“Minha existência é política”: o pensamento de uma afro transativista

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“Eu sou isso, mas não necessariamente eu vou ser o que você pensa. Isso é quebrar uma história única sobre a travesti”, diz Maria Clara Araújo dos Passos. Estudante do quinto período de Pedagogia da Universidade Federal de Pernambuco, com 22 anos, a afro transfeminista é uma força pensante que se destaca no cenário de jovens ativistas no Brasil. Sua voz projeta a urgência das mulheres trans e travestis de falarem e produzirem conhecimento sobre si mesmas e, ao mesmo tempo, atuarem politicamente para mudar suas vidas.

Maria não é diferente de outros estudantes. Nem quer ser. Ela precisa, assim como diversas outras estudantes cotistas, lidar com o fato de, às vezes, faltar o dinheiro para a passagem de ônibus, o almoço no Restaurante Universitário ou a xerox. Ser convidada para dar palestras, participar de mesas compartilhando as reflexões e conhecimentos que vem construindo no ativismo e na academia – ainda como estudante de graduação – é um dos aspectos a serem considerados sobre a jovem que abre um sorriso sincero ao mesmo tempo que tem o discurso cortante e voz firme para defender suas ideias. De certa forma, ela não deseja que a fama que alcançou faça esquecer os fatores determinantes da sua vida que não podem ser separados do que produz na pesquisa acadêmica e nas reflexões políticas.

O corpo e a existência política de Maria Clara não andam separados e ela se coloca na missão de transformar os espaços onde está. “Minha existência é política por si só. Eu postar uma foto sorrindo, esboçando felicidade, bem-estar, estabilidade financeira e emocional por si só já é um ato político. Só o fato de não estar percorrendo a trajetória que se espera de uma travesti num local em que as travestis sofrem uma desumanização total é também um ato político. A academia é minha vida profissional”, explica. Ela deseja ser pesquisadora, palestrante e escritora. Ainda não sabe se vai dar aulas porque, para isso, precisa lidar com a estrutura escolar que está assentada na sociedade brasileira.

“A gente entende as relações sociais a partir de um prisma totalmente diferente de outras pessoas. Quando nossos corpos entram em espaços que historicamente nos foram negados esse espaço vai mudar”.

Ela abriu o precedente para uma discussão no Brasil ao questionar por que não existem travestis dentro das universidades federais. “O questionamento é importante porque ele desnaturaliza”, diz, e pergunta por que apenas em 2015 uma travesti entrou no Centro de Educação da UFPE.  “A gente não tinha nem a possibilidade de traçar uma perspectiva de vida, porque travesti não tem uma perspectiva de vida. Nesse momento as meninas estão tentando construir esse arcabouço político e ontológico”, afirma.

A Marco Zero entrevistou Maria Clara, que participa como consultora do projeto Usina de Valores, sobre sua produção e pensamento. Neste sábado (14) ela vai participar do debate público Direitos Humanos x Discursos do Ódio, às 16h, na praça do Diario, em frente à ocupação Marielle Franco. Confira abaixo a entrevista.

Caminho para encontrar a si mesma – mulher negra, trans, feminista

MC: Eu encontro o feminismo e começo a ter acesso a narrativas feministas na internet. Só que eu sempre me propus a não ser simplista. Quando estudo ou me interesso por algo, eu vou a fundo. Nesse processo de estudar o transfeminismo, eu descobri que para o transfeminismo existir hoje precisou ter uma quebra na categoria de mulheridade que existia ontem. E quem fez isso foram as mulheres negras, as feministas negras. Disseram ‘olha, vocês estão falando que as mulheres querem sair de casa e trabalhar, mas as negras sempre trabalharam. Enquanto vocês estão lutando para sair de casa, nós sempre estivemos na lavoura.’ Nós já estávamos trabalhando. 

