A redução da política a uma dinâmica de resistência é o fim da política, critica Safatle

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A esquerda brasileira falhou e, pior, insiste no erro. Seus fracassos ajudaram a conduzir a extrema-direita ao poder no Brasil. Ela não soube fazer a leitura de junho de 2013 e dar uma resposta para o desejo anti-institucional que anima parte importante da população brasileira. Ao contrário do campo conservador, que enxergou a insustentabilidade da política de conciliação e colocou de pé um projeto de ruptura, a esquerda insiste no modelo de construção de consenso responsável pela paralisia da sociedade brasileira.

A análise ácida e contundente da cena política do país governado por Jair Bolsonaro vem do professor do Departamento de Filosofia da USP e escritor Vladimir Safatle. Compositor premiado por trilhas sonoras de peças de teatro, na última década notabilizou-se no campo da filosofia e da análise política como autor de duas dezenas de livros sobre os temas e titular de coluna semanal na Folha de S.Paulo. Sua despedida do jornal aconteceu em junho.

Para Safatle, a esquerda criou pânico dos movimentos de rua e deixou de disputar a hegemonia nesse espaço público. Falta também clareza sobre os horizontes e propostas do campo progressista para a economia e a política, restando falar do social, onde reverberam as experiências do governo Lula. Ele aposta numa insurreição popular: “a experiência do empobrecimento não mente, as pessoas já estão sentindo”, mas alerta que “o que vai sair disso é impossível saber, pode ser tanto melhor quanto pior”.

Safatle, que se filiou ao PSOL em 2013, esteve no Recife na primeira semana de outubro para participar do seminário Que País é Esse? – Comunicação e Política em uma democracia em crise, no campus da UFPE. Também participou de debate na Faculdade de Direito e até discotecou numa festa antes de deixar o Recife. Abaixo, estão os principais trechos de entrevista que concedeu para o Programa Fora da Curva, que contou com a participação da Marco Zero Conteúdo e também do professor do Departamento de Comunicação Social da UFPE Bruno Nogueira e da professora da Faculdade de Direito Mariana Fischer.

O filósofo e escritor – filho do ex-guerrilheiro da ALN Fernando Safatle – é um crítico enfático da ideia de frente democrática contra o governo Bolsonaro. “Frente pra que exatamente? Porque se for para ficar resistindo… a gente tem história no mundo recente que mostra que a redução da política numa dinâmica de resistência é o fim da política”. Ele diz que a esquerda precisa colocar à frente do debate um projeto político e econômico porque a pauta econômica é “transversal por excelência e une todos os espoliados”.

“No lugar em que a esquerda entendeu que a política tinha ido para os extremos e que, portanto, ela tinha que ir também para os extremos, você conseguiu paralisar o processo” diz Safatle, citando a postura do Partido Trabalhista inglês pós-Brexit.

Num texto recente você afirma que o pacto social do país acabou. Qual sua perspectiva sobre a democracia no país hoje?

O Brasil, depois da ditadura militar de 1964, procurou constituir uma espécie de democracia de grandes conciliações e de grandes acordos. Essa foi a marca da Nova República durante 30 anos. Esse modelo fracassou completamente. A tentativa de o Brasil consolidar uma democracia com algum nível de institucionalização se demonstrou absolutamente falha, e as causas dessa impossibilidade nunca foram de fato pensadas, nunca foram analisadas de maneira profunda como deveria ser. A extrema-direita brasileira compreendeu esse diagnóstico antes de todo mundo. Ela compreendeu que, de fato, existia um horizonte de conciliação que havia sido responsável, entre outras coisas, pelo sistema de paralisia e de bloqueio da sociedade brasileira. E ela propôs uma ruptura. É importante lembrar que a gente está diante de um governo que se vê como protagonista de uma revolução, de uma revolução conservadora, mas de uma revolução. E o termo está presente no discurso de todos eles, de uma maneira muito explícita. Eu proporia tomar isso de uma maneira séria. Dizendo que eles tiveram um diagnóstico correto. Não é à toa que eles estão no governo. Pena que as respostas sejam catastróficas.

