Crédito: Manuela Simões

por André Frej Hazineh* (com fotos de Manuela Simões)

Há palavras que embora tenham um forte significado, a utilização banalizada e, por vezes repetitiva, leva a um desgaste natural, trazendo leveza a algo que a princípio seria pesado demais para suportar.

No Brasil atual é quase um lugar comum referenciar o presidente e a turba enfurecida que o segue de fascista e de bolsonazista.

Ainda que todas as evidências apontem para um desgoverno pautado pelos ideais do fascismo (vide os ensinamentos trotskistas), a guerra de narrativas em que se transformou a arena pública brasileira reduziu o substantivo concreto a um adjetivo abstrato.

Não seria um exercício de abstração concluir de outra forma.

Outrossim (nem gosto de utilizar esse arcaicismo), há expressões que por si só carregam um fardo insustentável e insofismável: o apartheid é uma delas.

Predominantemente associada a experiência da segregação racial na África do Sul, a luta contra o apartheid presenteou o mundo com dois ícones na defesa dos direitos humanos, o ex-presidente Nelson Mandela e o ex-bispo anglicano, Desmond Tutu, ambos agraciados com o Prêmio Nobel da Paz.

Talvez passe despercebido, mas o componente da solidariedade internacional foi decisivo para a derrocada do regime de apartheid naquele país africano.

O episódio da Batalha de Cuito Canavale, em Angola, quando as forças revolucionárias cubanas tiveram atuação memorável, potencializou o processo de eliminação dessa página supremacista branca da história da humanidade.

Mutatis mutandis, há três anos visitei à Sagrada Terra Palestina Sagrada, onde o apartheid fez morada.

Naquele instante, me convenci, prevaleceu um sentimento de encantamento e deslumbramento, ainda que houvesse reconhecido as facetas de mais um ignominioso regime de apartheid.

Como fazia 39 anos que não visitava meu território de ancestralidade, além de reconstruir as pontes genealógicas e os hiatos da existência, privilegiei o turismo religioso, cultural e gastronômico.

Agora em abril de 2022 a história foi bastante diferente, fui testemunhar a história a se mover na minha frente e na minha mente, tudo junto e misturado com o Ramadã, o mês sagrado do islã, a Semana Santa cristã – católica e ortodoxa – e a páscoa judia.

Testemunhei, sobretudo, o apartheid nas singelas atividades cotidianas e o opróbrio de viver e sobreviver sob um regime de apartheid.

Em conversa com uma prima (que mora em Bethlehem) minha tia idosa (que mora no Brasil) se surpreendeu com a proibição de ela visitar Jerusalém a qualquer tempo: apartheid, não há outra palavra.

A água que jorra abundantemente nos assentamentos ilegais é a mesma que falta nas casas palestinas: apartheid, não há outra palavra.

Pessoas cristãs ortodoxas que vivem na Palestina serem impedidas de celebrar a Páscoa na Igreja do Santo Sepulcro: apartheid, não há outra palavra.

Pessoas muçulmanas serem impedidas de participar das celebrações na Mesquita de Al-Aqsa, inclusive com bombas sendo lançadas de drones: apartheid, não há outra palavra.

Muros a dividir cidades, bairros e vilas: apartheid, não há outra palavra.

Estradas exclusivas para cidadãos e cidadãs israelenses: apartheid, não há outra palavra.
Postos de controle impedindo a livre circulação: apartheid, não há outra palavra.

Paro por aqui o rol exemplificativo, pois faltaria tinta para escrever tantas laudas – ou gigas de memória – retratando as violações de direitos humanos de um estado teocrático cuja essência é a segregação.

Volvendo a abordagem inicial sobre a banalização de palavras e expressões, os recentes relatórios a atestar a política de apartheid do estado de Israel demonstram que não se está a banalizar o apartheid quando o alvo é o estado judeu.

A Organização não Governamental israelense, B’Tselem, em 2020 apontou um regime de apartheid e supremacia judaica do Rio Jordão ao Mar Mediterrâneo.

Em 2021, na mesma direção da ONG israelense, a Human Rights Watch classificou como crime de apartheid a política segregacionista de Israel, em relatório de mais de duas centenas de páginas.

Finalmente, em 2022, a Anistia Internacional, num relatório de 280 páginas, descreve minudentemente os crimes de Israel, identificando o apartheid em cada ação sistematicamente executada pelo estado judeu.

O apartheid promovido por Israel, como se observa, é uma constatação incontestável, denunciado abundantemente por quem vivenciou na pele tal ultraje, Nelson Mandela e Desmond Tutu.

Nesse sentido, é urgente se valer da experiência histórica, como no episódio épico de Cuito Canavale, e conclamar a comunidade internacional a prestar a mesma solidariedade que hoje manifesta seletivamente ao povo ucraniano.

Não dá mais pra tolerar a indiferença ao sofrimento do povo palestino, são quase 75 anos de violação dos direitos humanos, de limpeza étnica e de segregação promovidas pelo estado de Israel.

Não dá mais para tolerar posturas como a do estado brasileiro (o Brasil sionista por assim dizer), que reiteradamente se abstém em votações na Organização das Nações Unidas que teriam o condão de condenar o estado de Israel pelos crimes de lesa humanidade.

Não dá mais pra tolerar os bilhões de dólares que os Estados Unidos enviam a Israel anualmente, sustentando esse regime aviltante.

Não dá mais pra tolerar o intolerável: a insustentável torpeza do apartheid.

* Jornalista, analista judiciário do TRE-PE e membro do coletivo Aliança Palestina Recife