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ASA mobiliza semiárido para impedir que desinformação ameace vacinação na zona rural

Inácio França / 09/03/2021

De tanto receber mensagens assustadoras pelo WhatsApp, José Ferreira dos Santos, de 70 anos, já andava ressabiado, mas a imagem de uma técnica de enfermagem que, por engano, aplicou uma seringa vazia em uma idosa na fila de vacina em Alagoas foi a gota d’água. No dia em que assistiu ao vídeo – encaminhado em um grupo no aplicativo -, ele avisou à esposa, aos oito filhos e 22 netos que não queria se vacinar.

Sua decisão, contudo, não era assim tão firme. Os técnicos do Instituto Regional da Pequena Agropecuária Apropriada (IRPAA), organização não-governamental que há 30 anos atua no lado baiano do Vale do São Francisco, o convenceram a voltar atrás. Agora, ele está ansioso, esperando que as vacinas para sua faixa etária cheguem logo ao posto de saúde do distrito de Salitre, em Juazeiro. “A hora que a vacina chegar eu tomo. Pode ser qualquer uma. Eu quero é me livrar logo dessa peste”, garantiu Zé Reis, como o agricultor é conhecido na região por ter nascido em 6 de janeiro, dia de Reis.

Como Zé Reis está sempre presente nas atividades dos projetos de agroecologia implantados pelo IRPAA e ainda é bastante ativo, comercializando frutas, verduras e animais nas feiras de Juazeiro, não foi assim tão difícil afastá-lo da influência dos conteúdos distorcidos que chegavam pelo seu celular. Nem sempre é assim. Por isso, as quase três mil de entidades do campo que fazem parte da Articulação do Semiárido Brasileiro (ASA) iniciaram uma campanha para reduzir o impacto da desinformação e das notícias falsas sobre as vacinas da covid-19 na região.

A mobilização para combater a desinformação virou prioridade na instituição que se notabilizou pela construção de mais de um milhão de cisternas nos nove estados do nordeste e norte de Minas Gerais.

O coordenador-geral da ASA, Alexandre Pires, chegou a passar uma mensagem pessoal para as equipes das entidades que atuam no campo pedindo para “que se articulem, exijam e defendam publicamente a vacina gratuita pelo SUS e também esclareçam a população do Semiárido sobre os benefícios da vacina em um esforço de fazer frente às fake news que ganham força no semiárido rural e têm dificultado a adesão da população à campanha de vacinação”.

A iniciativa de Alexandre destoa da prática usual da coordenação da ASA, que costumar se comunicar usando os canais institucionais, mas reflete o grau de urgência que o assunto assumiu.

Um dos editores do Projeto Comprova, Sérgio Ludtke, considera fundamental a iniciativa da ASA. “Sempre repito que não cabe apenas aos jornalistas enfrentar a desinformação. É uma tarefa grande demais para o jornalismo. É necessário que as organizações da sociedade civil façam esse enfrentamento. Outros setores também precisam entrar nesse esforço.  Já passou da hora, aliás”. O Comprova é uma articulação de dezenas de veículos para, de maneira colaborativa, “identificar e enfraquecer as sofisticadas técnicas de manipulação e disseminação de conteúdo enganoso”.

Contra-ataque pelo WhatsApp

A responsável pela comunicação da entidade, Fernanda Cruz, revelou que sua equipe recebeu a incumbência de “elaborar conteúdos, pensar estratégias para ativar a rede de comunicadores que já atua nos projetos da ASA e mapear novas pessoas que possam distribuir os conteúdos para enfrentar a desinformação”.

Fernanda explica que os primeiros alertas sobre os estragos da desinformação chegaram exatamente por meio da rede espalhada pelos 1.262 municípios do semiárido. “O objetivo é identificar quem, entre os milhares de agricultores que trabalham com as entidades, poderá atuar nos grupos de zap, de outros aplicativos ou mesmo grupos físicos, off-line, para esclarecer o que é verdade e se posicionar diante de quem repassa o conteúdo fake”, explica Fernanda.

Rede de comunicadores da ASA está enviando por zap conteúdos como este

Recorrer aos grupos de WhatsApp é uma tentativa de fazer o veneno virar remédio. De acordo com a equipe da ASA, nas áreas rurais o smartphone tem três usos mais frequentes: para fazer fotos ou vídeos, como telefone tradicional quando há sinal e, principalmente, para troca de mensagens de zap. “As pessoas não costumam ter crédito de 4G para navegar em sites de notícias, não costumam checar a informação e acreditam naquilo que foi enviado por parentes”, explica Fernanda.

