Jorge Miranda Jordão (Crédito: álbum de família)

Desembarquei em São Paulo com o ego em frangalhos, exatamente um mês depois de ser reprovado no exame psicotécnico para passar de estagiário a repórter no Jornal do Commercio. Sim, fui reprovado em psicotécnico de jornal. Imaginem o estrago na autoestima de um rapaz de 22 anos.

Nesse estado de espírito cheguei à portaria da rua Major Quedinho na esperança de conseguir emprego no Diário Popular. Levava uma pasta com recortes de minhas matérias já publicadas no Recife e uma carta de recomendação assinada por Múcio Borges da Fonseca, um jornalista pernambucano, radicado há muitos anos em São Paulo como empresário, mas que tinha passado a maior parte da vida em redações. Na do Última Hora, foi colega de Jorge Miranda Jordão, diretor de redação do Diário Popular. Múcio era primo de uma tia, por isso topou, generosamente, me recomendar.

Fui logo ao Diário Popular, pois Múcio tinha a informação de uma vaga aberta na editoria de polícia. Esperançoso, amedrontado, com o estoque de autoconfiança zerado, bati na porta de Miranda. Nem consegui entrar no prédio. O recepcionista informou que Miranda estava no Rio de Janeiro. Liguei para Múcio e agradeci a tentativa, mas ele foi categórico: “É mentira esse negócio de viagem. Ele está aqui em São Paulo. Volte lá e se apresente como Múcio Borges da Fonseca, pode mentir. A secretária sabe que sou amigo dele, mas nunca me viu. Vá lá”.

Voltei e fiz o que ele mandou. Silmara, a secretária de Miranda, me mandou subir na mesma hora. No quinto andar, ela desconfiou que o rapazola diante de sua mesa não era o mesmo senhor com quem falava ao telefone sempre que Miranda pedia uma ligação.

– Você é Múcio Borges?

– Múcio Borges Filho – e não disse mais nada.

Quando entrei na sala de paredes de vidro, o “aquário”, Miranda quase deu um pulo.

– Quem é você?

– Foi Múcio quem disse para usar o nome dele. Vim pedir emprego, ele disse que tinha uma vaga, trabalhei como repórter do Jornal do Commercio, lá no Recife, trouxe uma pasta com algumas matérias e …

– Não quero ver isso, não. Pode guardar ou jogar fora. A vaga que tem é de polícia. Você já fez polícia antes? – Miranda não era é homem de delicadezas, mas eu não estava em condições de ficar melindrado por uma grosseria à toa.

– Não…

– Você conhece São Paulo? Precisa conhecer São Paulo muito bem pra fazer polícia aqui.

– Estou aqui há 15 dias, mas aprendo.

– Nunca fez polícia, não conhece São Paulo e quer ser repórter de polícia do Diário Popular? Aqui, a gente não fica só no boletim de ocorrência, não. Vai na delegacia, mas tem que entrar na favela. Repórter tem que ouvir a versão da polícia, mas tem ouvir também a do bandido, do parente da vítima, da mãe do bandido. Aqui, polícia é fonte, bandido também, é tudo fonte.

Mais do que uma orientação profissional, tratava-se da mais clara declaração de princípios e ética jornalística que jamais voltaria a escutar.

Pensei que não tinha chances, mas ele mandou chamar “o Giba”, um magrelo, de barba negra e calvo, com jeito de gente boa. Era o subeditor Gilberto Lobato de Vasconcelos.

– Giba, esse menino diz que é repórter. Ele vai ficar uns dois ou três meses lá com vocês. Depois a gente vê se dá para ficar com ele na vaga do Zanfra.

Fiquei quatro anos na calorosa redação do Diário Popular, o mais instigante jornal em que já trabalhei. Pouco mais de um ano depois, provavelmente por causa de meu desempenho na cobertura do massacre do Carandiru, fui promovido por ordem de Miranda. Mais do que uma promoção, uma lisonja, a maior da minha vida.

Aos poucos fui aprendendo quem e o quê era Miranda. Costuma-se usar a palavra genial nesses casos, mas isso não o traduz. Miranda personificava a coragem que o jornalismo precisa ter. Narrados hoje em dia, os exemplos que ilustram sua coragem para publicar ou não publicar (como no famoso caso da Escola Base) deveriam envergonhar os diretores de redação dos jornais, portais, rádios e TVs do século XXI.

