As curvas na vida de Jó

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Há um ano e meio, ele mora na rua da Aurora, 555, quase esquina com a rua Princesa Isabel. Basta atravessar a ponte, que chega ao Palácio do Campo das Princesas, sede do Governo do Estado. O local, até o ano passado, servia como uma das entradas do Empresarial Macambira, que foi fechado e funciona pela rua da União.

A calçada do Macambira é a “casa” de Jó, como é conhecido este caminhoneiro profissional, de 35 anos, que já atravessou o país diversas vezes, durante 15 anos, dirigindo carretas cheias de alimento.

“O que pesava, eu levava”, diz Joseilson Santos da Silva, que já passou por estradas vizinhas, como Bolívia e Paraguai.

A vida pegou Jó numa dessas curvas. O mesmo homem que já levou tantas toneladas de alimento, vive tempos difíceis. Nem todo dia consegue comer. Magro, silencioso, calmo, com um sorriso tímido, ele é desses homens que têm dificuldade para pedir. Prefere conseguir as coisas com o próprio trabalho, seja pilotando uma carreta, seja lavando um carro. Ou a relutância em estender a mão, para quem já teve tudo e deixou tudo pra trás.

Conseguiu um pedaço de rua para tomar conta de carros, ao lado da Assembleia Legislativa, mas nem sempre consegue o suficiente para três refeições.

Quando não arrecada o mínimo para o dia, espera anoitecer e se recolhe ao barraco de papelão que improvisou, na área mais recuada da calçada, onde não chove e o sol é menos intenso. Às vezes, fica até duas, três da manhã acordado, pensando na vida.

“Tem dia que dá, tem dia que não dá. Vou tocando a vida”.

Pode ser a história de milhares de brasileiros que ficam um tempo na rua, este tempo vai dilatando, e parece não ter volta. Mas Jó acredita que vai dar a volta por cima. Para quem já pensou no suicídio e hoje escreve um livro sobre sua vida, já é uma grande vitória.

Natural de Belo Horizonte, perdeu o pai no mesmo dia do seu aniversário de sete anos. A mãe conseguiu criar os cinco filhos. Jó terminou o segundo grau, tirou a carteira de motorista que o permitia dirigir até carreta, e caiu na estrada. Era sua vida. Como gosta de silêncio, de ficar quieto, quando não estava em casa, estava no mundo. Sua mãe morreu quando ele tinha 22 anos

O casamento com Eliane durou 15. Tiveram dois filhos: Rodrigo, agora com 17 anos e Daniela, de 18. Moravam em Governador Valadares. “Consegui comprar minha casa, construí minha família”, conta. Tinha tudo que precisava. Mesmo sem gostar de ver televisão, eram quatro aparelhos, em diferentes espaços da casa. O fim dessa estrada aconteceu quando presenciou a companheira com outro homem. Preferiu sair de casa e deixar tudo pra trás, “para não fazer uma besteira”.

Com a roupa do corpo e os documentos, saiu andando. Não sabia para onde ir, mas lembrou do Recife, numa viagem que fizera em 2001. Gostou da cidade, e era longe de Minas. Resolveu que seria seu novo destino. Desta vez, os 1.719 quilômetros foram mais longos. Poderia fazer em um dia e meio, se fosse pelas estradas que já conhecia, mas chegou quase quatro dias depois, após percorrer trechos a pé e de carona.

O destino final foi “aquela praça, na frente do Diario de Pernambuco. Não sabia que ali, a vida daria mais uma volta, desta vez entrando numa espécie de contramão.

 Sem identidade

A ideia deste andarilho mineiro era simples. Chegaria ao Recife, e como tinha duas carteiras de trabalho cheias de registros das muitas atividades como motorista, buscaria emprego e recomeçaria a vida.

Os primeiros dias na Pracinha do Diario, em pleno centro da cidade, foram difíceis. Joseílson é um homem quieto, calado, que nunca bebeu na vida e só tem como vício mesmo o cigarro. Não gosta de praia, de televisão nem de jogo. A lista é longa. Não gosta também de rádio nem de Carnaval.

Estranhou aquela confusão, o barulho, prostituição. Não conseguia dormir direito. Era um homem sozinho, ferido, no meio da tormenta.

Quando conseguiu finalmente um lugar e descansou, roubaram todos os seus documentos. De uma vez só, ficou sem identidade, CPF, carteiras de trabalho e o principal – a carteira de motorista.

