Anderson Roberto, comerciante de São Lourenço da Mata. Crédito: Arquivo Pessoal

Há oito meses, Anderson Roberto, de 31 anos, foi demitido da empresa onde trabalhava, na cidade de Abreu e Lima, e usou o dinheiro da rescisão contratual para abrir um negócio delivery perto de casa, em São Lourenço da Mata. A decisão foi tomada como medida emergencial para enfrentar o desemprego, mas ironicamente, por por causa das mudanças de hábito forçadas pela pandemia da Covid-19, hoje ele já tem outras perspectivas.

Em plena crise, o comerciante acredita na possibilidade de sair da quarentena com mais estrutura do que entrou. Tem investido na divulgação do seu negócio, o Alambique do Gordo, pelas redes sociais. Usa com frequência o whatsapp e se cadastrou na plataforma gratuita de pequenos negócios entrega.li. Com uma semana de cadastro, conseguiu fazer duas entregas pelo site.

Ele conta que sua renda mensal não chega a um salário mínimo e que sua esposa, Maria Eduarda, também está desempregada há um mês e meio. Vende galeto, almoço e sobremesas com ajuda de Maria e da cunhada.

Quando foi constatado oficialmente que o coronavírus tinha chegado ao estado, Anderson cogitou fechar o delivery. Seus fornecedores paralisaram as entregas, mas, como ele tinha estoque, decidiu tentar se manter. Perdeu cerca de 50% das vendas, mas resistiu. “A pandemia gerou medo e as pessoas passaram a consumir o básico e cozinhar a própria comida porque estão em casa. Estou seguindo um jogo de cintura para perder o mínimo possível”.

O que ele não esperava é que, com o passar da quarentena, as coisas fossem melhorar. Os pedidos passaram a crescer novamente e as sobremesas, que antes não eram tão pedidas, quase sempre fazem parte do pacote junto com o almoço.

Anderson explica que São Lourenço é uma “cidade dormitório”, muito até pela sua experiência de quando trabalhava fora. “As pessoas saem para trabalhar e só chegam para dormir. Elas tem a fonte de renda no Recife e não tem o costume de consumir aqui, saem do trabalho, ficam pela capital e só vem para casa mais tarde. Agora, muitos passaram a provar o serviços da cidade. Vamos ver como as coisas ficarão por aqui quando o coronavírus passar.”

Plataformas

A pandemia da Covid-19 escancarou desigualdades e outras contradições. Entre elas, está a relação que parte da população mantém com o comércio local. Quantas vezes você deixou de fazer a feira de frutas e verduras na quitanda ao lado de casa para comprar em um supermercado de rede multinacional? Talvez você se perca nessa conta.

Muito tem se questionado sobre os impactos da pandemia na economia, na saúde e também nas relações humanas. O isolamento social é difícil, mas também significa um tempo para olhar para si, para os mais próximos e tentar conectar (não digitalmente) aquilo que sequer conseguia brecha na correria e na rotina. Isso inclui ir à padaria junto de casa, ao mercadinho e ao depósito de água e gás.

Mas, como comprar dos comerciantes locais se muitas vezes as pessoas não têm o conhecimento do que há disponível em seus bairros?

Com uma boa justificativa, a resposta veio em forma de contradição ao discurso de se desconectar totalmente do digital.

Quando o isolamento social passou a ser orientado pelo governo de Pernambuco, há um mês, planilhas com contatos de pequenos comércios de bairro começaram a circular no whatsapp com o intuito de ajudar estes estabelecimentos a sobreviverem durante a crise agravada pela pandemia e também facilitar a vida com restrições de deslocamento.

O desenvolvedor Rafael Gama diz que recebeu a planilha e pensou que talvez aquele formato não fosse o ideal, já que precisaria de atualizações constantes. Ele e mais dois desenvolvedores que já tinham criado juntos outras iniciativas, fizeram a plataforma entrega.li, um site que reúne dados de comércios locais e o usuário pode buscar os serviços a partir do seu endereço.

Plataforma “entrega.li ”

A planilha acabou por tomar a forma do site, alimentada continuamente. “É muito sobre vivenciar o bairro. Antigamente, tinha entrega de panfletos e toda uma comunicação que hoje não acontece. Nos perguntamos como chegar no pequeno que não está no digital e esse tipo de negócio só vai saber quem for do bairro mesmo. O objetivo é fazer pequeno negócio chegar na casa de todo mundo, fazer ele ser visível.”

A plataforma está no ar desde o dia 4 de abril e foi construída no sistema wordpress. Tem espaços específicos para os usuários e para os comerciantes que buscam serviços ou querem cadastrar seus estabelecimentos. Segundo o próprio site, os estabelecimentos catalogados são do Recife, Jaboatão dos Guararapes, de Olinda e Fortaleza. De acordo com Rafael, a preocupação é garantir que os comércios estejam de fato funcionando durante a quarentena.

Isso, inclusive, acarreta um pouco mais de tempo e cuidado na análise dos cadastros. Ele diz que alguns comerciantes já estão dando um retorno positivo que vai além da questão de “sobreviver à pandemia”.

Plataforma “No bairro tem!”

No mesmo sentido, professores, alunos do Departamento de Ciência da Informação da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e voluntários criaram a plataforma No bairro tem!. Foi lançada no dia 29 de março, mas o processo de construção começou quatro dias antes. Segundo o professor Fábio Mascarenhas, o objetivo também foi criar um banco de dados mais acessível para as informações que estavam chegando nas redes sociais.

Questionado sobre para qual tipo de comerciante a plataforma é direcionada, já que hoje há aplicativos de entrega estabelecidos no mercado e muito conhecidos pelo público. Fábio afirmou que o foco é justamente naquele comércio que “não tem capital de giro” e que corre risco de fechar “caso fique um mês sem funcionar”.

“É para aqueles que estão mais vulneráveis. Tem plataformas de âmbito global e isso tem um custo para os comerciantes. Então, direcionamos para aqueles que não conhecer a realidade do ifood, por exemplo. Estamos procurando rádios comunitárias e movimentos que atuem com comunidades para divulgar o site”, afirma.

De acordo como No bairro tem!, são quase 2.600 negócios cadastrados na plataforma até então. Fábio conta que o site vem se adaptando às diversas demandas dos comércios. “Por exemplo, um grupo de mulheres que fazem artesanato nos procurou e nós criamos uma categoria para esse tipo de serviço”, explica.