Com telão inflável na rua e uso de IA, audiovisual pernambucano se mobiliza para reeleger Lula

Raíssa Ebrahim / 23/10/2026
Foto de uma sessão de cinema ao ar livre realizada à noite em uma rua, com dezenas de pessoas sentadas em cadeiras plásticas voltadas para uma grande tela inflável com a inscrição “Cinema Sem Teto”. A maioria do público veste roupas e bonés vermelhos, enquanto a tela exibe a imagem de uma pessoa falando; ao redor, há postes de iluminação, construções urbanas e equipamentos de som, compondo um ambiente de evento comunitário e cultural.

Crédito: Divulgação/MTST

Na eleição mais acirrada da história do Brasil, o audiovisual pernambucano tomou as redes e as ruas para conquistar votos pela reeleição do presidente Lula (PT). De telão inflável em praças públicas a produções com Inteligência Artifical (IA), trabalhadores do setor estão engajados nesta reta final de campanha para dialogar com os eleitores através do cinema.

O projeto Cinema Sem Teto, uma iniciativa ligada ao Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), está percorrendo localidades na periferia do Recife com um telão inflável, cadeiras e um panelão de munguzá para exibir produções audiovisuais com mote político num convite para debater o cenário eleitoral do segundo turno.

A ação já passou pelo Morro da Conceição, na zona norte, quando uma sessão bem cheia, feita em articulação com o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e o Movimento Mãos Solidárias, exibiu Anatomia do Caos, produção dirigida por Dandara Ferreira, que aborda a condução da pandemia de covid-19 no governo Jair Bolsonaro. Assista aqui ao documentário completo.

Foto noturna de uma exibição de cinema ao ar livre, com uma grande tela inflável identificada como “Cinema Sem Teto” ocupando a maior parte da cena. Na tela, aparece uma pessoa participando de uma reunião ou audiência, usando máscara e falando ao microfone, enquanto crianças e outras pessoas acompanham a projeção em um espaço público iluminado, cercado por árvores, postes de luz e estruturas urbanas ao fundo.

Cinema Sem Teto leva documentários para bairros periféricos

Crédito: Divulgação/MTST

Na sequência, o grupo exibiu Não Existe Almoço Grátis, feito dentro das trincheiras do MTST, que ganhou prêmios em festivais como o de Brasília e aborda a história de três cozinheiras das Cozinhas Solidárias até o momento da posse de Lula em 1º de janeiro de 2023.

“São territórios com alguma relação com o MTST em que os agentes que fazem o convite para a gente estão ligados à defesa da candidatura de Lula, mas as sessões em si são ocupadas por gente que não necessariamente é eleitor e eleitora de Lula. Há muita gente em dúvida, gente que se absteve ou que está pensando em se abster e até bolsonaristas têm sentado nas sessões também. O que gera um clima curioso, porque vimos pessoas que declaravam voto em Flávio Bolsonaro assistir algumas sessões até o fim. E isso cria também uma possibilidade de debate posterior, que é o que a gente busca”, detalha Ingá Patriota, coordenadora do Cinema Sem Teto.

Foto noturna de uma atividade comunitária ao ar livre, com dezenas de pessoas de diferentes idades sentadas em cadeiras plásticas dispostas em uma praça ou rua, assistindo a uma projeção realizada por equipamentos montados em frente ao público. Ao fundo aparecem prédios residenciais e comerciais iluminados, postes de luz e pessoas em pé acompanhando a exibição, formando um ambiente de encontro cultural e convivência coletiva em espaço urbano.

Crédito: Divulgação
Foto de uma atividade comunitária noturna em que duas pessoas - uma mulher e um homem negros - servem alimento em copos plásticos a partir de uma grande panela colocada sobre uma mesa. Uma delas veste camiseta e boné vermelhos com a inscrição “MST Brasil”, enquanto a outra usa camiseta preta também com a mesma identificação; ao redor há cadeiras plásticas, recipientes para servir bebidas, plantas e a fachada de uma residência, compondo uma cena de organização e distribuição de alimentos em um evento coletivo.

Crédito: Divulgação/MTST

Nesta semana, o projeto percorreu a pracinha do Diário, no centro da cidade, e Água Fria, na zona norte, exibindo a série de vídeo do Revelando, que tem mostrando diversas denúncias envolvendo o senador e candidato Flávio Bolsonaro. Nestas quinta, sexta e sábado, de 22 e 24 de outubro, é a vez das comunidades Pocotó, Fazendinha e Curral, próximas a Boa Viagem, na zona sul, e também do bairro da Várzea, na zona oeste, e do Alto Santa Terezinha, na zona norte.

