Instalado para servir de isolamento temporário para vítimas do coronavírus, o hospital de campanha construído nos fundos da maternidade Barros Lima tem 30 leitos comuns e três respiradores para os casos mais graves. Até o sábado, 25 de abril, os equipamentos para ventilação mecânica permaneciam desmontados, a espera da chegada dos fisioterapeutas anunciados pela prefeitura.

Finalmente, na manhã de sábado, um enfermeiro com especialização em UTI, aprovado no concurso de 2018 e recém-convocado para assumir seu posto de trabalho, cansou de esperar e montou dois respiradores. O terceiro continua sem uso, pois foi entregue com peças defeituosas.

No plantão anterior, dois pacientes que precisavam de ventilação tinham morrido. “Eram mortes evitáveis. O enfermeiro usou seus dias de folga entre um plantão e outro para estudar como montar, ligar e calibrar os respiradores. Não fosse ele, as máquinas continuariam desligadas”, contou um médico que presenciou a cena, mas pediu para não ter o nome publicado, pois também acabou de ser contratado e não tem estabilidade no emprego.

A situação vivida pela Barros Lima repete-se, envolvendo profissionais de outras especialidades, nos demais hospitais – convencionais ou de campanha – de Pernambuco.

De acordo com a secretaria municipal de Saúde do Recife, a capital conta com “33 fisioterapeutas para os leitos que já estão em funcionamento. Os profissionais foram contratados para atuar nos regimes de plantonistas e diaristas, nos leitos de enfermaria e UTI”.

O presidente do Conselho Regional de Fisioterapia e Terapia Ocupacional (Crefito) para os estados de Pernambuco, Paraíba, Alagoas e Rio Grande do Norte, Silano Barros, confirmou que situações como a que ocorreu na maternidade da Zona Norte recifense devem tornar-se mais raras nos próximos dias.

“Dos quatro estados sob nossa jurisdição, Pernambuco e Paraíba foram os que mais contrataram fisioterapeutas. Pelo que ficamos sabendo, os profissionais contratados em Pernambuco por concurso público ou seleção simplificada começaram a ser distribuídos nas várias unidades de saúde”, afirmou Barros.

Desistências e contaminações

As contratações até que acontecem, porém muitos profissionais estão abrindo mão da vaga por medo de adoecer e desistem antes mesmo de começar a trabalhar.

O fato de, até o momento do fechamento deste texto, 1.885 profissionais de saúde terem sido contaminados não ajuda a seduzir os novos contratados.

Em nota, a prefeitura do Recife admite a dificuldade: “Assim como outras cidades brasileiras e de outros países, o Recife tem enfrentado algumas dificuldades na contratação de profissionais qualificados para atuar na assistência aos pacientes com suspeita ou confirmação de covid-19. Mesmo assim, desde o início da pandemia, a Prefeitura do Recife contratou 1.346 profissionais como reforço para o enfrentamento do novo coronavírus”.

Não é o bastante. Desde 14 de abril, a secretaria municipal de saúde abriu seleção temporária para contratar mais 40 médicos. Apenas 14 tiveram suas inscrições homologadas para começar a trabalhar durante essa semana.

Além dos quase dois mil infectados, outros 1.198 casos de profissionais de saúde fizeram o teste e aguardam resultado. Nos relatórios diários da secretaria estadual de Saúde, aparecem sob a rubrica “casos sob investigação”.

Um desses casos é o de um enfermeiro de 54 anos lotado no Hospital Pelópidas da Silveira. Afastado do trabalho desde o domingo, 19 de abril, ele submeteu-se ao teste no dia seguinte, segunda-feira, dia 20. Até a noite de terça-feira, 28, o resultado sequer havia saído. “Recebi a orientação de ficar em casa por sete dias. Se o resultado desse negativo, deveria ter voltado ao trabalho, mas permaneço na incerteza”, afirmou o enfermeiro da área de cardiologia clínica.