Nesse mesmo texto você diz que o Brasil precisa quebrar as ilusões a respeito de si mesmo. Que ilusões seriam essas? O que está por trás dessas ilusões?

Entre outras coisas é um país que acreditava que era possível estabelecer alguma forma de desenvolvimento sem assumir seus conflitos e sem assumir as consequências deles. Veja a situação da Argentina, por exemplo, uma situação em que eles não têm o horizonte que nós temos, de uma fragilidade tão grande da nossa vida institucional, que até a possibilidade de um golpe de estado não é uma coisa irreal. Pelo contrário, a gente dificilmente pode descrever a situação da democracia brasileira como uma situação de democracia plena. Vivemos uma situação de degradação de qualquer ideia normativa mínima. A Argentina conseguiu não chegar nesse ponto. Porque, entre outras coisas, ela soube sair da ditadura militar. O Brasil foi incapaz de sair da sua própria ditadura. Ela permaneceu de maneira surda, permaneceu de maneira muda, mas ela permaneceu. A estrutura necropolítica do Estado brasileiro permaneceu intocável, seja em governos de esquerda, de centro ou de direita. É sempre bom lembrar que a Argentina hoje tem mil pessoas presas pela participação na ditadura militar. O Brasil tem zero, ninguém. Essa é uma das razões pelas quais nós chegamos onde nós chegamos.

Não assumimos nossos conflitos?

Isso é resultado não só de uma auto-ilusão que o Brasil tem de si mesmo, mas também de um certo modelo de governabilidade que nos assombra como um fantasma. Esse modelo é uma herança do varguismo. Esse modelo de grandes conciliações, onde você coloca alianças completamente heterogêneas… Lembra o que era a aliança no governo Lula, no governo Dilma? Aliança com 12 ou 13 partidos, onde você tinha desde o Partido Social Cristão, da ala fundamentalista dos evangélicos, até o Partido Comunista do Brasil, que tinha comunismo pelo menos no nome. Era óbvio que tratava de você gerir um modelo de inércia e de paralisia que o Brasil carrega desde sempre. A gente simplesmente continuou esse processo. Só que agora a gente chegou no ponto em que não é mais possível ter ilusão de que esse processo pode nos garantir algum tipo de permanência institucional.

Você tem dito que a partir de um certo ponto não é apenas inútil, mas espúrio manter o diálogo. E tem falado de ruptura. Que ruptura é essa a partir do campo da esquerda?

Essa ideia de que política é diálogo é a degradação da concepção da política e uma incompreensão brutal do que significa mediação social. Não existe diálogo em política, nunca existiu e nunca vai existir. E isso não significa que a gente está falando de uma atividade irracional. Essa ideia espúria de um certo iluminismo pueril, de que só o diálogo é uma forma de racionalidade, é uma coisa que a gente devia se livrar o mais rápido possível. Você tem formas de vida em combate no interior da política. São formas de vida no sentido mais forte do termo. São perspectivas constituintes do que significa desejar, do significa linguagem, do que significa trabalho e que entram em conflito. E esse conflito não tem uma gramática em comum. Essa experiência que as pessoas estão tendo agora – você tenta dialogar com as pessoas que estão no campo oposto e não consegue e aí, melancolicamente, a gente chora. Isso significa simplesmente que essas pessoas não sabem o que é política, elas não têm a menor ideia do que significa. O Brasil simplesmente acordou para essas clivagens políticas, ideologicamente construídas. Nesse campo existem interlocuções, mas interlocuções não são diálogos. Essas interlocuções procuram destituir o sistema de afetos de outros campos, mas não significa que você vai criar um consenso. É impossível criar um consenso e uma das maiores misérias da política brasileira é essa, é acreditar que, afinal de contas, a gente tem alguma condição de criar consenso. A gente não tem a menor condição de criar consenso com pessoas que fazem a defesa da ditadura militar, do terrorismo de Estado, da tortura… O dia em que eu sentar numa mesa e procurar consenso com alguém que defende tortura… Você percebe? Isso é imoral. Absolutamente imoral. Tem hora que você tem que simplesmente parar de dialogar.

