Nilson Lage: “Por toda parte, jorrou propaganda. A mídia deixou de fornecer dados confiáveis ao historiador do futuro”

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Quando os historiadores no futuro se debruçarem sobre os jornais de 2016 para compreender por que uma presidenta legitimamente eleita foi afastada de suas funções pelo Congresso Nacional terão muitas dificuldades para juntar as peças desse quebra-cabeças. Na opinião do professor Nilson Lage, autor de uma dezena de livros sobre técnicas de reportagem e referência no ensino de jornalismo no Brasil, os dados confiáveis que deveriam reger a cobertura da imprensa foram trocados por propaganda. “Jornalistas, em qualquer parte do mundo, valorizam fatos e, no processo político brasileiro, intenções e gestos não encontram suporte nos fatos – pelo menos, não na escala pretendida”.

Encarada por muitos ativistas e pesquisadores como uma porta aberta ao contrapoder, a mídia digital, na visão de Lage exposta nesta entrevista à Marco Zero Conteúdo, ainda não se consolidou como um espaço amplo de desconstrução das narrativas da grande mídia. “A Internet é ainda uma incógnita: dá voz a todos, mas não assegura que sejam ouvidos. Muitas vozes simultâneas desordenadas não compõem um clamor, mas um vozerio”. Para o professor de pós-graduação de cursos de comunicação na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), o pensamento contestador no Brasil ainda está confinado em guetos, como as universidades e as mídias alternativas.

 

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Como avalia o comportamento da grande mídia na cobertura política recente: Governo do PT (Lula e Dilma), Operação Lava-Jato e processo de impeachment da presidenta Dilma?

Não houve, a bem dizer, cobertura política. A crônica parlamentar alimenta-se, habitualmente, de declarações de políticos: nos últimos meses, as fontes do Congresso substituíram informações por insultos – ou a pessoas ou à inteligência do público. Por toda parte, jorrou propaganda, com informações mentirosas e vazamentos dirigidos. Movimentos de massas mereceram análises superficiais e convenientes. A mídia deixou de fornecer dados confiáveis, por exemplo, ao historiador do futuro. E coisas como depor um governante porque cobriu deficits temporários de caixa com recursos de bancos oficiais, sem prejuízo para ninguém, é algo que permanecerá para sempre inexplicável.

Em que pontos a cobertura atual da grande mídia se assemelha àquela de 1954 na crise que culminou com o suicídio de Vargas e à cobertura de 1964 quando ocorreu o golpe militar que derrubou o presidente João Goulart?

O papel dos meios de comunicação no golpe militar de 1964 e no golpe jurídico-parlamentar de 2016 coincide nos efeitos, mas difere em muitos aspectos. Em primeiro lugar, em 1964 não havia Rede Globo: a televisão tinha influência muito menor na opinião pública e a audiência se repartia entre várias empresas com características diferentes: para uma TV Tupi, dos Diários Associados, engajados na conspiração, havia uma TV Excelsior, vinculada à companhia aérea Panair do Brasil e à Rádio Mayrink Veiga, do Rio de Janeiro, que apoiava o segmento do trabalhismo mais à esquerda e cedia os microfones a Leonel Brizola – empresas essas liquidadas todas nos meses seguintes.

Também não havia revistas ilustradas semanais com reportagens de denúncia que os diários repercutissem ao longo da semana; magazines ilustrados, O Cruzeiro (lançada em 1928) e Manchete (1952) não se prestavam a isso.

Os principais veículos de comunicação estavam concentrados no Rio de Janeiro, capital da República. O mais importante era a Rádio Nacional, empresa incorporada ao patrimônio da União e não utilizada para fins políticos partidários. Diários, além de Ultima Hora, que Samuel Wainer criou, em 1951, para apoiar o trabalhismo e Vargas, e O Globo, fundado em 1925, o Jornal do Brasil, desde 1891; o Correio da Manhã, de 1901; o Diário de Notícias, de 1930; O Jornal, de 1919 (comprado em 1924 por Assis Chateaubriand) e vários outros – o mais antigo, o Jornal do Commercio, de 1824.

O Correio e o Diário, principalmente, eram veículos conservadores com discurso próprio. O primeiro tinha passado combativo (orgulhava-se de estar sempre em oposição ao governo, qualquer um) e uma redação de intelectuais destacados (entre outros, Carlos Drummond de Andrade, Graciliano Ramos, Pascoal Carlos Magno, Aurélio Buarque de Holanda, e Eurico Nogueira França); o segundo, de tradição nacionalista e liberal (resistiu aos encantos do Departamento de Imprensa e Propaganda, na ditadura Vargas); ambos só iriam aderir francamente ao golpe de 1964 em sua antevéspera, quando a conspiração estava consolidada. Logo entraram em discordância, foram contidos e eliminados.

Até que ponto o clima de intolerância e de divisão política que tomou as ruas do Brasil e o dia a dia das pessoas foi provocado ou amplificado pela atuação da imprensa?

A ação combinou focos de provocação plantados sobre demandas públicas que se evidenciaram em pesquisas de opinião. Causas pontuais (como o aumento de vinte centavos no preço de passagens de ônibus) foram tomadas como ponto de partida para um efeito dominó. Criaram-se e incentivaram-se núcleos de agitadores, utilizando principalmente jovens praticantes de musculação e lutas marciais, a que se propuseram metas compatíveis com a cultura dos filmes de ação e histórias em quadrinhos. A mídia contratada deu a cobertura necessária, com a ajuda de elementos da academia e comentaristas associados que capricharam na aplicação aos incidentes de um sentido fictício de transcendência, com o recurso a comparações com a “primavera árabe” e as “revoluções coloridas”.

