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Antes da universidade, o quilombo já ensinava

A experiência educacional de Conceição das Crioulas mostra como memória, cultura e resistência estruturam a pedagogia

Giovanna Carneiro / 10/02/2026

Localizada a pouco mais de 500 quilômetros do Recife, a comunidade Conceição das Crioulas, no município de Salgueiro, no Agreste pernambucano, é o território quilombola mais populoso do estado, segundo dados do Censo 2022 do IBGE. De acordo com levantamento, a localidade reúne cerca de 2.370 moradores. A relevância da comunidade, no entanto, vai além do número de habitantes e se expressa no forte investimento em educação no próprio território.

Conceição das Crioulas está entre os territórios tradicional com maior número de escolas quilombolas, somando quatro unidades: a Escola Quilombola Bevenuto Simão de Oliveira, a Escola Quilombola José Néu, a Escola Quilombola José Mendes e a Escola Estadual Quilombola Professora Rosa Doralina Mendes. As instituições atendem estudantes desde a educação infantil até o ensino médio, fortalecendo a formação educacional dentro da própria comunidade.

Com mais de dois séculos de história, Conceição das Crioulas tem sua origem registrada tanto em documentos oficiais quanto na tradição oral mantida pelos mais velhos que relatam a chegada de seis mulheres negras livres (as crioulas) à região no fim do século XVIII. Por meio da fiação de algodão, do cultivo agrícola e da produção artesanal, elas conseguiram adquirir as terras em 1802, marcando o início da consolidação do território. O próprio nome do quilombo reafirma o protagonismo dessas mulheres na conquista da terra e sua devoção a Nossa Senhora da Conceição, cuja imagem teria sido levada por elas ao local.

O fortalecimento da identidade e da formação quilombola na comunidade ganhou força a partir da década de 1990, conduzido por lideranças locais que tiveram papel central no processo de reconhecimento do território como quilombo. Nascido e criado na própria comunidade, o líder João Alfredo de Souza recorda episódios marcantes da mobilização em defesa das terras quilombolas e do processo de afirmação identitária e cultural do grupo:

“Conceição das Crioulas já era um quilombo desde o século 18, pelo que contaram os mais velhos. Mas foi em 1802 que nós conseguimos uma escritura registrada com o título oficial de Conceição das Crioulas, título conquistado por um grupo de mulheres quilombolas que vieram pra cá. Depois de arrendar a área, as mulheres trabalharam e pagaram pela terra, assim hoje nós temos oficialmente cerca de 17 mil hectares. E até os anos 1990 a gente não aprofundava muito os debates sobre quilombo, sobre raça, mas decidimos ir atrás de registrar nossa história e foi nas ações das comunidades eclesiásticas de base que esse interesse foi despertado, principalmente em 1988 quando o tema da campanha da fraternidade foi “Fraternidade e o Negro”, isso chamou nossa atenção”.

“Foi a partir daí que nós começamos a entender e olhar para a nossa condição, tendo que enfrentar falta de água, de saneamento básico, de educação, um descaso do Estado com a gente, e com isso começamos a nos organizar para cobrar. E quando decidimos que iríamos buscar o desenvolvimento para a nossa comunidade nós definimos o que seria prioridade nessa luta e a educação era uma das principais”, concluiu o líder comunitário.

João Alfredo de Souza em frente a Associação Quilombola de Conceição das Crioulas (AQCC)

Graças a articulação dos líderes quilombolas, a primeira escola da comunidade, a Escola José Néu, foi inaugurada em 1994. Naquela época, os professores que atuavam na instituição de ensino eram em sua maioria de outros municípios e não eram quilombolas, e na comunidade apenas Givânia Maria, uma das fundadoras da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq), estava terminando a graduação para começar a lecionar.

Nesse cenário, a composição de um quadro docente formado integralmente por quilombolas tornou-se uma reivindicação central das lideranças locais, como recorda José Alfredo: “nós não queríamos escola de maquiagem, nós queríamos uma escola que ajudasse a fortalecer a nossa identidade, que pudesse ajudar aos alunos, nossos filhos, nossos netos, nossos irmãos, a poder ir para essa escola e resgatar na escola também a autoestima deles, e sobretudo garantir a identidade negra, cultural, para que ela não morresse”.