Mas o que significaria ruptura pro campo de esquerda hoje?

Você tem três níveis de ruptura: nível econômico, político e social. E a esquerda brasileira hoje só consegue responder em um nível: o social. Porque é lá onde ela consegue mostrar de fato a sua diferença por causa das políticas de direitos humanos, por causa das políticas de solidariedade com grupos violentados e vulneráveis e isso faz uma diferença fundamental, só que é a única coisa que nós temos. E, infelizmente, isso nunca criou nem nunca criará hegemonia porque falta ainda à esquerda uma clareza sobre o que ela quer no que diz respeito a uma ruptura política e econômica. A gente vive num momento onde o governo assumiu uma ruptura política. Ele fala “eu não negocio, eu não tenho porque negociar com o Congresso, eu tenho uma relação direta com a população, eu não confio na representação…” Veja, é fantástico… Esses eram discursos da esquerda. Só que o governo deu uma resposta conservadora e a esquerda ficou sem resposta nenhuma. Ela não conseguiu dar uma outra resposta para esse desejo anti-institucional que anima parte da população brasileira.

E no campo econômico?

É catastrófico. Ninguém sabe ao final de contas qual é o horizonte econômico da esquerda brasileira. Ela vai querer fazer o quê? Por que durante esses 13 anos, o horizonte econômico dela era o gerenciamento de um certo tipo de capitalismo de Estado com tentativas locais de distribuição. O resultado foi o que deu… As pessoas esquecem, mas esse modelo econômico, que foi muito vinculado à experiência do lulismo, ele bateu no teto em 2013. Em 2013, ele já não conseguia responder às expectativas que ele tinha criado e, depois disso, ninguém teve nenhuma outra alternativa colocada à mesa. Tanto que, quando houve a primeira crise econômica séria do segundo governo Dilma, o que foi que a esquerda fez? Ela chamou todos os economistas liberais. É como se ela falasse: “em época de bonança tudo bem, a gente tem as nossas políticas, mas em época de crise a gente não sabe o que fazer. A gente chama os economistas liberais”. Até hoje esse horizonte continua.

Como você vê a ideia do consórcio, de aliança, entre os governadores do Nordeste em oposição ao governo Bolsonaro, tentando inclusive dar conta de demandas políticas, econômicas e sociais?

