Editorial Marco Zero

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Não é novidade alguma a atuação política ostensiva das empresas de mídia (ou imprensa, como se chamava nos tempos de Vargas, Jango e Juscelino). Tampouco são novas as estratégias utilizadas para criminalizar governantes de esquerda, nacionalistas ou apenas desenvolvimentistas.

Foi assim com os acima citados entre parênteses. Da mesma forma no Chile, com Salvador Allende, primeiro presidente socialista democraticamente eleito na América Latina. O mesmo raciocínio vale para Fernando Lugo, no Paraguai. A lista é variada. Os artifícios são praticamente os mesmos.

Não é o caso de destrinchar os artifícios. Blogueiros como Luís Nassif e Rodrigo Vianna fazem isso praticamente todos os dias. É o caso de pontuar que, quando Vargas foi levado ao suicídio, os vínculos eram mais claros – Carlos Lacerda, da UDN, era o dono da Tribuna de Imprensa, jornal que conduzia a campanha de desmoralização de Getúlio Vargas – e as técnicas mais grosseiras.

Quando Vargas se matou ou os militares botaram os tanques na rua em 1964 para fazer o serviço sujo, as manchetes eram histéricas e panfletárias. A indústria da notícia estava em sua adolescência: não havia o refinamento da edição televisiva que faz um entrevistado parecer na defensiva – se explicando de maneira dúbia – ou acusando corajosamente, a depender do momento do corte da imagem, por exemplo.

Capa do jornal O Estado de S. Paulo no dia seguinte ao golpe de 1964

Capa do jornal O Estado de S. Paulo no dia seguinte ao golpe de 1964

Essas técnicas criadas e desenvolvidas no fazer diário do jornalismo transformam uma poça de indícios, disse-me-disse, acusações de delatores e bobagens como os pedalinhos em um oceano de fatos. Ou do que parecem ser fatos, mas são apenas notícias, que é o fato manufaturado, produzido, embalado e distribuído por um mecanismo industrial capaz de oferecê-los ao consumo como fatos naturais e incontestáveis.

Mas qual a razão de mobilizar tantos recursos, tantos profissionais, tamanha energia para criminalizar um ex-presidente septuagenário que sequer cogitava em disputar mais uma eleição? Apenas por preconceito de classe ou para satisfazer o ódio insano da classe média? Ou por causa das políticas sociais que beneficiaram os mais pobres, como insistiu Lula em seu pronunciamento depois de ser liberado pelos delegados da PF?

Não completamente. Para compreender o que está em jogo, talvez valha a pena lembrar outro fato, embalado sem estardalhaço à população: a aprovação do projeto do senador José Serra (PSDB-SP) que desobriga a participação da Petrobras na exploração do pré-sal. Trocando em miúdos: entrega as melhores e maiores reservas do petróleo do País às petrolíferas estrangeiras sob a desculpa que a crise da corrupção levou a Petrobras a perder a capacidade de explorá-las.

Nenhum telejornal lembrou as relações entre o autor do projeto e a Chevron, a mesma empresa que, em 2011, deixou vazar quatro mil barris de petróleo no mar da Bacia de Campos.

Não é coincidência o fato da Petrobras ter sido criada no segundo governo Vargas, em 1951. A campanha midiática contra ele começou logo depois.

O que uma coisa tem a ver com a outra? Simplesmente tudo.

Durante os dois governos Lula e nos primeiros anos do mandato de Dilma foram dados passos largos para a estruturação do mercado interno, fortalecimento de empresas brasileiras competitivas – muitas vezes a um preço pago pelo consumidor brasileiro – e estabelecimento de laços comerciais poderosos com os mais emergentes dos mercados, o latino-americano e o africano. Pecado mortal para quem se acostumou a enxergar o Brasil como mero exportador de commodities a preços eternamente baixos. Pecado mortal para petrolíferas e para a indústria dos países ricos, interessadas em controlar o fornecimento e os preços do óleo, o que fatalmente continuará a acontecer se o pré-sal for explorado sem os devidos limites da regulação.

É isso o que realmente importa no jogo que está sendo jogado: o petróleo, a desconstrução do nosso precário mercado interno e tornar inertes as empresas brasileiras capazes de investir e competir na África e na América Latina.

Os proprietários das empresas de mídia sempre mantiveram vínculos ideológicos e financeiros com as grandes corporações internacionais. Tem alguma dúvida disso? Basta lembrar a postura de todas as televisões brasileiras no processo que resultou nas privatizações das teles e das distribuidoras de energia elétrica. Se continuar duvidando, há duas leituras que podem ajudar: A melhor democracia que o dinheiro pode comprar e Picnic de Abutres, ambos de Greg Palast, repórter do The Guardian.

O episódio Lula foi apenas mais um. Munição detonada no esforço de demonizar um personagem com o uso de técnicas jornalísticas integradas às do entretenimento e do espetáculo para dar a impressão de uma isenção límpida, cristalina.

A novidade nesse momento histórico não é a postura da mídia, mas o tempo que ela e seus aliados levaram para gerar o desgaste do ex-presidente e encurralar um governo que, mesmo longe de representar todos os ideais da esquerda, não podem controlar totalmente. Por controlar entenda-se acessar a seu modo os recursos públicos, ditar as linhas mestras das políticas públicas e até escolher ministros, como Roberto Marinho fez ao autorizar Sarney a nomear Maílson da Nóbrega para o Ministério da Fazenda em 1987. O próprio Maílson contou em sua autobiografia.

Os Marinho, Civita, Mesquita, Frias e seus aliados regionais levaram 13 anos para desestabilizar para valer o governo petista, dos quais praticamente 11 deles em campanha ininterrupta de manipulação de manchetes e sonegação de informações. Isto sim é inédito: Com Vargas e Jango, por exemplo, levaram dois anos.

A diferença é que, desta vez, tiveram de lidar com o líder político que melhor se comunica com a população de forma direta, sem recorrer a máquinas de propaganda, com uma política econômica que melhorou a qualidade de vida da maior parte da população, um partido enraizado a partir dos movimentos sociais e com o fenômeno da internet e das redes sociais.

A mídia demorou a compreender a nova sociedade. Numa sequência de quatro eleições nacionais não conseguiu emplacar os candidatos que inflava cuidadosamente a cada período de quatro anos. Ampliou seu leque de alianças, articulando-se ao Judiciário, a procuradores e a delegados federais, mas não mudou sua tática, apenas a intensificou recorrendo à guerra total, intensa e quase sem disfarces.

Nas primeiras horas de ontem, parece ter funcionado. Talvez não contasse com a reação enérgica do ex-presidente Lula, muito a vontade no lugar onde mais gosta de estar: no centro da cena política.

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