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	<title>Inês Campelo, Autor em Marco Zero Conteúdo</title>
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	<description>Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</description>
	<lastBuildDate>Fri, 12 Jun 2026 15:23:47 +0000</lastBuildDate>
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	<title>Inês Campelo, Autor em Marco Zero Conteúdo</title>
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		<title>Agroecologia cria raízes em Itapipoca</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Inês Campelo]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 12 Jun 2026 15:23:44 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Socioambiental]]></category>
		<category><![CDATA[Agricultura Familiar]]></category>
		<category><![CDATA[Meio Ambiente]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Todas as quartas-feiras, ainda de madrugada, grupos de agricultores deixam suas propriedades espalhadas pela extensa zona rural de Itapipoca (CE) em direção à Praça Manoel Alves de Freitas, no centro da cidade. Antes mesmo do nascer do sol, montam as barracas de toldo verde que dão forma à Feira Agroecológica e Solidária, espaço que há [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Todas as quartas-feiras, ainda de madrugada, grupos de agricultores deixam suas propriedades espalhadas pela extensa zona rural de Itapipoca (CE) em direção à Praça Manoel Alves de Freitas, no centro da cidade. Antes mesmo do nascer do sol, montam as barracas de toldo verde que dão forma à Feira Agroecológica e Solidária, espaço que há duas décadas ajuda famílias agricultoras a escoar sua produção e garantir uma fonte direta de renda.</p>



<p>Mas a feira representa mais do que uma oportunidade de comercialização. Ela é o resultado de anos de organização comunitária, políticas públicas voltadas para o campo e do uso de tecnologias de convivência com o Semiárido. Por trás de cada produto exposto nas barracas estão histórias que ajudam a compreender como redes agroecológicas enfrentam o avanço da monocultura do coco, dos grandes empreendimentos turísticos e da expansão de projetos de energia eólica sobre seus territórios.</p>



<p>No dia em que a Marco Zero visitou a feira, 17 famílias participavam da atividade. São os próprios agricultores que organizam o funcionamento do espaço por meio de uma associação, contando com o apoio do Centro de Estudos do Trabalho e de Assessoria ao Trabalhador e à Trabalhadora (Cetra), organização que atua no fortalecimento da agricultura familiar e da agroecologia no Ceará. A autogestão é parte importante do processo de fortalecimento coletivo da feira e da autonomia dos próprios agricultores.</p>


    <div class="box-explicacao mx-md-5 px-4 py-3 my-3" style="--cat-color: #1E69FA;">
        <span class="titulo"><+></span>

        <div class="int mx-auto">
	        <p><!-- wp:paragraph --></p>
<p><strong><em>Localizado no noroeste do Ceará e conhecida como “terra dos três climas”, por integrar litoral, serra e sertão, Itapipoca ocupa uma área de 1.600,3 km² e é o 7º município cearense mais populoso. Segundo o Censo 2022, tem 131.041 habitantes, com 54.433 pessoas vivendo no campo (41,5% da população total) a maior população rural em números absolutos no estado.</em></strong></p>
<p><!-- /wp:paragraph --> <!-- wp:paragraph --></p>
<p><strong><em>Itapipoca reúne 6.629 estabelecimentos agropecuários, dos quais 82% são da agricultura familiar, evidenciando a centralidade desse segmento na economia local. O território abriga ainda povos e comunidades tradicionais, como o povo indígena Tremembé da Barra do Mundaú e comunidades quilombolas na região serrana.</em></strong></p>
<p><!-- /wp:paragraph --></p>
        </div>
    </div>



<p>Maria de Fátima Pinto da Silva, moradora da comunidade de Jenipapo Barrento, é um exemplo dessa trajetória. Ela participa da feira desde sua criação, há vinte anos. Sua aproximação com a agroecologia começou após participar de um curso de Agente Multiplicador de Agroecologia, que durou dois anos. “A gente fazia agroecologia e não sabia. Já tinha cuidado com a terra. Mas só descobri isso com o curso”.</p>



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                                            <span>Crédito: Inês Campelo/Marco Zero</span>
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                    </figure>

