerando o adiantado da hora e a saída de alguns participantes da reunião&#8221;. Muniz aceitou. Ao resumir, disse que o projeto &#8220;deverá manter, no mínimo, 70% da área verde cadastrada&#8221;. Também não apresentou números.</p>



<p>Durante a reunião do CDU, a conselheira Circe Monteiro, representante do Mestrado de Desenvolvimento Urbano da UFPE, pediu esclarecimento sobre a área de solo permeável do empreendimento, apontando &#8220;possível equívoco material&#8221; e observando que a tabela exibida na apresentação indicava valor &#8220;zero&#8221;. O arquiteto João Domingos respondeu que o zero &#8220;decorreu da forma de apresentação da tabela, não significando ausência de soluções de permeabilidade&#8221;, e repetiu que o projeto prevê solo natural acima do mínimo exigido, além de &#8220;pavimentos drenantes e outros sistemas permeáveis&#8221;, sem informar nenhum número.</p>



<p>Em nenhum momento da reunião — nem na apresentação do empreendimento, nem no resumo do parecer, nem nas respostas aos conselheiros — se disse quantos metros quadrados do terreno serão pavimentados, quanto de área verde restará depois das obras ou quantas árvores serão retiradas. Tampouco foi mencionado que o Estudo de Impacto de Vizinhança pediu à prefeitura para reduzir a área verde cadastrada do imóvel.</p>



<p>Ao responder outra pergunta de Circe Monteiro, o arquiteto informou que a licença prévia ambiental do empreendimento já havia sido emitida. A votação seguiu sem mais debate. A viabilidade das três torres foi aprovada também por unanimidade. Em nota à MZ, a prefeitura afirmou que a ata ainda precisa ser aprovada na reunião seguinte do conselho antes de ser publicada no <a href="https://licenciamentounificado.recife.pe.gov.br/atas-entidade-cdu" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Portal de Licenciamento Unificado</a>.</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Pesquisadores veem perda de paisagem na Zona Norte</strong></h3>



<div class="wp-block-media-text is-stacked-on-mobile"><figure class="wp-block-media-text__media"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="576" height="1024" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/07/harleylundgrenmansao-576x1024.jpeg" alt="" class="wp-image-76273 size-full" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/07/harleylundgrenmansao-576x1024.jpeg 576w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/07/harleylundgrenmansao-169x300.jpeg 169w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/07/harleylundgrenmansao-150x267.jpeg 150w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/07/harleylundgrenmansao.jpeg 720w" sizes="(max-width: 576px) 100vw, 576px" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p>O arquiteto e urbanista Davi Valentim, doutorando em patrimônio no Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Urbano da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), estranha a classificação do casarão como um IEP justo agora, uma vez que no ano passado houve uma grande atualização da lista de IEPs com a nova lei urbanística do Recife. E o casarão, na época, ficou de fora da lista de imóveis protegidos.</p>



<p>&#8220;Acredito que, por um lado, exista uma postura do campo do patrimônio de tentar usar o tombamento para proteger o imóvel, já com ciência de alguma especulação imobiliária, para segurar uma demolição&#8221;, diz. &#8220;Mas, a julgar pelo comportamento de troca entre a Prefeitura do Recife e o mercado imobiliário, também parece que isso pode ter sido um movimento para garantir a execução desse tipo de projeto&#8221;, afirma.</p>
</div></div>



<p>O geógrafo Ítalo Soeiro, doutor em Desenvolvimento Urbano pelo MDU da UFPE e pesquisador do Laboratório da Paisagem (UFPE), analisa que o futuro empreendimento reúne três camadas de valorização: o verde como ativo imobiliário, o casarão como ativo simbólico, e o espetáculo midiático como valor de marketing, se referindo à série sobre a herdeira das Casas Pernambucanas.</p>



<p>&#8220;O elemento do patrimônio, da memória, é muito utilizado como produção de valor para o empreendimento imobiliário. Há muito tempo o pensamento urbano deixou de entender o patrimônio e as patrimonializações como um processo contraditório com a produção de valor. A professora Norma Lacerda e outros que estudam mercado imobiliário mostram que a patrimonialização também é interessante em alguma medida para o mercado imobiliário”, afirmou Ítalo Soeiro em entrevista para a MZ.<br><br>Para Soeiro, é um caso que mostra que os IPAVs, de maneira geral, estão ameaçados. &#8220;Vende-se a lógica da preservação. Claro que é uma preservação numa lógica privada, fetichizada, que é vendida no próprio nome dos empreendimentos: Jardim não sei o quê, Bosque não sei o quê”, exemplifica.<br><br>Ainda que o novo empreendimento preserve os 70% de área verde, há impactos que não estão sendo contabilizados. “A patrimonialização não garante que o impacto desse empreendimento vá ser controlado, porque ele tem um impacto severo. Impacto na percepção, no acesso, e também na perda dessa massa verde, sobretudo no contexto da Zona Norte, que já está bem adensada”, critica Soeiro.<br><br>“A paisagem é argumento de proteção tanto do IPAV quanto do IEP. E vamos ter, na verdade, uma mudança significativa da paisagem: três torres de 19 pavimentos&#8221;, reforça Davi Valentim. &#8220;O que é diferente nesse caso específico é que estamos falando de um IEP com um IPAV. Não estamos querendo proteger só uma casa. É uma casa eclética, mas é também uma vegetação, é uma paisagem. E está numa zona que, no zoneamento da prefeitura, é considerada zona de desenvolvimento sustentável, de beira de rio. Pela própria lei, isso deveria ser importante”, afirma o urbanista.</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Proteção pública, uso privado</strong></h3>



<p>Os dois pesquisadores ouvidos pela Marco Zero criticam que um imóvel com duas preservações siga sendo de uso de uma parte ínfima da população recifense. O condomínio prevê 629 moradores. &#8220;Era um jardim privado de famílias abastadas. Nesse sentido, o imóvel vai manter sua origem patrimonial de jardim privado”, critica Ítalo Soeiro.</p>



<p>&#8220;É muito comum aqui no Recife ter um IEP como salão de festa de prédio de rico. É como se fosse uma contrapartida, já que não há quase nada de contrapartida nesses empreendimentos. Mas o que eles usam como suposto argumento de contrapartida é, na verdade, o que já deveria estar incluído no projeto” , diz Davi Valentim.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 ">
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Foto do casarão, agora protegido, incluída no EIV
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Reprodução</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>&#8220;O propósito de um patrimônio é que ele seja de acesso público. Aquela casa é privada, sim, mas está ali representando um contexto histórico, uma vegetação, algo significativo para a cidade. Se você olhar as imagens de cima, o buraco verde que é aquele lugar num território já cheio de prédio é um resquício de algo que é histórico para o Recife&#8221;, analisa Valentim.</p>



<p>O urbanista lembra que nem todo imóvel tombado precisa virar museu. Há outras formas de uso, como prédios para órgãos públicos e instituições. Ele cita o Pavilhão de Óbitos, anexo da antiga Faculdade de Medicina, que tem um tombamento estadual e hoje é ocupado pelo Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB-PE). &#8220;O adequado para o imóvel da rua Padre Roma seria uma apropriação disso para uso público. O uso residencial é o pior que se pode colocar ali”, critica.</p>


    <div class="infos mx-md-5 px-5 py-4 my-5">
        <span class="titulo text-uppercase mb-2 d-block">Nota da Prefeitura do Recife</span>

	    <p style="font-weight: 400;"><span style="font-weight: 400;">A Prefeitura do Recife, por meio da Secretaria de Desenvolvimento Urbano e Licenciamento (Sedul), informa que o Conselho de Desenvolvimento Urbano (CDU) aprovou, em reunião realizada em 2 de julho de 2026, a Viabilidade de Empreendimento de Impacto (VEI) do empreendimento e a classificação do casarão existente no imóvel como Imóvel Especial de Preservação (IEP). As propostas foram aprovadas por unanimidade pelos 21 conselheiros presentes.</span></p>
<p style="font-weight: 400;"><span style="font-weight: 400;">O imóvel é classificado como Imóvel de Proteção de Área Verde (IPAV) e, por isso, deve preservar, no mínimo, 70% da área verde cadastrada, conforme a Lei Municipal nº 18.014/2014, que instituiu o Sistema Municipal de Unidades Protegidas (SMUP). A área verde cadastrada é de 9.783,30 m², o que exige a preservação de, pelo menos, 6.848,31 m². O projeto prevê a manutenção de 7.116,82 m² de área verde, equivalente a 72,74% da área cadastrada, percentual superior ao mínimo exigido em lei.</span></p>
<p style="font-weight: 400;"><span style="font-weight: 400;">É importante esclarecer que a aprovação da VEI não autoriza o início das obras nem representa a aprovação do projeto. Trata-se de uma etapa preliminar do licenciamento, na qual são avaliadas a viabilidade urbanística do empreendimento e definidas as condicionantes e medidas mitigadoras que deverão ser cumpridas nas fases seguintes.</span></p>
<p style="font-weight: 400;"><span style="font-weight: 400;">Entre as condicionantes aprovadas pelo CDU estão a elaboração e execução de um Plano de Circulação e Acessibilidade (PCA), com requalificação de calçadas, arborização, iluminação, travessias, sinalização e melhorias na infraestrutura cicloviária; o recuo do alinhamento do terreno, com ampliação da calçada e tratamento do fechamento frontal para permitir a visualização do casarão preservado e da área verde a partir da via pública; a apresentação de estudo de adaptação climática com soluções voltadas à redução das ilhas de calor na área de influência do empreendimento; e a adequação do projeto às exigências decorrentes da classificação do imóvel como IEP, assegurando a preservação e a restauração do casarão.</span></p>
<p style="font-weight: 400;"><span style="font-weight: 400;">Após a aprovação da VEI, o empreendedor deverá protocolar na Prefeitura do Recife o projeto de reforma com acréscimo de área, contemplando a preservação do casarão classificado como Imóvel Especial de Preservação (IEP). Nessa fase, o projeto será analisado pelos órgãos municipais competentes e deverá atender integralmente à legislação urbanística, edilícia, ambiental, patrimonial e de acessibilidade, bem como às exigências específicas decorrentes da classificação do imóvel como IPAV e IEP.</span></p>
<p style="font-weight: 400;"><span style="font-weight: 400;">Somente após a aprovação desse projeto será possível solicitar o Alvará de Construção, documento que autoriza o início das obras. Após a conclusão da obra, o empreendimento ainda deverá obter o Alvará de Habite-se/Aceite-se, emitido somente após vistoria que comprove a execução em conformidade com o projeto aprovado, o atendimento das exigências legais e o cumprimento das condicionantes e medidas mitigadoras estabelecidas no licenciamento </span></p>
<p style="font-weight: 400;"><span style="font-weight: 400;">Por fim, a Prefeitura informa que a ata da reunião do CDU ainda será submetida à aprovação na reunião subsequente do Conselho. Após essa etapa, o documento será publicado no Portal de Licenciamento Unificado e ficará disponível para a população.</span></p>
    </div>
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		<title>Às vésperas da titulação, protesto quilombola abre nova crise na disputa por terra em Suape</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Raíssa Ebrahim]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 09 Jul 2026 22:37:14 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Socioambiental]]></category>
		<category><![CDATA[comunidade quilombola]]></category>
		<category><![CDATA[Meio Ambiente]]></category>
		<category><![CDATA[mercês]]></category>
		<category><![CDATA[suape]]></category>
		<category><![CDATA[violência policial]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Um novo protesto da comunidade quilombola Ilha de Mercês, em Ipojuca, no litoral sul de Pernambuco, reacendeu a histórica disputa por terra travada no local por Suape. Sufocadas pelo complexo industrial portuário, aproximadamente 300 famílias vêm, há décadas, denunciando um processo de expulsão e de degradação de rios e mangues que já comprometeu o sustento [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Um novo protesto da comunidade quilombola Ilha de Mercês, em Ipojuca, no litoral sul de Pernambuco, reacendeu a histórica disputa por terra travada no local por Suape. Sufocadas pelo complexo industrial portuário, aproximadamente 300 famílias vêm, há décadas, denunciando um processo de expulsão e de degradação de rios e mangues que já comprometeu o sustento e a permanência de parte da população tradicional pesqueira no território.</p>



<p>Nesta quarta-feira, 8 de julho, José Reis, conhecido como Martins, liderança de Mercês, chegou a ser levado para a delegacia do Cabo de Santo Agostinho (município vizinho) numa ação da Polícia Militar de Pernambuco (PMPE) para tentar conter a manifestação às margens da PE-09, próximo à “Curva do Boi”.</p>



<p>Nos vídeos que circulam no WhatsApp e nas redes sociais e a que a Marco Zero teve acesso, fica evidente o uso excessivo da força policial. Há muita gritaria, empurra-empurra e ameaças de prisão.</p>



<figure class="wp-block-embed aligncenter is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Protesto quilombola reacende disputa por terra em Suape" width="500" height="281" src="https://www.youtube.com/embed/91bnFc0ib5Q?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p>O motivo do protesto foi a demolição, por parte da Compesa, a pedido de Suape, de duas rampas irregulares e uma barraca à beira da rodovia. As rampas passavam por cima de uma adutora, o que representava um risco iminente à própria população. Os quilombolas dizem reconhecer o risco, no entanto denunciam que não houve diálogo nem negociação.</p>



<p>O pano de fundo dessa disputa, apontam moradores de Mercês, é a continuidade da disputa pela terra. A ação das autoridades aconteceu às vésperas da retomada do processo de titulação do quilombo pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), um trabalho que se arrasta desde 2017 — há uma primeira reunião desse processo de retomada agendada para o próximo dia 20.</p>



<p>Naquele mesmo ano (2017) — após diversos episódios de conflitos referentes à posse de terra, tentativas de reintegração e denúncias de pressão por parte de Suape para retirar pessoas da comunidade —, uma recomendação conjunta foi assinada pelos ministérios público Federal e Estadual (MPF e MPPE) e pela Defensoria Pública da União (DPU) para que, entre outros pontos, Suape não mais adentrasse o território sem prévia autorização nem interferisse nos modos de vida de Mercês.</p>



<p>Mas a comunidade relata que, em maio deste ano, seguranças de Suape destruíram o restaurante de uma quilombola que fornecia marmitas. O caso foi encaminhado ao MPF pelo Fórum Suape Espaço Socioambiental, organização que atua junto às comunidades atingidas pelo complexo industrial portuário. Com o episódio desta semana, o clima voltou a ficar tenso no local.</p>



<p>“Eu nunca me opus que a rampa fosse retirada. Mas não era para terem feito uma atrocidade dessa. Não somos invasores”, disparou José Miguel da Silva Filho, conhecido como “Marrom Quilombola”, irmão de Martins, contra a forma como os agentes públicos agiram. “Os policiais deram voz de prisão à minha esposa, que está gestante e tinha arrancado um dente um dia antes. Ainda quebraram 50 telhas brasilit minhas”, detalha.</p>



<p>Marrom é dono do sítio onde uma das rampas demolidas estava instalada. É também dono da barraca que estava sendo instalada para venda de lanches e marmitas como forma de sustento da família.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/07/51372184131_a1146490e9_c.jpg" alt="A imagem mostra uma casa simples, de um andar, com telhado de barro e paredes brancas um pouco desgastadas. Na frente, há roupas coloridas penduradas para secar — vermelhas, verdes, listradas — e um grande tecido floral cobrindo parte do muro. Três pessoas estão na calçada: uma mulher à esquerda com saia jeans e camiseta listrada, uma menina no centro encostada no muro, e outra mulher à direita vestindo blusa vermelha e saia laranja. O céu está azul e claro, com algumas nuvens e palmeiras ao fundo, sugerindo um clima quente e tranquilo de região tropical." class="" loading="lazy" >
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Pelo menos 300 famílias vivem no quilombo de Mercês
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Inês Campelo/Marco Zero</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<h2 class="wp-block-heading">Disputa vai muito além de rampas e barrac<strong>a</strong></h2>



<p>As duas rampas de acesso demolidas pela Compesa a pedido de Suape eram usadas pela comunidade quilombola Ilha de Mercês para facilitar a mobilidade. Uma delas foi construída recentemente pela própria população. A outra é bastante antiga, estava no local há mais de 20 anos, foi erguida pelo Governo do Estado e era usada para passagem de crianças a caminho da escola e também Pessoas com Deficiência.</p>



<p>Representantes de Mercês dizem que não foram notificados por Suape nem pela Compesa sobre as demolições e agora ficaram lesados. A versão do complexo é outra (confira ao final da reportagem). Marrom Quilombola conta que acordou no susto com os funcionários da companhia de abastecimento, acompanhados pela polícia.</p>