Podemos falar que existe uma aliança entre oposição–capital (empresariado/financistas)–grande mídia- e estamento burocrático (Polícia Federal, Ministério Público Federal-Poder Judiciário) para derrubar um governo legitimamente eleito? Como você vê a participação da mídia nesta aliança?

 A aliança momentânea é entre :

1. Os interesses imperiais dos Estados Unidos e de grupos lá situados (dos irmãos Kroch a empresas petrolíferas e investidores interessados em se apropriar de verbas de educação), a oligarquia paulista de tradição antitrabalhista e setores que se sentiam ameaçados pelo governo (por exemplo, pelas políticas ambientais ou fundiárias);

2.Segmentos políticos temerosos de ser atingidos, não apenas pela Lava-Jato, mas, sobretudo, por outras operações moralizadoras que se espalharam pelo país, como a Zelotes e as iniciativas de correição em estados (Minas Gerais, por exemplo). Tais iniciativas, incentivadas na origem pelo governo federal, ameaçavam transpor as barreiras institucionais que, nas procuradorias e no Judiciário, costumam proteger os autores desses malfeitos.

A aliança é frágil, com o primeiro grupo mostrando mais consistência e o segundo maior poder político, na atual estrutura.

A Lava-Jato, em si, apropriada por segmentos do Judiciário, Procuradoria e Polícia Federal que mantêm laços íntimos com o Departamento de Justiça americano, atuou como parte relevante da conspiração, buscando dirigir o combate à corrupção exclusivamente contra o segmento trabalhista-nacionalista.

Até que ponto o jornalismo independente na Internet e a sociedade civil organizada podem fazer um contraponto informativo à grande mídia?

O jornalismo independente – e o pensamento contestador (ou não conformado) em geral – é, hoje, no melhor estilo americano, confinado em guetos: espaços universitários, mídia alternativa, linguagem acadêmica. Essa – a substituição do domínio pela hegemonia – foi a grande invenção inglesa que os americanos utilizaram para adaptar a uma sociedade formalmente democrática técnicas de controle de opinião que, em regime autoritário, fomentaram o apoio de massas à aventura nazista. O resultado é muito conveniente, no sentido de permitir a antecipação de comportamentos divergentes e a incorporação de elementos de críticas ao sistema de dominação política.

A Internet é ainda uma incógnita: dá voz a todos, mas não assegura que sejam ouvidos. Muitas vozes simultâneas desordenadas não compõem um clamor, mas um vozerio. A eficácia do contraponto informativo, nesse caso, depende muito da experiência concreta da sociedade, como comprova a recente expansão do eleitorado progressista nos Estados Unidos em torno da pré-candidatura de Bernie Sanders: o fator determinante, sem dúvida, é a consciência coletiva de que a recuperação econômica do país não se está fazendo em benefício de nenhum estamento social fora da cúpula corporativa.

Como avalia a leitura da crise política e do processo de impeachment feito pela mídia internacional? O que eles veem que nossa mídia nacional não vê ou não quer ver?

O neoliberalismo, que é a ideologia do golpe no Brasil, mostra-se danoso em todo o mundo: associa-se a repressão, desemprego, decadência. Não desperta simpatias. Por outro lado, está muito presente para os jornalistas estrangeiros a imagem do Brasil como “o país mais democrático dos Brics” e “o país que mais e melhor combate a pobreza”; a inveja que o projeto do SUS desperta nos cidadãos norte-americanos, por exemplo, ou a projeção da personalidade de Lula da Silva como “o cara”.

Jornalistas, em qualquer parte do mundo, valorizam fatos e, no processo político brasileiro, intenções e gestos não encontram suporte nos fatos – pelo menos, não na escala pretendida.

O jornalismo sai ferido desse processo? Por que as redações aceitam sem maiores questionamentos a postura enviesada dos seus patrões, com raras exceções? Podemos dizer que as redações estão domesticadas? Por que os jornalistas que tudo questionam não questionam o seu próprio trabalho?

A maioria dos bons jornalistas brasileiros já não está na grande mídia; os que estão, salvo alguns ícones de altares consagrados, padecem em silêncio ou desconversam. Há os que, de vez em quando, conseguem fazer bom jornalismo e se sujeitam a não fazer o resto do tempo. Há os que se abrigam em editorias de esporte, assuntos culturais, ocupam-se de trabalhos estritamente técnicos etc.

Na midia, predomina a falsa unidade de quem chama o patrão de companheiro e aceita que a defesa do ofício seja feita por organizações patronais espúrias, comandadas desde Miami, como a Associação Nacional dos Jornais ou a Abert. É efeito do individualismo que marca a formação profissional, da falta de consciência de classe própria da classe média e dos repetidos expurgos nas redações nos últimos 55 anos; de fato, eles começaram no início dos anos 1960.

Faz sentido falarmos numa crise de credibilidade do jornalismo brasileiro? Ou da mídia brasileira?

Faz.

 

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Sobre o autor

É formado em Jornalismo pela Universidade Católica de Pernambuco. Foi repórter de Polícia do Jornal do Commercio; repórter, editor e colunista de Política do Diário de Pernambuco. Coordenou a área de comunicação social do Ministério da Saúde e ocupou os cargos de diretor de mídia regional e secretário-adjunto de Imprensa da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República. É co-autor do livro Vulneráveis – entre a emergência da vida e a incerteza do futuro, Editora Bagaço, 2015.

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