Herdeiros do mesmo trono: por que Raquel não é Bolsonaro e João não é Lula

Inácio França / 12/08/2026
A imagem mostra Raquel Lyra, governadora de Pernambuco, e João Campos, ex-prefeito do Recife, sentados frente a frente em uma sala elegante e iluminada, conversando de forma cordial. Ela veste roupas claras e sorri, enquanto ele usa paletó azul escuro, camisa branca e jeans. O ambiente tem piso de madeira polida, móveis antigos e cortinas claras nas janelas altas; ao fundo há uma mesa com um globo decorativo e plantas, além de quadros coloridos nas paredes. A cena transmite uma atmosfera de diálogo amistoso em um espaço institucional ou histórico, com destaque para os detalhes artísticos e arquitetônicos do local.

Crédito: Hesíodo Goés/Secom

por Tiago Paraíba* e Pedro Alcântara**

Há um mito grego que Pernambuco parece reencenar sem saber. Depois da queda de Édipo, seus dois filhos, Etéocles e Polinices, herdam juntos o trono de Tebas e combinam governar em anos alternados. Chegada a vez de Polinices, Etéocles se recusa a ceder o poder. O irmão preterido marcha contra a própria cidade natal à frente de um exército estrangeiro — os Sete Contra Tebas — não como um invasor de fora, mas como herdeiro reclamando o que considera seu por direito de sangue. Os dois se matam nos portões da cidade, filhos da mesma maldição, disputando o mesmo trono, dentro do mesmo palácio que os formou.

A eleição pernambucana vem sendo empurrada para uma falsa polarização: como se a disputa entre Raquel Lyra e João Campos fosse a mera expressão local de uma briga nacional entre bolsonarismo e lulismo. Para parte do debate público, Raquel funcionaria como polo “mais à direita”; João, como polo “ligado a Lula”. Esse espelhamento ajuda na propaganda, mas erra o gênero da história que está sendo contada. Não é uma guerra entre mundos opostos — é uma disputa de sucessão, tebana em sua estrutura, ainda que pernambucana em seu cenário.

Raquel Lyra não é bolsonarista, e João Campos tampouco é, no sentido político e ideológico, um “lulista” por natureza. O conflito que estrutura o calendário eleitoral pernambucano é outro: a disputa pelo controle do centro político estadual, pela condução das engrenagens do Estado e pela capacidade de reorganizar alianças e lideranças em um momento em que a antiga hegemonia do PSB entrou em crise e em redefinição — sua própria “morte de Édipo”, o ponto em que a autoridade que unificava os herdeiros se esvazia e o trono fica em aberto.

Por que “herdeiros do mesmo trono”? Não se trata de afirmar que Raquel e João sejam iguais, nem de reduzir seus projetos a um mesmo programa. Trata-se de reconhecer que ambos são produtos de uma mesma lógica de poder: famílias tradicionais, partido como instrumento de hegemonia, ocupação institucional e pragmatismo eleitoral. Como Etéocles e Polinices, adversários — mas competindo a partir de trajetórias que compartilham a base cultural e organizativa do mesmo ecossistema político, a mesma genealogia, a mesma casa.

No caso de Raquel, a tentativa de associação ao bolsonarismo decorre muito mais de composições eleitorais e do clima de 2022 do que de uma origem política que se confunda com o bolsonarismo. Há uma diferença crucial entre disputar votos em determinados setores da direita e ser, efetivamente, parte de um campo ideológico. O erro recorrente é tratar “conservadorismo eleitoral” como “identidade bolsonarista”.

Juntar Raquel no palanque de Flávio é um mau cálculo político — é como se Etéocles, já sentado no trono, decidisse chamar um exército estrangeiro para desfilar ao seu lado sem perceber que está emprestando força a quem tem menos. A tática parte da ideia de “aproveitar a audiência”, mas ignora o efeito real da colagem: quando há desnível de intenção de voto, quem costuma ganhar é o candidato com menor tração, enquanto quem já lidera corre mais risco de ser puxado para baixo. Com Raquel em torno de 43% e Flávio em 21% no estado, essa estratégia tende a ajudar Flávio, pois na prática vincula intensamente o bolsonarismo a um palanque forte que não o reivindica centralmente, dando vigor a um campo que em Pernambuco não conseguiu sequer articular uma candidatura orgânica ao Palácio do Campo das Princesas. Além disso, Lula já tem três palanques em Pernambuco, o que amplia base e capilaridade sem exigir que Raquel carregue um desgaste que, no fim, não reverte a favor dela, mas funciona como alavanca para a candidatura de Flávio.