	


<p>Hoje, Maria de Fátima divide seu tempo entre a barraca onde comercializa seus produtos e as atividades de coordenação da Feira Agroecológica de Itapipoca e da Rede de Feiras Agroecológicas do Ceará. Ela lembra que, no início, a feira acontecia a cada quinze dias. Com o passar dos anos, cresceu, se estruturou e passou a funcionar semanalmente.</p>



<p>O acesso a políticas públicas e programas voltados para a agroecologia costuma ser a principal porta de entrada para muitos agricultores que hoje participam da feira. O casal José Arildo e Leny, moradores do distrito de Calugi, é um exemplo disso.</p>



<p>A mudança começou com a chegada do Programa Um Milhão de Cisternas (P1MC). Com maior oferta e regularidade no acesso à água, passaram a produzir hortaliças, coco e frutas. Também criam bodes e galinhas. “A cisterna mudou tudo, porque possibilitou que a gente plantasse durante o verão”, explica José Arildo.</p>



<p>Desde 2024, o casal participa da feira comercializando produtos cultivados no quintal, além de bolos, doces, tapiocas e café. Quando não estão na praça, vendem na própria casa ou em eventos, jogos e cavalgadas da região. A renda da família também é complementada pelo trabalho artesanal de Leny, que produz peças de crochê. “Temos que ser guerreiros. Fazer um pouquinho aqui, um pouquinho ali”, resume.</p>


	<div class="informacao mx-md-5 px-5 py-4 my-5" style="--cat-color: #7BDDDD;">
		<span class="titulo text-uppercase mb-3 d-block">O que é e o que faz o CETRA em Itapipoca</span>

		<p><!-- wp:paragraph --></p>
<p><strong><em>O CETRA (Centro de Estudos do Trabalho e de Assessoria ao Trabalhador e à Trabalhadora) é uma organização da sociedade civil criada nos anos 1980, no Ceará, com atuação voltada para a agricultura familiar, a agroecologia, os direitos humanos e a convivência com o semiárido. Em Itapipoca, o CETRA atua há mais de quatro décadas. A organização teve papel importante na formação política de comunidades rurais e na luta pela terra, contribuindo para a criação de assentamentos da reforma agrária e oferecendo assessoria jurídica em conflitos fundiários, especialmente na defesa do povo Tremembé da Barra do Mundaú.</em></strong></p>
<p><!-- /wp:paragraph --> <!-- wp:paragraph --></p>
<p><strong><em>A partir dos anos 2000, o trabalho se consolidou na promoção da agroecologia. O CETRA apoiou a criação da Feira Agroecológica e Solidária de Itapipoca, articulou a Rede de Agricultores/as Agroecológicos/as dos Vales do Curu e Aracatiaçu e desenvolveu ações de formação, assessoria técnica, quintais produtivos, sistemas agroflorestais e beneficiamento de alimentos. A organização também impulsionou tecnologias sociais de convivência com o semiárido, como cisternas e casas de sementes, além de fortalecer a participação de mulheres e juventudes rurais em processos de geração de renda, cultura alimentar e comunicação. Atualmente, o CETRA segue atuando na articulação de políticas públicas, na defesa dos territórios e na consolidação da agroecologia como estratégia de desenvolvimento sustentável no município</em></strong></p>
<p><!-- /wp:paragraph --></p>
	</div>



<h3 class="wp-block-heading">Farmácia agroecológica</h3>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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</p>
	                
                                            <span>Crédito: Inês Campelo/Marco Zero</span>
                                    </figcaption>
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<p>Maria Dalva Nascimento tem 73 anos e mora na comunidade de Lagoa do Juá, na zona rural de Itapipoca, a cerca de 30 quilômetros da sede do município. Como a maioria dos agricultores que participam da feira, ela chega ao centro da cidade em caminhões pau-de-arara.</p>



<p>Conhecida como Dalvinha, mantém uma das barracas mais procuradas da Feira Agroecológica e Solidária. O espaço funciona como uma espécie de farmácia natural, onde comercializa folhas, sementes, pomadas, garrafadas e outros preparados produzidos a partir de plantas cultivadas em seu próprio quintal. “Tudo que a gente traz, a gente vende, graças a Deus”, diz.</p>