Eu nunca fui tratada como frágil, nenhum homem nunca foi. Esse discurso para mim é o precedente de uma discussão que as mulheres negras até hoje estão colocando: quando a gente fala, eu pergunto de que mulher, afinal, vocês estão falando. Dentro desse meu processo de me descobrir, me colocar, me entender enquanto mulher travesti, de mãos dadas também aconteceu meu processo de me ver como mulher negra. Especificamente, depois da experiência de ter gravado o filme Kbela, um filme sobre mulheres negras, feito por mulheres negras. Ele fez eu conseguir olhar meu passado, enquanto adotada, e o incômodo que eu tinha com a fibra do meu cabelo. Eu vindo de uma família em que todo mundo tinha o cabelo liso. A questão dos traços negróides do meu rosto.

No Brasil a gente tem uma política racial extremamente problemática. A política de mestiçagem do Brasil fez com que o brasileiro não conseguisse construir de fato uma identidade racial, de se reconhecer enquanto negro. A gente é pardo, moreno, toda uma ramificação de coisas para não nos identificarmos como negros. O feminismo negro, as feministas negras me dão uma força porque foi nelas que eu encontrei apoio, troca, fortalecimento. Não só intelectual, mas pessoal também.

A experiência da mulheridade negra é muito próxima da experiência da travesti. A questão do relacionamento, da hipersexualização, da não valorização do trabalho intelectual. A teoria feminista negra interseccional entende que a categoria de mulheridade é categoria complexa, múltipla. Existe uma multiplicidade de mulheres. O feminismo negro sempre se colocou contra a transfobia de uma forma muito ferrenha. Comecei a ler sobre feminismo, sobre condição da mulher trans e travesti e li os escritos das mulheres negras. Nesse momento, o que eu tenho visualizado é que não tem como você falar da experiência de mulheres trans e travestis sem você fazer um recorte racial.

Raça é estrutural e estruturante. Obviamente as mulheres trans e travestis negras estão extremamente vulneráveis. Para mim, são dois movimentos que eu tenho me proposto a fazer: é impossível pautar transfeminismo ou discussão de estudos trans dentro da academia, ou politicamente, sem fazer discurso de raça. Isso seria desonesto, inclusive. Dentro da discussão das mulheres negras ou do movimento negro, quando a gente fala sobre encarceramento em massa, a gente vai ter que localizar as travestis porque elas também estão sofrendo isso. Quando a gente fala do genocídio da população negra, a gente também precisa contabilizar dentro desses dados as travestis negras que estão morrendo no Brasil. Quando a gente fala sobre dificuldade de acesso e permanência da população negra dentro das escolas também precisamos colocar as travestis mulheres negras. Eu tenho tentado interseccionalizar isso. Eu não consigo fazer nenhum tipo de análise sobre a minha condição enquanto travesti sem deixar de lado o que implica eu também ser negra nesse processo.


Por uma educação (trans)formadora



MC: 
Eu estou aqui porque sou cotista. É algo que as pessoas geralmente não falam. Enquanto negra, estudante de escola pública e aluna de baixa renda, faço parte de uma cota que é um tripé.

Quando eu penso a minha entrada e permanência aqui, eu penso em historicidade. Eu sou a primeira pessoa da minha família a entrar na UFPE. Por que eu sou a primeira da minha família, por que eu sou a primeira travesti num curso de pedagogia na UFPE? Por que eu preciso ser a primeira de várias coisas? Não que eu esteja reclamando, mas o que levou outras a estarem nesses espaços e o que posso fazer para possibilitar outras meninas a entrarem aqui?

Me sinto responsável porque nós que estamos em situação de precariedade sempre nos sentimos responsáveis. Se um branco errar ninguém vai falar que é porque ele é branco. Mas se a gente erra, a gente sabe o que vai escutar. Todo momento a gente tem que ser muito responsável com o que vai falar e fazer. Ainda mais sendo uma travesti dentro da UFPE.

Ruptura da ideia de normalidade

“Agora pronto, os travecos vão entrar inclusive na universidade” foi um dos comentários em uma notícia publicada em 2015 sobre a aprovação de Maria Clara na UFPE. Ela lembra especificamente dessa fala porque, naquele momento, soou como um símbolo do que ela deveria enfrentar nos próximos anos na graduação.

