O drama íntimo dos maracatus que perdem integrantes para os cultos evangélicos

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Para dona Ceça, a conversão do filho ao cristianismo evangélico “quebrou as pernas dela”. Era ao lado dele que ela conduzia o dia a dia do maracatu Cruzeiro do Forte, o único de baque solto do Recife. No Nação Leão Coroado, três membros abandonaram um dos grupos mais antigos de Pernambuco após se converterem. Uma perda de memórias e conhecimento. No Nação Porto Rico, a filha do mestre já saiu (e voltou) após virar evangélica. No Encanto do Pina, o problema não está dentro, mas ao lado: uma vizinhança evangélica que não aceita o batuque e a dança para os orixás. As tensões entre evangélicos e membros de maracatus não chegam a minguar a quantidade de integrantes dos grupos que vão às ruas no carnaval ou em festas como as dessa semana em que se comemora o Dia do Maracatu, mas afetam – ainda que temporariamente – a estrutura dos grupos.

Com a morte de mestre Afonso no ano passado, foi a filha dele, Karina, quem assumiu o maracatu Nação Leão Coroado, no bairro de Águas Compridas, em Olinda. Semanas antes do carnaval, enquanto ensaiava para o desfile, a família lembrava a saída de três integrantes que haviam deixado o grupo após a conversão. “Prejudica porque os participantes que saíram eram bem antigos. Um estava desde que o mestre assumiu, outra era uma baiana antiga, e também saiu um batuqueiro, que estava há mais de dez anos. Já tinham uma força bem maior, todo desenvolvimento. Temos que voltar atrás e passar os ensinamentos para os mais jovens”, diz.

Dia do Maracatu
No ano passado, a Câmara dos Deputados aprovou a criação do Dia Nacional do Maracatu, celebrado no dia 1º de agosto (PL 7133/17). Aqui em Pernambuco, a data é comemorada por lei estadual desde 1997. O projeto de lei nacional é de autoria da então deputada federal Luciana Santos (PCdoB) e ainda aguarda aprovação no Senado.

A data, tão fora do período carnavalesco, foi escolhida por conta do nascimento do Mestre Luís de França, que comandou por 40 anos o Maracatu Leão Coroado, grupo que tem 157 anos de existência.

Falar de maracatu, é falar de religião. Apesar da existência de grupos que se dizem seculares e até mesmo de contrassensos como “maracatus evangélicos”, o maracatu é uma expressão cultural de religiões de matriz africana. Tradicionalmente, o de baque virado é ligado aos terreiros de candomblé. Já o de baque solto tem suas raízes na jurema, com os caboclos de lança e rezadeiras. Os cortejos de maracatu, inclusive, começaram para despistar a Igreja Católica, que proibia que os escravos cultuassem seus ancestrais.

Mestre do maracatu Nação Porto Rico desde 1988, Chacon Viana é também um estudioso das tradições afrobrasileiras. “Se a gente tira a religião de dentro do maracatu, o maracatu vira qualquer coisa. O maracatu no início do século 19 foi uma válvula de escape para o povo de terreiro, com a perseguição às religiões de matriz africana. Tivemos vários períodos em que proibiram os cultos. A forma de resistir a isso foi pegando o maracatu e indo com seus tambores para a rua, nas festas de santos católicos. Aí sim, os negros eram autorizados a tocar os tambores. Só que, quando a igreja católica pensava que aquilo ali era só maracatu, era o nosso candomblé na rua. Era a forma que tínhamos de cultuar e brincar com nossos orixás, de fazer com que nossa tradição se mantivesse viva. O maracatu foi uma válvula de escape para os terreiros de candomblé”, conta Chacon.

O maracatu Porto Rico é rodeado por igrejas evangélicas. A mais perto, é colada muro com muro. A 20 passos, mais outra. Na comunidade do Bode, no Pina, onde fica a sede do maracatu, Chacon calcula que há mais 12 ou 13 igrejas, algumas que funcionam em garagens de residências, outras em templos estruturados. São de denominações diferentes, mas têm em comum a proibição de que seus membros toquem no maracatu – que, por sua vez, não exige necessariamente que o membro seja do candomblé. É comum que cada maracatu de baque virado seja ligado a um terreiro, muitas vezes no mesmo lugar ou em ruas próximas. “Andam juntos todo tempo. O maracatu é minha religião, trato meu maracatu da mesma forma que trato meus orixás, não tem diferença”, conta.

