A potência do feminismo negro de Patricia Hill Collins

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Por Vinícius Andrade, especial para a Marco Zero Conteúdo

67267359-113C-4C99-99B2-160AEA5ACF1FA cada mesa de debates que se iniciava no segundo dia do seminário internacional “Democracia em colapso?” no Sesc Pinheiros, nesta quarta-feira, 16, Kim Doria, da Boitempo Editorial, insistia para que o público participante aproveitasse os espaços de encontro e troca criados com o evento. A sugestão reflete as discussões feitas ao longo do dia, marcadas pelo esforço coletivo dos debatedores e debatedoras em oferecer críticas, caminhos de enfrentamento e respostas às opressões produzidas pelos principais poderes instituídos em funcionamento na nossa sociedade: o estado, os grupos econômicos, a justiça, a família, a religião.

O destaque foi a presença da socióloga norte-americana Patricia Hill Collins, acolhida por uma calorosa ovação motivada por sua trajetória como pensadora e ativista do feminismo negro, introduzida de maneira cuidadosa pela ativista e pesquisadora Winnie Bueno e comentada com notável engajamento pela historiadora Raquel Barreto. Hill Collins assumiu desde o início de sua apresentação na mesa “Feminismo negro e a política do empoderamento” a tarefa de falar sobre política não no sentido formal ou ideológico, mas “de baixo para cima”, das pessoas para o mundo, de modo a ressaltar um repertório de apoio, conhecimento e ação a partir do feminismo negro.

Em primeiro lugar, a socióloga tratou de contrapor a ideia, muito recorrente em círculos intelectuais hegemônicos, de que o feminismo negro seja apenas uma “versão negra” de algo já existente. E fez isso através da reflexão em torno da noção de cativeiro: lugares, situações e circunstâncias históricas que aprisionam as mulheres negras, objetiva e subjetivamente. Tais circunstâncias se alteram e a palavra cativeiro pode até sumir, observa ela, mas as tecnologias que as sustentam são reinventadas. Diante das situações concretas de opressão, levando em conta raça, classe, gênero, sexualidade, nacionalidade, o feminismo faz então uma pergunta fundamental: “o que uma pessoa negra precisa no momento para ser livre?”

O caminho para a resposta está, segundo a autora, nas políticas de empoderamento, que passam por quatro pontos: a esperança capaz de nutrir de força para as “questões de vida e morte”; a interseccionalidade, que permite uma análise de como o mundo social molda a experiência das mulheres negras; a tomada de posição, que materializa uma recusa indignada às injustiças sociais; e a ação política, que diz respeito ao enfrentamento de um conjunto particular de desafios. É no curso dessas políticas – complementares, jamais concorrentes – que entrariam formas de ação diversas, das estratégias básicas de sobrevivência, passando por uma política cultural que toma as artes e a estética como fatores de empoderamento negro, até a participação na política institucional ou partidária.

“O que vocês querem é destruir a família? Sim”, diz Amanda Palha

A primeira mesa do dia discutiu como visões ligadas à família e à religião, historicamente centrais para a experiência popular brasileira, têm sido mobilizadas hoje no campo da política institucional. Contando com a participação da cientista política Flávia Biroli, da educadora e militante travesti Amanda Palha e do Pastor Henrique Vieira, o debate teve início com uma importante contextualização de Biroli, que revelou que o termo “ideologia de gênero” surgiu no seio da Igreja Católica da América Latina, assim usado em documento de 1998 da episcopal peruana, e encontra até hoje nos católicos a sua “base epistemológica”, mesmo que atualmente a reação conservadora em torno dele seja puxada por figuras evangélicas.

A contextualização da cientista abriu caminho para as contudentes considerações de Amanda Palha, que, antes de mais nada, fez questão de salientar o desrespeito de parte da esquerda a problemas concretos de LGBTs ao classificar as falas públicas machistas, homofóbicas e transfóbicas da ministra Damares Alves como mera “cortina de fumaça”. Mas Amanda Palha fez também um alerta aos movimentos: negar a existência de um desejo aberto de desconstruir o modelo de família tradicional é um retrocesso, contraditório, inclusive, em relação às origens dos movimentos feministas e LGBTs na América Latina, e nada trouxe de proveitoso à luta até aqui. Por isso, indagou e respondeu de um só golpe: “O que vocês querem é destruir a família? Sim!”.

Educadora e militante travesti, Amanda Palha provocou a plateia no seminário Democracia em Colapso?

Educadora e militante travesti, Amanda Palha provocou a plateia no seminário Democracia em Colapso?

Em participação preocupada em desfazer os estigmas em torno da fé cristã evangélica e da massa de praticantes, o pastor Henrique Vieira argumentou a existência de uma pluralidade de visões dentro das igrejas brasileiras, situando o extremismo neopetencostal como um vetor de conservadorimos antes já dominantes na estrutura de nossa sociedade. Propôs, assim, uma prática religiosa não fundamentalista e, sem perder de vista a maneira pela qual o neoliberalismo econômico vem dilacerando o tecido social nos territórios mais empobrecidos e buscando pontos de contato com a fala de Amanda Paula, também a ressignificação da ideia de família.

Críticas aos aparatos jurídicos

Já no debate sobre “Judicalização da política e politização do judiciário”, notabilizou-se a análise incisiva da professora de direito Thula Pires sobre o papel do sistema jurídico na perpetuação e consolidação dos processos coloniais, com a qual dialogou o também professor de direito Alysson Mascaro, em uma abordagem macroestrutural da justiça no Brasil, e o especialista em segurança pública Luiz Eduardo Soares. Mas enquanto Luiz Eduardo Soares se concentrou na reflexão sobre a sanha punitivista e proibicionista do Brasil no período pós-reabertura democrática, Thula Pires enfatizou a necessidade de deslocamento do marco temporal: em vez da constituição de 1988, o momento de criação dos cursos de direito no Brasil.

A participação da professora esteve pautada nas referências afrodiaspóricas, ecoando alguns debates do dia anterior ao perceber na “politização da justiça” não uma perversão ou anomalia do sistema jurídico, mas a sua razão de ser na lógica capitalista, o motivo para o qual foi fabricado. Mas as ressonâncias entre um dia e outro de debates não pararam por aí. Tanto Thula Pires quanto Alysson Mascaro salientaram que a conquista de direitos no país se deu a despeito da ordem jurídica vigente, o que levou o professor a considerar: “Nenhum judiciário do mundo pode salvar nenhuma luta do mundo”.

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