Manual para ler a mídia em tempos sombrios: as lições de Perseu Abramo

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Para que serve a imprensa? Há um certo consenso nas redações pelo Brasil e o mundo afora de que a grande mídia é uma espécie de cão de guarda do interesse público, um xerife a postos para proteger a sociedade e fornecer – com isenção, imparcialidade e equilíbrio – as informações e fatos mais relevantes para que o público possa criar seu juízo de valor e tomar as suas próprias decisões. Mas se esses ideais podem ser questionados no seu dia a dia, em tempos sombrios, como os que vivemos agora, eles estão definitivamente em xeque.

Você já se perguntou por que um assunto é manchete e outro notinha de pé de página? Você já se perguntou por que fatos idênticos envolvendo personagens distintos pode, em um caso, gerar a indignação feroz de colunistas e comentarista e, em outro, o mais retumbante silêncio? Já se questionou como são tomadas as decisões sobre quando, como, onde e por que uma declaração ou acontecimento ganha o status de notícia?

Nada disso acontece por acaso ou está baseado apenas em critérios técnicos.  Para entender os processos de manipulação da informação praticados diuturnamente pelos veículos da grande mídia e exacerbados agora com a pauta-única da destruição do PT, de Lula e Dilma, nada mais oportuno do que trazer à tona as análises do jornalista, sociólogo e professor Perseu Abramo, morto em 1996. Nascido em 1929, Perseu iniciou sua vida profissional em 1946, tendo atuado em veículos da grande mídia, como O Estado de S. Paulo e a Folha de S. Paulo, e alternativos, como o jornal Movimento.

Os padrões de manipulação foram sistematizados por Perseu no período do pensamento único neoliberal do início da gestão do então presidente Fernando Henrique Cardoso. Vinte anos depois continuam atualíssimos.

“A maior parte  do material que a imprensa oferece ao público tem algum tipo de relação com a realidade. Mas essa relação é indireta.  É uma referência indireta à realidade, mas que distorce a realidade. Tudo se passa como se a imprensa se referisse à realidade apenas para apresentar outra realidade, irreal, que é a contrafação da realidade real…”

 “A relação entre a imprensa e a realidade é parecida com aquela entre um espelho deformado e um objeto que ele aparentemente reflete: a imagem do espelho tem algo a ver com o objeto, mas não só não é o objeto como também não é sua imagem; é a imagem de outro objeto que não corresponde ao objeto real. A manipulação da informação se transforma, assim, em manipulação da realidade”.

Conheça os quatro padrões de manipulação apontados por Perseu Abramo:

1) Padrão de ocultação:

“É o padrão que se refere à ausência e à presença dos fatos reais na produção da imprensa. Não se trata, evidentemente, de fruto do desconhecimento e nem mesmo de mera omissão diante do real. É, ao contrário, um deliberado silêncio militante sobre determinados fatos da realidade…”.

 “A ocultação do real está intimamente ligada àquilo que frequentemente  se chama de fato jornalístico. A concepção predominante (…) é a de que existem fatos jornalísticos e fatos não jornalísticos e que, portanto, à imprensa cabe cobrir e expor os fatos jornalísticos e deixar de lado os não-jornalísticos…”.

 “(Acontece que) o jornalístico não é uma característica intrínseca do real em si, mas da relação que o jornalista, ou melhor, o órgão do jornalismo, a imprensa decide estabelecer com a realidade. Neste sentido, todos os fatos, toda a realidade pode ser jornalística, e o que vai tornar jornalístico um fato independe das suas características reais intrínsecas, mas depende, sim, das características do órgão de imprensa, da sua visão do mundo, da sua linha editorial, do seu “projeto”.

Delcídio citou, entre outros, Lula, Dilma e Aécio. Mais o tucano sumiu da edição da revista

Delcídio citou, entre outros, Lula, Dilma e Aécio. Mas o tucano sumiu da edição da revista

O grau de virulência e espetacularização da cobertura das denúncias contra o ex-presidente Lula e a presidenta Dilma comparado ao silêncio condescendente em relação a acusações envolvendo personagens como FHC, Geraldo Alckmin, José Serra e Aécio Neves é notório. O critério de noticiabilidade que funciona no caso dos petistas não serve para as lideranças tucanas.