<p>“Foi quando eu joguei no grupo de zap e o pessoal da comunidade foi chegando, incluindo minha mãe, de 76 anos. Aí resolveram fechar a pista. Mas a comunidade não fez vandalismo. Não somos bandidos, somos pais de família”, defende.</p>





<p>“O que Suape quer é amedrontar o nosso povo para a gente sair das nossas terras. Mas não somos invasores, estávamos aqui antes de Suape chegar”, diz, lembrando que muita gente saiu do território porque não tinha mais como se sustentar.</p>



<p>Marrom se refere, sobretudo, ao <a href="https://marcozero.org/com-14-anos-de-atraso-suape-comeca-a-retirar-barreira-que-destruiu-manguezal-do-rio-tatuoca/">embarreiramento do Rio Tatuoca</a>, que era para ter durado apenas um ano, mas durou 14 anos, e asfixiou o ecossistema local para dar lugar a uma estrada. A via foi usada para levar materiais e máquinas para construir o Estaleiro Atlântico Sul. Foi tempo mais do que suficiente para degradar o manguezal e levar junto a fonte de sustento de diversas famílias pesqueiras.</p>



<p>A população viu peixes e crustáceos se acabarem junto com o mangue. Antes, as pessoas pescavam na porta de casa, onde havia bastante unha de velho, sururu, marisco, ostra. Hoje não sobrou quase nada, a pesca diminuiu tanto em quantidade quanto em variedade. E agora muitas famílias vivem apenas da venda de lanches e marmitas à beira da PE-09 e de frutas como manga e banana.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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	                                        <p class="m-0">
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Clemente Coelho Júnior/cortesia</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	




<p>Mercês está localizada dentro da área que foi apropriada por Suape. A comunidade, que tem raízes nos latifúndios de açúcar da região, foi reconhecida formalmente como quilombo pela Fundação Palmares em 2016. Dos cinco hectares pertencentes ao quilombo, hoje restam apenas 1,6 ha.</p>



<p>“São situações como a que aconteceu em maio e nesta semana que tornam ainda mais urgente a retomada do processo de titulação pelo Incra, com as autoridades acompanhando de perto esse processo”, avalia Luísa Duque, advogada do Fórum Suape. A organizou acionou o MPPE para apurar o ocorrido e também registrou o caso na Comissão Estadual de Acompanhamento dos Conflitos Agrários Coletivos de Pernambuco (Ceaca-PE).</p>



<p>Na tarde desta quarta (8), uma reunião de urgência foi convocada pelo MPPE com DPU, Compesa, Polícia Militar, Fórum Suape e representantes da Ilha de Mercês para ouvir as partes. Suape não compareceu, alegando, dez minutos antes, que ainda estaria se inteirando do que aconteceu. Mas, menos de uma hora depois do final da reunião, o complexo enviou uma extensa nota à imprensa com seu posicionamento (confira mais adiante).</p>



<p>O promotor de Justiça Leonardo Caribé, que coordena o Núcleo de Conflitos de Terra e Moradia (Nusf), informou que serão solicitadas mais informações a Compesa, Suape e também Prefeitura de Ipojuca. Também será apurado se houve abuso por parte da PM. Uma nova reunião deve ser agendada em breve. Apesar da irregularidade das rampas, Caribé defendeu que é preciso que se chegue a uma solução.</p>



<p>Presente na reunião, o coronel da PMPE José Mário Canel reforçou que a corporação foi acionada para dar apoio à atividade da Compesa. O major Cesar Júnior, presente na ação, detalhou que foi solicitado reforço após o início do protesto e que a liderança Martins disse que tocaria fogo na via.Chamado para negociar, estava irredutível, segundo o major. Foi então detido por “incitar violência”. </p>



<p>À <strong>MZ</strong>, Martins negou: “Eu não reagi, a polícia é que veio na força, sem negociação”. Ele foi rapidamente liberado depois de chegar à delegacia do Cabo.</p>


	<div class="informacao mx-md-5 px-5 py-4 my-5" style="--cat-color: #7BDDDD;">
		<span class="titulo text-uppercase mb-3 d-block">O que diz Suape</span>

		<p>O Complexo Industrial Portuário de Suape informa que foram identificadas recentemente duas intervenções irregulares em área inserida na poligonal do Porto Organizado: uma edificação em madeira e uma rampa em alvenaria construída sobre uma tubulação pressurizada da Compesa.</p>
<p>A edificação de madeira estava localizada em área sujeita a restrições específicas de ocupação e segurança, onde não são permitidas novas construções. Essas restrições já foram objeto de manifestações e orientações por parte de instituições competentes.</p>
<p>No segundo caso, foi identificada uma rampa em alvenaria construída sobre uma tubulação pressurizada da Compesa. Por se tratar de infraestrutura pertencente à companhia e localizada dentro do Complexo Industrial Portuário, Suape comunicou formalmente a ocorrência à Compesa, que, após avaliar a situação, adotou as providências cabíveis para a desmobilização da estrutura irregular sobre sua tubulação.</p>
<p>Também foi constatada a retirada de trecho do guard-rail da Avenida Portuária para criação de acesso ao local. O dispositivo integra a estrutura de segurança viária e não pode ser removido ou alterado sem autorização.</p>
<p>Diante das irregularidades identificadas, foram realizadas notificações prévias aos envolvidos e à representação da comunidade. Nesta quarta-feira, 8 de julho, Suape realizou a desmobilização da edificação irregular em madeira, enquanto a Compesa promoveu a retirada da rampa construída sobre sua tubulação pressurizada.</p>
<p>As medidas foram adotadas no âmbito das respectivas responsabilidades institucionais, considerando critérios de segurança portuária, segurança viária e proteção da infraestrutura pressurizada de abastecimento existente no local.</p>
<p>Em reação às intervenções, um grupo de manifestantes realizou o bloqueio da Avenida Portuária, afetando temporariamente o acesso ao Porto de Suape. As forças de segurança foram acionadas e atuaram, dentro da legalidade, na liberação da via.</p>
<p>Suape ressalta que respeita o direito à manifestação e mantém canais de diálogo com as comunidades do território. Ao mesmo tempo, tem o dever institucional de agir diante de construções e intervenções irregulares que possam comprometer a segurança das pessoas, a integridade das infraestruturas existentes, a circulação viária e a operação portuária.</p>
<p>As providências adotadas foram de natureza preventiva e de segurança, restritas à remoção das intervenções irregulares identificadas.</p>
	</div>
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		<title>A poupança que junta gente: o movimento das mulheres que transformou a Ilha de Deus</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Maria Carolina Santos]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 05 Jun 2026 19:45:30 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[empoderamento]]></category>
		<category><![CDATA[ilha de deus]]></category>
		<category><![CDATA[mulheres]]></category>
		<category><![CDATA[poupança comunitária]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O ano era 2008 e a comunidade pesqueira de Ilha de Deus vivia a efervescência de um processo de urbanização verdadeiramente participativo. A luta e a união da comunidade geraram uma promessa de campanha em 2006 do então candidato Eduardo Campos: transformar as precárias palafitas daquela área de estuário em uma vila com saneamento básico, [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>O ano era 2008 e a comunidade pesqueira de Ilha de Deus vivia a efervescência de um processo de urbanização verdadeiramente participativo. A luta e a união da comunidade geraram uma promessa de campanha em 2006 do então candidato Eduardo Campos: transformar as precárias palafitas daquela área de estuário em uma vila com saneamento básico, serviços públicos e moradias dignas. Entre as muitas reuniões e encontros que aconteciam naquela época, uma atraiu as então pescadoras e donas de casa Elivânia Rocha e Maria de Fátima da Silva. Seria uma reunião fechada para organizações e coletivos que atuavam na comunidade, mas elas foram mesmo assim.</p>



<p>Lá, foi apresentado um projeto de empoderamento feminino e de gestão financeira que não interessou a nenhuma das organizações presentes naquela reunião. Mas fez os olhos das duas mulheres brilharem. “Na reunião tinha um rapaz de São Paulo que participava de uma poupança comunitária, então quando ele falou sobre como a comunidade se organizava para poupar, eu pensei: &#8216;e por que a gente não traz para a nossa comunidade?'&#8221;, lembra Elivânia.</p>



<p>Surgia assim a Poupança Comunitária da Ilha de Deus, a primeira experiência do tipo em Pernambuco. As atividades não começaram envolvendo diretamente dinheiro. Primeiro, as mulheres fizeram um censo na comunidade. </p>



<p>Cercada pela água dos manguezais, de três rios e do mar da Bacia do Pina, a Ilha de Deus tem apenas um acesso por via terrestre – a ponte Vitória das Mulheres, inaugurada em 2009. Mesmo sendo uma área pequena, de cerca de 10 hectares na parte urbana, as futuras tesoureiras encontraram muitos moradores que haviam ficado de fora do cadastro da prefeitura do Recife. “A gente achava que conhecia o vizinho do lado. Mas a partir desse censo, a gente pôde se conhecer melhor, conhecer o nosso território, as nossas reais necessidades. Muitas famílias não iam receber casas, mas acabaram ganhando lugar onde morar graças ao nosso censo”, relembra Maria de Fátima.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 ">
            <picture>
                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/06/ilha-de-deus-2-300x169.jpg">
                <source media="(min-width: 800px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/06/ilha-de-deus-2.jpg">
                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/06/ilha-de-deus-2.jpg" alt="A imagem mostra uma vista aérea da Ilha de Deus, uma comunidade ribeirinha localizada no Recife. Em primeiro plano, há uma praça circular com um mosaico colorido no chão, formado por triângulos em tons de vermelho, amarelo, verde e azul, lembrando uma flor ou um sol. No centro da praça, ergue-se um mastro de bandeira, e ao redor há degraus concêntricos que formam uma espécie de anfiteatro. À esquerda e ao fundo, vê-se um conjunto de casas simples com telhados de barro e paredes pintadas em cores variadas — azul, branco, bege — cercadas por árvores e vegetação. O céu está azul e repleto de nuvens brancas, e ao longe, na linha do horizonte, aparece o perfil moderno da cidade do Recife, com seus prédios altos contrastando com o ambiente mais tradicional e tranquilo da comunidade." class="w-100" loading="lazy" >
            </picture>

	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">A poupança comunitária ajudou a mudar a ilha desde que foi criada
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Com esse mapeamento da população, chegou a hora de entrar em campo para fazer com que as pessoas poupassem. Com cerca de 1,1 mil moradores em dados oficiais, as lideranças do projeto calculam que pelo menos 300 pessoas já foram poupadoras em algum momento. Qualquer pessoa da comunidade pode abrir uma caderneta, depositando o valor que quiser. O depósito é feito diretamente com uma das tesoureiras: cada um fica com um caderno onde os repasses são anotados.</p>



<p>“A gente sempre estimula que as pessoas façam também cadernetas coletivas, para juntar dinheiro para um objetivo em comum”, conta Maria de Fátima. Antes de entrar no grupo, cada poupador define um objetivo. Os mais frequentes são reformar a casa, fazer uma festa para o filho, comprar um eletrodoméstico, adquirir um barco. “Quando alguém vem sacar o dinheiro para outra coisa, a gente sempre lembra e reforça que estão poupando para um objetivo. Quando a Ilha de Deus não era urbanizada, muitos poupavam para ajeitar a casa, botar uma cerâmica, comprar algum móvel. Esses eram as metas mais comuns. E, quando eles vinham retirar o dinheiro, a gente dizia para esperar mais um pouquinho, não gastar e focar no objetivo”, lembra Elivânia.</p>


	<div class="informacao mx-md-5 px-5 py-4 my-5" style="--cat-color: #7BDDDD;">
		<span class="titulo text-uppercase mb-3 d-block">Poupar para fortalecer vínculos</span>

		<p>A poupança comunitária nasceu na Índia nos anos 1970, a partir de um grupo de mulheres de baixa renda que viviam em condições precárias e sofriam ameaças de despejo. Elas decidiram juntar o pouco dinheiro que sobrava do dia a dia para formar um fundo coletivo. Com ele, conseguiram construir suas próprias casas – priorizando as que estavam em situação de maior vulnerabilidade.</p>
<p>O modelo atravessou fronteiras e chegou ao Brasil disseminado pela Slum Dwellers International (SDI), organização presente em 33 países da África, Ásia e América Latina, formada por uma rede de entidades da sociedade civil e iniciativas populares baseadas na autogestão.</p>
<p>No Brasil, a metodologia é representada pela Rede Interação, associação sem fins lucrativos fundada em 2004 em São Paulo, que já atuou em mais de 70 cidades em 18 estados. Foi por meio dessa rede que a poupança comunitária chegou à Ilha de Deus, em Recife, em 2008, trazida por Lúcia Siqueira, coordenadora da Rede Interação no Recife, que conhecia lideranças locais envolvidas no processo de urbanização da ilha.</p>
<p>Segundo a Rede Interação, a poupança tem dois propósitos centrais: melhorar a gestão financeira individual e coletiva e, principalmente, construir relações de confiança e fortalecer vínculos dentro da comunidade. “Não é um projeto, mas um processo. A metodologia que trabalhamos com organização comunitária é apoiada em um tripé com poupança comunitária, intercâmbios e autorrecenseamento”, explica Lúcia. “Eu acredito muito nessa metodologia. Primeiro, porque não personifica em uma liderança só, tem como base a organização comunitária. E não é um projeto pontual, é algo que coloca o protagonismo nas mulheres, que eram donas de casa e aos poucos foram se empoderando”, afirma a coordenadora.</p>
	</div>



<p>O dinheiro é depositado pelas tesoureiras em uma conta não solidária da Caixa Econômica Federal, que é uma conta conjunta que exige a assinatura de todos os envolvidos para fazer a retirada do dinheiro. Assim, quando um poupador avisa que pretende sacar o dinheiro que juntou, é preciso que as três tesoureiras do grupo compareçam juntas ao banco.</p>



<p>É um mecanismo que ajuda a evitar compras por impulso, ainda mais quando se leva em conta o índice de endividamento de 80,2% das famílias brasileiras registrado em março de 2026, o maior da série histórica iniciada em 2010, segundo a Confederação Nacional do Comércio. “Tem gente que tem cartão de crédito e pede para abrir uma poupança porque sabe que aqui consegue juntar o dinheiro”, conta Ana Mirtes Ferreira. “Essa exigência também ajuda as pessoas que já estão viciadas nesse negócio de jogo de tigrinho e nessas bets a economizar alguma coisa”, diz Fátima.</p>



<figure class="wp-block-embed aligncenter is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<div class="ratio ratio-16x9"><iframe title="A poupança que junta gente: o movimento das mulheres que transformou a Ilha de Deus" width="500" height="281" src="https://www.youtube.com/embed/QU9KVJXnAKY?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
</div></figure>



<h2 class="wp-block-heading">Poupança ajuda a realizar sonhos</h2>



<p>Na Ilha de Deus, a maioria da população está envolvida de um jeito ou de outro com a pesca. A compra de um barco significa independência e a possibilidade de fazer um dinheiro rápido e certo. &#8220;Tem pessoas que têm cursos técnicos, formações de grau superior e, mesmo assim, pescam. A maré dá essa estabilidade para o pescador de fazer o seu horário, de não ter necessidade de bater ponto, nem de dar satisfação a ninguém”, diz Fátima.</p>



<p>Mãe solo de quatro filhos, Noêmia Fernandes dos Santos passava os dias nas águas da bacia do Pina e do porto do Recife. Ia em busca do sururu, que por tantos anos sustentou a família dela e de tantas outras mulheres da comunidade, mas lida diária era prejudicada por não ter um barco próprio: um balde de sururu ou marisco era usado como pagamento para o usar o barco dos outros.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 ">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/06/ilha-de-deus-1.jpg" alt="A imagem mostra uma cena tranquila à beira de um rio, onde um homem e uma criança observam um pequeno barco que navega lentamente pela água. O homem está de pé, descalço, usando uma camiseta vermelha e preta com o número 7 nas costas, um chapéu azul e segurando um galão azul na mão direita. Ao seu lado, a criança está sentada, vestindo uma camiseta colorida com números e letras e um chapéu de aba larga. No fundo, o barco de madeira leva duas pessoas — uma de camisa cinza e outra de camisa rosa — enquanto a margem oposta é coberta por vegetação verde e densa, provavelmente um manguezal. A cena transmite calma e simplicidade, como um momento cotidiano de contemplação entre o adulto e a criança diante do movimento sereno do rio." class="w-100" loading="lazy" >
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Possuir um barco significa a garantia de autonomia para quem vive da pesca
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero</span>
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                    </figure>