O “tesouraço” traduzido para as redes

A ideia de fazer um filme de terror em que um personagem foge de um serial killer, “o homem da tesoura”, uma figura inspirada em Flávio Bolsonaro, surgiu de um encontro, logo depois do primeiro turno, entre os membros da ABD-Apeci (Associação Brasileira de Documentaristas e Curtametragistas de Pernambuco/Associação Pernambucana de Cineastas). O plano terminou gerando uma série de seis vídeos curtos com uso de IA feitos pelo cineasta Tiago Calmon, para circular nas redes sociais.

Nas produções, ele aborda o corte de verba, o chamado “tesouraço”, proposto pelo candidato da extrema direita, através de um homem que persegue pessoas para tirar seus direitos.

Foi nessa reunião da ABD-Apeci que a categoria do cinema estruturou um plano de ação e aproximadamente 30 profissionais mapearam 14 frentes de trabalho autônomas, cineclubes, produção de vídeos, planfletagens digitais, exibições comunitárias e ações de rua. Aproximadamnete 100 pessoas estão envolvidas de forma direta e indireta.

Os vídeos, explica Tiago, procuram mostrar o que essa promessa de cortes dos bolsonaristas pode significar na vida cotidiana, com a perda de medicamentos distribuídos pela Farmácia Popular, do Pé-de-Meia, programa de incentivo financeiro para estudantes da rede pública, e de políticas habitacionais.

“A ideia foi trazer para a experiência concreta das pessoas o que é que significa esse tesouraço e espremer o significado concreto dessas palavras e desses símbolos numa linguagem das redes sociais com IA, coisas que caibam em 10 segundos e funcionem quase como um panfleto, um material de agitação que você olha rápido e consegue assimilar a ideia que está sendo passada ali”, explica.

Também cineasta, Pedro Severien também apostou na produção de uma pequena série para as redes, mas focada no público idoso. “Diante da massa de filmes e produções, eu foquei nessa frente mais pessoal, filmando meus pais e minha tia, Cristina Buarque, primeira secretária da Mulher de Pernambuco. Foram produções bem simples, mas que tinham esse objetivo de oferecer relatos posicionados para comunicar com pessoas com mais de 70 anos. Publiquei no meu Instagram, Facebook e soltamos pelo WhatsApp também”, conta.

Projetor e telão nas praças

Já o roteirista, diretor e produtor Caio Dornelas se articulou com grupos que já estavam frequentando praças do Recife para conversar sobre política e espalhar o voto em Lula e botou seus equipamentos para jogo para exibir em telão episódios da série Revelando.

No Instagram, ele compartilhou a experiência em San Martin, na zona oeste: “foi massa, as pessoas paravam para assistir, não conheciam o conteúdo. Boa parte já votava em Lula, mas voltaram para casa, após o passeio na praça, com novas ferramentas, novos instrumentos, novos conhecimentos para também passar a palavra adianta do voto no 13”. Nesta quinta (22), ele esteve na Brasilit, na Várzea, também na zona oeste da capital.

Foto noturna em uma praça ou espaço público, com duas pessoas observando uma tela de projeção montada ao ar livre ao lado de um brinquedo de playground. A tela exibe o rosto de uma pessoa durante uma apresentação em vídeo, enquanto, ao redor, há árvores, postes de iluminação, algumas pessoas circulando e prédios ao fundo, criando um cenário de exibição audiovisual comunitária em ambiente aberto.

Cineasta Caio Dornelas levou seu equipamento para bairros da zona oeste

Crédito: Beatriz Mota/Marco Zero Conteúdo

AUTOR
Foto Raíssa Ebrahim
Raíssa Ebrahim

Vencedora do Prêmio Cristina Tavares com a cobertura do vazamento do petróleo, é jornalista profissional há 12 anos, com foco nos temas de economia, direitos humanos e questões socioambientais. Formada pela UFPE, foi trainee no Estadão, repórter no Jornal do Commercio e editora do PorAqui (startup de jornais de bairro do Porto Digital). Também foi fellowship da Thomson Reuters Foundation e bolsista do Instituto ClimaInfo. Já colaborou com Agência Pública, Le Monde Diplomatique Brasil, Gênero e Número e Trovão Mídia (podcast). Vamos conversar? raissa.ebrahim@gmail.com