<p>Os produtos são resultado de conhecimentos acumulados ao longo da vida e aprofundados durante sua participação na Pastoral da Criança, onde aprendeu sobre as propriedades terapêuticas de diversas espécies medicinais. “Meus remédios são todos tirados daqui”, afirma, apontando para as plantas que cultiva em casa. Há cerca de oito anos na feira, Dalvinha diz que o trabalho vai muito além da renda complementar. “É uma terapia para mim.”</p>


	<div class="informacao mx-md-5 px-5 py-4 my-5" style="--cat-color: #7BDDDD;">
		<span class="titulo text-uppercase mb-3 d-block">Bula popular</span>

		<p><!-- wp:heading {"level":3} --></p>
<p><strong>Malva-santa</strong> – tosse e gripe</p>
<p><!-- /wp:paragraph --> <!-- wp:paragraph --></p>
<p><strong>Aranto</strong> – gastrite</p>
<p><!-- /wp:paragraph --> <!-- wp:paragraph --></p>
<p><strong>Semente de moringa</strong> – diabetes</p>
<p><!-- /wp:paragraph --> <!-- wp:paragraph --></p>
<p><strong>Mastruz</strong> – expectorante</p>
<p><!-- /wp:paragraph --> <!-- wp:paragraph --></p>
<p><strong>Pomada de aroeira</strong> – dores musculares e inflamações</p>
<p><!-- /wp:paragraph --> <!-- wp:paragraph --></p>
<p><strong>Farinha de caroço de abacate</strong> – anti-inflamatório e diurético</p>
<p><!-- /wp:paragraph --> <!-- wp:paragraph --></p>
<p><strong>Lambedor de jenipapo</strong> – tosse e gripe persistente</p>
<p><!-- /wp:paragraph --> <!-- wp:paragraph --></p>
<p><strong>Agrião</strong> – auxilia na digestão</p>
<p><!-- /wp:paragraph --> <!-- wp:paragraph --></p>
<p><strong>Garrafada medicinal</strong> – utilizada tradicionalmente contra infecções</p>
<p><!-- /wp:paragraph --> <!-- wp:paragraph --></p>
<p><strong>Óleo de coco</strong> – cuidados com a pele e os cabelos</p>
<p><!-- /wp:paragraph --></p>
	</div>



<h3 class="wp-block-heading">Aprendizado e inovação</h3>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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</p>
	                
                                            <span>Crédito: Inês Campelo/Marco Zero</span>
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                    </figure>

	


<p>Há dez anos, Inácia Patrícia do Nascimento participa da feira, onde comercializa bolos, lanches e outros alimentos produzidos por ela mesma. Agricultora familiar, encontrou na venda direta uma forma de agregar valor à produção e ampliar a renda da família.</p>



<p>Um dos diferenciais de seus produtos está na forma de embalagem. Em vez de utilizar filme plástico, Inácia recorre às folhas de bananeira. “Além de reduzir os custos, contribui para o meio ambiente e ainda fica mais bonito”, afirma.</p>



<p>Toda a produção é preparada em um fogão agroecológico recebido recentemente por meio de um projeto de apoio à agricultura familiar. Segundo ela, o equipamento trouxe uma economia significativa. “O botijão de gás durava quinze dias. Hoje dura um mês.”</p>



<p>Além da atividade produtiva, Inácia participa do sindicato e da associação comunitária. Para ela, o fortalecimento da agricultura familiar depende da combinação entre organização social e acesso às políticas públicas.</p>



<p>Ao longo dos anos, conseguiu participar de diferentes programas de apoio aos agricultores. Em 2012, ingressou no Brasil Sem Miséria, atualmente denominado Fomento Mulher, e utilizou os recursos para investir na criação de galinhas. Dois anos depois, passou a integrar o projeto Florestação, por meio do qual recebeu equipamentos para a produção de cajuína.</p>