Partiu da serra da Borborema, na Paraíba, um das primeiras iniciativas para conter a desinformação no semiárido. As entidades que formam o chamado Polo da Borborema –  sindicatos de trabalhadores rurais, as 150 associações comunitárias, a EcoBorborema (associação regional de agricultores ecológicos) e a equipe da organização não-governamental AS-PTA – perceberam ainda no início da pandemia que era preciso se contrapor às mensagens fraudulentas que chegavam, impulsionadas pelo discurso do presidente Jair Bolsonaro.

O braço da ASA na Paraíba produziu e distribuiu uma série de “zap-novelas”, pequenos áudios com diálogos entre personagens que desmentiam os conteúdos falsos que circulavam no momento. “A desinformação provocou uma interiorização rápida da doença, pois no meio da quarentena muita gente saiu das cidades para a zona rural sem tomar nenhum cuidado”, contou Adriana Galvão Freire, assessora técnica da AS-PTA, entidade que integra tanto o Polo Borborema quanto a ASA no estado.

No final de outubro, a ONG voltou a realizar encontros presenciais entre os agricultores e agricultoras, porém reduzindo o número de presentes. Naquele momento, Adriana percebeu que a maioria das pessoas ainda via a covid-19 como algo distante: “Isso mudou, agora todas as famílias têm pessoas que adoeceram, então agora já não é preciso insistir para que usem a máscara. No início, era preciso pedir, mas o contato pessoal foi importante para que pudéssemos argumentar e desconstruir a desinformação”.

Os evangélicos e as mentiras

A mentira encontra terreno fértil entre os evangélicos do semiárido. No oeste do Rio Grande do Norte, a técnica de campo do Centro Feminista 8 de Março (CF8), Arineide Carlos da Silva, revela que “a grande influência para aumentar essa reação às vacinas vem de algumas religiões. As mulheres evangélicas acreditam que não precisam tomar a vacina nem usar máscaras porque Deus vai curar”. Sediada em Mossoró, a 279 quilômetros de Natal, o CF8 atua oferecendo assessoria e formação a grupo de mulheres camponesas da região.

“A maior parte das mulheres com quem trabalhamos é católica. Entre essas, todas dizem que vão se vacinar e até fiscalizar quem está se vacinando, mas quando o grupo tem uma ou duas evangélicas, essas falam de forma que tentam meter medo nas outras”, revela Arineide. As integrantes do CF8 também passaram a priorizar o desmentido das informações falsas em sua rotina.

O papel central dos pastores, missionários e diáconos na disseminação da mentira também acontece na Paraíba. Adriana Galvão afirma que, apesar do catolicismo ainda ser predominante na Borborema, é exatamente entre os agricultores evangélicos que os impactos da desinformação são mais intensos.

Adriana também adiciona uma reflexão ao tema: “O fechamento das escolas também está contribuindo para a desinformação, pois a sala de aula é um espaço de diálogo constante entre professores e adolescentes, o que ajudaria a desconstruir essas narrativas falsas”, especula a técnica da AS-PTA. Numa região onde até quatro gerações de uma família convivem na mesma propriedade, os argumentos dos jovens poderiam ser o contraponto à desinformação que chega por zap.

Material distribuído por zap pelas organizações do campo

Comunidade da fé

Doutora em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo (USP) e integrante do Coletivo Bereia, uma iniciativa de combate à desinformação formada por jornalistas e pesquisadores cristãos, Magali do Nascimento Cunha não se surpreende com as notícias de que os evangélicos são disseminadores de desinformação no semiárido. Segundo ela, “conhecendo as raízes históricas das igrejas evangélicas no Brasil é possível entender o contexto e o imaginário onde esses conteúdos falsos se propagam”.

A base conservadora das igrejas evangélicas no Brasil, principalmente das pentecostais, faz uma leitura literal da bíblia na qual os fiéis são formados para obedecer ao pastor, bispo e demais lideranças da igreja. “Essa obediência estende-se às autoridades. Com a aliança política entre Bolsonaro e essas igrejas, o discurso do presidente foi incorporado ao discurso dos pastores, inclusive para a pandemia”, explica Magali.

A pesquisadora, que é colaboradora do Conselho Mundial de Igrejas, com sede na Suíça, continua a destrinchar as razões da desinformação entre os evangélicos: “Eles são muito apegados ao que se chama ‘comunidade da fé’, assim os conteúdos que circulam nessa comunidade, ou seja, entre os fiéis, têm muita relevância”. Nas ‘comunidades da fé’, de acordo com Magali, há a “demonização dos inimigos da fé”. A vacina e o vírus seriam parte de uma grande conspiração contra um governo aprovado por Deus.

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AUTOR
Foto Inácio França
Inácio França

Jornalista e escritor. Foi repórter do extinto Diário Popular (SP), da sucursal paulista de O Globo e do Diário de Pernambuco. Longe das redações, foi secretário de Comunicação de Olinda, além de oficial-assistente e consultor do Unicef. Publicou seis livros (crônicas de futebol, registros de memória e história oral e a novela 'Terezas')