	


<p>“Com muita dificuldade, fui economizando pouco a pouco, a poupança me ajudou a ter meu próprio barco. Confesso que foi muito difícil, porque criei quatro filhos sozinha, sem ajuda de ninguém”, conta Noêmia. “A minha trajetória de economizar meu trocado para fazer um barco para mim serviu para incentivar outras mulheres a economizarem também”, diz ela, que, em 2012, se tornou uma das tesoureiras do projeto. “Já teve muitas mulheres que pouparam comigo. Umas fizeram barco, outras construíram um muro ou reformaram a casa”.</p>



<p>Para ela, a poupança comunitária transformou mais do que a parte financeira. &#8220;Antes da poupança eu era dona de casa, pescadora, não participava de nada, não tinha vez e voz para nada. Quando comecei a formar grupos de poupança, veio fortalecimento tanto para mim como para outras mulheres”, reforça.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Da Ilha de Deus para o mundo</strong></h2>



<p>As líderes da poupança comunitária já fizeram intercâmbios em vários países, como Bolívia, África do Sul, Filipinas e Índia, para conhecer como funciona a poupança nesses países e trazer novas experiências para a Ilha de Deus. São lugares em que a vida é ainda mais difícil do que na Ilha de Deus – onde quase todo mundo tem casa de alvenaria com saneamento básico, há creche e posto de saúde para atender a comunidade.</p>



<p>Quando Fátima foi visitar a Índia, conheceu mulheres que faziam grupos de poupança para construir banheiros nas casas delas. “Elas poupam também para alimentação, para fazer sua moradia. Quando fui para a Índia, o que mais me interessou é que muitas delas não sabiam ler nem escrever, então usavam os lenços delas para usar como medida, no lugar da fita métrica, nas construções que faziam”, lembra a líder comunitária. “Muitas poupavam também para comprar comida em grande quantidade e, assim, economizar”, acrescenta.</p>



<p>Na Ilha de Deus, as necessidades também não são as mesmas de 18 anos atrás. Antes e durante a urbanização, que foi entregue em três etapas, fazer reformas e reparos nas casas eram os principais objetivos. Isso mudou com a entrega das casas aos moradores. “Em países como a Índia não existem as políticas públicas que a gente tem aqui, como habitação, benefícios sociais como o Bolsa Família, escola pública para todo mundo. Então lá as mulheres têm mais necessidades e levam mais a sério o hábito de poupar, porque eles poupam para construir, para educação. Aqui, com as melhorias que tivemos, já se poupa para algo individual”, compara Mirtes.</p>



<h3 class="wp-block-heading">O futuro da poupança comunitária</h3>



<p>Na terceira vez que foi para a África do Sul, Fátima não viajou sozinha. Ao lado dela foram quatro jovens de outras comunidades do Grande Recife: Ilha de Deus, Caranguejo Tabaiares, Afogados e Tururu, em Paulista. Lá, conheceram experiências de jovens que se juntavam e poupavam um dólar por semana para produzir vídeos de conscientização sobre a importância da reciclagem, por exemplo.</p>



<p>A poupança jovem é vista pelas mulheres como uma forma de mobilizar o futuro da Ilha de Deus e fomentar novas lideranças. “Trabalhamos com temáticas. Por exemplo, pegamos o tema do direito da juventude e levamos os adolescentes para participar de fóruns da juventude, seminários, tudo voltado para que eles possam entender que existe uma lei que assegura os direitos da juventude na cidade do Recife. Os jovens começaram a se interessar e foram convidando um amigo, convidando outro e assim está crescendo”, diz Mirtes.</p>



<p>O tema das mudanças climáticas também é forte nas ações da Poupança Comunitária. “Não é só sobre dinheiro. O nosso objetivo principal é juntar as pessoas, formar novas lideranças. Mobilizar a comunidade para pensar sobre o futuro, pensar em modificar a nossa realidade juntos. Para a gente, é de extrema importância trabalhar com a juventude, porque eles darão continuidade a essa mobilização. O nosso trabalho não vai parar, nem vai morrer com a gente”, afirma Mirtes.</p>


    <div class="box-explicacao mx-md-5 px-4 py-3 my-3" style="--cat-color: #1E69FA;">
        <span class="titulo"><+></span>

        <div class="int mx-auto">
	        <p>Quem quiser apoiar as ações da Poupança Comunitária pode fazer uma doação via Pix: <a class="underline underline underline-offset-2 decoration-1 decoration-current/40 hover:decoration-current focus:decoration-current" href="mailto:noemiafsantoslinda@gmail.com">noemiafsantoslinda@gmail.com</a></p>
        </div>
    </div>
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		<title>Ricos de Boa Viagem e ricos da Zona Norte: tese de doutorado revela disputas de status no Recife</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Maria Carolina Santos]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 21 May 2026 14:42:19 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direito à Cidade]]></category>
		<category><![CDATA[“coisa de rico”]]></category>
		<category><![CDATA[boa viagem]]></category>
		<category><![CDATA[desigualdade social]]></category>
		<category><![CDATA[Distinção social Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[elites recifenses]]></category>
		<category><![CDATA[sociologia]]></category>
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		<category><![CDATA[Zona Norte Recife]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O rico da Zona Norte do Recife gosta de andar a pé até a padaria, mora num casarão restaurado ou em apartamento confortável em uma rua arborizada. Estudou no São Luís ou no Instituto Capibaribe, frequenta o forró de Seu Vital no Poço da Panela e prefere um carro pequeno e discreto — um Mini [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>O rico da Zona Norte do Recife gosta de andar a pé até a padaria, mora num casarão restaurado ou em apartamento confortável em uma rua arborizada. Estudou no São Luís ou no Instituto Capibaribe, frequenta o forró de Seu Vital no Poço da Panela e prefere um carro pequeno e discreto — um Mini Cooper, por exemplo. Já o rico da Zona Sul mora num apartamento com nome em inglês e vista para o mar de Boa Viagem, troca de SUV com regularidade, frequenta restaurantes badalados, decora a casa com arquiteto famoso e valoriza áreas comuns instagramáveis no condomínio. </p>



<p>São dois estilos de vida e duas formas de disputa simbólica entre as elites recifenses.<br><br>É isso que mostra a tese de doutorado <em>Classes e classificações na cidade: disputas simbólicas entre frações de elite do Recife</em>, do sociólogo Bernardo Fortes de Moura Arruda, defendida em junho de 2025 no Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Durante a pesquisa para a tese, ele realizou 80 entrevistas — 49 com moradores da Zona Norte e 31 da Zona Sul — e selecionou 50 para análise. Todos as pessoas entrevistadas integram o 10% mais rico do Recife, e algumas o 1%. Entre os entrevistados, há um grande empresário dos setores de energia, cimento e logística, integrante de família tradicional pernambucana de origem açucareira; e uma empresária e filantropa reconhecida pela Forbes, ex-bailarina e fundadora de projeto social de arte e educação.<br><br>O que Bernardo Fortes encontrou na pesquisa mostra que para a elite recifense a fronteira entre a Zona Norte e a Zona Sul não é apenas geográfica. &#8220;O ponto não é dizer que a Zona Norte é mais culta ou que a Zona Sul é apenas ostentação&#8221;, ressalta o sociólogo. &#8220;O que a tese mostra é que esses rótulos são usados na disputa entre as próprias elites. Boa Viagem já exibe prestígio na paisagem: orla, prédios caros, consumo e visibilidade social. A Zona Norte, por sua vez, precisa narrar seu prestígio por outros caminhos: tradição, memória, arborização, casario, discrição e vida cultural”. Confira a entrevista abaixo.</p>



<p>Marco Zero &#8211; <strong>A tese mostra que essa disputa entre ZN e ZS é assimétrica: a Zona Norte ataca, a Zona Sul defende. Por que o indivíduo da Zona Norte tem mais interesse em manter essa fronteira?</strong></p>



<p><strong>Bernardo Fortes &#8211; </strong>A assimetria existe porque Zona Norte e Zona Sul não disputam prestígio pelo mesmo critério. Boa Viagem consolidou-se como símbolo visível de êxito econômico: orla, imóveis de luxo, hotéis, restaurantes e consumo de alto padrão. Parte do seu prestígio já está inscrita na paisagem. Morar perto ou diante da praia funciona, nesse imaginário, como emblema de ascensão social.</p>



<p>A Zona Norte também concentra riqueza, mas costuma narrar sua distinção por outros sinais: tradição familiar, antiguidade da ocupação, memória dos antigos arrabaldes do Capibaribe, casarões, sítios e uma sofisticação mais discreta, associada à herança aristocrática e açucareira do Recife. Esses atributos, porém, não aparecem na tese como virtudes naturais da Zona Norte, mas como recursos simbólicos usados por suas elites para disputar prestígio com a Zona Sul.</p>



<p>Por isso, o morador da Zona Norte tende a investir mais nessa fronteira simbólica. A Zona Sul aparece, em muitos depoimentos, como lugar do dinheiro visível, do consumo e da ostentação; a Zona Norte, como espaço da tradição, da discrição, do refinamento cultural e do “bom gosto”. Não é uma descrição objetiva dos dois espaços, mas uma forma de classificação social. A Zona Sul precisa explicar menos seu prestígio porque ele é mais imediatamente reconhecível. A Zona Norte, ao contrário, reafirma sua legitimidade histórica, cultural e moral para se diferenciar do brilho econômico associado à orla.</p>



<p><strong>Gilberto Freyre descreve a urbanização do Recife como um processo traumático, como o estilhaçamento de uma ordem que mantinha os antagonismos sociais em equilíbrio &#8220;à sombra do engenho&#8221;. Esse trauma segue operando nas fronteiras simbólicas entre as zonas do Recife de hoje?</strong></p>



<p>Em Gilberto Freyre, o sobrado urbano aparece como um desdobramento da crise da antiga ordem da casa-grande e senzala. Ao contrário do engenho, que funcionava como espaço relativamente fechado e controlado, a cidade surge como ambiente marcado pela circulação intensa, pela mistura social e pela perda daquele domínio patriarcal mais direto sobre a vida cotidiana. Por isso, o sobrado frequentemente aparece em Freyre quase como uma arquitetura defensiva, hostil à rua e à imprevisibilidade da vida urbana.</p>



<p>Ecos desse processo ajudam a compreender também a formação histórica das áreas de prestígio do Recife contemporâneo. A Zona Norte tradicional começa a se consolidar ainda no século XIX, quando os antigos arrabaldes ligados ao Capibaribe passam a atrair setores das elites interessados em formas de vida mais rarefeitas e protegidas da intensidade social do centro portuário e comercial da cidade, marcado pela circulação de trabalhadores, comércio popular, escravizados, ex-escravizados e pela própria dinâmica anônima da urbanização. Já Boa Viagem e a Zona Sul surgem mais tarde sob outra lógica. A valorização da orla se associa à modernização da cidade, ao automóvel, à verticalização e a um imaginário cosmopolita ligado à vida marítima e ao consumo. Ainda assim, permanece a busca por formas urbanas relativamente seletivas de convivência.</p>



<p>Mas a própria trajetória de Boa Viagem produz uma contradição importante. À medida que a praia se populariza e se transforma no maior espaço público da cidade, atravessado por circulação metropolitana intensa, parte das elites passa a desenvolver uma relação mais ambivalente com aquele espaço. Boa Viagem continua extremamente valorizada como paisagem e símbolo imobiliário de prestígio, mas há uma tendência de deslocamento da sociabilidade das frações mais altas para praias mais seletivas do litoral sul e outros espaços percebidos como mais controlados. Nesse sentido, o trauma descrito por Freyre talvez não sobreviva como permanência direta da casa-grande, mas como continuidade de uma busca recorrente das elites recifenses por espaços protegidos da massificação, da circulação excessiva e da imprevisibilidade da vida urbana.</p>



<p><strong>Você escreve que o mercado imobiliário de alto padrão no Recife atua como um &#8216;operador simbólico&#8217; — não apenas refletindo, mas produzindo as fronteiras entre as elites. Os incorporadores fazem isso conscientemente ou simplesmente captam o que já está no ar?</strong></p>



<p>O mercado imobiliário não cria essas fronteiras sociais sozinho, porque elas já existem historicamente no Recife, mas ele também não atua de forma neutra. Os incorporadores captam desejos, hierarquias e imagens de prestígio já presentes entre as elites e os transformam em mercadoria. O imóvel de alto padrão raramente é vendido apenas como metragem ou localização. O mercado vende pertencimento social junto com o apartamento e o bairro.<br><br>Essa dinâmica aparece na própria forma como determinadas áreas da cidade são apresentadas. Em Boa Viagem, o discurso costuma enfatizar modernidade, consumo, vista para o mar e vida cosmopolita. O edifício na orla funciona quase como um troféu urbano. Já nos bairros valorizados da Zona Norte, o apelo tende a passar pela tradição, pela autenticidade histórica, pela discrição e por referências ao imaginário aristocrático ligado ao açúcar e aos antigos arrabaldes do Capibaribe, algo que muitas vezes aparece até nos nomes dos edifícios.<br><br>Não se trata necessariamente de uma ação totalmente consciente ou planejada para produzir identidades urbanas. O processo é mais difuso. O mercado lê aspirações sociais já existentes e, ao transformá-las continuamente em linguagem de venda, acaba ajudando a reforçar e organizar essas fronteiras simbólicas da cidade.<br></p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Dinheiro e escolarização formal não garantem automaticamente pertencimento pleno às elites
</p>
	                
                                            <span>Foto espelhada de Bernardo Fortes/Reprodução</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p><strong>Você mostra que os ricos da Zona Norte têm apreço pela caminhabilidade e pela arborização, mas isso em bairros que de certa forma têm uma circulação controlada. Já as elites da Zona Sul preferem o condomínio fechado, o shopping. Ambos se unem pelo medo do centro, que seria um espaço público mais propício ao encontro com outras classes sociais? Você acha que a decadência do centro do Recife está ligada também a um abandono do centro pelas elites?<br></strong><br>Sim, acho que existe uma relação importante entre esses processos. Embora a Zona Norte valorize caminhabilidade, casario, arborização e certa ideia de convivência urbana mais aberta, isso geralmente acontece em áreas relativamente protegidas, com circulação social mais previsível e padrões de convivência mais homogêneos. Nesse sentido, a própria valorização da rua e da circulação a pé parece depender também de uma percepção de segurança e familiaridade social do espaço.<br><br>Isso ajuda a entender uma contradição importante apreendida pela tese. A Zona Norte costuma se apresentar como espaço mais aberto à convivência urbana e à mistura social do que a Zona Sul. Mas, na prática, muitas dessas áreas continuam funcionando dentro de limites relativamente seletivos: espaços públicos bastante frequentados, como a Praça de Casa Forte ou eventos tradicionais do Poço da Panela, são abertos, mas frequentados majoritariamente por pessoas que compartilham códigos sociais parecidos, o que também ajuda a produzir uma sensação maior de familiaridade e conforto na convivência cotidiana.<br><br>Boa Viagem, por outro lado, possui intensa circulação urbana, comércio de rua e uma praia amplamente frequentada. O ponto não é ausência de mistura social, mas formas seletivas de uso desses espaços, como a ocupação mais restrita de certos trechos da praia e o deslocamento do lazer para praias mais exclusivas do litoral sul.<br><br>Nesse sentido, o centro tradicional do Recife acaba representando justamente o oposto dessa lógica: um espaço marcado pela circulação intensa, pelo comércio popular e por encontros urbanos menos controláveis entre grupos sociais distintos. Esse afastamento progressivo das elites em relação ao centro é um dos fatores que ajudam a explicar sua tendência de decadência. Quando escolas tradicionais, cinemas de rua, equipamentos de consumo, galerias, shoppings, investimentos privados e parte da atenção pública se deslocam para a Zona Norte e para a Zona Sul, o centro perde funções sociais, prestígio e capacidade de atrair recursos. Aos poucos, deixa de ser percebido como espaço de moradia, lazer e consumo das elites e passa a ser associado sobretudo ao comércio popular, à circulação intensa e à imprevisibilidade urbana.</p>



<div class="citacao ms-auto my-5">
	<p class="m-0">Muitos entrevistados dizem usar metrô e ônibus no exterior com naturalidade, mas no Recife simplesmente não os utilizam.</p>
</div>


<p><strong>A simpatia pela esquerda que aparece em alguns entrevistados da ZN é uma posição política efetiva ou mais um marcador de refinamento cultural que distingue a Zona Norte da Zona Sul?</strong></p>



