Crédito: GazetaPress

por Maiara Melo

É muito simples: acabar com o CNPJ das torcidas, decisão judicial que foi tema de muita conversa entre torcedores e torcedoras nos últimos dias, não vai acabar com as organizadas. Muito menos com os episódios de violência. Isso pôde ser observado nos últimos jogos, inclusive no clássico Sport x Santa, onde as uniformizadas se fizeram presentes como sempre o fazem: em peso.

Para deixar claro: parto do ponto de vista clubista, porque sou torcedora do Santa Cruz e membro do coletivo feminista coral Movimento Coralinas. Então vivo no dia a dia as delícias e o terror do futebol, não apenas pernambucano, mas da América Latina, onde elas são protagonistas de festas belíssimas, mas também de histórias lamentáveis. E não apenas como pessoa apaixonada pelo futebol e pelo meu time, mas como corpo feminino. Meu namorado e os namorados de minhas companheiras de arquibancada foram ao jogo. Nós assistimos em um bar no Arruda. Ficamos em alerta, era o mais sensato a se fazer.

Integrantes da torcida jovem dispararam tiros para o alto, próximo ao Terminal Integrado de Camaragibe, dando o recado do que viria a ser o jogo. No aniversário do Santa, comemorado no dia 3 de fevereiro, a jovem invadiu a comemoração da torcida comum (sem organizadas) no pátio de Santa Cruz, deixando várias pessoas feridas, além de traumatizadas – inclusive crianças. O resultado disso é a espera do revide. Entre os nossos e nossas, a conversa é sempre a mesma, que a inferno coral vai devolver “o arranjo”.

Essa é a lógica de funcionamento interativo das organizadas, ser caça e caçador. Não é a primeira tensão e não será a última, enquanto houver futebol e problemas sociais que extrapolam os muros dos estádios.

Uma analogia que ouvi por várias vezes desde que a discussão voltou a tomar força, foi com os bailes funk do Rio de Janeiro. Os grupos viviam em guerra até a quase extinção das festas. “Foi preciso enxergar que eles se prejudicavam mais do que conseguiam manter os bailes para poder chegar a um acordo em que as tensões sociais não explodissem nos dias de festa”, me disse um torcedor numa mesa de bar.

Essa mesma ideia pode ser vista aqui, localmente. No dia das Virgens de Olinda, um vídeo viralizou nas redes sociais com dois grandes grupos em pleno confronto, violento, doentio, sem nenhuma causa aparente.

Qualquer pessoa que vive a arquibancada de forma apaixonada que for perguntada sobre a relação com o espaço físico e emocional, a resposta vai andar algo perto de um lugar onde é possível extravasar, esquecer os problemas e colocar para fora as mazelas de uma vivência opressora.

Se você leva essa mesma ideia para comunidades onde o Estado só chega com violência militar, mas quase nada com educação, saúde, sanaeamento básico e condições de vida minimamente respeitáveis, a vivência futebolística é permeada pela mesma dor e agonia que se vive na rotina desses lugares desassistidos pelo Estado.

Vamos ver isso nos bailes funk, nas prévias, no Carnaval, nas ruas de cidades mais desenvolvidas como Santiago e Montevidéu, e também no futebol pernambucano. É muito visível e simples. “Acabar” (entre aspas, porque não se acaba com os grupos organizados do futebol apenas fechando o CNPJ, essa ideia chega a ser engraçada, de tão ridícula) com as torcidas organizadas definitivamente não vai resolver a problemática.

As torcidas sabem disso. Todos que vivem os estádios e suas arquibancadas ficaram impactados muito mais com o valor simbólico do que com o resultado prático disso. Do Sport, ao Náutico e Santa, ouvi dos torcedores e torcedoras apenas lamentações, nenhuma comemoração. “Elas precisam repensar como coexistem, senão vão ser proibidas de verdade”, me disse uma amiga. Quem está lá, vivendo a festa, sabe a importância de uma organizada. A festa, a alegria, o grito de incentivo quando o restante dos torcedores e torcedoras estão presas na negatividade, no medo da derrota. Vem de lá, daquele grupo unido, uniforme, treinado, o primeiro grito de “e eu  não paro, não paro não, sou santa cruz, sou tricolor de coração”. E por alguns instantes toda aquela atmosfera passa a acreditar na possibilidade de uma vitória mágica, contagia os jogadores, que por sua vez melhoram, quase sempre, o desempenho em campo. O incentivo – cobrança – é real. E funciona.

Quem é contra isso, muitas vezes julga de um olhar muito distante. Do sofá, ou das redes sociais. Ou, com propriedade válida, sofreu alguma violência e o ponto de vista passa a funcionar a partir desse contexto.

Os clubes e a imprensa tradicional também sabem que acabar com um CNPJ não vai erradicar a violência no futebol. Porém, é do interesse delas essa higienização nos estádios. São negros e pobres a maioria dos componentes das torcidas, porque também são eles as maiores vítimas da sociedade. Eles saem de suas comunidades para extravasar ali, nos estádios, e, como bem sabemos, isso não é bonito de vender. As grandes marcas e empresas que tentam transformar o futebol num negócio bilionário mundo afora, tem garras muitas vezes invisíveis, que se aproveitam das demandas populares para cavar suas ideias elitizadas, com ingressos caros e longe da essência do esporte: popular. Proibição de bandeiras hasteadas, papel picado (que é considerado material de alta periculosidade), sinalizadores, entre outros artifícios, são exemplos de perseguição à festa. Ao futebol-festa, apaixonado.

Não acredito que não haja culpa por parte das direções das organizadas que, por exemplo, não conseguem sentar numa mesa para debater o ônus da violência e chegar a um acordo. Essa questão passa muito, também, pelo machismo que atravessa a nossa sociedade. O Movimento Coralinas, com toda sua paixão e loucura pelo Santa Cruz, consegue organizar e participar de eventos ao lado de torcedoras do Sport, com o coletivo Elas e o Sport, e do Náutico, por meio dos vários coletivos femininos lá presentes, para nos unirmos, apesar da rivalidade, naquilo que nos une: a nossa sobrevivência em um ambiente completamente tóxico aos corpos femininos.

O debate é vasto e não começa e nem termina, apenas, nos conflitos entre organizadas. Mas deve existir e englobar sociedade organizada, poder público, torcidas e Estado e, principalmente, quem viva e é apaixonada/o pelo futebol. Julgar essa vivência da poltrona, de frente de uma TV que passa, apenas, um ponto de vista tão distante dos alicerces de um estádio, é querer avaliar se foi gol ou não em um lance difícil, numa barra sem rede.

*Jornalista e integrante do Movimento Coralinas