Tempos depois, minhas leituras revelaram que sua coragem não era apenas editorial, mas também física. No livro Cães de Guarda, a historiadora Beatriz Kushnir revela o papel que Miranda desempenhou na resistência ao golpe militar de 1964 quando dirigia a primeira versão da Folha da Tarde. Entre outras coisas, ele – bom partido, cheio da grana, com um cargo importante – escondeu Carlos Marighella em seu apartamento durante semanas, enquanto lotava a redação do jornal com militantes das organizações de esquerda. Eram editores, repórteres e revisores que precisavam de emprego para se livrar da clandestinidade. Tudo isso nas barbas dos donos do jornal, fervorosos colaboradores da repressão.

A frase “não podemos contrariar os interesses do dono”, justificativa que os editores da atualidade usam para explicar a própria submissão, era inaceitável para Miranda Jordão. Ao menos, em sua passagem pelo Diário Popular, jornal que pertencia a Orestes Quércia, político com muitos outros negócios, multiplicados magicamente assim que deixou o Governo de São Paulo.

Em alguns desses negócios o sócio do patrão era Wagner Canhedo, o mesmo empresário que havia comprado a companhia aérea Vasp no leilão de privatização promovido quando o próprio Quércia era governador.

É óbvio que, na redação do Dipo, todos sabíamos disso.

Por essa razão, quando o repórter da editoria de polícia Antônio Carlos Silveira chegou da rua com a informação do indiciamento em inquérito de Canhedo por lavagem de dinheiro e remessa ilegal de dólares para o exterior, era a perfeita imagem de um homem frustrado. Seu desânimo era contagioso, afinal ele tinha uma matéria exclusiva, um furo de interesse nacional, que o jornal jamais publicaria.

Isto é, jamais publicaria se o diretor de redação fosse outro.

Com Miranda Jordão, a cantiga era diferente. Ele esfregou as mãos ao final do relato feito pelo editor. Chamou o repórter, escutou todos os detalhes do inquérito da polícia civil e nem parou para refletir, ponderar ou telefonar para o patrão.

“O que é isto aqui na página de Economia?” – foi a pergunta que fez ao secretário gráfico. “Publicidade”, foi a resposta. Miranda mandou derrubar o anúncio para publicar a história de Canhedo. A única concessão foi publicar na página de Economia, não em Polícia.

Seus auxiliares diretos emudeceram. O editor-executivo Luizinho de Paula, o número dois na hierarquia da redação, perguntou, como quem arrisca um conselho:

– Ô Miranda, sabia que Canhedo é sócio de Quércia?

– Não, não sabia. Ele nunca me disse nada. Tô sabendo agora. E agora é tarde.

O editor de Economia engolia em seco, antevendo a corda no pescoço. Paulo Breitenwieser, o de Polícia, saiu do aquário onde o jornal era fechado todos os dias para contar a notícia à equipe.

O repórter escreveu a matéria cuidadosamente, a todo instante tirando as dúvidas de ortografia e querendo saber sinônimos para certas palavras, mas não omitiu nada, apesar da certeza de que seria seu último texto para o jornal.

No dia seguinte, só o Diário Popular deu na primeira página a notícia do indiciamento em inquérito em vários crimes do sócio do dono do jornal.

Foi a primeira e única vez que vimos Orestes Quércia na redação. Imaginamos a demissão de Miranda. Equívoco total. Ele já estava com a minuta do texto que seria publicada na capa da edição seguinte, um texto no qual Orestes Quércia afirmava seu “compromisso democrático, a independência do jornal e sua completa ignorância dos delitos cometidos pelo sócio”, ou melhor, ex-sócio a partir daquela data.

Quércia sugeriu apenas que o texto fosse assinado com sua própria caligrafia e não com as fontes de impressão convencionais. Seu pedido foi atendido.

Na única vez em que entrevistei Miranda, já pelo Diario de Pernambuco, em 1999, tratei do caso da Escola Base, que completava cinco anos. Ele me explicou que decidiu não publicar a fantasiosa história dos donos da escola acusados de abuso sexual das crianças no jardim de infância por “instinto”. Simples assim. Quando escutou o relato do repórter, “sentiu” que havia alguma coisa errada. Confiou em sua voz interior e assumiu o risco. Coragem é o nome disso.

Há poucos anos, escrevi sobre ele num antigo blog que mantive. Sua filha Tatiana encontrou os textos com a ajuda do google e fez contato. Aproveitei para tentar chegar a Miranda e entrevistá-lo. Imaginei que poderia usar o resultado da conversa para um livro entre a ficção e o real. Miranda não se animou, mas mandou recado pela filha: “Vá fazer jornalismo pela internet. Eu sou o passado”.

Acatei sua última ordem. Aqui estou na Marco Zero, tentando usar o que aprendi naquela entrevista que me garantiu o emprego.