Foi o segundo nocaute. Restava apenas a roupa do corpo e a vontade de viver.

Ele saiu andando sem destino e acabou chegando na rua da Aurora. O nome não poderia ser mais simbólico. Viu uma calçada recuada, do outro lado do rio, pegou uns papelões, resolveu tentar se acomodar por ali mesmo.

Nos primeiros dias, aquele “morador” não foi bem recebido. Jó diz que surgiu um abaixo-assinado, pedindo que ele fosse retirado, vindo possivelmente da Assembleia Legislativa. Ele se adiantou ao problema. Procurou o dono do empresarial Macambira, contou sua situação, disse que não queria atrapalhar a vida de ninguém, só ter mesmo um canto para dormir.

“O dono disse que eu podia ficar. Eu disse a ele que no dia que precisasse sair, eu saía”.

E ficou. Começaria o maior desafio de sua vida – o caminhoneiro passava a ser morador de rua.

Passou a “olhar” os carros que estacionam na Assembleia. Com o passar do tempo, recebeu olhares atenciosos de moradores do edifício Caetés. Com seu jeito manso, educado, o pudor para pedir qualquer coisa, Jó conseguiu autorização para usar o banheiro dos funcionários, onde toma banho, escova os dentes e pega água para lavar as roupas. Dias depois, uma pessoa do prédio desceu com um colchão.

Como de vez em quando tenta pescar algo no rio Capibaribe, começou a ser chamado de “Pescador”.

Jó se define como um sujeito “meio sozinho mesmo”. Hoje em dia, acha que é difícil ter um amigo de verdade. Sempre preferiu dirigir só. Se o mineiro tem fama de ser mais quieto, mais calado, ele vai ao extremo. Se alguém puxar assunto, ele conversa. Caso contrário, fica calado, olhando a paisagem.

Mas a dor da traição, a distância dos filhos, a vida precária que leva, gerou uma sombra em sua alma. Pensamentos estranhos começaram a tomar conta de suas jornadas solitárias. Ideias que nunca tinha tido antes surgiam. Insinuações do pior.

“Pensei em me suicidar mesmo. Botar uma corda no pescoço. Foi uma depressão, mas Deus foi tirando isso de mim”.

Fica em silêncio, dá uma olhada para o rio e completa:

“Tenho que me pegar com Deus. Aqui a gente dorme, mas não sabe se vai estar vivo no dia seguinte”.

A depressão passou. Jó quer viver, reorganizar a vida, tirar a nova carteira de habilitação, voltar a dirigir pelas estradas do Brasil, que conhece tão bem. Voltar a ter uma vida decente, sua casa, acompanhar a vida dos filhos.

Por precaução, ele não conta “essa realidade” aos filhos. Diz que está na luta, batalhando, fazendo um bico aqui, outro ali. Na verdade, é o que ele sente mais falta – a conversa com eles.

Como fez amizade com os integrantes da Associação dos Comissários de Polícia do Estado de Pernambuco, que tem sede no edifício ao lado, consegue ligar para eles, a cada 15 dias.

Um dos poucos segredos ele conta. Está escrevendo um livro, contando sua vida. Escreve à noite, num caderno. Tem 25 páginas, por enquanto. Prefere não mostrar.

“Vai ter 650 páginas. Vai da infância até esta realidade”, diz, com um leve sorriso.

Rua da Aurora, onde as noites são mais longas para Jó

Rua da Aurora, o lugar de onde Jó espera reconstruir sua vida

Fred

No dia 9 de abril do ano passado, quando completou 35 anos, ele ganhou talvez o único presente, desde que saiu de casa – um vira-lata esperto chegou. Parecia faminto. Jó se virou, arranjou comida, pode ter sido até da sua, e deu água. Depois de comer e beber, o bichinho ficou por ali mesmo.

“Ele se acertou comigo. Foi meu presente de aniversário”, diz, abrindo o primeiro sorriso.

Batizou o novo amigo de Fred, mesmo nome do cachorro que deixou em Minas.

“Assim, eu não esqueço dele também”, diz.

“Fred é meu amigo, meu parceiro. Não deixa ninguém desconhecido se aproximar. Late na hora”.

Pouco tempo depois, apareceu uma cadela, que ele batizou de Wilma, mas ele não tinha como alimentar os dois. Achou melhor doar. Está em Jaboatão, sendo criada por uma mulher. Fred, ao que parece, não lamentou a exclusividade. Sempre estava por ali, de olho no movimento e no pequeno barraco de papelão.