MC: A nossa entrada, por mais que tenha mobilizado toda uma reação, faz com que as pessoas tenham que lidar com o próprio incômodo de conviver com a gente. Quando entramos nesses espaços – mercado de trabalho, universidade…-, nós fazemos com que as outras pessoas tenham que lidar com a gente. Existe o incômodo, mas eu entendo – a partir do que aprendi com a Djamila Ribeiro (filósofofa, feminista negra) – que ele é necessário. É necessário que as pessoas se sintam incomodadas porque a partir disso vamos questionar por que as pessoas se sentem incomodadas de conviver com a gente. Por que a nossa existência te traz esse incômodo? E para existir a mudança é preciso que exista esse incômodo. Esse comentário me marca muito. Ele diz para mim o que muitas pessoas da UFPE estavam pensando naquele momento. A UFPE cada vez mais tem pessoas trans e travestis estudando aqui, seja como graduandas, mestrandas ou no vestibular solidário.

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Maria Clara estuda Pedagogia, na UFPE. Foto: Inês Campelo


Discurso de ódio se combate com diálogo e ação

Maria recorre a Paulo Freire e pontua que para existir de fato a possibilidade para o diálogo é preciso que exista antes uma abertura. Apesar da enxergar a partir de uma perspectiva realista as dificuldades de estabelecer um diálogo, ela tem certeza que uma vez dentro de espaços que foram negados às travestis é impossível retornar à estaca zero. Ela cita, ainda, a filósofa Angela Davis que apresenta a ideia de que quando uma mulher negra se movimenta, toda a sociedade se movimenta com ela.

No texto publicado pela Usina de Valores, Maria tece reflexões e propostas sobre como garantir a dignidade humana das travestis é esboçar uma nova sociedade. “Quando estamos pensando um novo modelo de sociedade é preciso garantir que as travestis tenham um lugar porque entendemos que hoje as travestis estão em um não lugar”.

MC: O que eu tenho vivido dentro do curso de pedagogia, pelo contrário do que poderia pensar, tem sido uma experiência ótima. Tanto eu desconstruo a ideia de que são sempre elas que de alguma forma vão me violentar, como elas passam, pela primeira vez, talvez, a conviVer com uma travesti partindo de um lugar em que elas não me colocam numa posição de demonização. Partem da convivência, de perguntar se eu tenho uma xerox que ela não tiraram, se eu vou para o RU almoçar. Daí elas podem ir comigo ou não.

Eu não espero que eu esteja segura em nenhum espaço. Então, em qualquer lugar eu estou insegura, qualquer momento. O Estado, a sociedade brasileira, se coloca numa posição de omissão para com nossos corpos, mas eu acredito que, a partir do momento que a gente ocupa esses espaços, disputa essas narrativas, a gente constrói outras imagens entorno da nossa identidade. Não sei se necessariamente irá contra o discurso de ódio.

Todos nós escutamos narrativas péssimas sobre travestis. Eu, inclusive, já falei e já ouvi. A questão não é o fato de nós termos feito isso. É o que podemos fazer enquanto estamos visualizando um futuro. Tenho pensado muito no ato de me posicionar. Eu em algum momento já fui transfóbico, mas o que tenho pensado agora para não agir dessa maneira e também para criar estratégias para garantir que travestis estejam ocupando esse cargo, ou tendo acesso a essa instância? Quero que a gente saia um pouco do lugar da exaustiva narração das violências que acontecem conosco. Eu não quero só ficar falando sobre como a gente apanha, como a gente morre, como é difícil. Eu não estou interessada em um sentimento de pena. O que eu quero é que o outro, ao ouvir minha história, ao repensar sua postura, ele consiga fazer estratégias de posicionamento.

Aprendi com as feministas negras que não basta ser contra o racismo. Mas refletir sobre o que você tem feito para combater o racismo no dia a dia? É preciso ter uma posição antirracista. Não é o bastante falar do que sofrem as travestis, é preciso fazer algo para melhorar a condição de vida das travestis.

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Sobre o autor

Débora Britto trabalhou como jornalista no Centro de Cultura Luiz Freire - organização não governamental de defesa dos direitos humanos - é integrante do Terral Coletivo de Comunicação Popular, grupo que atua na defesa do direito à comunicação como fundamento para a garantia de outros direitos. Também tem passagem como jornalista pelo Centro de Desenvolvimento Agroecológico Sabiá, entidade voltada para ações de fortalecimento da agricultura familiar agroecológica.

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