Dois elementos ajudam a reorientar a leitura. Primeiro, a trajetória política: Raquel iniciou sua vida pública dentro do PSB. Em Pernambuco, isso não é um detalhe biográfico irrelevante. É parte da explicação de sua formação, da rede que a projetou e do ambiente político em que aprendeu a disputar poder — ela não chega como Polinices, do exílio, mas como quem sempre esteve dentro dos muros da cidade.

Segundo, a ruptura em 2022: Raquel venceu e interrompeu a sequência do bloco que comandava o governo estadual. Mas o sentido do que ocorreu foi, principalmente, uma reconfiguração do campo: uma parcela do velho grupo rompeu, construiu uma nova coalizão e passou a disputar a liderança do estado como concorrente. Foi menos “chegada de fora” e mais redistribuição de comando dentro de um mesmo universo de elites políticas — a disputa pelo trono que já estava, de algum modo, em família.

No fundo, o que muda é a posição na hierarquia do poder — não a gramática da política tradicional pernambucana.

Já no caso de João Campos e Lula, há proximidade eleitoral e não fusão política. A relação de João Campos com Lula tem peso, sim. Apoio presidencial pode significar tração eleitoral, capital simbólico e ampliação de alianças — é o “exército de Argos” que Polinices busca não porque tenha deixado de pertencer a Tebas, mas porque precisa de força para vencer a disputa interna. Mas o uso desse dado para transformar João em sinônimo local do lulismo não é suficiente para explicar o fenômeno.

João não nasceu dentro de uma trajetória petista típica, moldada por militância histórica ou por movimentos sociais que se tornaram identidade orgânica. Ele é herdeiro de uma linhagem que estruturou poder em Pernambuco: filho de Eduardo Campos e bisneto de Miguel Arraes.

Porém, mesmo dentro de seu próprio nicho hereditário, ele representa um afastamento da esquerda. O PSB de Arraes fazia parte de uma esquerda mais próxima do que hoje é o lulismo, defendia reformas sociais e a identificação com as lutas populares. Eduardo Campos já representou uma inflexão ao centro, incorporando uma aliança com a direita da “União por Pernambuco” e tocando um programa moderado om grandes acenos ao setor privado. João Campos, por sua vez, leva o PSB de vez para o campo do liberalismo de mercado, com discurso típico do neoliberalismo tecnocrático e um novo grupo de jovens políticos acionistas financeiros que enxergam a política como um campo profissional. Já não há mais quase nenhum resquício da real “Frente Popular”, do velho Arraes. A identidade com o lulismo e mesmo com o arraesismo, no caso do ex prefeito, repousa apenas na longínqua lembrança e prestígio de suas origens, esquentadas a cada nova eleição.

Trata-se, portanto, de uma aliança — e alianças, no mundo real, não uniformizam projetos até o ponto de apagar diferenças de origem e interesses. Lula é necessário para João ampliar base e alcance nacional; João oferece a Lula uma rota de liderança local e capacidade de mobilização no Estado. Mas isso não transforma o PSB em extensão automática do PT.

Se o PSB não opera em chave de subordinação automática ao PT, isso aparece inclusive em episódios decisivos da política nacional. Basta lembrar o apoio de setores do PSB ao impeachment de Dilma Rousseff, em 2016, e o comportamento político que, em diferentes momentos, recorreu a ataques ao PT como adversário a ser enfraquecido. Não se trata de reduzir tudo ao julgamento moral, nem de afirmar que todo PSB atua do mesmo modo em todas as conjunturas. Trata-se de constatar um padrão: PT e PSB não funcionam apenas como mesma identidade. Funcionam como forças que negociam, disputam espaço e preservam interesses partidários. Em Pernambuco essa disputa vem se dando em desfavor do PT, sempre preterido pelo PSB, vide a negativa para a vice do Recife em 2024, ou a violenta ofensiva antipetista da campanha de João Campos em 2020. Quando precisa, o PSB defende com unhas e dentes seu protagonismo no campo progressista contra o PT no Recife e em Pernambuco.

Assim, apoio de Lula não prova identidade lulista. Prova convergência tática — o exército emprestado, não o sangue da casa.

A eleição pernambucana não pode ser compreendida apenas como reflexo da polarização nacional. Há um conflito mais estrutural em curso: a reorganização do centro político estadual após o desgaste da antiga hegemonia do PSB.

Por anos, o PSB construiu uma escola de poder em Pernambuco com enorme capacidade de formar coalizões municipais, ocupar espaços estratégicos e comandar a máquina estadual. Entre 2007 e 2022, governou por quatro mandatos consecutivos e sustentou uma engenharia partidária com alcance real no território. Com a morte de Eduardo Campos, a estrutura partidária não desapareceu; ela passou a viver uma disputa interna sobre direção e herança — o pacto entre irmãos que, mais cedo ou mais tarde, precisaria ser renegociado ou rompido.