O que aconteceu no Nordeste nesses últimos 20 anos é um dos fenômenos mais impressionantes da história brasileira recente. Demonstra quão certas estavam as análises de alguém como Celso Furtado lá nos anos 60 e 70, que insistia que o problema das desigualdades regionais era fundamental e que era necessário uma política econômica de desenvolvimento regional. Talvez essa seja uma das coisas em que os governos de esquerda mais acertaram. Não é à toa que o Nordeste teve crescimento chinês durante anos e anos. É uma região de uma concentração de desenvolvimento recente muito, muito impressionante. Esse é um ponto. O que eu acho interessante é que isso institui uma certa unidade política, uma certa consciência política que não se dissolve. Só que aí o que você faz com isso do ponto de vista institucional? Achei interessante você lembrar essa questão do consórcio dos governadores, porque poderia ter sido um núcleo fundamental de oposição… São nove governadores, 54 milhões de pessoas numa região absolutamente central para o país, mas o que se faz de maneira efetiva? Vamos pegar um exemplo. Vamos ver o que é que foi a reforma previdenciária. Você teve governadores do Nordeste, entre outras coisas, dizendo que a esquerda precisa ter a sua reforma previdenciária, foram frases ditas por eles, o que é uma coisa, eu diria, aberrante. A esquerda não tem que ter reforma previdenciária nunca porque a esquerda não tem nenhum comprometimento com a perpetuação da sociedade do trabalho. O que a gente quer é que as pessoas saiam do trabalho o mais rápido possível. Se elas puderem se aposentar com 50 anos ou 40 anos… A gente quer que as pessoas tenham a liberdade para ter o tipo de atividade que não sejam atividades vinculadas ao trabalho que nada mais é do que um processo que sempre será alienante. Uma posição de esquerda seria dizer “não faz falta nenhuma uma reforma previdenciária no Brasil”, onde você tem uma inibição tributária das classes mais favorecidas. Não há nada melhor do mundo do que ser rico no Brasil. Eu pago 27,5% de imposto e o sujeito que é banqueiro também paga 27,5% de imposto, quando paga. Num país como os Estados Unidos você tem 32% de imposto. Na Inglaterra, o país que inventou o liberalismo, você paga 50%, ou seja, no horizonte como esse você devia politizar, usar a estrutura de luta de classe para politizar esse debate e não se faz isso. Isso demonstra muito claramente o tipo de limite, que não é o limite da ideia, a proposta é muito boa, mas o limite dos personagens, de quem compõe.

E a proposta de organizar a oposição em grandes frentes, o chamado campo democrático, com representantes de partidos de esquerda, de centro e até centro-direita?

Eu primeiro faria uma distinção até porque eu faço parte de uma comissão de direitos humanos, que chama Comissão Arns que tem esse modelo de frente, tem pessoas do PSDB e tal… Em certos campos dos direitos humanos, você tem certas sensibilidades que permitem criar algum tipo de consolidação, só que, do ponto de vista político, isso é uma catástrofe. Uma das coisas mais impressionantes da ditadura militar brasileira – o que demonstra que esse pessoal sabia o que é engenharia política – é que eles criam a sua própria oposição. Dificilmente você vai achar uma ditadura que tenha tido essa sagacidade. Você dissolve a oposição e, ao invés de você impedir, você cria uma oposição oficial, ou seja, o MDB é o fruto direto da ditadura militar. O que isso significa? Poder é gestão das normas e gestão das margens. Então ela já cria uma figura que vai gerindo as margens. A gente está vendo isso acontecer agora de novo. Você tem o governo e você vai constituindo uma oposição que, na verdade, é uma oposição que absorve os eixos fundamentais do governo. É uma oposição que diz mais ou menos assim: “não, o Bolsonaro é alguém destemperado, que fala o que não devia falar, alguém que não tem consciência ecológica e blá, blá , blá… tudo bem, mas o programa econômico dele é bom”. Você vai criando a oposição dos sonhos. Você perpetua a base de desmonte no campo das dinâmicas de luta de classes no país, enquanto você vai tentando criar várias matizes, você tem uma matiz mais radical, você tem a matiz mais liberal, você tem a matiz mais cosmopolita, você tem a matiz mais nacionalista, em cima do mesmo horizonte. Eu diria que é a capitulação final. Isso aqui é uma engenharia política extremamente elaborada, e em operação. A única coisa que eu diria sobre essa questão de frente é “frente pra quê”? “frente pra quê, exatamente”? Porque se for para ficar resistindo, veja, a gente tem história no mundo recente que mostra que a redução da política numa dinâmica de resistência é o fim da política, veja o caso da Itália. Durante décadas, praticamente duas décadas, a Itália girou em torno do avô do Bolsonaro que é o Silvio Berlusconi (ex-primeiro-ministro italiano), que é a arqueologia de todos eles. Você tinha um país que tinha setores extremamente avançados de esquerda, os autonomistas, todos eles foram se constituindo numa grande frente, tentando barrar, não conseguiram. Barraram depois voltava, depois voltava, até o ponto em que Berlusconi quando sai de cena, o que aparece? Uma pessoa pior do que o Berlusconi, um fascista clássico… O que demonstra que essa política é completamente ineficaz.

