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Comemorar o aniversário em plena Olinda, na sexta-feira pré-carnaval, tinha tudo para ser uma lembrança inesquecível na vida da paulista Ingrid Fernandes, de 27 anos, uma gerente de tecnologia que juntou uma turma de pernambucanos e de sua terra em um bar no sítio histórico, no dia 28 de fevereiro. O que parecia ser uma grande ideia, acabou dando início a uma sofrida peregrinação por hospitais públicos da Região Metropolitana do Recife.
Na madrugada de sexta para o sábado, a jovem tropeçou, caiu e quebrou o pé, além da tíbia e a fíbula [ossos da canela da perna], na altura do tornozelo. A partir daí, a paulista entendeu as dificuldades de quem depende do sistema de saúde pública em Pernambuco. No final das contas, já depois do carnaval, a cirurgia necessária só foi realizada, porque amigos e familiares se mobilizaram para custear o procedimento e as despesas adicionais de um hospital particular através de uma vaquinha.
A via crúcis de Ingrid começou quando, ao ser levada por uma equipe do SAMU para a UPA da Cidade Tabajara, em Olinda, onde ela chegou por volta das 03h30. O primeiro atendimento pelo médico de plantão só aconteceu às 6h da manhã. Ela contou que, apesar de a unidade estar vazia, o atendimento demorou. Na unidade foi constatado que ela precisaria passar por uma cirurgia, mas a transferência para o Hospital Miguel Arraes (HMA), em Paulista, só foi feita às 18h daquele dia. Ou seja, 12h entre o primeiro atendimento e a transferência, quase 15 horas após a acidente.
Durante a transferência, a imobilização se deslocou e isso causou dores intensas. Ingrid chegou ao hospital gritando, mas foi acolhida com indiferença pela profissional de plantão na triagem, que depois descobriu que seria a gerente de enfermagem da unidade. De acordo com ela, a enfermeira disse que nada poderia ser feito além de aguardar, pois dependia do sistema. Só quando outros pacientes se comoveram com suas dores e começaram a reclamar, outra profissional apareceu, explicando os critérios de prioridade e a acolhendo com mais atenção.
“É uma coisa diferente do que uma outra pessoa simplesmente bater a porta na minha cara. Esse gesto bastante violento e desumano ali, naquele contexto. Na verdade, essa outra profissional só veio depois que eu comecei a pedir o telefone da ouvidoria”, relembra a jovem.
No entanto, o médico que a atendeu deu uma boa notícia ao avisar a cirurgia seria feita no dia seguinte e que, por isso, ela deveria se manter de jejum. No domingo, para sua surpresa, ninguém do setor tinha informação alguma sobre o agendamento cirurgia. Após horas de espera, a acompanhante foi em busca do Serviço Social social do hospital para entender o que estaria ocorrendo. A assistente social, então, encontrou um registro de “pedido de possibilidade de prioridade para cirurgia”. Ou seja, não se tratava sequer de uma prioridade, apenas da possibilidade. Sem essa informação, Ingrid iria manter jejum inútil por mais tempo.
A estadia no HMA não se prolongou. Na noite daquele domingo, ela foi transferida para a Associação de Proteção à Maternidade e à Infância (Apami), em Vitória de Santo Antão, a 61 quilômetros de Paulista, uma unidade particular conveniada pelo Governo do Estado no âmbito do programa Cuida PE. De acordo com o site do governo estadual, o Cuida PE é uma iniciativa criada para reduzir “fila de espera por cirurgias, exames e consultas especializadas em todo o estado de Pernambuco”. O que parecia ser motivo de esperança, acabou gerando mais espera.
Ingrid conta que, durante o tempo em que esteve internada na unidade, só foi avaliada por um médico uma vez. O profissional informou que o pé estava muito inchado e que seria necessário aguardar. No dia seguinte, uma enfermeira fez a mesma avaliação. Durante o período em que ficou nesse hospital de Vitória, ela dividiu a enfermaria com mais de 20 pessoas, mas havia apenas 12 leitos, com dois banheiros – um estava sem água e o outro com a lâmpada quebrada. Com poucos ventiladores, a sala estava sempre muito quente.
Não havia cadeira de rodas para os pacientes com pernas e pés quebrados irem ao banheiro. “Uma senhora que também estava com o pé fraturado foi pulando até o banheiro e lá se machucou novamente, ela voltou chorando de dor”, conta a gerente de tecnologia.
Na segunda-feira a mãe de Ingrid, que trabalha na área de saúde em São Paulo, conseguiu passagens e chegou a Pernambuco para ajudá-la. Uma das primeiras atitudes de sua mãe, Orleide, foi ir até o setor que atendia os pacientes particulares, de onde ela trouxe uma das cadeiras de rodas disponíveis. Essa ala particular do hospital, aliás, parecia um universo paralelo, com ar-condicionado nas enfermaria, equipamentos de sobra e mais e mais funcionários trabalhando.
Seus pais ficaram chocados com os transtornos que a jovem enfrentou. O pai, Reginaldo Lourenço, de 56 anos, trabalha há 33 anos na área da saúde como técnico de raio-X. Por isso, tem experiência com procedimentos ligados a traumas como o da filha.
“O pior (da espera) é a fibrose dos tendões que romperam, não foi só a fratura. Rompimento do tendão tem que ser uma urgência ortopédica, porque a partir do momento que cria fibrose no tendão, precisa de outro procedimento de raspagem, e pode ficar com o movimento comprometido. Ela é jovem, isso não pode acontecer”, desabafa o Lourenço.