<p>Pode ser as duas coisas. Em alguns entrevistados da Zona Norte, existe um entusiasmo vivido com pautas progressistas, como direito à cidade, preservação do patrimônio histórico, valorização da diversidade e preocupação com minorias. Mas essas pautas também aparecem ligadas a uma estética e a uma forma específica de viver a cidade. Defender ruas arborizadas, casarões antigos, caminhabilidade, vida cultural, convivência urbana e certa mistura social faz parte de um modo de experimentar a Zona Norte e de diferenciá-la simbolicamente da Zona Sul.<br><br>Nesse sentido, a valorização da diversidade também funciona como marcador de refinamento moral e distinção entre frações da elite. Isso não significa que seja apenas pose. Pode haver esforço real de convivência e valorização da diversidade. O ponto é que essa convivência frequentemente permanece seletiva, sem necessariamente romper as hierarquias sociais existentes.</p>



<p><strong>Moradores do Poço da Panela resistiram tanto à construção de um Atacado dos Presentes quanto à de uma UPA no bairro. Ambos estabelecimentos eram voltados a públicos populares. Os argumentos usados foram urbanísticos e ambientais: o impacto no trânsito, a preservação do rio, o microclima. Esses episódios podem revelar que o &#8220;estilo de vida&#8221; que as classes altas da Zona Norte dizem defender é, na prática, também uma forma de gestão do território para manter afastados os serviços e os públicos que não pertencem ao seu círculo simbólico?</strong></p>



<p>Esses episódios sugerem que o estilo de vida defendido no Poço da Panela envolve não apenas preocupações urbanísticas e ambientais legítimas, mas também uma tentativa de preservar a imagem social do bairro, suas hierarquias internas e suas regras implícitas de convivência. A defesa do patrimônio, da arborização, do microclima e da tranquilidade se liga a uma forma específica de viver a Zona Norte: um espaço valorizado justamente por parecer mais calmo, histórico, pouco adensado e socialmente previsível. Quando chegam equipamentos voltados a públicos populares, o incômodo não se reduz ao trânsito ou ao impacto ambiental. Também aparece o receio de que o bairro perca parte do perfil social e da atmosfera simbólica que sustentam seu prestígio.</p>



<p>Como sugere o sociólogo Pierre Bourdieu, a intolerância estética pode funcionar como uma das barreiras mais fortes entre classes. Nesse sentido, preocupações aparentemente neutras com paisagem, circulação ou preservação urbana acabam funcionando também como mecanismos de filtragem social: delimitam quem circula, quem consome e quais formas de presença parecem “adequadas” ao bairro, sem que isso precise ser formulado diretamente em termos de classe.</p>



<p><strong>A tese mostra que Boa Viagem nasceu como espaço de elite porque só era acessível de carro e o automóvel funcionava como filtro social que definia quem podia chegar lá. O condomínio fechado e o shopping herdaram essa lógica?</strong><br><br>A lógica é parecida: transformar acesso em distinção. No início, o automóvel filtrava quem podia chegar a Boa Viagem e convertia distância em privilégio. Depois, condomínio fechado e shopping atualizaram esse filtro por outros meios: portaria, segurança, estacionamento, consumo e controle da circulação. Isso aparece até na relação ambígua com o transporte público: muitos entrevistados dizem usar metrô e ônibus no exterior com naturalidade, mas no Recife simplesmente não os utilizam. O interessante é que essa recusa quase não precisa ser justificada: certos meios de transporte já aparecem previamente fora do horizonte cotidiano de uso das elites locais.</p>


    <div class="box-explicacao mx-md-5 px-4 py-3 my-3" style="--cat-color: #1E69FA;">
        <span class="titulo"><+></span>

        <div class="int mx-auto">
	        <p>Conceito desenvolvido pelo sociólogo francês Pierre Bourdieu, <em>habitus</em> é o conjunto de disposições incorporadas — agir, pensar, perceber o mundo — que uma pessoa adquire ao longo da vida pela socialização, e que orienta seu comportamento de forma quase automática, sem necessidade de reflexão consciente.</p>
<p>&nbsp;</p>
        </div>
    </div>



<p><br><strong>O caso do entrevistado &#8220;Guilherme&#8221; mostra que a família dele abria mão de conforto material para mantê-lo nas escolas <em>certas</em> do bairro das Graças: a escola não transmite apenas conhecimento, mas repertório, rede e <em>habitus</em>. Isso vale para as duas zonas? Tanto a elite da Zona Norte quanto a da Zona Sul investem na escola como rito de inserção ou há uma diferença na forma como cada uma valoriza e usa a escola como instrumento de reprodução simbólica?<br></strong><br>A escola aparece na tese menos como simples transmissão de conteúdo e mais como espaço de formação de redes, repertórios, modos de falar e reconhecer pertencimentos sociais. No discurso dos entrevistados, Instituto Capibaribe e Apoio tendem a aparecer como o ideal de uma formação mais crítica, cultural e intelectualizada, muito associada ao imaginário da Zona Norte. Damas e São Luís, embora tradicionais e elitizados, surgem de forma mais nuançada, ligados a prestígio histórico e formação clássica. Já o Santa Maria aparece com mais frequência como símbolo mais direto de fechamento social e reprodução de classe.<br><br>Mas essa divisão não é mecânica. Mesmo entre moradores da Zona Sul aparecem pais e egressos que reconhecem esse elitismo e evitam o Santa Maria justamente por considerá-lo fechado demais. Ou seja, a escola funciona como rito de inserção nas elites, mas também como espaço onde as famílias escolhem que tipo de elite querem formar e a qual fração simbólica desejam pertencer.</p>


    <div class="box-explicacao mx-md-5 px-4 py-3 my-3" style="--cat-color: #1E69FA;">
        <span class="titulo"><+></span>

        <div class="int mx-auto">
	        <p>Cunhado pelo sociólogo americano Richard Peterson nos anos 1990, o conceito de <strong>onivorismo cultural</strong> descreve o fenômeno pelo qual as elites contemporâneas passaram a consumir cultura de forma eclética — misturando erudito e popular —, em substituição ao antigo esnobismo que rejeitava tudo que fosse considerado de baixo status.</p>
        </div>
    </div>



<p><strong>A elite da Zona Norte frequenta o forró de Seu Vital, valoriza o artesanato popular e se orgulha de ver os morros pela janela. Esse &#8220;onivorismo cultural&#8221; aproxima realmente as classes altas da ZN das classes populares? Há alguma diferença real na relação das elites recifenses da ZN e da ZS com as classes populares ou é apenas a narrativa que cada uma constrói?</strong></p>



<p>O que aparece na tese não é exatamente uma dissolução das fronteiras de classe pelo “onivorismo cultural”, mas uma forma específica de relação com o popular que também funciona como distinção. Parte das elites da Zona Norte valoriza o forró, o artesanato, os mercados e até a proximidade visual com os morros como sinais de autenticidade cultural e enraizamento urbano.<br><br>Mais do que uma diferença objetiva e absoluta em relação à Zona Sul, isso aparece como parte de uma disputa simbólica interna às próprias elites recifenses. Como o prestígio econômico e imobiliário de Boa Viagem é mais imediatamente reconhecível, frações da Zona Norte tendem a investir com mais intensidade em critérios morais, culturais e estéticos de legitimação, contrapondo tradição, autenticidade e “bom gosto” ao dinheiro percebido como excessivamente visível ou ostentatório.<br><br>Mas essa aproximação com o popular permanece seletiva e hierarquizada. O Bar de Seu Vital revela bem essa ambiguidade: para moradores populares, é comércio cotidiano; para setores das classes médias e altas, aparece como espaço “autêntico” de sociabilidade.<br><br>Eventos como o Segura o Talo [bloco de carnaval da Zona Norte e arrasta milhares de pessoas, principalmente das classes populares] ajudam a mostrar o limite dessa abertura. Quando o popular deixa de aparecer como folclore, tradição ou autenticidade controlável e passa a ocupar intensamente áreas valorizadas da Zona Norte, surgem desconfortos e mecanismos de rejeição. Ou seja, essa boa vontade cultural funciona como trunfo simbólico na disputa entre frações da elite, mas não significa, necessariamente, maior igualdade concreta nas relações de classe.</p>



<p><strong>Os entrevistados “Jaciara” e “José” culpam a si mesmos pelo isolamento social no bairro das Graças e não parecem enxergar as barreiras simbólicas que os excluem. O que sugere que essas barreiras se tornam visíveis para quem já está perto o suficiente, mas para quem está mais distante, elas simplesmente não aparecem. A disputa que a tese descreve é uma briga interna entre frações da elite, ou próximas dela, ou isso se irradia para além das classes altas do Recife?</strong></p>



<p>Esses códigos funcionam como instrumentos de diferenciação e, ao mesmo tempo, como barreiras de entrada. Inicialmente, ajudam as diferentes frações da elite a marcar distinções entre si, definindo formas legítimas de morar, circular, consumir e se comportar. Mas, ao criar etiquetas sociais e códigos de pertencimento cada vez mais específicos, acabam também dificultando a integração de quem ascende socialmente sem ter sido socializado nesses universos.<br><br>Isso vale tanto para a Zona Norte quanto para a Zona Sul. Ambas possuem códigos próprios de pertencimento ligados a formas de vida burguesas, embora valorizem aspectos diferentes. Na Zona Sul, aparecem com mais força códigos ligados à apresentação social, ao consumo de alto padrão, à circulação em espaços privados e à etiqueta urbana das elites. Já em setores da Zona Norte, aparece no discurso uma valorização maior da cultura, da diversidade, da vida de rua, do patrimônio e de repertórios vistos como mais alternativos ou intelectualmente sofisticados. Isso não significa que a Zona Sul não tenha cultura, nem que a Zona Norte realize plenamente essa abertura. Trata-se de imagens construídas na própria disputa entre as zonas.<br><br>Por isso, não basta comprar um apartamento em Casa Forte ou na avenida Boa Viagem. A escolha do endereço não garante integração social. Entrevistei, por exemplo, novos ricos da Zona Sul que moram na avenida Boa Viagem, mas cuja vida social quase não acontece ali: os amigos permanecem em outros bairros, os vínculos seguem ligados aos lugares de origem e a circulação cotidiana continua organizada por redes anteriores à ascensão.<br><br>Isso produz um efeito importante na própria reprodução de classe. Como os pais permanecem parcialmente isolados, também têm mais dificuldade de inserir os filhos nas redes de amizade, sociabilidade e reconhecimento típicas desses grupos. O resultado é que a família consegue chegar ao espaço valorizado, mas nem sempre transforma essa chegada em pertencimento pleno e duradouro. É por isso que estudar os ricos ajuda a compreender as classes sociais como um todo. As barreiras criadas no topo não afetam apenas quem já pertence à elite; elas também moldam os caminhos, os limites e as frustrações de quem tenta ascender.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/05/Rico-BV.jpg" alt="Esta foto mostra uma vista aérea de uma área urbana litorânea, com vários prédios altos e modernos alinhados paralelamente à costa. As construções são predominantemente brancas e cinzas, com variações sutis de cor e design. À esquerda, há uma faixa verde com árvores que acompanha a avenida principal, enquanto ao fundo se estende o mar calmo sob um céu parcialmente nublado." class="" loading="lazy" >
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Pesquisador explica que Boa Viagem já exibe prestígio na paisagem
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero Conteúdo</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p><strong>Você escreve na tese que perguntas diretas sobre patrimônio e renda geravam desconforto ou eram simplesmente omitidas. Você então passou a medir o capital econômico também por perguntas indiretas, como a comparação entre restaurantes de preferência (Nez Bistro X Ilha da Kosta, por exemplo). O que essa mudança na metodologia da pesquisa revelou?</strong></p>



<p>Quando passei a observar o capital econômico por meio de sinais indiretos, percebi que a posição social aparecia com mais clareza nos estilos de vida do que nas declarações formais de renda. Poucos entrevistados se recusavam totalmente a falar sobre patrimônio ou ganhos, sobretudo porque essas perguntas ficavam para o fim, depois de duas ou três horas de conversa. Ainda assim, o desconforto era nítido. Em alguns casos, esse tipo de pergunta funcionava quase como um sinal de alerta: mesmo feita ao final da entrevista, podia dificultar a indicação de novos interlocutores ou fechar portas para contatos futuros.<br><br>Por isso, comecei a observar outros elementos: o prédio onde a pessoa morava, a escola em que estudou, viagens, carro, casa de praia e padrões de consumo. Muitas vezes, em vez de perguntar diretamente o valor do imóvel, eu procurava depois anúncios de apartamentos no mesmo prédio para estimar o padrão econômico daquele universo.<br><br>A comparação entre Nez Bistrô e Ilha da Kosta ajudou a mostrar isso. A diferença não estava apenas no preço, mas no tipo de gosto mobilizado. Alguns valorizavam fartura, quantidade e sensação de “valer o preço”; outros valorizavam ambiente, curadoria, apresentação, discrição e experiência gastronômica. Esse contraste revelava que a ascensão econômica não apaga automaticamente padrões de socialização anteriores: o modo como cada entrevistado avaliava um restaurante também indicava sua relação com o consumo, com a distinção e com os códigos de pertencimento daquele universo social. No fim, a pesquisa mostrou que o dinheiro, entre essas frações da elite, raramente aparece sozinho. Ele surge incorporado em gostos, estilos de vida, formas de circulação pela cidade e maneiras socialmente legítimas de consumir e demonstrar pertencimento.<br><br><strong>Com base no que você escreve do que o sociólogo Erving Goffman chama de &#8220;gestão da impressão&#8221;, você mesmo passou por um processo de adaptação da sua performance ao longo do campo: trocando o terno pela informalidade, ajustando o vocabulário, modulando gestos e tom de voz para se apresentar como alguém de dentro. Mas a tese também mostra que seus entrevistados fazem exatamente isso o tempo todo: gerenciam a impressão que causam, escolhem o que mostrar e o que esconder, ainda mais diante de um sociólogo quando eles sabiam que estavam sendo estudados. Como você lidou com essa dupla encenação, a sua e a deles?</strong></p>



<p>A pesquisa me fez perceber que a entrevista nunca era um espaço totalmente espontâneo. Eu também estava sendo observado e classificado o tempo inteiro. No início do campo, eu adotava um formalismo que imaginava transmitir seriedade, mas que muitas vezes produzia o efeito contrário: criava distância e pouca identificação.<br><br>Com o tempo, percebi que precisava construir uma imagem de maior proximidade para inspirar confiança. Passei então a modular conscientemente minha própria apresentação: um visual mais casual, mas alinhado aos códigos de discrição valorizados naquele universo, evitando parecer excessivamente formal ou “over”, como alguns entrevistados diziam. Também ajustava linguagem, referências e formas de interação. Falava de viagens internacionais, do bairro onde moro, das escolas em que estudei e de pessoas de frações da elite que eu conhecia. Comentava restaurantes, experiências urbanas e referências culturais que funcionavam como sinais reconhecíveis de familiaridade social.<br><br>Mesmo assim, meu <em>habitus</em> de estudante de humanas frequentemente gerava desconfiança. Muitos entrevistados associavam pesquisadores e intelectuais a uma postura hostil em relação às elites ou ao risco de serem retratados de forma caricatural. Isso fazia com que controlassem bastante a entrevista. Uma entrevistada que está entre o 1% mais rico chegou, por exemplo, a pedir o questionário antes da conversa para saber exatamente o que seria perguntado.<br><br>Então existia uma dupla gestão da impressão. Eu tentava construir uma imagem suficientemente próxima para reduzir desconfianças e conseguir acesso mais profundo ao campo; eles, por sua vez, também administravam cuidadosamente a imagem que produziam diante de um sociólogo. Em vez de tratar isso apenas como um obstáculo metodológico, a pesquisa passou a incorporar essa própria encenação como dado sociológico. Afinal, a maneira como esses grupos controlam sua exposição também revela inseguranças, estratégias de distinção e mecanismos de fechamento social.</p>



<div class="citacao ms-auto my-5">
	<p class="m-0">O objetivo não era ridicularizar entrevistados, mas compreender como as elites constroem pertencimentos, classificam a cidade e produzem fronteiras simbólicas.</p>
</div>


<p><strong>Você declara explicitamente, e mais de uma vez, que a pesquisa foi conduzida com seriedade e respeito em contraposição a produções que tratam as classes abastadas pelo viés do estereótipo e da ridicularização. E você cita como exemplo desse estereótipo o documentário <em>Um Lugar ao Sol</em>, de Gabriel Mascaro. Em um país tão desigual como o Brasil, não dá vontade de alfinetar essas classes abastadas?</strong></p>