Tem um filósofo que compartilha muito bem desse teu diagnóstico, que é Ernesto Laclau (teórico político argentino), mas a saída que ele vai apresentar é um pouco diferente da sua, já que Laclau vai falar que tem um tipo de populismo, que é um populismo regressivo da extrema-direita a la Bolsonaro, mas tem um outro tipo de populismo, um populismo progressista, um populismo de esquerda, e a gente chega numa questão que é absolutamente central hoje no Brasil, será que a esquerda deve investir numa saída populista a la Lula ou perde muita energia insistindo nesse ponto?

O governo Lula foi um governo populista de esquerda. O problema de falar em populismo no Brasil é que, por uma tradição uspiana, quando se fala em populismo se vê o populismo como regressão, uma figura da irracionalidade política. Como se fosse assim, qualquer coisa fora dos acordos da democracia liberal é irracional e o nome desse irracionalismo é o populismo. O que é populismo dentro dessa perspectiva do Laclau é o populismo de constituir hegemonias através de uma constituição de redes equivalências dentre demandas contraditórias entre si, porque você tem demandas que vêm de vários horizontes, demandas populares, demandas de oligarquias descontentes, demandas com claro viés classista, demandas com claro viés identitário… então você cria um tipo de horizonte onde essas demandas entram em convergência devido à existência de uma espécie de mediador universal, que é reconhecido por todos como capaz de criar uma espécie de unidade. Isso foi feito no Brasil, esse é o modelo Lula. Veja o que era o ministério do governo Lula.

Reunia forças bem diversas.

O Ministério da Agricultura era do agronegócio e o do Meio Ambiente era para os ecologistas, aí você tinha o Ministério da Economia gerenciado, entre aspas, por um desenvolvimentista e o outro, que era o representante do sistema financeiro, que era o Meireles, presidente do Banco Central. Você tinha lá o Ministério da Defesa, que tava lá todo o setor das Forças Armadas; e você tinha a Secretaria de Direitos Humanos onde estava todo o pessoal de direitos humanos. Todos os conflitos da vida social foram transpostos para dentro do Estado. E o Lula funcionava como mediador universal. O resultado foi esse modelo. Acaba sendo o gerenciamento da paralisia porque cada uma dessas demandas vai se anulando, entendeu? O governo durou 13 anos, aí chega um tempo em que a frustração é ingerenciável. Esse modelo, volto a insistir, por um lado é um modelo de constituição de força popular pela sua capacidade de estabelecer agregações, só que essa constituição tem prazo de validade. Ela não dura muito tempo porque ela vai sendo obrigada a gerenciar todas as demandas contraditórias e isso é impossível… Por mais que seja claro que a situação da qual o Lula foi vítima, uma situação de aberração jurídica em todos os sentidos, uma questão de justiça que deve ser levada em conta, eu só lembraria o seguinte: o que significaria o governo Lula hoje? O tamanho da catástrofe que seria, porque o seu modelo de coalização e funcionamento é um modelo de pacto, numa sociedade que não tem mais pacto. Pode imaginar o que seria do ponto de vista da frustração? Seria absolutamente catastrófico. Ele traz em si um governo de ação política que não tem mais lugar. Esse país morreu e eles não entenderam. Esse país acabou, não existe mais. O que a gente chama de Brasil hoje não é o que a gente chamava há 10 anos. E não é possível que você não vai ter uma esquerda capaz de entender que aquele Brasil morreu.

No campo progressista tem gente que aposta em tomar as ruas para derrubar o governo Bolsonaro, outros acreditam que ele vai perder apoio até 2022 quando pode então ser derrotado pela esquerda nas urnas. Você acredita numa reviravolta nas ruas?

