Parceria do Intercept com mídia conservadora dá “tilt ideológico” na direita, diz editor do site

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A programação inicial previa uma palestra do ministro da Justiça, Sérgio Moro, nesta sexta-feira (28). Mas depois das denúncias da “Vaza Jato” publicadas pelo The Intercept Brasil, o ex-juiz da operação Lava Jato cancelou a participação no 14º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo da Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo), em São Paulo. Era esperado que ele optasse por não enfrentar uma plateia de jornalistas de todo Brasil em meio ao escândalo que enfrenta, desde que suas conversas com o procurador do Ministério Público Federal (MPF) Deltan Dallagnol sobre a Lava Jato foram vazadas pelo veículo independente.

Por ironia, quem se inscreveu para assistir Moro ganhou passe livre para a palestra com Leandro Demori, diretor-executivo do The Intercept Brasil, site de jornalismo independente que revelou as mensagens trocadas no telegram pelos procuradores de Curitiba e o ex-juiz. Com a mesma postura contundente que mantém nas suas redes sociais, Demori falou para um auditório lotado sobre os bastidores jornalísticos das reportagens que trazem conversas entre Moro, Dallagnol e outros atores e que mostram o uso político da operação Lava Jato, entre outras denúncias. Foi ovacionado várias vezes, sobretudo quando adotava um tom mais incisivo nas respostas.

Na sabatina dos jornalistas, Demori deu detalhes sobre decisões editoriais nas reportagens da “Vaza Jato”. Falou sobre como foram escolhidas as parcerias pouco convencionais com veículos que têm linhas editoriais bem diferentes do The Intercept Brasil (TIB), como os programa de Reinaldo Azevedo, na Rádio Band News, e a Folha de S.Paulo, que receberam os diálogos acessados pelo TIB com exclusividade. A Veja já foi anunciada como a mais nova parceria nas publicações. “A gente não queria ser acusado de continuar no clube comunista, abortista, gayzista. Então, vamos chamar a revista conservadora, e falar com o Reinaldão. Aí os caras olham e ficam batendo cabeça, dando ’tilt ideológico’ e pronto”, disse arrancando risos da plateia.

Demori também comentou o caso da Globo. Depois que o fundador do TIB, Glenn Greenwald, falou que a Globo e a força tarefa da Lava Jato eram parceiras, em matéria da Agência Pública, a emissora emitiu nota onde afirma que o veículo independente a procurou para divulgação do material, mas a parceria não foi fechada porque haveria resistência da Globo com o Intercept. Demori disse que a conversa foi feita diretamente com repórteres da TV, unicamente com o interesse jornalístico de ampliar a divulgação do material, e lamentou a postura da emissora.

O editor do The Intercept não respondeu algumas perguntas, como o questionamento provocado pelo tweet de Greenwald, publicado mais cedo em resposta a uma nota do Estado de S. Paulo intitulada “O pior já passou”. A nota diz que a inteligência do governo dava conta de que o material do The Intercept se esgotou. Gleen ridicularizou a publicação e atiçou a curiosidade: “vamos esperar até o final do dia – hoje – e depois me dizer se o que o Estadão publicou é verdade”. Demori não confirmou se teremos novas reportagens até o fim do dia.

Além de ser diretor da publicação, Leandro Demori também assina as reportagens da “Vaza Jato” junto com outros jornalistas, incluindo o vencedor do prêmio Pulitzer, Glenn Greenwald. O jornalista norte-americano ficou conhecido mundialmente por denunciar os programas secretos de vigilância global nos Estados Unidos vazados pelo analista de sistemas Edward Snowden. Desde que começou a publicar as conversas entre Moro e Dallagnol, Greenwald, que mora no Brasil desde 2015 com esposo e filhos brasileiros, se tornou alvo de ataques e ameaças. Há, inclusive, um abaixo assinado que pede sua deportação.

Demori também tem uma carreira marcante no jornalismo. Ele é membro do conselho da Abraji, autor de  reportagens sobre a máfia italiana na Sicília e na Calábria, e do livro La Cosa Nostra no Brasil: A História do Mafioso que Derrubou o Império.  Antes de assumir a redação do TIB, foi editor da Piauí Magazine e chefe das operações brasileiras da Medium.

Depois de responder aos questionamentos dos jornalistas no Congresso da Abraji, o editor do site concedeu uma breve entrevista à Marco Zero Conteúdo. Ele pediu desculpas por não ter respondido antes aos nossos questionamentos. Estávamos tentando a entrevista desde as primeiras publicações da “Vaza Jato”, mas a agenda dele anda disputada. Nesta sexta-feira, finalmente, conseguimos nos falar pessoalmente, principalmente sobre o jornalismo independente no Brasil.