<p>A desigualdade brasileira obviamente produz indignação e tensões reais. Mas transformar a pesquisa em caricatura moral empobrece a análise sociológica. Meu objetivo não era ridicularizar entrevistados, mas compreender como essas elites constroem pertencimentos, classificam a cidade e produzem fronteiras simbólicas.<br><br>O ponto central da pesquisa era justamente identificar mecanismos de fechamento social que muitas vezes passam despercebidos. A tese mostra que dinheiro e escolarização formal não garantem automaticamente pertencimento pleno às elites. Existem códigos de sociabilidade, repertórios culturais, formas de consumo e redes de reconhecimento que também funcionam como barreiras de entrada.<br>Isso desloca a discussão da simples oposição entre “ricos e pobres” para algo mais complexo: como grupos socialmente privilegiados constroem fronteiras simbólicas e reproduzem pertencimento entre gerações. Assim, entender esses mecanismos me parecia sociologicamente mais importante do que simplesmente produzir uma sátira moral das classes altas.</p>



<p><strong>E por que você acha que a sociologia feita no Brasil ainda não estuda as classes altas com mais recorrência?</strong><br><br>Existe, primeiro, uma dificuldade metodológica real. Elites controlam fortemente sua privacidade e possuem maior capacidade de selecionar quem entra ou não em seus circuitos sociais. Conseguir acesso prolongado a esse universo exige tempo, adaptação e construção de confiança. Mas também existe uma tradição forte da sociologia brasileira voltada para pobreza, exclusão e classes populares, o que é compreensível num país profundamente desigual. O problema é que isso às vezes produz um desequilíbrio: estuda-se muito quem sofre os efeitos da desigualdade e menos quem participa de sua reprodução cotidiana.<br><br>Além disso, pesquisar elites exige um equilíbrio difícil. Existe o risco tanto da fascinação quanto da hostilidade moral. Em muitos casos, a caricatura acaba substituindo a análise. Só que, quando a elite aparece apenas como personagem grotesco, perde-se justamente a compreensão dos mecanismos sutis e cotidianos através dos quais as desigualdades continuam sendo reproduzidas.<br><br><strong>Michel Alcoforado virou fenômeno editorial com <em>Coisa de Rico</em>, um livro que expõe, por vezes com humor, ridicularizando e em tom sarcástico, códigos e rituais das elites brasileiras. Mas há vários pontos que ressoam com o que você encontrou na tensão entre as elites da Zona Norte e da Zona Sul. Como você lê esse livro à luz da sua tese?</strong></p>



<p>Michel Alcoforado tem um mérito importante como divulgador. Ele conseguiu levar discussões sobre consumo, comportamento e distinção social para além da bolha acadêmica, mostrando a existência de códigos das classes altas que muitas vezes passam despercebidos e que são fundamentais para definir quem pertence e quem não pertence a determinados universos sociais.</p>



<p>Ao mesmo tempo, parte da academia vê limites nisso, porque a lógica da divulgação e do humor às vezes simplifica conceitos sociológicos mais complexos. Acho que o problema não é existir esse tipo de trabalho, mas parar nele. Quando a análise fica apenas na sátira dos hábitos dos ricos, corre-se o risco de transformar processos sociais profundos em mera curiosidade comportamental.</p>



<p>Minha tese tenta ir além disso. O interesse não era apenas mostrar “coisas de rico”, mas entender como gostos, estilos de vida, formas de consumo e modos de ocupar a cidade funcionam como mecanismos de pertencimento, distinção e fechamento social entre as elites recifenses. Esses códigos não apenas expressam diferenças de classe: eles também moldam a cidade e fazem dela um marcador social, capaz de classificar pessoas, bairros e formas de vida.</p>



<p>E também acho importante dizer que as elites deixaram de ser um tabu absoluto na sociologia brasileira. Existe muita coisa sendo produzida hoje. Eu recomendaria, por exemplo, trabalhos de Miqueli Michetti, Marcella Novais, Michel Nicolau, Renato Ortiz e Valdênio Freitas Meneses. Claro que ainda existe uma dificuldade metodológica real de acesso a esses grupos, mas há diferentes estratégias possíveis de pesquisa. Nem todo estudo sobre elites precisa depender necessariamente de interação direta ou entrevistas profundas.</p>


    <div class="infos mx-md-5 px-5 py-4 my-5">
        <span class="titulo text-uppercase mb-2 d-block">Leia a tese completa</span>

	    <p>Se você chegou até o fim dessa entrevista, é porque se interessou pelo assunto: vale a pena ler a tese completa, que é muito bem escrita e interessante. <a href="https://repositorio.ufpb.br/jspui/handle/123456789/37944" target="_blank" rel="noopener">Está disponível aqui, no repositório da UFPB</a>.</p>
    </div>
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		<item>
		<title>Periferias de Pernambuco e da Paraíba terão rede de comitês populares ambientais</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 28 Apr 2026 20:50:49 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Socioambiental]]></category>
		<category><![CDATA[FioCruz]]></category>
		<category><![CDATA[Mãos Solidárias]]></category>
		<category><![CDATA[Meio Ambiente]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Com foco no enfrentamento dos impactos da crise climática sobre a saúde e a alimentação, foi lançada nesta segunda-feira (27), na Fiocruz Pernambuco, a iniciativa “Mudanças Climáticas, Saúde e Alimentação – Rede de Comitês Populares Ambientais em Territórios das Periferias”. O projeto articula instituições públicas, movimentos sociais e comunidades para formar agentes populares e estruturar [&#8230;]</p>
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<p>Com foco no enfrentamento dos impactos da crise climática sobre a saúde e a alimentação, foi lançada nesta segunda-feira (27), na Fiocruz Pernambuco, a iniciativa “Mudanças Climáticas, Saúde e Alimentação – Rede de Comitês Populares Ambientais em Territórios das Periferias”. O projeto articula instituições públicas, movimentos sociais e comunidades para formar agentes populares e estruturar espaços coletivos de mobilização em territórios periféricos.</p>



<p>A proposta é coordenada pela Fiocruz Pernambuco em parceria com o Movimento Mãos Solidárias, a Universidade de Pernambuco (UPE) e a Universidade Federal da Paraíba (UFPB). A iniciativa pretende criar uma rede de comitês ambientais em Pernambuco e na Paraíba, conectando educação popular em saúde, serviços do Sistema Único de Saúde (SUS) e participação comunitária.</p>



<p>Durante o lançamento, a diretora do Departamento de Gestão da Educação na Saúde do Ministério da Saúde, Lívia Milena Barbosa, destacou a importância de integrar o debate ambiental à formação de profissionais do SUS. Segundo ela, a proposta vai além da resposta a desastres, buscando atuar na prevenção por meio de processos educativos nos territórios.</p>



<p>A pesquisadora da Fiocruz Pernambuco Idê Gurgel ressaltou a centralidade da relação entre clima, saúde e soberania alimentar no projeto. Para ela, a formação de agentes populares ambientais é estratégica em um contexto de mudanças globais aceleradas e crescente impacto das questões climáticas na agenda política.</p>



<p>A programação do evento também incluiu o debate “Mudanças Climáticas e Saúde nas Periferias”, com a participação da estudante de Saúde Pública Alyne Nascimento, ampliando a discussão sobre como a crise climática afeta diretamente os contextos urbanos mais vulneráveis.</p>



<p>Representando a direção da instituição, a coordenadora Naíde Teodósio enfatizou o compromisso com a chamada “ciência cidadã”, baseada na construção conjunta de conhecimento e soluções com os territórios.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Formação e expansão da rede</h2>





<p>As primeiras ações do projeto começaram ainda em março, com a realização de um curso de formação de monitores no município de Moreno (PE). Ao todo, 27 participantes foram capacitados para atuar na criação dos comitês populares ambientais.</p>



<p>A expectativa é que esses monitores contribuam para a implantação de pelo menos 135 comitês em dois estados do Nordeste, formando cerca de 270 agentes populares ambientais. A proposta segue a lógica de “formação de formadores”, ampliando o alcance da iniciativa nas periferias urbanas.</p>



<p>Para Paulo Mansan, coordenador do Movimento Mãos Solidárias, a ideia é que os comitês atuem diretamente nos territórios, debatendo temas como saneamento, resíduos sólidos, acesso à água e produção de alimentos. “O objetivo é preparar pessoas para melhorar a vida das suas comunidades e enfrentar, na prática, os efeitos das mudanças climáticas”, afirmou.</p>



<p>Na Paraíba, a Universidade Federal da Paraíba participará com estudantes que atuarão na criação de comitês em áreas periféricas de João Pessoa. A professora Gabriela Barreto destacou a importância da experiência na formação acadêmica, especialmente para estudantes das áreas de saúde e educação.</p>



<h3 class="wp-block-heading">Políticas públicas e atuação nos territórios</h3>



<p>A iniciativa busca transformar diretrizes da Política Nacional de Educação Permanente em Saúde e da Política Nacional de Educação Popular em Saúde em ações concretas nas comunidades, incentivando o desenvolvimento de soluções locais para problemas ambientais e sanitários.</p>



<p>A execução contará com apoio da Fundação para o Desenvolvimento Científico e Tecnológico em Saúde (Fiotec), responsável pela gestão administrativa e financeira.</p>



<p>Ao articular instituições, movimentos e comunidades, o projeto aposta na construção de uma rede regional capaz de fortalecer políticas públicas de saúde, ampliar a participação social e enfrentar de forma integrada os desafios da emergência climática no Nordeste.</p>
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		<title>“Roda de Memórias” promove encontro para resgatar histórias de moradores de Olinda</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 25 Mar 2026 20:53:33 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direito à Cidade]]></category>
		<category><![CDATA[história oral]]></category>
		<category><![CDATA[memória]]></category>
		<category><![CDATA[Olinda]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O projetoRoda de Memóriasrealiza no próximo sábado (28) mais um encontro dedicado à preservação da história oral da cidade alta de Olinda. O evento acontece a partir das 16h, no Gracinha Restaurante, localizado na rua de São Bento, 210. Com uma proposta informal, a iniciativa convida moradores antigos e seus familiares para compartilhar relatos e [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>O projeto<em>Roda de Memórias</em>realiza no próximo sábado (28) mais um encontro dedicado à preservação da história oral da cidade alta de Olinda. O evento acontece a partir das 16h, no Gracinha Restaurante, localizado na rua de São Bento, 210.</p>



<p>Com uma proposta informal, a iniciativa convida moradores antigos e seus familiares para compartilhar relatos e vivências do que foi um dia a “Velha Marim dos Caetés”. A ideia é dar continuidade à construção de um mosaico histórico da região, valorizando as vozes de quem vive ou viveu nesse espaço tão simbólico.</p>



<p>As memórias serão estimuladas por meio de um “passeio” virtual pela cidade alta, utilizando a ferramenta Google Street View, projetada para os participantes. A atividade busca reunir histórias e “estórias” que ajudem a recompor a identidade cultural do local.</p>



<p>A organização do evento pede que os interessados convidem e tragam parentes e amigos mais velhos que tenham ligação com a região. A entrada é livre e aberta ao público.</p>



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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
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</p>
	                
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		<title>O Agente Secreto tratou o Recife como se fosse Paris</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 16 Mar 2026 19:45:22 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direito à Cidade]]></category>
		<category><![CDATA[Avenida Guararapes]]></category>
		<category><![CDATA[cinema]]></category>
		<category><![CDATA[O Agente Secreto]]></category>
		<category><![CDATA[Recife]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Silvia Macedo* Existe uma ferida específica que as cidades do interior do Brasil &#8211; e Recife, que insiste em ser metrópole e ao mesmo tempo carrega dentro de si toda a intimidade de uma cidade pequena, sabe bem disso &#8211; carregam há décadas. Não é a ferida da pobreza, embora ela exista e doa. [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p><strong>por Silvia Macedo*</strong></p>



<p>Existe uma ferida específica que as cidades do interior do Brasil &#8211; e Recife, que insiste em ser metrópole e ao mesmo tempo carrega dentro de si toda a intimidade de uma cidade pequena, sabe bem disso &#8211; carregam há décadas. Não é a ferida da pobreza, embora ela exista e doa. É outra coisa, mais difícil de nomear: é a ferida de não ser levada a sério. De ter seus ritmos, suas lendas, seu sotaque, sua maneira torta e generosa de estar no mundo tratados como curiosidade folclórica, como exotismo para consumo alheio, nunca como matéria-prima para a arte mais alta. O Recife aprendeu cedo, e a contragosto, que as coisas que importavam &#8211; as coisas que mereciam câmera, atenção, eternidade &#8211; aconteciam em outro lugar.</p>



<p>O cinema pernambucano chegou e desfez esse ensinamento. Não suavemente.</p>



<p>Em <em>O Agente Secreto</em>, Kléber Mendonça Filho não fez uma carta de amor à cidade no sentido piegas da expressão. Fez algo mais violento e mais verdadeiro: tratou o Recife como se fosse Paris. Com a mesma exigência, a mesma seriedade, a mesma convicção de que cada ângulo de uma rua, cada letreiro gasto, cada fachada marcada pela umidade do mar continha dignidade suficiente para a tela grande. O Recife virou um personagem a mais no filme, assim como o seu elenco. E quando uma cidade se vê tratada assim, quando percebe que sua existência cotidiana foi considerada arte, algo se move nela que não é apenas orgulho. É uma espécie de reparação.</p>



<p>O que aconteceu nas ruas depois não foi só entusiasmo. Foi reconhecimento. E reconhecimento, quando ocorre numa cidade que foi sistematicamente ensinada a se diminuir, tem a textura de um abalo sísmico que ninguém vê mas todos sentem.</p>



<p>O sotaque local, vários rostos conhecidos, expressões populares e os espaços onde a vida acontecia &#8211; e ainda acontece &#8211; ocuparam um lugar nas telonas que, para o público mais amplo, cabia apenas a cidades como Paris, Nova York ou Londres. Isso pode parecer uma observação simples. Não é. Há décadas de subalternidade cultural acumulada nessa constatação. Há uma geração inteira de recifenses que cresceu acreditando &#8211; não conscientemente, mas nas fibras mais fundas do que se acredita sem saber que se acredita &#8211; que o lugar onde nasceu era provisório. Que a vida de verdade acontecia em outro eixo geográfico. Que o sotaque era coisa a ser perdida, a frase longa e sinuosa do nordestino, coisa a ser encurtada, a referência à Perna Cabeluda, à La Ursa, ao frevo de bloco, coisas íntimas demais para o espaço público da cultura nacional.</p>



<p>O filme devolveu tudo isso. Não como museu. Como urgência.</p>



<p>Ao ver sua cidade, seus costumes e sua cultura projetados para o mundo, parte do público reagiu com orgulho e entusiasmo, é o orgulho recifense, como se costuma dizer, em linha reta. Mas havia, por baixo desse orgulho em linha reta, algo mais complexo &#8211; uma torção, uma perturbação, como quem encontra numa gaveta antiga uma fotografia de si mesmo que não sabia que existia e precisa parar para reconhecer o próprio rosto. O encantamento dos pernambucanos estava ligado a um sentimento de pertencimento e orgulho.</p>



<p>A crítica internacional identificou no filme uma obra capaz de articular história, tensão e ironia sem perder o contato com a realidade que representa &#8211; e reconheceu nele uma forma própria, insubstituível, de falar sobre violência, repressão e território. O mundo olhando para o Recife e dizendo: isto aqui é universal. Não porque o Recife deixou de ser particular. Ao contrário, porque foi particular o suficiente para se tornar universal. Porque foi fundo o bastante na sua própria especificidade para tocar o que é de todos. Uma produção que atingiu um contingente mais amplo, não os cinéfilos de sempre, mas o motorista de aplicativo, a funcionária dos Correios, o rapaz que vende mingau na avenida Guararapes, que estava de repente torcendo para um filme como quem torce para o Santinha, Sport ou Náutico.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/03/Silvinha-4-1024x683.jpeg" alt="A foto mostra uma equipe de filmagem trabalhando em uma rua. Em primeiro plano, aparecem dois carros antigos: um Fusca azul e outro carro vermelho com pneus marcados com “Cooper Cobra”. Ao redor deles, várias pessoas da produção estão em ação — um homem agachado ao lado do Fusca, uma mulher de camisa rosa e calça branca, e outro homem com fones de ouvido. Acima, vê-se um microfone de boom captando o som. Mais ao fundo, há equipamentos e membros da equipe sob guarda-sóis azuis, compondo o ambiente típico de bastidores de um set de filmagem." class="" loading="lazy" >
            </picture>