Eu acredito que o Brasil é um país pré-insurrecional, acho que de fato o país caminha para uma insurreição popular. O que vai sair disso é impossível saber, pode ser tanto melhor quanto pior. Mas o fato é que a experiência de empobrecimento, ela não mente. As pessoas estão se sentindo cada vez mais empobrecidas, daqui a um ano elas vão perceber o que de fato aconteceu. Elas têm memória, elas lembram que elas ganhavam um salário x e podiam comprar isso, isso e isso, e elas vão percebendo que elas não vão conseguir mais comprar isso nem aquilo e que seus filhos não conseguem mais ir pra universidade. Seu padrão de vida, suas relações de trabalho se brutalizaram de maneira insuportável, e elas não conseguem mais se aposentar. Eu diria que a população rapidamente vai perceber – e ela já está num nível de frustração enorme, que é o nível de frustração popular que se manifesta desde 2013. E as manifestações de rua, eu lembraria nesses últimos tempos, são manifestações monstruosas. A última manifestação dos estudantes em maio foi de 1,5 milhão de pessoas nas rua. Agora, o problema é que você não consegue incorporar esses processos dentro de uma dinâmica, isso é outra coisa. Não é que não existe movimento, o Brasil tem movimento demais, tá certo? O que não existe é capacidade de incorporação.

Como assim?

A esquerda brasileira criou um pânico de rua. Ela entra em pânico quando ela vê movimentos de rua, especialmente esses movimentos em que você não vê claramente para aonde vai, o que pode acontecer, quem coordena, quem não coordena…. O horizonte dirigista da esquerda brasileira é um negócio que não morre nunca. Só que eles não perceberam que a gente entrou numa fase da história mundial onde você tem manifestações de rua brutais sem coordenação, sem direção. Desde a época da Primavera Árabe isso foi assim. Então o que acontece? Isso pode ir tanto para um lado de transformação quanto para um lado de regressão. Mas eu diria que isso é a essência da manifestação de rua. Você tem essas explosões de rua sem hegemonia, então você vai ter que aprender a criar hegemonias na rua. Você cria hegemonia em movimento. O processo está em movimento, você vai ter que tentar interferir. E pra isso a gente não tem estratégia, não sabe como fazer, porque você sequer trabalha para isso.

Mas o governo está atento a esses movimentos…

A parte 30% da população que se aliou ao governo e vai com ele até o cemitério, eles vão em direção à catástrofe, não tem nada que os pare, o governo vai perder, se perder, 2, 3% do apoio. A parte disso, a questão fundamental é o que você faz com os outros 70%, que não conseguem mais se articular, se pensar comunidade. Pelo contrário, nesse sentido, esse problema fica cada vez mais urgente. Porque o governo pode, inclusive, aproveitar uma situação insurrecional e falar: “isso chegou nesse ponto porque eu fiquei de mãos atadas porque o Congresso não me deixou trabalhar, porque eu não consegui fazer nada, eu queria fazer muita coisa, mas a máquina da burocracia do Estado me impede, por isso eu preciso de mais poder”. Se você não tiver preparado, um discurso como esse pode funcionar.

Como você vê esse movimento de junho de 2013 até agora e onde a esquerda errou? Poderia ser de outro modo?

Eu vi pessoas dizendo que junho de 2013 não tinha nada a ver com a Primavera Árabe, mas eles têm a mesma estrutura, de amplas mobilizações sem coordenação inicial, expondo uma frustração social de larga escala, uma descrença nas estruturas institucionais e representativas e uma abertura de apropriação. Se você lembra a primeira coisa que aconteceu em 2013 foi um conflito interno ao movimento. Foram pessoas que começaram a brigar com outras pessoas do movimento… Dois anos depois você tinha duas manifestações. E mais, essa ruptura não tem mais volta. Esses grupos vão cada vez mais se radicalizar. Porque a política mundial está indo pros extremos. O Brasil está simplesmente seguindo uma dinâmica mundial. Basta você olhar para o resto do mundo e ver o que está acontecendo.