As vitórias de Paulo Câmara e a sucessão em 2018 mostraram a força do arranjo já existente. A ruptura de 2022, com a derrota do grupo indicado na época e a vitória de Raquel, abriu uma nova fase: dois polos passaram a disputar quem controla a reorganização do campo. De um lado, a tentativa dos Campos de recuperar o governo estadual e redefinir o comando. Do outro, Raquel buscando consolidar uma nova hegemonia e estruturar coalizão com capacidade de sustentar poder por ciclos completos.

É nesse ponto que a “ponte” entre Raquel e João deixa de ser teórica. Lula funciona como ativo central na disputa — mas não porque ambos compartilhem a mesma identidade. Funciona porque, em Pernambuco, o centro político disputa também quem consegue atrair e organizar apoios nacionais e quem tem maior capacidade de costurar frentes amplas. Cada um busca seu Argos particular, sem deixar de ser, no fundo, filho da mesma Tebas.

Quando a propaganda muda, não quer dizer que o conteúdo mudou. João Campos e Raquel Lyra exploram imagens associadas à renovação, mas é preciso tratar esse recurso com cuidado. A modernização da comunicação e da gestão pode ser uma mudança real de método, mas também pode ser apenas mudança de linguagem. Programas podem sofrer ajuste de tom sem alterar a forma como o poder é concentrado e administrado. Trocar de armadura não significa deixar de lutar pelo mesmo trono.

Em outras palavras: não basta perguntar “quem parece novo”. É necessário perguntar “o que muda na prática”.

A pergunta certa: projeto de desenvolvimento ou disputa de herdeiros?

A esquerda não pode entrar na armadilha de escolher primeiro um lado e só depois discutir projeto — não pode se tornar mais um exército convocado para os portões de Tebas, torcendo por qual irmão vai cair primeiro. Se o debate se resume a “quem é mais lulista” ou “quem está mais contra Bolsonaro”, perde-se a dimensão decisiva para o eleitorado que busca transformação real.

A pergunta orientadora deveria ser outra: quais propostas enfrentarão desigualdades estruturais? Quem tem resposta consistente para déficit habitacional, saneamento e precarização do trabalho? Quais caminhos para segurança pública que não se limitem ao repertório de punição como substituto de política? Como garantir desenvolvimento do interior para além de obras dissociadas de sustentação econômica e de participação social? Como enfrentar concentração econômica e desigualdade racial como problema estrutural, não como promessa episódica de governo?

Porque Pernambuco não precisa apenas trocar quem administra as contradições pelos próximos quatro anos. Precisa, sobretudo, construir outro projeto de poder — capaz de alterar prioridades, distribuir melhor os frutos do crescimento e fazer a vida da maioria deixar de ser variável dependente da arquitetura das elites.

A tarefa: construir alternativa sem cair na eleição-amostra

Nem Raquel é Bolsonaro por “ter alianças conservadoras”. Nem João é Lula por “estar ao lado de Lula”. O argumento central é simples: aliança eleitoral não é identidade política, e rótulos importados não substituem análise do campo de disputa.

Raquel e João são adversários, com projetos e trajetórias distintas. Ainda assim, operam dentro do mesmo ninho: estruturas tradicionais, famílias e partidos como máquinas de poder, capacidade de ocupar instituições e produzir alianças. A disputa real, portanto, é pelo comando desse ecossistema — e não pela simples troca de “lado” ideológico.

Em Tebas, o mito termina em fratricídio: os dois irmãos se destroem mutuamente nos portões da cidade, e o poder passa a Creonte por decreto, fechando o ciclo trágico sem que nada na cidade realmente mude. É essa repetição que Pernambuco precisa recusar. A esquerda precisa recusar o papel de escolhedora de herdeiro. Precisa disputar o sentido da eleição e construir autonomia suficiente para dialogar com os eleitores que se mobilizam hoje por Lula, com firmeza contra o bolsonarismo quando necessário, e com um programa claro de transformação social em Pernambuco.

Essa é a diferença entre participar do jogo da tradição, torcendo para ver qual herdeiro cai primeiro nos portões da cidade, e preparar a ruptura com o modelo que reproduz desigualdade sob novas embalagens — a diferença entre esperar o próximo Creonte e recusar que o trono continue sendo o único prêmio em disputa.

*membro da Executiva Nacional do PSOL e militante da Ação Negra

**professor e vice presidente do PT Pernambuco

AUTOR
Foto Inácio França
Inácio França

Jornalista e escritor. É o diretor de conteúdo da MZ.