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O próprio Chacon viveu na família a saída de um membro quando a filha se converteu. Durou apenas dois anos. “Ela era adulta, de maior. No dia que quis voltar, voltou. Sempre tocou desde criança, dançava também. Quando entrou no evangelismo saiu de tudo: da religião e do maracatu. Mas quando voltou, também voltou para tudo. A questão é só o respeito. Cada um possui sua posição”, acredita. Por ser um dos mais conhecidos maracatus do estado, o Porto Rico não sente tanto quando alguém sai. “Temos aí 50% de pessoal de fora, mas tem muita gente da comunidade também”, diz.

O caminho contrário também acontece, mas segundo os próprios integrantes de maracatus, com menor frequência. Isso porque o candomblé não é um religião proselitista – ou seja, não bate na porta de ninguém atrás de conversões. O fotógrafo Fábio Luiz do Monte entrou para o candomblé por meio do maracatu. Morador do Pina, passava pelo Porto Rico com frequência e, vez ou outra, tirava fotos do grupo. “O pastor não gostava, dizia que eu ia me separar da minha esposa porque estava fotografando o maracatu. Aí mudei da batista para a presbiteriana”, conta. “Hoje sou do maracatu e da religião. O candomblé tem um braço mais aberto que a igreja evangélica. O candomblé abraça mais as pessoas, seja você quem for”, diz.

É em casa que Maria Conceição da Silva, dona Ceça, conduz o pequeno maracatu Cruzeiro do Forte. Durante todo o ano ela cuida do que vai acontecer no desfile de carnaval. Prepara a fantasia dos 130 participantes, borda em paetês os mantos dos caboclos de lança. Perto do carnaval, recebe em casa uma rezadeira. Ela leva ervas para defumar os adereços e integrantes. Também faz os despachos para os santos. O sincretismo religioso é mais presente no maracatu de Dona Ceça, que guarda em casa imagens de santos e santas católicos, como também calungas.

Intolerância ameaça maracatus

A escolha de uma religião, claro, é algo pessoal. Quando alguém se torna evangélico e deixa um maracatu, há lamento no grupo, mas também compreensão. O maracatu é uma expressão cultural de uma religião e, ao pertencer à outra, é até natural a saída.

Outra questão, de natureza bem diversa, é a agressão e o cerceamento que algumas igrejas evangélicas fazem aos maracatus. Vários já fizeram denúncias de intolerância religiosas e racismo, como o Cambinda Estrela e o Encanto do Pina.

Para o carnaval deste ano, o Encanto ensaiou na rua São Benedito, no Pina, onde também fica uma igreja evangélica. Membros da igreja tentaram fazer um abaixo-assinado para retirar o maracatu dali. Não conseguiram ir adiante porque a comunidade não comprou a ideia. “É um trabalho árduo. Sempre temos que estar conversando com as pessoas. É tenso”, comenta a mestre do Encanto do Pina, Joana Dark, única mulher a comandar um maracatu de baque virado no Recife.

No caso do Encanto do Pina, a tática da igreja evangélica que fica na mesma localidade é abordar crianças e mães que vão para as atividades sociais do grupo. “Falam que o maracatu é coisa do demônio. É uma lavagem cerebral que eles fazem, principalmente nos jovens, nas crianças. E fora isso tem a intolerância de alguns moradores que, mesmo não sendo evangélicos, se influenciam e não deixa os jovens participarem das nossas atividades”, conta Joana.

Há 11 anos no comando do grupo, Joana Dark sempre teve problemas com evangélicos que tentam cercear a liberdade religiosa do grupo. Em 2015, a briga com uma vizinha chegou a ir para o Ministério Público de Pernambuco (MPPE), que conta com o Grupo de Trabalho de Enfrentamento ao Racismo Institucional (GT Racismo) para acolher essas denúncias. Os casos podem ser denunciados na sede do MPPE (Rua Imperador Dom Pedro II, anexo III do MPPE, nº 447, Santo Antônio).

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