Espera e jejum inútil no Hospital Miguel Arraes
Crédito: Ingrid Fernandes/CortesiaGraças à mobilização de amigos, amigas e parentes pela internet, a espera e incerteza foram sanadas. Com dinheiro nas mãos para se submeter a uma cirurgia em um hospital particular, a família decidiu retirá-la da Apami e levá-la a uma unidade especializada em ortopedia no Recife, onde os médicos não viram qualquer problema em operá-la por causa do inchaço, como tinham lhe dito em Vitória de Santo Antão.
“Existem alguns tipos de espera: uma espera que é dentro dessa dor aguda em que cada segundo parece uma hora. Outra espera que é se espera no vazio, todo o otimismo que eu fui tendo ao longo dos dias em relação a pequenas notícias foi frustrado. E a espera depois que eu operei, assim, é do momento que eu possa voltar a andar e etc. É uma espera mais confortável, do corpo fazer o trabalho dele”, relata a Fernandes.
A reportagem não conseguiu contato com a assessoria de imprensa da fundação responsável pela gestão da UPA de Olinda para saber o motivo da demora do atendimeto no plantão. Também entramos em contato com a Associação de Proteção à Maternidade e à Infância (Apami) e a Secretaria de Saúde de Pernambuco (SES-PE), mas só a equipe da SES nos respondeu:
A Secretaria Estadual de Saúde (SES-PE) foi procurada para responder sobre a parceria com o Apami pelo programa Cuida PE. Questionada sobre como acompanham os hospitais conveniados, com que frequência fazem o monitoramento, quais as orientações para o atendimento aos pacientes do SUS e qual o valor destinado para esta unidade, se resumiu a dizer, por meio de nota que verificaram e “não houve atendimento do Cuida PE durante o carnaval”. Também sugeriram que procurássemos diretamente a unidade de saúde.
A única instituição que respondeu foi o Hospital Miguel Arraes, afirmando, por meio de nota, que:
“Lamenta a experiência negativa relatada pela usuária, mas esclarece que, mesmo diante dos desafios inerentes aos serviços públicos de urgência e emergência, tem atuado a fim de qualificar a experiência de seus pacientes.
No final do ano passado, o serviço implantou uma Coordenação de Hospitalidade, ligada à área de Atendimento, que vem se dedicando a qualificar o acolhimento aos usuários, desde sua chegada ao serviço, até a alta hospitalar.
Esse trabalho está sendo realizado de forma gradativa e engloba diversas áreas do serviço, incluindo o aperfeiçoamento da Ouvidora, que já conta com a Ouvidoria Ativa; treinamento com a equipe de setores chaves como Assistência, Atendimento e Administrativo; e até mesmo a mudança no fluxo de atendimento aos usuários.
Por fim, o HMA informa que o caso já foi repassado à sua equipe de Ouvidoria, que está acompanhando o ocorrido e repassando aos setores envolvidos para tomar as providências necessárias para que situações como essa não voltem a se repetir.”
Os dados da Secretaria de Saúde de Pernambuco (SES-PE), em 2025, indicam que houve 28.279 atendimentos nas UPAs e 16.996 nas grandes emergências durante o carnaval, número maior que o ano anterior, quando ocorreram 21.962 e 14.211 atendimentos, respectivamente. Grandes eventos como carnaval atraem mais pessoas para o estado e podem agravar os problemas da saúde pública, mas o que foi enfrentado por Ingrid Fernandes é a realidade de todos os pernambucanos que precisam do SUS, sobretudo dos serviços de urgência.
A médica sanitarista, especialista em saúde pública e professora do Centro de Ciências Médicas (CCM) da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Bernadete Perez, apresenta um panorama da situação da saúde pública de Pernambuco. Em casos de fratura fechada, a mesma que a jovem sofreu, os pacientes esperam 30, 40 ou mais dias pelo procedimento necessário para resolução do problema. “Se priorizam, nessas situações, fraturas expostas, deixam todos os casos de fratura fechada em espera. As pessoas ficam dias com dor, sofrimento, descaso e desrespeito, só que de forma naturalizada”, afirma a especialista.
Segundo Perez, isso acontece por uma série de fatores, um deles, é o caso das Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) que são utilizadas como estratégia de desafogar grandes hospitais, mas em casos de traumato-ortopedia, por exemplo, são ineficientes. Os grandes hospitais como Otávio de Freitas, Getúlio Vargas, Hospital da Restauração e Miguel Arraes, são cronicamente superlotados para resolver situações cirúrgicas deste tipo.
“As UPAs têm funcionado em Pernambuco como um sistema de instância burocrática que atrapalha e impede que as pessoas cheguem no lugar que elas precisam no tempo terapêutico que o caso requer. As UPAs não têm leito cirúrgico e não têm ortopedia cirúrgica”, afirma. “Faltam leitos, faltam profissionais, faltam serviços e as UPAs geram uma situação de ampliação do tempo de espera, da demora para a ação do tempo terapêutico de saúde”, completa.
A especialista enxerga que o serviço que já se arrastava no governo Paulo Câmara (PSB), têm sido ainda mais desafiador no governo Raquel Lyra (PSD). “É uma situação que o pernambucano e a pernambucana vive diariamente e não é de agora, é de vários anos. Uma piora crônica que se agrava nesses momentos (de grandes eventos)”, reitera Perez.
Mas a especialista indica algumas ações possíveis para que essa realidade mude: melhorar a atenção hospitalar que seja integrada em rede, abrir portas de urgência e emergência com ampliação de serviços, sobretudo, nesses casos de traumato-ortopedia, ampliar leitos, centros cirúrgicos e equipes integradas. Além disso, descentralizar os atendimentos desta natureza para desafogar os hospitais da RMR que recebem atendimentos de todos os lugares do estado.
Jornalista formada pelo Centro Universitário Aeso Barros Melo – UNIAESO. Contato: jeniffer@marcozero.org.