Geralmente são os veículos de mídia tradicionais, controlados por grandes grupos empresariais, que pautam os debates do país. Com as denúncias recentes, o TIB inverteu o jogo, dominando o noticiário nacional e (até o internacional) e assumindo o controle sobre o ritmo das publicações, apesar da avidez da mídia por novos capítulos do escândalo.  O fato dessas denúncias terem sido publicadas pelo TIB muda o patamar do jornalismo independente brasileiro? 

Não sei se muda porque o jornalismo independente no Brasil ainda tem poucos veículos, mas pode ter sido um chute inicial – talvez não inicial porque o jornalismo independente já pautou em outros momentos, não com essa magnitude -, mas pode beneficiar todo mundo, até na questão do crowdfunding (financiamento coletivo). Nosso crowdfunding aumentou pra caramba. Isso vai respingar na Agência Pública, na Ponte, na Marco Zero Conteúdo. Naturalmente uma pessoa que nunca doou para veículo independente vai olhar pro lado e dizer ‘poxa tem outro veículo aqui’. Nas universidades também. A gente tá recebendo muitas mensagens de estudantes dizendo: ‘Vocês resgataram o meu tesão de fazer jornalismo!’ Essa galera vai eventualmente montar seus sites, fundar seus veículos.

Como você acha que o jornalismo independente pode ser articular para amplificar tanto essas quanto outras denúncias?  

A gente procurou a mídia mainstream por causa do alcance. Nosso interesse não é trabalhar com veículo tal, mas fazer esse material chegar ao maior número possível de pessoas. Essa é a função desse material: chegar no maior número de pessoas.  Em um segundo, terceiro movimento, a gente pode conversar com a mídia independente pra fazer outras histórias.

A Folha de S. Paulo iniciou a parceria com vocês. A Veja já foi anunciada como parceira. Rádio BandNews também já divulgou furos com base nos vazamentos ao vivo por meio do jornalista Reinaldo Azevedo. Articular uma parceria com esses veículos não muda completamente a dinâmica das publicações? Você acha que poderia trazer algum prejuízo?

Eu acho importante ter o olhar deles em cima disso, mas a gente está reportando juntos. É claro que na Folha eles têm o tom, o estilo. Eventualmente a gente vai publicar a mesma matéria e vai se ver: os fatos são esses, mas o jeito de contar é diferente. A gente é  mais agressivo, mais punk rocker, a Folha não é desse jeito. Mesmo a gente respeitando essa diferença de tom, todo o resto, toda a espinha dorsal da informação vai ser a mesma.

Você falou na palestra que as parcerias com veículos tradicionais vão fazer estancar as acusações sobre possíveis distorções nos diálogos. O The Intercept está buscando a chancela da mídia tradicional?

A gente tá procurando pra olhar isso e ser muito mais difícil de ser atacado. Agora fica mais difícil dizer que a gente está escolhendo, que a gente é aliado de criminosos, que a gente está mentindo, ou inventou material, porque quem falar isso está falando a mesma coisa sobre a Folha e sobre a Veja. Então, daqui a pouco vai chegar numa situação que todo mundo estará publicando esse material e quem continuar com essa narrativa vai ser considerado apenas um maluco.

Glenn e você também têm dado várias entrevistas depois das publicações da Vaza Jato. Glenn foi ao Congresso, desafiou deputados. Ele tem sido muito aplaudido por esse tipo de atitude mais combativa. Você foi aplaudido com entusiasmo várias vezes quando foi mais enfático durante a palestra de hoje, mas explicou que essa personalização do jornalismo, esse apelo sobre a figura dos jornalistas é uma opção editorial de vocês. Disse inclusive que é uma questão dos novos tempos porque as pessoas querem ver pessoas. Mas você não acha que essa personalização traz um certo heroísmo? O que você acha dessa visão do jornalista como herói?