E o que falar das denúncias de corrupção envolvendo o peemedebista Eduardo Cunha? Deliberadamente omitidas ou, no melhor dos casos, minimizadas por tanto tempo pela grande imprensa, garantindo-lhe o caminho livre até a Presidência da Câmara dos Deputados. Justamente ele, Cunha, o personagem central e permanente do “projeto” de desestabilização do governo Dilma.

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2) Padrão de Fragmentação:

“A realidade é apresentada ao leitor não como uma realidade, com suas estruturas e interconexões , sua dinâmica e seus movimentos e processos próprios, suas causas, suas condições e suas consequências. O todo real é estilhaçado, despedaçado, fragmentado em milhões de minúsculos fatos particularizados, na maior parte dos casos desconectados entre si, despojados de seu vínculo com o geral, desligados de seus antecedentes e de seus consequentes no processo em que ocorrem, ou reconectados e revinculados de forma arbitrária e que não corresponde aos vínculos reais, mas a outros ficcionais e artificialmente inventados”.

“Novamente os critérios para esta seleção não residem necessariamente na natureza ou nas características do fato decomposto, mas sim nas decisões, na linha, no projeto do órgão de imprensa, que são transmitidos, impostos ou adotados pelos jornalistas destes órgãos”.

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Bolsa Dólar 3

A descontextualização é a filha mais velha da fragmentação.  A construção diária e continuada, desde a reeleição da presidenta Dilma, de um cenário de “fim de mundo” foi obstinadamente perseguida pela grande imprensa. O noticiário negativo serviu frequentemente como pauta política para os agentes do capital financeiro (o tal “mercado”) e a oposição radical. Dados econômicos foram e são apresentados fora do contexto internacional, as “expectativas” do mercado se transformaram em “dados de realidade”. A especulação com o dólar e a flutuação da bolsa de valor ganham o status de humor da opinião pública nacional.

É curioso que durante os anos da gestão presidencial de Lula e no primeiro mandato da presidenta Dilma os ganhos sociais e econômicos alcançados tenham sido sistematicamente apresentados pela grande mídia fora do seu contexto, parecendo no mais das vezes não estarem vinculados a ações efetivas de governo, mas resultado natural de um momento de bonança mundial. Assim, os problemas econômicos de hoje estão relacionados a ações internas de má gestão e o sucesso de ontem ao cenário positivo internacional. Um veneno meticulosa e fragmentariamente inoculado na consciência do leitor/telespectador ao longo dos últimos anos.

 3) Padrão de Inversão

“Opera o reordenamento das partes, a troca de lugares e de importância dessas partes, a substituição de umas por outras e prossegue, assim, com a destruição da realidade original e a criação artificial de outra realidade”.

 Inversão da relevância dos aspectos:

“O secundário é apresentado como o principal e vice-versa; o particular pelo geral e vice-versa; o acessório e supérfluo no lugar do importante e decisivo; o caráter adjetivo pelo substantivo; o pitoresco, o esdrúxulo, o detalhe , enfim, pelo essencial”.

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Da mídia para as ruas, pedalinho vira alegoria nos protestos

Da mídia para as ruas, pedalinho vira alegoria nos protestos

Os pedalinhos com os nomes dos netos de Lula no sítio de Atibaia e o barco de R$ 4 mil adquiridos pela ex-primeira dama Marisa Letícia ganham relevância no noticiário para reforçar o processo de criminalização do ex-presidente. Eles dão aos manifestantes contrários ao governo imagens-símbolo dos supostos abusos. Como aconteceu no passado com o AeroLula, o avião presidencial adquirido no governo Lula e que também ganhou as ruas como ícone da malversação de recursos públicos. Se uma imagem vale mais do que mil palavras, a grande imprensa fornece a imagem necessária para o escracho nas ruas.