O novo xodó durou apenas dois meses. Numa manhã de segunda-feira, o dono passou e reconheceu o animal. Sem muita conversa, disse que ia levar de volta. Era morador do bairro dos Coelhos, todo mundo sabia que ele era o dono etc.

Jó não quis discutir. Sabia que o homem estava certo. O cachorro era seu, era a vida. Lembra até da hora que levaram Fred – dez da manhã.

Mais uma queda. Até um vira-lata…

Ficou tão abatido, que não teve ânimo para olhar os carros na rua. Os pensamentos tristes voltavam. Não conseguia dormir.

“Toda hora eu lembrava dele”.

Já era madrugada de terça-feira, quando sentiu algo molhado, frio, tocando seu pescoço. Num instinto, deu um tapa.

Era Fred, que tinha achado o caminho de volta.

“Era uma alegria só. Ele me lambia, subia em cima de mim. Acabou dormindo comigo”.

Dos Coelhos, onde o dono disse que morava, até a casa de papelão de Jó, são quase dois quilômetros. Fred conseguiu fazer o caminho de volta para sua verdadeira casa.

No dia seguinte, de manhã, o dono retornou.

“Olhe, a partir de hoje, o cachorro é seu”.

Conhecido pela vizinhança, Fred ganhou até um presentinho especial. Uma mulher se ofereceu para cuidar dele durante o Carnaval. Jó concordou, já que sabia que o desfile do Galo teria uma multidão no entorno.

Não imaginava os dissabores que teria, ao final das festas.

O Brasil atual

Quando perguntei o que ele estava achando da situação do país, Jó saiu do tom mais silencioso, cordato, quieto, e desabafou.

“Pra falar a verdade, Dilma não fez nada de errado. Tiraram ela na tora. Armaram pra cima, com certeza. Não pode julgar sem motivo, uma coisa sem pé nem cabeça. Julgaram sem ter nada a ver”.

E completa:

“Os que botaram ela pra fora é que são os verdadeiros ladrões, esses é que estão roubando. Esses que entraram é que são ladrões mesmo. Não fosse Lula e Dilma, eu não teria minha casa, que foi pelo Minha Casa, Minha Vida”.

Como que tomado por um sentimento, ele desabafa.

“Eles ajudaram muito os mais pobres. Não fosse eles, não teria o Bolsa Família, não teria era nada. O que que entraram querem mesmo é o Brasil na miséria”.

Jó diz que “só se Deus não enxergar”, vão conseguir encontrar coisas contra o ex-presidente Lula.

“Tenho muita fé que ele vai voltar a governar de novo”, diz.

Os dias seguintes

Nos dias seguintes, acompanhei Jó, em sua luta pela sobrevivência.

Como deixou Fred com a simpática senhora, achou que conseguiria levantar um bom dinheiro, especialmente no desfile do Galo da Madrugada. Foi um fiasco.

“No Carnaval inteiro, levantei R$ 60,00”.

Pela primeira vez, Jó estava mais abatido. A barra da fome mesmo. Mas ele apenas insinuou que “o dia estava difícil, até para comer”.

No dia 7 de março, entrei em contato com Jó para saber se Fred já tinha voltado.

Ele estava visivelmente indignado. A mulher não tinha trazido seu fiel companheiro de volta. Pior – estava evitando passear com ele por perto do trecho em que mora. “Dizem que Fred fica doido, querendo vir pra cá, e ela puxa”.

A mulher, segundo Jó, é uma advogada e mora no Edifício Capibaribe.

Talvez um breve retrato do Brasil, onde um morador de rua tem seu cão de estimação levado por alguém que mora num dos edifícios mais caros do bairro…

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Sobre o autor

Samarone Lima, 46 anos, jornalista e escritor. Nascido no Crato (CE), mora no Recife desde 1987, com breve estadia em São Paulo (1994 a 2000). Sua escola de jornalismo foi a redação do glorioso "Diário Popular", na editoria de Polícia. Já publicou alguns livros, mas gosta mesmo é de poesia. Só em 2012 teve coragem de publicar "A praça azul & Tempo de vidro", repetindo a dose em 2013, com "O aquário desenterrado". Dizem que é um taurino turrão, o que pode ser bom para quem acredita na teimosia do jornalismo.

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