A esquerda não está compreendendo o contexto político?

O lugar em que a esquerda entendeu que a política tinha ido para os extremos e que, portanto, ela tinha que ir para os extremos, você conseguiu paralisar o processo. Veja na Inglaterra. Você teve o Brexit, mas você teve uma ressurreição do Partido Trabalhista, que hoje defende jornada de trabalho de 4 dias e tem um programa econômico que deve ser o programa mais radical da história da Inglaterra desde Oliver Cromwell (1599-1658). Nos Estados Unidos você tem uma figura como Donald Trump, mas se a eleição fosse hoje ele perderia para um sujeito que se diz socialista (o senador democrata Bernie Sanders). Setores da esquerda perceberam: “a gente precisa ir pros extremos”. Onde ela não conseguiu fazer isso, ela se degradou. Ela perdeu capacidade de articulação popular.

Foi o que começou a acontecer em 2013?

A esquerda brasileira viu 2013 como o início do fascismo nacional. Ela em momento algum procurou criar hegemonia em movimento, ao contrário, ela teve um tipo de discurso do tipo “que povo é esse que vai contra o governo do povo?”. É importante lembrar que o tipo de crescimento que o lulismo tinha prometido tinha batido no teto. Você tinha um processo em que a estrutura de concentração ficou intocada. Fala-se do combate à desigualdade, mas você pega os índices de gini que medem a desigualdade e você vai ver o que acontece com ele até 2013 é que ele vai caindo, mas ele vai caindo até o ponto em que ele estava em 1960. Tudo o que o Brasil fez foi conseguir voltar a 1960 dentro de preservação de um elite rentista… As pessoas estavam percebendo que o processo estava esgotado, mas não teve nenhuma resposta do governo.

Como você vê a educação e o trabalho na perspectiva da divisão política que existe hoje no país?

Veja como o discurso do governo é montado. É um discurso que admite uma premissa correta e tira uma consequência falsa. A premissa correta é a de que esse país, é um país de privilégios, estrutura de privilégios. Então o que é que ele faz? Ele não volta a crítica dos privilégios aos setores da economia de comando, não é o setor financeiro, não é a elite rentista. Os privilegiados são só professores, a universidade onde você recebe bolsas para não fazer nada. Mas há um dado interessante, o discurso do privilégio é mobilizado, só que num país como o Brasil, em última instância, o discurso do privilégio pode ser mobilizado de qualquer forma, pra qualquer lado. Ele joga para uma coisa, e o termo não é ruim, chamada “solidariedade negativa”, que é mais ou menos o seguinte: a ideia de que a minha situação é degradada e eu me revolto contra qualquer outro setor que tem uma situação de defesa contra uma situação degradada. Daí diz: “não é possível porque a minha situação é completamente sem defesa”. Então você não transforma isso em revolta, no sentido de que eu vou me associar àquele espoliado para lutar exatamente contra aqueles que preservam esse processo. Não, eu vou olhar pro lado pra ver, afinal de contas, quem é que tem algum tipo de sistema (de defesa) e eu vou lutar contra ele. Aí a universidade entra dentro desse horizonte.

Como ela resiste a esse enquadramento?

Só que isso se junta a dois elementos. O primeiro deles é que a universidade brasileira tem um histórico profundo de pensamento crítico desde os anos 50 e também de atuação social. A gente fala, fala, fala, mas eu lembraria que o nível de atuação e intervenção social da universidade na política brasileira é algo dificilmente comparável a outro lugar do mundo. Só que a gente está diante de um governo que tá dentro de uma batalha ideológica e que sabe que não tem como você criar uma universidade conservadora. São quatro gerações. Então vai fazer como, a não ser desmontar?Você começa com o discurso financeiro, daqui a pouco eles vão tentar colocar professores para fora. A universidade é um dos setores, junto com a classe artística, mais claramente anti-governo. Eles vão tentar desmontar os dois.