Vista em retrospecto a polêmica envolvendo o AeroLula parece, o que de fato foi, algo sem sentido, banal. Fato menor e irrelevante da vida pública. Mas esse fato ocupou meses do noticiário da grande mídia e gerou reações acaloradas de comentaristas políticos e da oposição ao governo, como agora acontece com os pedalinhos e o barco de R$ 4 mil.

 Inversão da forma pelo conteúdo:

“O texto passa a ser mais importante do que o fato que ele reproduz: a palavra, a frase, no lugar da informação; o tempo e o espaço da matéria predominando sobre a clareza da explicação; o visual harmônico sobre a veracidade ou a fidelidade; o ficcional espetaculoso sobre a realidade”.

Capa Folha de São Paulo  20.24.14

Não há tempo a perder. O vazamento dos áudios envolvendo o ex-presidente Lula e a presidenta Dilma acontece no momento exato para ser veiculado em rede nacional no dia em que Lula é anunciado para o cargo de ministro da Casa Civil. O tempo noticioso pressiona o tempo político. A imprensa faz a sua síntese, põe fogo no noticiário, sem que os envolvidos possam fazer o contraponto, pelo menos não a tempo de conter o incêndio. Há um espetáculo para ir ao ar. As explicações podem vir depois, são de praxe, não devem interferir no rumo dos acontecimentos jornalísticos. São um detalhe que não pode nem deve comprometer o êxtase noticioso.

Inversão da versão pelo fato:

“Não é o fato em si que passa a importar, mas a versão que dele tem o órgão de imprensa, seja essa versão originada no próprio órgão de imprensa, seja adotada ou aceita de alguém – da fonte das declarações e opiniões… Frequentemente, sustenta as versões mesmo quando os fatos as contradizem. Muitas vezes, prefere engendrar versões e explicações opiniáticas cada vez mais complicadas e nebulosas a render-se à evidência dos fatos. Tudo se passa como se o órgão de imprensa agisse sob o domínio de um princípio que dissesse: se o fato não corresponde à minha versão, deve haver algo de errado com o fato”.

 “No lugar dos fatos, uma versão, sim, mas de preferência a versão oficial. E a melhor versão oficial é a da autoridade, e a melhor autoridade, a do próprio órgão de imprensa. À sua falta, a versão oficial da autoridade cujo pensamento é o que mais corresponda ao do órgão de imprensa”.

 

As delações premiadas da Operação Lava-Jato se tornaram a maior fonte de versões que ganharam o status de fatos jornalísticos nestes tempos sombrios. É o triunfo do jornalismo declaratório do qual agora o jornalista sequer participa porque não é ele quem entrevista, ao contrário, recebe tudo pronto, dado, entregue oportunamente (ou oportunisticamente) pelas autoridades judiciais ou policiais. Tudo, entenda-se, que pode servir ao programa de desestabilização e enfraquecimento do governo, por que é disto que se trata a pauta. O bombardeio de delações judiciais/versões jornalísticas ganha as manchetes e se torna dado de realidade. As delações terão que ser comprovadas em juízo para terem validade legal, mas nos jornais, revistas e no noticiário de TV elas já são verdade, sem checagem, sem apuração, sem cuidado. Sem jornalismo.

Próprio Ombudsman da Folha confirmou que manchete era mentirosa

Próprio Ombudsman confirmou que manchete era falsa

Inversão da opinião pela informação:

“O órgão de imprensa apresenta a opinião no lugar da informação, e com o agravante de fazer passar a opinião pela informação. O juízo de valor é inescrupulosamente utilizado como se fosse um juízo de realidade. O leitor/telespectador já não tem mais diante de si a coisa tal como existe ou acontece, mas sim uma determinada valorização que o órgão quer que ele tenha de uma coisa que ele desconhece,  porque o seu conhecimento foi oculto, negado e escamoteado pelo órgão”.