	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Abordagem de Kléber Mendonça Filho levou recifenses a redescobrirem o que já conheciam
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Divulgação</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>O público pernambucano passou a torcer pelo filme como quem torce por um time ou por um bloco de Carnaval. A comparação não é retórica. É sociológica. No Recife, a identidade coletiva se forja nas disputas: o bloco contra o outro bloco, o time contra o outro time, a cidade contra o descaso do sul. Quando o filme entrou nessa estrutura afetiva &#8211; quando passou a ser “o nosso” filme, não um filme sobre nós, mas nosso &#8211; ele se tornou veículo de algo que a cidade precisava e não encontrava espaço para expressar. A certeza de que existir aqui é suficiente. Que não é preciso ir embora para ser levado a sério.</p>



<p>E então aconteceu uma coisa estranha e linda: as pessoas começaram a redescobrir o que já conheciam.</p>



<p>Os lugares que serviram como cenário para o longa passaram a ser procurados por turistas e pela própria população local, que tem redescoberto a história da cidade. A avenida Guararapes, o Cinema São Luiz voltaram a ficar nos olhos e na boca do povo. Voltaram &#8211; essa palavra importa. Não chegaram. Voltaram. Como se tivessem estado sempre ali, na periferia do que se vê, esperando que alguém os olhasse com atenção suficiente para que os outros também vissem. Isso é o filme funcionando como espelho, não o espelho liso que reflete o que já sabemos, mas o espelho levemente torto que mostra o que estava ali e não víamos porque era óbvio demais para ser visto.</p>



<p>O Ginásio Pernambucano, fundado em 1825, teve como alunos ilustres Clarice Lispector e Ariano Suassuna. Clarice Lispector, que nasceu na Ucrânia e veio para o Recife quando ainda não tinha dois meses de vida, que aprendeu a ler português nessas ruas antes de partir para o Rio e de lá para a língua &#8211; Clarice, que talvez seja a escritora brasileira que mais visceralmente escreveu sobre o que significa pertencer a um lugar que não se pode explicar. Ela foi aluna do Ginásio Pernambucano. O mesmo Ginásio que Kleber usou como cenário. A cidade que a fez está na cidade que ele filmou. Não é saudade. É continuidade. É a prova de que há uma linha subterrânea que conecta todas as formas de amor por esse lugar específico, e que esse amor, quando encontra expressão pública à altura de sua intensidade, produz nos que o reconhecem uma espécie de tremor.</p>



<p>A socióloga e folclorista Rúbia Lóssio diz que cidade portuária, ponto de passagem de diferentes povos, o Recife absorveu influências judaicas, portuguesas, africanas e indígenas — um caldeirão de efervescência criativa cuja construção social é pautada pela manifestação do fantástico. O fantástico que Kleber trouxe para a tela &#8211; a Perna Cabeluda como alegoria do medo de Estado, a lenda urbana que o jornalismo de 1975 inventou e amplificou até que virasse verdade coletiva &#8211; não é exotismo. É arqueologia. É ir fundo o suficiente numa cidade para encontrar onde sua psicologia coletiva se formou, e mostrá-la sem pudor e sem condescendência.</p>



<p>No Carnaval de 2026, a imagem que ficará não será a do presidente no desfile do Galo da Madrugada, nem o coração de Dom Helder Câmara na escultura da Boa Vista. Será a camisa retrô da Pitombeira, a mesma que Wagner Moura veste no filme, produzida em série, copiada aos milhares, transformada em brinde, vestida por milhares de pessoas na torcida pelo Oscar. Uma camisa de troça carnavalesca fundada em 1947, patrimônio vivo de Pernambuco, virando símbolo de uma disputa global de cinema. Há nisso uma dignidade que nenhum planejamento cultural inventaria: ela surge quando uma cultura que sempre foi rica e nunca foi suficientemente reconhecida finalmente encontra o canal por onde pode transbordar.</p>



<p>Mesmo não recebendo as estatuetas do Oscar, o filme fez história. Os debates urbanos que dele eclodem e os sentimentos de apropriação da cidade talvez sejam conquistas ainda mais duradouras do que qualquer prêmio.</p>



<p>Sim. Porque o que <em>O Agente Secreto</em> fez não se guarda numa prateleira. Guarda-se no gesto do recifense que parou na frente do Cinema São Luiz e o olhou como se o visse pela primeira vez &#8211; sendo que o havia passado por ele 300 vezes sem ver. Guarda-se na criança que foi levada aos passeios pelas locações e perguntou ao pai o que era aquele prédio, e o pai soube responder, e os dois ficaram um pouco em silêncio depois. Guarda-se em tudo o que uma cidade descobre de si mesma quando alguém, finalmente, decide olhá-la com o sério e o terno que ela sempre mereceu.</p>



<p>Há coisas que uma cidade carrega por décadas sem saber que carrega.<em> O Agente Secreto</em> foi a mão que abriu a gaveta.</p>


    <div class="infos mx-md-5 px-5 py-4 my-5">
        <span class="titulo text-uppercase mb-2 d-block"></span>

	    <p><strong>*</strong>Arquiteta formada na UFPE, mestre em Teoria da Arquitetura e Urbanismo e PhD em Film Studies na Universidade de Reading (Reino Unido). No Brasil, trabalhou como diretora de arte no audiovisual, teatro e televisão. Atualmente vive na Inglaterra, onde finaliza seu documentário UK-Ukrainians — sobre a presença ucraniana no Reino Unido — e investiga as relações entre cinema e cidade em sua pesquisa de pós-doutorado no King&#8217;s College London.</p>
    </div>
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		<title>Prefeitura levou menos de 10 minutos para responder às perguntas na audiência pública sobre Distrito Guararapes</title>
		<link>https://marcozero.org/prefeitura-levou-menos-de-10-minutos-para-responder-a-perguntas-na-audiencia-publica-sobre-distrito-guararapes/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Maria Carolina Santos]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 04 Feb 2026 22:00:05 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direito à Cidade]]></category>
		<category><![CDATA[audiencia publica]]></category>
		<category><![CDATA[centro do Recife]]></category>
		<category><![CDATA[distrito guararapes]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Quando o prefeito João Campos (PSB) anunciou a concessão privada por 30 anos de 14 hectares do bairro de Santo Antônio, no Centro do Recife, a única audiência pública sobre o projeto já havia ocorrido horas antes. Sem divulgação alguma pela prefeitura do Recife ou pelo prefeito, a audiência ocorreu de forma online no dia [&#8230;]</p>
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]]></description>
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<p>Quando o prefeito João Campos (PSB) anunciou a concessão privada por 30 anos de 14 hectares do bairro de Santo Antônio, no Centro do Recife, a única audiência pública sobre o projeto já havia ocorrido horas antes. Sem divulgação alguma pela prefeitura do Recife ou pelo prefeito, a audiência ocorreu de forma online no dia 29 de outubro do ano passado, com participação majoritária de funcionários da própria prefeitura e de empresas envolvidas diretamente na concepção do projeto, chamado de Distrito Guararapes.</p>



<p>A gravação da audiência pública também não ficou disponível na <a href="https://parcerias.recife.pe.gov.br/projetos/distrito-guararapes/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">página oficial do projeto</a>, nem da prefeitura do Recife. Por meio de um pedido via Lei de Acesso à Informação (LAI), a Marco Zero recebeu a gravação da audiência e a ata com os participantes, <a href="https://drive.google.com/drive/folders/1vZLcI5MdDbKL6HvV4cRQVv6u4Lx3dX6L?usp=drive_link" target="_blank" rel="noreferrer noopener">que estão disponíveis aqui</a>. Em entrevista em dezembro para o Diario de Pernambuco, João Campos disse que “lacração” não iria resolver o Centro da cidade e que a maior parte das reclamações contra o projeto era apenas “&#8217;sou contra a privatização&#8217;. Por que não dá uma alternativa?”, questionou o prefeito.</p>



<p>Mas, na única audiência pública, os pouquíssimos participantes – apenas 71 pessoas presentes na reta final da discussão – tiveram suas dez perguntas respondidas de forma genérica, evasiva e em um único texto, lido por uma funcionária da prefeitura em menos de dez minutos.</p>



<p>Um grupo de moradores e urbanistas do Recife montou um <a href="https://www.change.org/p/contra-a-privatiza%C3%A7%C3%A3o-do-centro-do-recife-e-pela-escuta-do-povo?recruiter=41950119&amp;recruited_by_id=341e14b0-5e99-0130-3604-3c764e04981e&amp;utm_source=share_petition&amp;utm_campaign=psf_promote_or_share&amp;utm_term=psf&amp;utm_medium=whatsapp&amp;utm_content=washarecopy_490898106_pt-BR%3A5" target="_blank" rel="noreferrer noopener">abaixo-assinado para que o projeto do Distrito Guararapes seja mais discutido</a> com a população do Recife e com os moradores e comerciantes do centro. Em dezembro, tentaram uma reunião com o secretário Felipe Matos, da pasta de Desenvolvimento Urbano e Licenciamento. Apesar de promessas, não conseguiram o encontro. Agora, com quase 1,2 mil assinaturas, os integrantes do Núcleo de Vivências e Lutas Democráticas Casa Forte, grupo que está à frente do requerimento, vão levar o pedido ao Ministério Público de Pernambuco (MPPE).</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Como foi a única audiência pública do Distrito Guararapes</strong></h2>



<p>O arquivo da gravação da audiência tem 2 horas e 39 minutos, mas a reunião só começa efetivamente  após 23 minutos e há um incomum intervalo de 25 minutos entre as perguntas dos participantes e a resposta lida, sob o argumento de que seria necessário uma reunião entre a equipe técnica para dar as respostas. Ou seja, foram menos de duas horas para apresentar e discutir os próximos 30 anos da região da avenida Guararapes.</p>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/distrito-guararapes-vai-ter-873-kitnets-com-metro-quadrado-mais-caro-que-a-media-do-recife/" class="titulo">Distrito Guararapes vai ter 873 kitnets com metro quadrado mais caro que a média do Recife</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/moradia/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Moradia</a>
			        </div>
	            </div>
        </div>

		


<p>A audiência começou com o secretário Felipe Matos falando rapidamente que o projeto vem na esteira do Recentro e da Lei de Parcelamento, Uso e Ocupação do Solo (LPUOS). Citou também os incentivos urbanísticos e tributários que os proprietários de edifícios do Centro recebem ao fazer reformas em seus imóveis. Matos apresentou o Distrito Guararapes como o “primeiro grande projeto de intervenção direta do município para a revitalização da área central” e disse que “se isso tudo não fizer com que nosso Centro dê certo, eu acho que não tem mais o que fazer”.</p>



<p>A apresentação foi feita por um funcionário do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Raphael Azeredo, que se apresentou como um dos responsáveis pelo projeto feito por um consórcio liderado pelo escritório de arquitetura Jaime Lerner, de Curitiba (PR), formado por uma empresa de marketing e comunicação, de modelagem financeira e empresas jurídicas. Ele começou falando que “o centro da cidade se desgastou” e que a intenção do projeto é incentivar ativos imobiliários, levando as pessoas para morar no centro. “É uma região de fluxo e conexão. é uma perda de tempo as pessoas não quererem morar na avenida Guararapes”, afirmou.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/02/Captura-de-tela-2026-02-02-181022-300x53.png">
                <source media="(min-width: 800px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/02/Captura-de-tela-2026-02-02-181022-1024x181.png">
                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/02/Captura-de-tela-2026-02-02-181022-1024x181.png" alt="Imagens de slides que apresentam projeto de concessão que prevê um investimento total de R$ 337 milhões, sendo R$ 135 milhões destinados a espaços públicos, R$ 12,3 milhões para retrofit reversível de imóveis, R$ 182 milhões para retrofit não-reversível fora da concessão e R$ 8 milhões em despesas pré-operacionais; do lado público, há aportes diretos de R$ 76 milhões em recursos financeiros e imobiliários, além de contraprestações que somam R$ 234 milhões ao longo de 30 anos, enquanto para o setor privado o retorno esperado é uma taxa interna de retorno real de 11,53% ao ano para o projeto e de 12,71% ao ano para os acionistas." class="" loading="lazy" >
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Parte do slide que detalha os investimentos e os retornos para os investidores do projeto
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Reprodução</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Segundo ele, essa consultoria do BNDES criou um modelo de negócios para o aproveitamento do espaço público e geração de moradias “no menor espaço de tempo possível”. A ideia é que o projeto seja feito por etapas, ao longo de seis anos.</p>



<p>Só de despesas pré-operacionais a concessionária ganhadora da licitação e a prefeitura terão que pagar R$ 8 milhões. De ressarcimento pelos estudos feitos pelo BNDES – e o consórcio de empresas que fizeram esse projeto – serão R$ 4 milhões, mais R$ 3,6 milhões de remuneração para os envolvidos. O restante, R$ 600 mil, vai para a B3, a bolsa de valores oficial do Brasil, que deve fazer o leilão do Distrito Guararapes. Pela apresentação, esse valor seria um dos primeiros do projeto a ser pago.</p>



<p>Por meio de slides, Azeredo mostrou que houve mais de 200 contribuições para a proposta, que foram feitas pesquisas qualitativas e quantitativas — mas essas pesquisas não foram apresentadas. </p>



<p>A área que está sendo chamada de Distrito Guararapes envolve 33 hectares, sendo requalificação de 18 hectares, com 31 imóveis colocados como “ativos imobiliários”, com 160 mil m² no total. O objeto da concessão engloba 14 hectares de espaço urbano público e 14 edifícios, sendo 12 para retrofit – reforma com mudança de uso – em 873 apartamentos que serão comercializados via faixa 3 e faixa 4 do Minha Casa Minha Vida (MCMV). Os outros dois imóveis serão um estacionamento e uma cinemateca.Haverá ainda toda a revitalização da avenida Dantas Barreto para fazer uma ligação direta entre o Distrito Guararapes e o Cais José Estelita, onde a construtora Moura Dubeux ergue um novo bairro no Recife.</p>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/ambulantes-e-comerciantes-da-guararapes-nao-sabem-qual-sera-seu-destino-no-novo-projeto-da-prefeitura/" class="titulo">Ambulantes e comerciantes da Guararapes não sabem qual será seu destino no novo projeto da prefeitura</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/moradia/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Moradia</a>
			        </div>
	            </div>
        </div>

		


<p>A apresentação mostra que há 646 ambulantes cadastrados na prefeitura para atuar na área. A concessionária vencedora da licitação terá que fazer 200 quiosques para o comércio de rua – um terço do que existe hoje, segundo a própria apresentação. Isso porque os quiosques seriam compartilhados com até 3 ou 4 ambulantes.</p>



<p>Os quiosques, que se assemelham a caixas vermelhas, são vendidos como “tecnológicos” – mas não foi explicitado o que eles trazem de inovador. “São umas das cerejas do bolo do trabalho que estamos pensando para a região”, disse Azeredo. Hoje, os ambulantes ficam debaixo das marquises dos prédios, protegidos do sol. Em várias das imagens do projeto, os quiosques estão nas calçadas e na orla que será criada ao longo do rio Capibaribe, sem cobertura, diretamente sob o sol.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/02/Captura-de-tela-2026-02-02-172217-300x167.png">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/02/Captura-de-tela-2026-02-02-172217-1024x571.png" alt="Captura de tela de apresentação online que mostra como será projeto de revitalização urbana no Distrito Guararapes envolve uma área de concessão de 14 hectares, próxima à área de intervenção obrigatória de 18 hectares, onde estão localizados 31 imóveis, sendo 14 dentro da concessão em ruas estratégicas; os objetos da concessão incluem a gestão de 14 hectares de espaço público, dois imóveis reversíveis (um equipamento cultural e um estacionamento), mais de 200 quiosques de comércio de rua e duas “acupunturas urbanas” voltadas ao lazer sobre a água; entre as principais obrigações do concessionário estão elaborar projetos executivos, realizar obras de revitalização e retrofit em 12 imóveis de uso misto, produzir ao menos 873 unidades habitacionais, além de manter toda a área de concessão com serviços de limpeza, áreas verdes, utilidades, segurança, comunicação visual e administração geral." class="" loading="lazy" >
            </picture>

	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Captura de tela da apresentação, que mostra os aspectos gerais do projeto
</p>
	                
                                            <span>Crédito: captura de tela</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Um ponto dissonante está no slide apresentado à 1h05 da gravação. Nele, diz que uma das receitas acessórias para a concessionária será a exploração comercial dos quiosques, inclusive com cobrança de aluguel. Em entrevista à MZ em dezembro do ano passado, o secretário Felipe Matos garantiu que os comerciantes de rua que estão hoje cadastrados na prefeitura não irão pagar aluguel nos quiosques. Como será a exploração comercial desses quiosques, se será com propaganda, por exemplo, ou se só novos ambulantes que chegarem irão pagar aluguel, não foi explicitado na audiência.</p>