Conceição das Crioulas recebeu um primeiro título de suas terras em 2000, por meio da Fundação Cultural Palmares, mas a permanência de ocupantes externos impediu a consolidação da posse plena do território. Em 2004 foi aberto um novo processo no Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), que segue em tramitação. O território reivindicado soma aproximadamente 17 mil hectares. Parte dessa área já foi assegurada: entre 2014 e 2015, o INCRA emitiu títulos de propriedade que totalizam aproximadamente 2.080 hectares, registrados em nome da Associação Quilombola Conceição das Crioulas. Ainda assim, o processo administrativo principal (n.º 54141.001339/2004-80), voltado ao reconhecimento, desapropriação e titulação de cerca de 16.865 hectares, permanece inconcluso. Embora o decreto de desapropriação tenha sido publicado em 2009, etapas como a retirada de fazendas sobrepostas, a regularização cartográfica e a titulação coletiva definitiva do território ainda não foram finalizadas.

Plano Político Pedagógico Diferenciado

Em sua dissertação de conclusão do mestrado em Desenvolvimento Sustentável Junto a Povos e Territórios Tradicionais, defendida na Universidade de Brasília, Márcia Juscilene do Nascimento, conhecida como Márcia Crioula, apresentou a pedagogia crioula, uma metodologia de ensino desenvolvida a partir da sua experiência como professora e também como liderança que integrou o projeto de construção do plano político e pedagógico das escolas de Conceição das Crioulas.

O trabalho desenvolvido pela professora e pesquisadora foi fundamentado a partir da sua experiência na Escola Professor José Mendes, primeira escola da comunidade que utilizou de um programa pedagógico que tem como base a cultura e a história do quilombo. De acordo com o PPP desenvolvido, a pedagogia crioula contém sete fundamentos principais, são eles: território, história, identidade, organização, saberes e conhecimentos próprios, gênero e interculturalidade.

Márcia Crioula explica que o Projeto Político-Pedagógico (PPP) das escolas de Conceição das Crioulas é anterior à formalização das próprias instituições de ensino, pois nasce das concepções, ideias e do projeto de vida da comunidade. Segundo ela, o PPP não pode estar desvinculado do que se pensa para o território e para o futuro coletivo, já que expressa os caminhos que o grupo escolhe trilhar. Assim, mais do que criar algo do zero, a comunidade sistematizou uma construção que já vinha sendo gestada desde o fim dos anos 1980, período em que as lutas sindicais também integravam esse processo de formação política e social.

“A gente começou com a prática. Mesmo antes de existir no papel o nosso PPP, sempre priorizamos a história e a cultura do nosso quilombo no processo de educação da comunidade. Entendemos que, se a história do nosso povo é uma história de resistência, baseada na luta coletiva, isso também precisava estar presente nas escolas, até para fortalecer a autoestima dos alunos”, conta Márcia Crioula sobre o processo de construção do PPP de Conceição das Crioulas.

De acordo com a dissertação de Márcia Jucilene do Nascimento, a pedagogia crioula é definida como uma concepção de educação construída a partir da experiência histórica, cultural e política do quilombo de Conceição das Crioulas, articulando escola, território, memória e luta coletiva. Mais do que um método de ensino, ela valoriza os saberes tradicionais, a história local, a identidade quilombola e as formas comunitárias de organização, entendendo a escola como parte do projeto de vida do território.

É a educação voltada ao fortalecimento da autoestima, do pertencimento e da consciência de direitos, em que ensinar e aprender também significam formar sujeitos politicamente engajados, afirmar a cultura negra e produzir conhecimento desde a realidade da própria comunidade, configurando uma pedagogia de resistência, territorializada e emancipatória.

“Graças ao trabalho coletivo da comunidade, hoje o nosso quilombo é referência em Educação e um dos poucos territórios onde todos os professores são quilombolas”, celebra Márcia Crioula.

“Mas é importante também afirmar que nós não queremos que o nosso PPP seja um modelo universal para todas as comunidades quilombolas, muito pelo contrário. Nós queremos mostrar que é possível que cada comunidade crie seu plano de acordo com suas culturas porque cada território tem sua história”, conclui a professora.

A organização comunitária de Conceição das Crioulas se dá por meio da Associação Quilombola de Conceição das Crioulas (AQCC), que reúne associações de produtores e trabalhadores rurais dos diferentes sítios do território. A entidade estrutura sua atuação em diversas frentes, por meio de comissões temáticas que atendem áreas estratégicas da vida coletiva, como saúde, patrimônio, juventude, mulheres, geração de renda e educação. Esta última é coordenada por Márcia Crioula, que atua diretamente no fortalecimento das ações educacionais da comunidade.

Associação Quilombola de Conceição das Crioulas (AQCC).