Você disse que existem dois elementos, o do viés progressista das universidades…
Tem outro lado, dramático, mas também interessante. É que essa batalha vira também uma batalha intelectual porque o setor proto-fascista brasileiro se auto compreende como um setor que teria sido ignorado em sua capacidade intelectual, ignorado na sua força intelectual. Por que? Porque você tem esquerdistas que tomaram conta de todo o aparato produtivo da intelectualidade. Tem uma passagem de um livro do Roberto Bolaño (escritor chileno, 1953-2003) que ele pensa o momento em que um crítico literário encontra o Pinochet. Pinochet vira e fala: “você sabe quantos livros o Salvador Allende leu? Nada, só jornal. Eu li vários, eu escrevi dois livros sobre história militar e eu sou tratado dessa forma…” O que ele percebeu? Que um dos elementos constitutivos da direita latino-americana é esse sentimento de ter sido desprezado intelectualmente. Então você tem o anti-intelectualismo vinculado a uma base de ressentimento muito forte que se mistura com o projeto social, criando esse tipo de caos.

Hoje existe um movimento forte nas periferias brasileiras de ocupação dos espaços institucionais da política, com pautas de gênero, raça e território que os partidos progressistas deixaram às margem por muito tempo. Como você analisa esse cenário?

Esses movimentos todos são absolutamente decisivos, importantes. Eu diria que as modalidades de transformação vão vir de uma articulação de vários pontos e várias estratégias. A ideia de você ter uma estratégia unificada como única resposta possível é um equívoco. Acho que a oportunidade de abertura para essas novas insurgências é fundamental. Eu só insistiria em um ponto: por mais que todos esses processos sejam decisivos e centrais, enquanto a esquerda brasileira não tiver a capacidade e a coragem de fato de colocar à frente o projeto global político e econômico, ela vai simplesmente ser um bombeiro que apaga incêndio. Não muito mais do que isso. Por que a pauta econômica é tão importante? Porque ela é a pauta transversal por excelência. Porque ela é a pauta dos espoliados e os espoliados são todos fora os 2 ou 3%. É a pauta que consegue criar convergência central.

Tem gente que vai falar que isso é reducionismo de classe.

Isso é uma das coisas mais medonhas que se possa colocar. Na verdade, pessoas que simplesmente anulam a dimensão de classe… Veja, não existem classes sociais, existe uma classe, que é classe detentora do processo produtivo e o resto é a não-classe. O que se procura? Criar uma articulação da não-classe. Essa sempre foi uma das ideias fundamentais do campo político de transformação desde o século XIX e continua sendo. O discurso do reducionismo de classe, ele simplesmente ignora o elemento fundamental, o único elemento que de fato conseguiu construir processos hegemônicos globais dentro da experiência política nos últimos 200 anos. Que conseguiu reconhecer e articular todos os níveis de sofrimento dentro de um processo de transformação global. Enquanto a gente continuar nesse tipo de toada, o máximo que a gente vai conseguir é transformar a política num horizonte de reparação. Uma reparação funcional e local e que tem seus limites porque essas reparações são todas frágeis. A única reparação possível é uma transformação social efetiva. Então eu insistiria nesse ponto e tenho certeza de que isso vai ficar cada vez mais evidente para a população brasileira.

 

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Sobre o autor

É formado em Jornalismo pela Universidade Católica de Pernambuco. Foi repórter de Polícia do Jornal do Commercio; repórter, editor e colunista de Política do Diário de Pernambuco. Coordenou a área de comunicação social do Ministério da Saúde e ocupou os cargos de diretor de mídia regional e secretário-adjunto de Imprensa da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República. É co-autor do livro Vulneráveis – entre a emergência da vida e a incerteza do futuro, Editora Bagaço, 2015.

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