por Lia Giraldo da Silva Augusto*

O mundo está perplexo, tomam-se medidas draconianas e cientificamente  controvertidas. A maioria obedece e  poucos se atrevem a contradizer. Medos arquétipos ressurgem, muito além das medidas razoáveis de proteção individual e coletiva da saúde. As sociedades do espetáculo mais uma vez se revelam.  Cada qual com seu interesses específico, alguns de difícil apreensão imediata.  Mas o fato é que uma virose nada especial, colocou o mundo em quarentena.

Mais uma vez vai-se dizer que é uma epidemia democrática colocando, indistintamente, todos sob risco, vulneráveis e não vulneráveis, susceptíveis e não susceptíveis. Um discurso que obscurece as iniquidades sociais que perpassam as injustiças presentes entre os expostos e entre os afetados nessa tragédia humana.

Este cenário global fez presidentes voltarem a trás na avaliação inicial de que se tratava de algo  de baixo impacto sanitário, que era invenção de chinês. A reação do mercado e da mídia os fez retroceder e declarar emergência sanitária em seus países.

Bons pensadores, de linhagem crítica, estão trazendo elementos para reflexão, mas ainda pregam no deserto. 

Sabemos que uma boa vigilância em saúde dirigida aos que de fato são vulneráveis deveria ser suficiente para enfrentar a onda de gripe, equacionando os leitos hospitalares em função das demandas esperadas. 

Aqui no Nordeste do Brasil, recentemente, tivemos uma tríplice epidemia simultânea de dengue, zika e chicungunya de efeitos graves sobre a saúde, que só mereceu maior atenção, e por um período curto, por conta de maior incidência de nascimentos  (nesse contexto) de crianças com microcefalia. Esse último fato, até agora, está mal explicado no sentido do porquê e do como esse fenômeno foi tão diferente e mais grave aqui no nordeste do Brasil. O Covid-19 (Coronavírus) tem uma característica de transmissão rápida, tanto que, três meses depois de seu inicio,  já temos uma pandemia, o que não significa por si que é uma situação de maior gravidade do ponto de vista da letalidade. Porém, de fato,  o curto prazo de disseminação pode pressionar os serviços de saúde, especialmente nos lugares com  menor infraestrutura hospitalar instalada, especialmente para atendimento intensivo. A pandemia de Covid-19 está revelando a importância de termos serviços de saúde pública bem estruturados e com qualidade técnica e humana permanentes.

No caso brasileiro, se queremos enfrentar esta e outras doenças que nos afetam e outras que podem nos surpreender, o país  precisa rever  com urgência o contingenciamento de recursos do SUS, e também na educação, pois sem esta a outra não se sustenta.  Neste dias, o presidente dos EUA ao pedir aos cientistas que rapidamente desenvolvam uma vacina contra o Covid-19 acabou por fazer uma mea culpa  pelo ataque sistemático que faz à ciência. Talvez ele reverta sua pobreza de pensamento e esperamos que os nossos atuais governantes também façam o mesmo. Felizmente temos um pensamento sanitarista remanescente no país que nos garante, espero, bom senso.

A atual epidemia de Coronavírus  deixará um rastro de mortos, sim, como todos anos as  demais gripes deixam; mas deixará também a  humanidade “avexada” por ter lidado com esse episódio mediante discursos e atitudes segregacionistas,  exaltando a xenofobia e o medo do outro.  O vírus será também uma desculpa de ocasião pelo fracasso das políticas globais sustentadas pela financeirização da economia e pela austeridade imposta aos países mais pobres.

De positivo ela nos deixará uma avaliação mais precisa das distopias sociais, econômicas e políticas atuais. Atuará sobre a subjetividade  de cada um e dos coletivos, cujo resultado é uma incógnita, nos desafiando a construir estratégias de resistência pelo amor, pela solidariedade, pela tolerância, que devem permear a nossa vida cidadã e as políticas públicas. O cuidado com as três ecologias: a do ser humano com o seu ambiente, a do ser humano com o outro e a do ser humano consigo mesmo, como recomendado por Felix Guattari, pode ser uma boa diretriz de ação no nível individual e coletivo em tempos deste e de outros  “coranavírus”.

*Médica, sanitarista, pesquisadora e psicanalista