Escola Municipal Quilombola José Néu de Carvalho.

Mural com registros das atividades pedagógicas desenvolvidas em Conceição das Crioulas.

Maria da Penha, professora na Comunidade Quilombola Conceição das Crioulas

Trabalho comunitário na prática

Caminhar pela comunidade de Conceição das Crioulas e conhecer o interior de suas escolas é entender na prática o conceito da pedagogia crioula. Além do perfil do alunado e do professorado negro, as paredes falam. São painéis de arte, pinturas, frases, cartazes, desenhos, que contam a história da comunidade quilombola e também celebram toda uma história afro-brasileira. Além disso, consta no PPP das escolas o contato direto com lideranças e referências quilombolas que fazem parte da comunidade, como conta a gestora da Escola José Neu de Carvalho, Antônia Raimunda da Silva: “aqui nós trabalhamos em equipe, tanto com os pais dos alunos quanto com as pessoas mais velhas da comunidade, as lideranças. Para nós eles são a memória viva da nossa comunidade então muitas vezes eles vêm aqui para dar palestra, conversar com os alunos sobre a história e a cultura do quilombo e isso é muito importante porque a gente sente o envolvimento dos alunos nessas atividades”.

Segundo a gestora, a Escola José Neu, que atende aproximadamente 150 estudantes da educação infantil e do ensino fundamental, ainda não possui reconhecimento oficial do Ministério da Educação como escola quilombola, embora há anos se identifique dessa forma.

Outro passo importante foi a criação da primeira creche na comunidade, inaugurada em 2024. A professora quilombola e formadora da Creche Maria Auxiliadora de Jesus, Maria da Penha, conta como foi o processo de criação da instituição: “algumas pessoas da comunidade, inclusive lideranças, não defendiam a creche, por causa da vivência que as crianças têm com os mais velhos, de sentar no terreiro, tomar banho no mar sul, ouvir as histórias, e havia o medo de que a creche tirasse isso delas. Mas eu sempre fui defensora. Sempre disse que, quando essa política chegasse, a gente iria trabalhar do nosso jeito, respeitando a forma de ser e de se organizar da comunidade. A ideia de creche que vem da cidade é uma, mas aqui a pedagogia e a metodologia são voltadas para o nosso jeito de ser no quilombo”.

A pedagoga afirma que a defesa da creche na comunidade ocorre desde o início dos anos 2000, quando tiveram início as discussões sobre o projeto político-pedagógico das escolas. Atualmente, a unidade atende cerca de 40 crianças e conta com quatro professoras quilombolas concursadas por meio de seleção específica, além de uma coordenação composta por integrantes da própria comunidade. Os profissionais que atuam na creche também participam de formações contínuas e direcionadas, com o objetivo de aplicar, na prática, o PPP construído pela comunidade.

Com a implantação da creche, a comunidade de Conceição das Crioulas fortalece um percurso educativo que vai desde os primeiros anos de vida das crianças até o final da adolescência e início da vida adulta, sustentado por uma formação cultural e escolar baseada em demandas, valores e objetivos definidos pela própria comunidade. É um projeto de educação articulado ao projeto de vida coletivo que mobiliza educadores e educadoras do território.

“Os professores e professoras têm feito um trabalho maravilhoso e a gente vê o resultado no senso de pertencimento ao território, no olhar, no gesto, no movimento das crianças e dos jovens da comunidade e isso não tem preço, é algo que emociona”, enfatiza Maria da Penha.

O percurso educacional de Conceição das Crioulas mostra que a educação quilombola é um projeto de território, de vida e de futuro coletivo. Quando esse projeto encontra a universidade por meio da licenciatura da UFPE, não se trata apenas de formação superior, mas de um encontro entre dois sistemas de conhecimento. É nesse cruzamento que os saberes ancestrais, organizados em práticas como a pedagogia crioula, passam a ocupar o espaço acadêmico.Com a chegada do curso superior em Educação Escolar Quilombola, na Universidade Federal de Pernambuco, esse percurso formativo ganhou uma nova etapa que se conecta com a história de Conceição das Crioulas como veremos na próxima reportagem da série Ciência dos saberes ancestrais: a força da Educação Quilombola.

  • A série foi contemplada na “Seleção Petrobras de Jornalismo – Ciência e Diversidade”.

AUTOR
Foto Giovanna Carneiro
Giovanna Carneiro

Jornalista, mestra em Comunicação pela Universidade Federal de Pernambuco e doutoranda em Comunicação na Universidade Federal da Bahia.