Time de comentaristas da GloboNews: muita gente e uma única opinião

Time de comentaristas da GloboNews: muita gente e uma única opinião

 No jornalismo brasileiro, a pseudo pluralidade não se dá na pauta, no fazer diário da atividade jornalística, mas no aumento gigantesco do número de comentaristas e analistas. Mas essa é uma pluralidade que não se manifesta de verdade. O caso do Sistema Globo é notório. No jornal, na TV, nas rádios do grupo, dezenas de comentaristas entoam diariamente o mantra do “fim do mundo”, do “fim do governo”.  A informação é um detalhe no emaranhado de opiniões e “impressões dos bastidores”. O fato importa menos do que como os jornalistas/analistas veem o fato. E as opiniões precisam ser ditas rápida e ininterruptamente para que elas passem a “ser o fato”, antes que o leitor/telespectador possa tirar suas próprias conclusões. O contexto não é mais formado pelas circunstâncias que envolvem o fato em si, mas pelas opiniões dos jornalistas que o enquadram e embrulham para o público.

 4) Padrão de Indução

“Submetido, ora mais, ora menos,  mas sistemática e constantemente, aos demais padrões de manipulação, o leitor é induzido a ver o mundo não como ele é, mas sim como querem que ele o veja. A indução se manifesta pelo reordenamento ou pela recontextualização dos fragmentos da realidade, pelo subtexto – aquilo que é dito sem ser falado – da diagramação e da programação, das manchetes e das notícias, dos comentários, dos sons e das imagens, pela presença/ausência de temas, segmentos do real, de grupos da sociedade e de personagens… Depois de distorcida, retorcida e recriada ficcionalmente, a realidade é ainda assim dividida pela imprensa em realidade do campo do Bem e realidade do campo do Mal, e o leitor/telespectador é induzido a acreditar não só que seja assim, mas que assim será eternamente, sem possibilidade de mudança”.

basta

Dividir a cobertura (o Brasil) entre o Bem e o Mal foi desde o início o principal objetivo da grande mídia, em que pesem os eventuais discursos em favor da paz e da civilidade. Costumamos falar na judicialização da política, mas na verdade o que existe hoje no país é a judicialização do jornalismo, que diariamente aponta o dedo e dá sua sentença sobre quem é e quem não é bandido. Quem pode e quem não pode ter acesso à plena liberdade de expressão. Neste tribunal-noticiário falam primeiro as autoridades policiais e judiciais, depois os jurados da oposição e, em seguida, perto do final do julgamento-matéria, os reús e suas breves notas de repúdio. Mas a sentença quem determina é a grande mídia, em forma de editorial, como o jornal Estado de São Paulo fez recentemente – pedindo um Basta! e insuflando o impeachment – ou como a Revista Veja faz desde sempre.

Voltemos à análise assertiva de Perseu Abramo:

“É evidente que os órgão de comunicação, e a indústria cultural de que fazem parte, estão submetidos à lógica econômica do capitalismo. Mas o capitalismo opera também com outra lógica, a lógica política, a lógica do poder -, e é aí, provavelmente, que vamos encontrar a explicação da manipulação jornalística… Esses grandes órgãos efetivamente são autônomos e independentes, em grande parte, em relação a outras formas de poder. Mas não – como querem fazer crer – porque estejam acima dos conflitos de classe, da disputa do poder ou das divergências partidárias. Nem porque estejam a serviço do Brasil ou da parte do Brasil que constitui o seu específico leitorado. Mas sim porque são eles mesmos, em si, fonte original de poder, entes político-partidários, e disputam o poder maior sobre a sociedade em benefício dos seus próprios interesses e valores políticos”.

 

 

 

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Sobre o autor

É formado em Jornalismo pela Universidade Católica de Pernambuco. Foi repórter de Polícia do Jornal do Commercio; repórter, editor e colunista de Política do Diário de Pernambuco. Coordenou a área de comunicação social do Ministério da Saúde e ocupou os cargos de diretor de mídia regional e secretário-adjunto de Imprensa da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República. É co-autor do livro Vulneráveis – entre a emergência da vida e a incerteza do futuro, Editora Bagaço, 2015.

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