<h3 class="wp-block-heading">Verba da prefeitura tem garantia até do FPM</h3>



<p>Boa parte da apresentação não foi para mostrar as vantagens que ceder uma área pública para a iniciativa privada traria para a cidade e para os recifenses, mas sim para quem se dispuser a investir no projeto. Parecia mais uma reunião para atrair investidores – um <em>roadshow</em>, no jargão das concessões – do que qualquer outra coisa.</p>



<p>Na apresentação, foi mostrado que a contribuição da prefeitura do Recife vai ser generosa e garantida ao longo dos 30 anos, que podem ser prorrogados por mais cinco anos. Logo de cara a prefeitura vai colocar no projeto R$ 25,3 milhões em imóveis, que serão desapropriados. E vai dar em dinheiro R$ 50,9 milhões. Fora isso, a prefeitura vai pagar ao consórcio R$ 8,9 milhões por ano para a manutenção do Distrito Guararapes.</p>



<p>A concessionária ficará responsável pela manutenção da área de concessão – limpeza, manejo de áreas verdes, wifi, brigadistas, circuito interno de TV, manutenção e comunicação visual. Vale lembrar que a área compreende boa parte da apoteose do percurso do Galo da Madrugada.</p>



<p>A mitigação de riscos foi um dos focos da apresentação, que mostrou que há várias garantias para esse pagamento anual da prefeitura por 30 anos, onde até o Fundo de Participação dos Municípios (FPM) pode ser acionado.</p>



<p>Os prédios que serão reformados não vão pagar IPTU por dez anos. Os novos negócios também vão ter isenção por dez anos no Imposto Sobre Serviços (ISS). Mas a previsão é que o município arrecade com a construção civil no bairro R$ 28 milhões em ISS. Além disso, a estimativa é que mais R$ 17 milhões anuais com Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) &#8211; dos quais 25% seria repassado para a prefeitura, com um consumo anual na região estimado em R$ 94 milhões – isso na previsão de 10,3 mil moradores e 30 mil visitantes diários. Com consumo e turismo, espera-se R$ 50 milhões circulando no Distrito Guararapes por mês. Com as construções e reformas, a estimativa do BNDES é de gerar 8 mil empregos diretos e 8 mil indiretos.</p>



<p>No leilão, ganha quem oferecer a menor proposta para contraprestação da prefeitura – ou seja, quem oferecer cumprir todo o contrato com menos que os R$ 309 milhões que a prefeitura está disposta a investir.</p>



<p>Entre os ganhos para a cidade, a apresentação cita meros 5 quilômetros de ciclovia, melhorias no BRT, novas calçadas, novos equipamentos urbanos para eventos – que podem ser pagos –, os novos quiosques – que podem ter propaganda e/ou cobrança de aluguel –, aumento da arrecadação municipal – mas sem IPTU e sem ISS por 10 anos, praças históricas requalificadas – pelos desenhos, há mudanças significativas –, e, claro, a oferta de 873 unidades habitacionais – para quem se enquadrar nas faixas de 3 e 4 do Minha Casa Minha Vida, com renda entre R$ 4,7 mil e R$ 12 mil. É citado também que a fiação será aterrada, e haverá estrutura de câmeras para trazer a “sensação de segurança urbana”.</p>



<p>Nos atrativos do projeto, um dos potenciais estratégicos e urbanos é a reversão de imagem do bairro para um “endereço de desejo”. A modelagem do BNDES prevê que os investimentos da concessionária se paguem em apenas 12,4 anos e que o resto do tempo da concessão de 30 anos seja só de lucros. A promessa é de retornos de 11,53% ao ano para o projeto e de 12,71% para os acionistas.</p>



<p>A expectativa era de que o edital da concessão fosse publicado em maio deste ano e o pedaço do bairro de Santo Antônio fosse leiloado em junho, com assinatura do contrato em julho. O edital ainda vai passar por análise do Tribunal de Contas do Estado de Pernambuco (TCE-PE).</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Menos de 10 minutos para respostas do público</strong></h3>



<p>Na ata da audiência pública constam vários nomes de funcionários da prefeitura e das empresas que fazem parte da construção do projeto. Há também empresários e empresárias com atuação no centro do Recife e alguns arquitetos e urbanistas.</p>



<p>Com divulgação restrita, a audiência contou com uma participação mínima. Apenas cinco pessoas fizeram perguntas, duas de forma oral.</p>



<p>Assessora técnica do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST), Tainã Pimentel fez a primeira participação do público. Afirmou que o déficit habitacional do Recife está fortemente ligado ao ônus excessivo do aluguel (quando o valor do aluguel ultrapassa 30% da renda) e questionou qual a garantia de que o projeto não seria apenas para atrair investidores imobiliários, mas sim para diminuir esse déficit.</p>



<p>Tainã também falou sobre a qualidade das habitações, já que 66% dos imóveis são de apenas um quarto e questionou se essas habitações não poderiam incentivar aluguel de temporada. </p>



<p>“Enquanto assessora técnica do MTST que luta contra o déficit habitacional eu não me senti contemplada nessa proposta. Eu acho que ela trabalha outras realidades urbanas que não parecem entender o processo de espoliação das cidades latino-americanas. Nesse caso, estamos falando do patrimônio histórico ser vendido para essas novas formas de morar. Apesar de ser Habitação de Interesse Social, não leva em consideração a dinâmica dos aluguéis, nem o papel dos proprietários, que devem muito IPTU”, afirmou, também questionando se vai ter desapropriação baseada na dívida de IPTU.</p>



<p>O arquiteto Sandro Guedes, representante da Associação dos Dirigentes das Empresas do Mercado Imobiliário (Ademi), afirmou que a cidade caminha para a revitalização do centro e se disse preocupado com a modelagem econômico-financeira, perguntando se só quem poderá participar da licitação é quem já tem experiência técnica em retrofit e se o edital está sendo desenhado de forma para que as empresas locais possam concorrer. Perguntou também sobre os imóveis que serão desapropriados: se será uma lista pública e como será divulgada. “Que o centro seja habitado por todos. A baixa e a média renda. A alta renda não precisa de incentivos. Ela virá depois, naturalmente”, disse.</p>



<p>O arquiteto Augusto Magno fez uma pergunta técnica, questionando qual a fonte de informação para composição da morfologia de uma das imagens dos apartamentos mostrados na apresentação. O pesquisador Vinícius Dantas e a professora da UFPE Norma Lacerda fizeram seis perguntas. Questionaram o uso democrático dos espaços públicos frente a eventos pagos e a sustentabilidade financeira para evitar a expulsão dos atuais comerciantes. Criticaram a precisão do termo Habitação de Interesse Social (HIS) para as faixas de renda propostas, sugerindo a manutenção da propriedade pública por meio de aluguéis em vez da venda de imóveis. Solicitaram também transparência sobre a localização dos 31 ativos imobiliários e detalhes sobre como a gestão municipal irá monitorar e avaliar a concessão durante os 30 anos de contrato</p>



<p>Após quase 25 minutos de intervalo, a secretária-executiva de Parcerias Estratégicas, Isabela Moraes Matos, leu as respostas. Durou menos de dez minutos e todas foram respondidas em termos genéricos e na mesma fala. Foi lido que a prefeitura sabe que o Distrito Guararapes não resolve todos os problemas do centro, mas que está integrado com outras ações na região, como a PPP Morar no Centro, que vai criar mais mil unidades habitacionais na área. Também leu que a LPUOS traz incentivos específicos para o retrofit voltado para as HIS para evitar a gentrificação do centro. E repetiu que a requalificação urbana está dentro dos mais de R$ 300 milhões que a prefeitura vai desembolsar no Distrito Guararapes.</p>



<p>Com relação à imagem que tinha de um dos imóveis – questionada pelo arquiteto Augusto Magno – a resposta foi que era uma baseada nos edifícios da área, mas nada específico. Para Sandro Guedes, foi dito que o edital ainda seria enriquecido com as propostas da sociedade e que não vai exigir uma qualificação tão específica das construtoras, porque é um projeto inovador na região e querem permitir a ampla competitividade, inclusive com a participação de empresas pernambucanas.</p>



<p>Para Norma Lacerda e Vinicius Dantas, a resposta às seis perguntas foi curtíssima. Foi lido na audiência que o espaço permanece público e de uso público – que pode haver exceções, que serão definidas no caderno de encargos e que seriam ativações específicas, com a validação da prefeitura. E que pode haver aumento, diminuição e/ou mudança desses 14 imóveis que serão oferecidos pela prefeitura para o retrofit.A consulta pública sobre o Distrito Guararapes foi fechada cinco dias após o anúncio do prefeito João Campos e, por ora, não há mais possibilidade de discussão do projeto. </p>
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		<title>Ação Civil Pública tenta evitar que Braskem vire dona dos bairros que destruiu em Maceió</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 07 Jan 2026 22:59:26 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Socioambiental]]></category>
		<category><![CDATA[Meio Ambiente]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Wanessa Oliveira, da Mídia Caeté A Defensoria Pública do Estado de Alagoas ajuizou uma Ação Civil Pública (ACP) para reivindicar que a Braskem não detenha a posse das áreas destruídas pela mineração em Maceió. O instrumento, produzido por meio do Núcleo de Proteção Coletiva e endereçado à Justiça Federal, defende que os acordos realizados [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p><strong>por Wanessa Oliveira, da <a href="https://midiacaete.com.br/defensoria-ajuiza-acao-para-que-a-braskem-nao-fique-com-area-que-destruiu-com-sua-mineracao/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Mídia Caeté</a></strong></p>



<p>A Defensoria Pública do Estado de Alagoas ajuizou uma Ação Civil Pública (ACP) para reivindicar que a Braskem não detenha a posse das áreas destruídas pela mineração em Maceió. O instrumento, produzido por meio do Núcleo de Proteção Coletiva e endereçado à Justiça Federal, defende que os acordos realizados com os órgãos públicos, no contexto do afundamento dos bairros, sejam interpretados sob a finalidade exclusivamente reparatória, como instrumento de transação pública, e não a partir de uma relação de compra e venda entre empresa e ex-moradores – vítimas de remoção forçada em razão do afundamento provocado pela mineração irregular.</p>



<p>De acordo com o defensor público Ricardo Melro, a ACP foi impulsionada após revisitar textos do relatório da CPI do Caso Braskem. A ênfase é colocada sobre a recomendação de que o domínio da empresa sobre a área afetada seja interpretado como uma transferência resolúvel, condicionada a conter o risco e trabalhar na manutenção. Com este entendimento, uma vez que o risco seja cessado, não há qualquer causa jurídica para que a Braskem detenha a área.</p>



<p>“Comecei a estudar o relatório, os acordos, e ajuizei nesse sentido: de que a propriedade seja resolúvel, e não definitiva, e essa resolutividade seja a partir do momento em que o risco cesse. Do contrário, seria premiar uma causadora de dano com a propriedade sobre o bem que ela destruiu”, explica.</p>



<p>A ACP é fundamentada na ideia de que os acordos realizados junto aos órgãos eram voltados às obrigações da empresa de reparar os danos causados. A Defensoria acrescenta, inclusive, que deveria ser considerada nula qualquer finalidade de transferir título de posse de propriedades privadas a uma outro ente privado, nesse caso a Braskem.</p>



<p>“Se o acordo fosse lido como contrato de compra e venda, ele seria radicalmente nulo, por violação direta a princípios elementares do direito civil, uma vez que ninguém pode transferir, prometer ou negociar bens que não lhe pertencem. Essa leitura, portanto, não apenas é equivocada, como também autodestrutiva para a própria validade do instrumento”, retrata o documento. “Admitir que os valores pagos às vítimas teriam natureza de preço implicaria concluir que houve alienação voluntária de bens privados à Braskem. Essa conclusão conduziria, de imediato, a um absurdo jurídico: os acordos coletivos não foram celebrados com os proprietários originários dos imóveis”.</p>



<h2 class="wp-block-heading">O que dizem os acordos</h2>



<p>De fato, sem que os proprietários dos imóveis tivesse qualquer participação nos referidos acordos, os textos originais levantavam cláusulas que continuamente ratificaram e legitimaram a ofensiva da mineradora contra moradores que já haviam sido vitimadas pela destruição da área, e depois foram vitimadas por uma remoção forçada com pouco poder de negociação.</p>



<p>O primeiro acordo que abriu uma vantagem abismal da Braskem em relação às vítimas da mineração ocorreu em 30 de dezembro de 2019. O chamado “Acordo com os Moradores” era vinculado ao Programa de Compensação Financeira e Apoio à Relocação – propagandeado pela empresa com grande apelo publicitário e endossamento de órgãos públicos, que concordaram e assinaram o que era estabelecido: os Ministérios Públicos Federal e Estadual e as Defensorias Públicas Estadual e da União.</p>



<p>Sem citar qualquer termo relacionado à ‘indenização’, até então, o acordo constava uma série de cláusulas controversas, começando pela  14, que definia de forma expressa que os valores pagos aos moradores representavam a compra daquele imóvel compulsoriamente desocupado.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
            <picture>
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/01/Braskem-2026-arnaldo.jpg" alt="A imagem mostra dois prédios altos e antigos, com vários andares e sacadas, que parecem estar abandonados ou mal conservados. Um deles tem fachada marrom e bege; o outro, verde e bege. Muitas janelas estão escuras ou quebradas, e as sacadas estão vazias. A rua em frente está molhada, como se tivesse chovido, e não há pessoas nem carros. Há árvores pequenas ao lado de um muro de concreto e fios de energia atravessam a cena. O clima é de abandono e silêncio." class="" loading="lazy" >
            </picture>

	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Acordo firmado por prefeitura de Maceió e MP favorece empresa que destruiu cinco bairros
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Na decisão da 3ª Vara Federal, a desocupação dos imóveis foi concedida nos seguintes termos:</p>



<p>“Tendo em vista a notícia nos autos do risco iminente de desabamento dos imóveis situados nas Áreas de Risco dos bairros atingidos, ameaçando as vidas dos moradores, determino à Secretaria do Juízo que participe aos órgãos públicos competentes, nomeadamente à Defesa Civil do Maceió, o teor do Termo de Acordo ora homologado, para que providenciem a desocupação dos imóveis ainda habitados, se necessário com apoio da força policial, tudo segundo o cronograma já definido pela Prefeitura de Maceió, sendo dia 15 de janeiro para desocupação das Áreas de Risco de criticidade 00 dos Setores 00, 01 e 02, e 15 de fevereiro para desocupação das Áreas de Risco de criticidade 00 situadas na Encosta do Mutange e Bom Parto”. <a href="https://www.mpf.mp.br/al/sala-de-imprensa/docs/decisao-que-homologou-acordo-com-braskem/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Visualize na íntegra a decisão clicando aqui</a>.</p>



<p>Elementos no acordo são emblemáticos como um transferência de titularidade compulsória. É exemplo – no parágrafo quarto – que “havendo discordância por parte dos atingidos quanto aos valores ofertados pela Braskem, fica facultada a propositura de medida judicial por qualquer das Partes”, mesmo tal possibilidade se apresentando apenas após o ingresso no Programa de Compensação. Ademias, a “alternativa” indicada era enfrentar a propagandeada morosidade judicial, tudo isso em meio à insegurança sobre a subsidência – e a uma pandemia.</p>



<p>Alguns outros parágrafos vão indicando a posse da Braskem sobre os imóveis, não indicando, entretanto, sobre a finalidade dessa posse. É o caso da Cláusula Nona que inicia com “Após assumir a posse dos imóveis a serem desocupados e dos que já estão desocupados…”</p>



<p>Na cláusula 13, que já começa partindo do ponto da “inexistência, por ora, de responsabilidade da Braskem, e não reconhecimento, por parte dela, para viabilizar a desocupação prevista, a braskem compromete-se a pagar valores equivalentes a danos morais e materiais … conforme acordos individuais entre BENEFICIÁRIOS e Braskem”. Na sequência, surge finalmente a cláusula 14 que expressamente coloca que “Os pagamentos referentes aos terrenos e edificações pressupõem a transferência do direito sobre o bem à Braskem, quando transferível.” Mais uma frase em aberto, uma vez que não se definiu os critérios para que os bens em questão fossem passíveis de transferência</p>