Ontem pegaram um pedaço da minha entrevista no Pânico. Os petistas mais fervorosos criticaram porque eu eu falei que acho difícil Lula ter passado pelo governo sem fazer alguma coisa. Mas é minha opinião pessoal, não sou juiz, não tô julgando ninguém. Aí pronto. Todos os petistas que já pediram minha cabeça 60 vezes no Intercept ao longo de um ano e meio voltaram a fazer isso. Uma menina comentou: na mesma semana que eu coloquei você como herói, você me decepcionou. Eu só respondi: “eu não pedi nem uma coisa nem outra. Isso é responsabilidade sua”. A gente tá fazendo nosso trabalho. Eu não tenho compromisso com o que você pensa politicamente, com o político que você defende. Se daqui a três, quatro semanas a gente publicar uma reportagem que aos olhos da narrativa pública vai favorecer o canalha que você não gosta, você vai começar a me odiar por fazer isso? Você vai ser a pessoa que hoje tá me criticando? Você vai inverter o polo?  A gente tá reportando o que tá dentro do material, não está inventando. É fato histórico. E vamos continuar reportando.

Leandro Demori no Congresso da Abraji (Crédito: Inês Campelo/MZ Conteúdo)

Leandro Demori no Congresso da Abraji (Crédito: Inês Campelo/MZ Conteúdo)

Você acredita que o fato da operação Lava Jato ter tomado a proporção que tomou, se colocando muitas vezes acima das instituições e até da própria Constituição Federal, e criando heróis nacionais foi culpa do mau jornalismo no Brasil? 

Acho que tem muita coisa. Teve 2013, a Lava Jato vem depois de um caos político absurdo, que quando a Lava Jato surge, dois anos depois tem todo o vento do impeachment. Então o país está em crise econômica, tudo virado do avesso. É o ecossistema ideal para surgir falsos ídolos. E quando surge o juiz que está combatendo a corrupção – essa palavra que o tornou intocável. Tudo o que se diz em nome disso é permitido. Então, se é por causa da corrupção a gente pode cometer ilegalidades, atropelar o processo legal. Isso é um discurso que ganhou força pelo momento do país. A imprensa embarcou nisso de forma quase natural. Não acredito que tenha sentado todo mundo e dito ‘vamos criar esse mito’. Aquilo foi acontecendo, ele foi tendo apoio popular, as pessoas foram sendo presas, a política tava super desgastada com a população, então as pessoas queriam ver mesmo político preso, empresário preso. Foi um caminho meio óbvio e, agora, me parece um caminho meio óbvio a gente contestar isso. Qual o problema disso? Nenhum. É nossa obrigação é fazer isso.

O que precisa mudar no jornalismo brasileiro e qual o papel do jornalismo independente nisso? 

Você precisa ser cético sempre, inclusive com fontes oficiais porque fontes oficiais mentem.

Sobre as acusações de crimes, vazamentos ilegais e o caso do  “pavão misterioso”, no Twitter, que publicou documentos acusando Glenn de ser apoiador do nazismo e de ter comprado a vaga do deputado Jean Wyllys para seu esposo, o deputado David Miranda, entre outras questões. O ataque à reputação dos jornalistas envolvidos nas reportagens da Vaza Jato era uma reação esperada ou isso surpreendeu de alguma forma? Vocês estão prontos para enfrentar esses ataques? 

A gente estava preparado. Não é novo. A gente é atacado há muito tempo e está lidando da melhor maneira possível.

O esposo de Glenn denunciou ameaças que eles estão sofrendo em razão das reportagens. Talvez não seja algo novo para eles, nem para você (que já disse ter sido ameaçado em outras situações). Mas, agora que vocês ganharam mais repercussão, essas ameaças se agravaram? Você sente ou sentiu medo em algum momento?  Considerou não publicar as denúncias ou parar em algum momento até agora?

Nunca pensei em não publicar. Medo todo mundo sente, mas não penso muito nisso.

Qual a sua avaliação sobre a cobertura que a mídia tem feito da Vaza Jato até agora?

A maioria está levando a sério, tendo debates, repercutindo detalhes que não exploramos tanto. A única crítica que faço à Imprensa na cobertura é o peso da discussão da fonte e do hacker, que é desmedido. É impossível você dizer que são dois problemas equivalentes. Não são. O peso do suposto hacker é absurdamente menor. Renderia um dia de debate, duas a três coluninhas no jornal e só. A imprensa que se dedica a fazer só isso está reforçando a narrativa do Moro, do Deltan e da Lava Jato de dizer que isso não tem nada demais e que nós somos criminosos. Está servindo de instrumento para isso.

* A repórter viajou a convite da Abraji.

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Sobre o autor

Mariama Correia trabalhou por mais de três anos como repórter do caderno de Economia da Folha de Pernambuco. Antes disso, adquiriu ampla experiência atuando como freelancer e em assessorias de imprensa. Tem cursos nas áreas de jornalismo de dados (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo), fact-checking e mídias digitais (Kings Brighton).

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