Desde então, ele tem recebido telefonemas eventuais do serviço de atendimento remoto da prefeitura. Nas ligações, ele relata que seus sintomas são leves, apesar de ter apresentado um pouco de arritmia e saturação de oxigênio. “Tive episódios eventuais de febre que cedem com facilidade ao paracetamol , dores no corpo, perda de olfato e tosse nos últimos quatro dias”, contou.

O gargalo dos testes

A questão que o enfermeiro do Pelópidas da Silveira traz à tona está no centro do embate entre profissionais, seus sindicatos, Governo do Estado e prefeituras. Os sindicatos de profissionais da saúde estão cobrando uma série de medidas ao Governo. Uma delas é a realização de mais testes entre os profissionais.

“No Hospital da Restauração, por exemplo, estão sendo feitos dez testes diários, incluindo pacientes que estão lá internados. Os trabalhadores têm que entrar nessa mesma fila. A Prefeitura do Recife está disponibilizando mais testes, mas, mesmo assim, os técnicos e enfermeiros estão encontrando dificuldade para fazer, mesmo com sintomas”, reclama Ludmilla Outes, presidente do Sindicato dos Enfermeiros do Estado de Pernambuco.

Após denúncias, o Governo de Pernambuco abriu dois centros, um em Olinda e outro no Recife, para testagem apenas de profissionais de saúde e de segurança, incluindo familiares.

Presidente do Sindicato Profissional dos Auxiliares e Técnicos de Enfermagem (Satenpe), Francis Herbert defende mais abrangência: que haja testes para todos os profissionais da saúde a cada 15 dias. “É importante que os assintomáticos sejam testados também porque podem estar espalhando o vírus sem saber”, diz.

Há outro aspecto que vem afastando profissionais da saúde: o medo e a angústia que afetam a saúde mental. Após ver duas colegas falecerem por conta da covid-19, uma técnica do Hospital Getúlio Vargas sentiu palpitações e falta de ar por ansiedade.

“Fiquei muito angustiada, depressiva, sem conseguir me alimentar direito. Há muitas queixas, muitas arbitrariedades… estamos sendo condenados à morte. Você trabalhar sem EPIs adequados isso para mim é inadmissível”, diz Luiza*. “Comecei a não me sentir bem e a não ir trabalhar. O pior é que o Sassepe (o plano de saúde dos servidores do estado) fechou o ambulatório e ficamos sem acesso a médicos. Rodei atrás de psiquiatras e foi difícil encontrar. O médico me afastou por 60 dias por depressão e ansiedade. Só faço chorar. Você imaginar que você vai sair para salvar e vidas e acabar morrendo”, diz. Não há números de quantos profissionais estão afastados por doenças mentais.

Para que o gargalo da falta de profissionais não fique ainda pior, a sugestão dos sindicatos é que a os aprovados no cadastro reserva do concurso de 2018 da Secretaria Estadual de Saúde sejam convocados. “Estão chamando em seleção simplificada, porque dizem que é mais rápido. Mas de 650 aprovados, só assumiram 200. O salário é muito baixo (cerca de R$ 1.049) e muitos assumem e depois saem. É um risco que não querem correr. O salário do contratado pelo estado é mais alto (cerca de R$ 2,6 mil) e o profissional tem estabilidade e mais garantias”, diz Érico Alves do Sindicato dos Servidores da Universidade de Pernambuco (Sindupe).

O Satenpe ainda pede ao governo que afaste do trabalho – e não somente mude de setor – os profissionais que têm comorbidades que os deixam mais vulneráveis à covid-19.

A batalha por EPIs

Numa noite de sexta-feira, técnicos de enfermagem e enfermeiros do Hospital Oswaldo Cruz receberam capas de chuva no lugar dos aventais. O mesmo aconteceu com profissionais do Hospital Regional de Arcoverde, no Sertão, há uma semana. Apesar de capas de chuva terem sido usadas em condições extremas em outros países que enfrentam o coronavírus – como na Itália e na Inglaterra – ele não é adequado: os punhos não fecham e há abertura nos botões. Os sindicatos entraram em campo e o material, que veio de doações, foi retirado – e guardado.