<p>Algumas outras cláusulas, entretanto, chamam atenção pelo flagrante poderio presenteado à empresa. É o caso da cláusula 35 que chega a determinar que, caso comprovada a culpa da Braskem no afundamento do solo – o que da fato aconteceu anos mais tarde – “os pagamentos feitos aos moradores e demais pessoas com fundamento neste termo serão considerados como quitação integral de todos os prejuízos materiais e morais sofridos por esses proprietários e moradores”. <a href="https://midiacaete.com.br/enquanto-inquerito-nao-conclui-braskem-segue-negociando-com-orgaos-publicos-seu-lugar-no-desastre-ambiental/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Além da reportagem da Mídia Caeté,</a> outra matéria, desta vez produzida pela Marco Zero Conteúdo, destrinchou ainda mais as tratativas:</p>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/conheca-os-detalhes-do-acordo-judicial-que-faz-a-braskem-virar-dona-dos-bairros-que-afundou/" class="titulo">Conheça os detalhes do acordo judicial que faz a Braskem virar dona dos bairros que afundou</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/territorio/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Território</a>
			        </div>
	            </div>
        </div>

		


<p>O acordo –<a href="https://www.mpf.mp.br/al/sala-de-imprensa/docs/termo-de-acordo-celebrado-com-braskem/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">que pode ser visualizado na íntegra clicando aqui</a>– é considerado pelas vítimas como divisor de águas em relação a como a mineradora seria oficial e extraoficialmente posicionada e responsabilizada. Não foram poucas as reclamações sobre a ampliação na desigualdade de tratamento entre empresa e vítimas da mineração, com ‘negociações’ inseridas em cláusulas de sigilo, e uma constante memória de que – sem encerrar as negociações – as famílias estariam condenadas a uma espera sem fim pela Justiça.</p>



<p>Finalmente, aparece a mais controversa Cláusula de número 58. Exatamente um ano depois do Acordo com os Moradores que ensejou o Programa de Compensação, vem outra trativa entre a mineradora e órgão públicos. Identificado como “Acordo Socioambiental”, o documento possui elementos que até indicam algumas trajetórias mais reparadoras, a exemplo da Cláusula 25, que apresentam alguns princípios a serem observados quando do Diagnóstico Ambiental e da elaboração e execução do Plano Ambiental. São eles: “ I- princípio da reparação integral; II &#8211; princípio da solidariedade; III &#8211; princípio da função social da propriedade; IV &#8211; princípios da prevenção e precaução; V &#8211; princípio do poluidor pagador; VI &#8211; conservação do equilíbrio ecológico; VII &#8211; prioridade da capacidade de autorregulação e autorregeneração do meio ambiente; VIII &#8211; participação popular; IX &#8211; indisponibilidade do interesse público; X &#8211; sadia qualidade de vida.”</p>



<p>Entretanto, o poluidor pagador reafirma a relação de propriedade sobre a área degradada na Cláusula 58, quando se refere à execução das intervenções sociourbanísticas. Trata-se do parágrafo segundo, que traz o seguinte texto:</p>


    <div class="box-explicacao mx-md-5 px-4 py-3 my-3" style="--cat-color: #1E69FA;">
        <span class="titulo"><+></span>

        <div class="int mx-auto">
	        <p>“A Braskem compromete-se a não edificar, para fins comerciais ou habitacionais, nas áreas originalmente privadas e para ela transferidas em decorrência da execução do Programa de Compensação Financeira, objeto do Termo de Acordo celebrado em 03 de janeiro de 2020, salvo se, após a estabilização do fenômeno de subsidência, caso esta venha a ocorrer, isso venha a ser permitido pelo Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano da Cidade de Maceió — AL”</p>
        </div>
    </div>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>É preciso ler o contexto</strong></h2>



<p>De acordo com a Ação Civil Pública, é necessário analisar com cuidado o dispositivo, tendo em vista as constantes informações que indicam que a motivação das tratativas seria a segurança das vítimas.</p>



<p>“A cláusula 58 não pode ser interpretada como se estivesse inserida em um contrato patrimonial típico. Ela integra um instrumento celebrado em resposta a um desastre ambiental, destinado a viabilizar a execução de obrigações impostas ao agente causador do dano. Por isso, sua redação não pode ser dissociada da lógica reparatória que estrutura todo o acordo”, argumenta o defensor. “a leitura das cláusulas dos acordos deve ser feita à luz de sua função social concreta e da finalidade que lhes deu origem. A titularidade atribuída à Braskem não pode ser compreendida como direito patrimonial pleno, porque não é isso que a realidade comporta. O que se admitiu foi uma titularidade<br>instrumental”.</p>



<p>A Defensoria infere, nesse sentido, que a Justiça inteprete essa titularidade fazendo uma leitura completa dos acordos dos moradores e do acordo socioambiental, mas, sobretudo, da realidade imposta à época.“A realidade imposta pela mineração rompeu a correspondência habitual entre titularidade formal e função social. As áreas afetadas deixaram de ser espaços de vida, de trabalho, de moradia ou de circulação econômica. Converteramse em zonas interditadas, marcadas pela ausência, pelo vazio urbano e pela memória do desastre. Nesse contexto, a manutenção de uma leitura puramente formal da propriedade — dissociada da função, do uso possível e da realidade concreta — passou a gerar perplexidade social e insegurança institucional, alimentando interpretações divergentes e conflitos latentes sobre o destino desses territórios”.</p>



<p>Outro aspecto levantado é de que a culpa da Braskem sobre a situação de afundamento só chegou a ser “oficializada” em 2024, anos após os acordos, o que implica em ainda mais atenção sobre a posição e o poderio dados à empresa em todo esse processo. ” É juridicamente incontornável reconhecer que a assunção formal de responsabilidade pela Braskem somente ocorreu em 2024, no âmbito da Comissão Parlamentar de Inquérito do Senado Federal. Até então, a empresa não apenas negava a culpa, como fez constar, de forma expressa, nos acordos celebrados, cláusulas de não reconhecimento de responsabilidade e de exoneração de culpa. Esse dado temporal é decisivo para a correta compreensão do regime jurídico aplicável”, explica</p>



<p>As contradições extrapolam documentos e também partem para as declarações públicas da mineradora, inclusive durante aprópria CPI, acentuando a necessidade de que  a Justiça resolva por um entendimento único a respeito dessa titularidade.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 ">
            <picture>
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/01/Braskem-2026-c.jpg" alt="A imagem mostra uma rua com um motociclista em primeiro plano, vestindo capacete e camisa xadrez. Ao fundo, há uma cerca de metal ondulado que cerca um prédio velho e danificado, com telhado quebrado e vegetação crescendo ao redor. Na cerca, há uma pichação em tinta vermelha que diz “BRASKEM CRIMINOSA”. Árvores e fios elétricos aparecem acima da cerca, e parte de outro veículo é visível à esquerda." class="w-100" loading="lazy" >
            </picture>

	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Para Defensoria, se a empresa ficar com a área, acabará recebendo pelo dano que causou
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Inês Campelo/Marco Zero</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<h3 class="wp-block-heading">Plano Diretor não pode definir titularidade das áreas afetadas</h3>



<p>Diante das constantes dúvidas relacionadas ao domínio da Braskem sobre os territórios, tem crescido a expectativa de que a definição seja finalmente conduzida pelo Plano Diretor, quando de sua atualização. Essa esperança é depositada, ainda, a partir das cláusulas do acordo socioambiental que definem a não edificação ‘salvo se’ autorizada pelo documento.</p>



<p>Entretanto, conforme explica o defensor Ricardo Melro, o PD não tem força para definir a titularidade das áreas afetadas, podendo, no máximo, definir o que pode ou não ser feito na área dentro desse contexto de subsidência, decisão que pode ser modificada também conforme a reparação do afundamento e uma possível atualização do Plano. Resta, portanto, aguardar as repostas da Justiça. “Só o Judiciário de fato pode decidir sobre o tema.</p>



<p>Considerando, ainda, a possibilidade de que a Justiça decida que os pagamentos efetuados pela mineradora aos moradores se tratem de uma transação de compra e venda, a Defensoria levanta então um pedido subsidário: “Se ela comprou de fato a área, então que o juiz declare que o valor que foi pago foi o preço da venda, e não uma indenização. Declare que, portanto, a mineradora não pagou a indenização e deve indenizar então”.</p>



<p>Já no âmbito do respaldo legal, a ACP expressa linhas como ado princípio do poluidor – pagador.</p>



<p>“O Princípio do Poluidor-Pagador e a Reparação Integral (Lei nº 6.938/81) impõe que o causador do dano arque com todos os custos da reparação sem qualquer compensação econômica indireta. A titularidade exercida pela Braskem: não é prêmio, não é contraprestação, não é vantagem. É instrumento funcional para viabilizar a execução de deveres ambientais. Se, ao final, a empresa permanecer com o território, o princípio será pervertido: o poluidor não apenas pagará, mas receberá”.</p>




	<div class="informacao mx-md-5 px-5 py-4 my-5" style="--cat-color: #7BDDDD;">
		<span class="titulo text-uppercase mb-3 d-block"></span>

		<p>A Braskem foi procurada pela Mídia Caeté e as perguntas foram enviadas. Entretanto, até a conclusão da reportagem, não foi enviada nenhuma resposta da mineradora.</p>
	</div>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Contradições e brechas</strong></h3>



<p>A Defensoria aponta que o posicionamento da Braskem também foi contraditório nas falas de seu representante à CPI, cujos trechos do relatório foram apresentados como fundamento da ACP. De acordo com as informações do Relatório da CPI  Ação Civil, o vice-presidente da Braskem, Marcelo Arantes, a compra dos imóveis foi feita com objetivo de estabilizar o solo.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
            <picture>
                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/01/braskem-1-300x225.png">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/01/braskem-1.png" alt="A imagem é o print da ação judicial envolvendo a empresa Braskem e a compra de imóveis em áreas afetadas por instabilidade do solo." class="" loading="lazy" >
            </picture>

	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Trecho da Ação Civil Pública elaborado pela Defensoria Pública de AL
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Reprodução</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>O texto da ACP registra, portanto, que o posicionamento da Braskem é de narrativas contraditórias e juridicamente incompatíveis. “De um lado, a requerida afirma que os imóveis teriam sido “comprados”, e que a aquisição seria pressuposto para cuidar da área, estabilizá-la. Que o objetivo da compra não foi se tornar a maior proprietária imobiliária do Estado e que esse não é o ramo da empresa. De outro, sustenta que tais pagamentoscorresponderam à indenização por danos morais e materiais, e que a permanência no território se justifica exclusivamente para a demolição, estabilização do solo, controle sanitário e mitigação dos riscos.”</p>



<p>Assim, o órgão sustenta: ou a Braskem pagou indenização – e, nesse caso, não deve ter titularidade sobre os imóveis – ou, caso a Justiça queira reconhecer a titularidade do território para a mineradora, então não houve indenização pelos danos, e nesse caso a Braskem se mantém<br>devedora da reparação integral às vítimas. Não há, portanto, uma terceira possibilidade. “Admitir o contrário significaria autorizar a conversão do dano ambiental em ativo patrimonial, subvertendo os princípios da reparação integral, do poluidor-pagador e da função socioambiental da propriedade”.</p>
<p>O post <a href="https://marcozero.org/acao-civil-publica-tenta-evitar-que-braskem-vire-dona-dos-bairros-que-destruiu-em-maceio/">Ação Civil Pública tenta evitar que Braskem vire dona dos bairros que destruiu em Maceió</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
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		<title>Governo Federal recorre à Justiça para que empresa cobre pedágio na vila de Jericoacoara</title>
		<link>https://marcozero.org/governo-federal-recorre-a-justica-para-que-empresa-cobre-pedagio-na-vila-de-jericoacoara/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Inácio França]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 09 Dec 2025 16:17:16 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Socioambiental]]></category>
		<category><![CDATA[ICMBio]]></category>
		<category><![CDATA[Meio Ambiente]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Os moradores e autoridades de Jijoca de Jericoacoara, no litoral cearense, foram surpreendidos com a notícia de que o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) havia entrado com um recurso para modificar a decisão do Tribunal Regional Federal da 5ª região (TRF-5) que impediu a empresa Urbia Cataratas, concessionária que administra o parque [&#8230;]</p>
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<p>Os moradores e autoridades de Jijoca de Jericoacoara, no litoral cearense, foram surpreendidos com a notícia de que o <a href="https://www.bing.com/ck/a?!&amp;&amp;p=513dd06b03bfc3cbf611ed8ac1ce0090fb0abdb7df6d8a17eb01e7dd07b90372JmltdHM9MTc2NTIzODQwMA&amp;ptn=3&amp;ver=2&amp;hsh=4&amp;fclid=19b8c575-5623-659d-0771-d12e577264b2&amp;psq=ICMbio&amp;u=a1aHR0cHM6Ly93d3cuZ292LmJyL2ljbWJpby9wdC1icg&amp;ntb=1" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade</a> (ICMBio) havia entrado com um recurso para modificar a decisão do Tribunal Regional Federal da 5ª região (TRF-5) que impediu a empresa Urbia Cataratas, concessionária que administra o parque nacional de Jericoacoara, de cobrar uma taxa individual para ter acesso à sede do município.</p>



<p>É isso mesmo que você leu: um órgão federal, vinculado ao Ministério do Meio Ambiente, recorreu à Justiça para que uma empresa privada possa cobrar pedágio para entrar em uma cidade de 20 mil habitantes. O julgamento do recurso será nesta terça-feira, 9 de dezembro, a partir das 13h30, pela segunda turma do TRF5, no Recife.</p>



<p>Além de surpresos, os jijoquenses se sentem traídos pelo Governo Federal. Afinal, durante as audiências públicas de apresentação do projeto de concessão, representantes do ICMBio, acompanhado pela equipe do BNDES, prometeu expressamente que a cobrança seria feita apenas nos atrativos, a entrada na Vila continuaria livre, e o direito de ir e vir da comunidade jamais seria afetado.</p>



<p>“Ou seja: a comunidade apoiou o processo de concessão baseada em compromissos públicos do próprio órgão. Agora, ao recorrer para restabelecer a cobrança geral na entrada, o ICMBio contradiz aquilo que disse a toda população quando buscava seu aval para o projeto”, queixou-se, Lucimar Vasconcelos, presidente do Conselho Comunitário da Vila de Jericoacoara.</p>



<p>“Se estivesse ao lado da comunidade, o ICMBio não teria apresentado esse recurso, e poderia, inclusive, ter desistido dele depois da decisão da Urbia”, insiste Lucimar.</p>



<p>Em julgamento no dia 21 de outubro, o TRF-5 havia aceitado os argumentos da prefeitura, dos conselhos Comunitário e Empresarial, da Defensoria Pública do Estado e do Ministério Público Federal ao negar que a empresa Urbia voltasse a cobrar o pedágio de R$ 50,00 por pessoa que entrasse na cidade. Antes, havia permitido a cobrança de taxas para que os turistas tivesse acesso às atrações do parque, como a Pedra Furada, a Árvore da Preguiça ou a Duna do Pôr do Sol.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Os argumentos do ICMBio</strong></h2>



<p>No processo judicial, os advogados do ICMBio argumentam que cobrar “ingresso no Parque Nacional de Jericoacoara é exercício legítimo da prerrogativa da União na gestão de seus bens e unidades de conservação. O município de Jijoca de Jericoacoara teve sua autonomia respeitada ao participar ativamente do processo de concessão”.</p>



<p>O Instituto defende ainda que a tarifa criada vai financiar a conservação da unidade e garantir a sustentabilidade da concessão privada e que “os recursos advindos da visitação beneficiam comunidades locais, criando empregos e incentivando práticas sustentáveis que reduzem a pressão sobre os recursos naturais&#8221;, diz o texto do recurso.</p>



<p>Segundo o ICMBio, quem mora e trabalha na vila não será cobrado, benefício que inclui os residentes em outros distritos de Jijoca de Jericoacoara e em dois municípios vizinhos, Camocim e Cruz.</p>



<p>Saiba mais nessa reportagem da Marco Zero:</p>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/cobranca-de-taxa-para-entrar-em-vila-turistica-do-litoral-vai-a-julgamento-na-justica-federal/" class="titulo">Cobrança de taxa para entrar em vila turística do litoral vai a julgamento na Justiça Federal</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/territorio/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Território</a>
			        </div>
	            </div>
        </div>

		<p>O post <a href="https://marcozero.org/governo-federal-recorre-a-justica-para-que-empresa-cobre-pedagio-na-vila-de-jericoacoara/">Governo Federal recorre à Justiça para que empresa cobre pedágio na vila de Jericoacoara</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
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