Capa de chuva entregue – e depois recolhida – aos técnicos do Hospital Oswaldo Cruz, referência no atendimento à covid-19

No Oswaldo Cruz, hospital de referência para a covid-19, foram entregues 25 mil itens de proteção individual na semana passada. Dá para passar cerca de 45 dias, segundo avaliação do Sindicato da Universidade de Pernambuco (SindUpe). Mas, mesmo assim, técnicos de enfermagem denunciam que há pressão para se fazer racionamento de alguns itens. Há o receio de que falte material para as semanas futuras. “Querem que a uma máscara N95 seja reutilizada por sete dias nos setores que não atendem covid-19. Mas a gente circula pelo hospital, tem contato com pessoas que trabalham no isolamento, na UTI”, reclama uma técnica do hospital, sem querer se identificar. Após a denúncia, foi determinado o uso de apenas uma máscara N95 por plantão.

A falta ou o racionamento de EPIs estão diretamente ligados ao afastamento dos profissionais de saúde de suas funções. No setor de isolamento do Hospital Agamenon Magalhães, 12 de um total de 30 técnicos estão afastados por conta do coronavírus, segundo o Satenpe. Na UPA Engenho Velho, em Jaboatão dos Guararapes, são 17 afastados entre 40 profissionais.

“Não temos os números fechados, mas acreditamos que já está perto de 30% o percentual de auxiliares e técnicos que estão afastados”, diz o presidente do sindicato, Francis Herbert.  No dia 22 de abril, os sindicatos conseguiram uma liminar judicial que autoriza que  auxiliares e técnicos de enfermagem não trabalhem caso não haja EPIs adequados. O governo estadual tem até o próximo sábado para regularizar a situação. Mas não basta apenas ter EPIs.

 Sindicatos reclamam que falta estrutura física para paramentação e desparamentação, falta treinamento para as equipes de como colocar e tirar os EPIs sem que haja risco de contaminação.

Máscara para médicos

Até o Conselho Regional de Enfermagem (Coren), instituição cuja função é fiscalizar o exercício profissional, também entrou na briga para assegurar o fornecimento de EPIs, atividade considerada de natureza trabalhista, ou seja, da competência dos sindicatos.

De acordo com Fernanda Cerqueira, chefe de fiscalização do Coren, a entidade está recebendo pouco mais de 60 denúncias semanais com esse foco. “Todas as demandas estão sendo encaminhadas semanalmente para o Ministério Público do Trabalho, secretaria estadual de Saúde, Ministério Público e Agência Estadual de Vigilância Sanitária (Apevisa).

Fernanda Cerqueira revela que algumas das denúncias sugerem discriminação de classe na distribuição das máscaras: “Recebemos vários informes que, em algumas unidades do Recife, os médicos recebem a máscara mais segura, a N95 ou a similar PFF-2, enquanto enfermeiros e técnicos de enfermagem ficariam com as máscaras cirúrgicas simples. Isso não pode acontecer, pois enfermeiros realizam procedimentos complexos e arriscados, como, por exemplo, aspirar pacientes”.

A Marco Zero questionou a prefeitura do Recife, que negou a existência da prioridade aos médicos.

 “Cada profissional que presta assistência ou precisa entrar em contato a menos de um metro dos pacientes suspeitos ou confirmados de infecção pelo novo coronavírus recebe equipamentos de acordo com o tipo de procedimento que realiza no paciente, conforme recomendação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). De acordo com as normas da Anvisa, as máscaras respiratórias tipo N95, assim como toucas, devem ser utilizados exclusivamente por profissionais de saúde que necessitem realizar procedimentos como intubação, ventilação, ressuscitação cardiopulmonar ou outros procedimentos geradores de aerossóis em pacientes com suspeita ou confirmação da covid”, informou a equipe da secretaria municipal de saúde.