<p>Sua trajetória é marcada pela busca constante por novos conhecimentos. “Ninguém sabe tudo. Estamos sempre aprendendo.” Para ela, a inovação faz parte da própria experiência agrícola. “Agricultor é um inovador. Fica sempre inventando coisas.”</p>



<p>Antes de ingressar na feira, Inácia já produzia em sua propriedade, mas não encontrava canais de comercialização. Começou vendendo galinhas e tapioca. Com o tempo, ampliou a variedade dos produtos e passou a investir em alimentos processados, como bolos e lanches, aumentando o valor agregado da produção.</p>



<p>Durante a pandemia de Covid-19, adaptou-se às novas formas de venda e passou a comercializar seus produtos também pela internet. A experiência permanece até hoje. “Quem não sabia mexer no celular teve que aprender”.</p>



<h3 class="wp-block-heading">Tudo integrado</h3>



<p>Entrar na propriedade de José Oliveira da Costa, o Zezão, de 53 anos, e de Francisca Maria da Silva Oliveira, na comunidade de Lagoinha, é uma imersão na arte e na ciência de conviver com a escassez de água no Semiárido.</p>



<p>Em uma área de apenas quatro hectares, dos quais cerca de 40% são mantidos como reserva, praticamente tudo remete a alguma estratégia de aproveitamento dos recursos naturais ou a tecnologias sociais voltadas para a convivência com o clima da região.</p>



<p>A propriedade funciona segundo princípios agroecológicos e reúne uma série de iniciativas que se complementam. Há cisternas destinadas ao consumo humano e à produção agrícola, instaladas por meio do Programa Uma Terra e Duas Águas (P1+2), da Articulação Semiárido Brasileiro (ASA). A família também utiliza sistemas de reaproveitamento de águas cinzas e a tecnologia Bioágua, que permite reutilizar água doméstica na irrigação.</p>



<p>A gestão cuidadosa da água é uma das bases que sustentam toda a produção. Durante o período chuvoso, concentrado nos primeiros meses do ano, Zezão evita utilizar a água armazenada nas cisternas. O objetivo é preservar as reservas para o período de estiagem. Com segurança hídrica, a família consegue diversificar a produção e reduzir sua vulnerabilidade às oscilações climáticas.</p>



<p>Com mais água e os recursos de um programa de fomento acessado há cerca de um ano, Zezão implantou uma área de hortaliças e já planeja ampliar o cultivo. Atualmente produz cheiro-verde, pimenta-de-cheiro, pimentão, tomate, feijão e plantas medicinais, além de manter um pomar com diversas espécies frutíferas.</p>



<p>A lógica da agroecologia aparece em cada detalhe do manejo. As folhas recolhidas na área de reserva são utilizadas para proteger o solo e conservar a umidade. Restos orgânicos ganham nova função como adubo e fertilizante. As mudanças ficaram evidentes especialmente no pomar. “As laranjeiras nunca tinham segurado os frutos”, conta Zezão. “Depois que ensinaram a colocar cinza, borra de café e casca de ovo como fertilizante, as coisas mudaram. É um NPK natural.”</p>



<p>Além da agricultura, a família complementa a renda com outras atividades. Zezão produz carvão vegetal, recolhe esterco para adubação nas proximidades do açude e também pesca para consumo e venda. A produção atual atende às necessidades da casa e ajuda a abastecer os três filhos, que vivem nas proximidades. “Cada um na sua casa”.</p>



<p>A propriedade funciona como um sistema integrado. Hortaliças, pomar, plantas medicinais, flores ornamentais, área de floresta, roçado, viveiro de mudas e criação de animais compõem subsistemas conectados entre si. Resíduos tornam-se insumos, a água é aproveitada ao máximo e cada atividade fortalece as demais.</p>



<p>O resultado é um modelo produtivo baseado na diversidade, na autonomia e no uso eficiente dos recursos disponíveis, uma lógica bastante diferente daquela adotada pelos sistemas agrícolas de monocultura predominantes em outras áreas do município.</p>


	<div class="informacao mx-md-5 px-5 py-4 my-5" style="--cat-color: #7BDDDD;">
		<span class="titulo text-uppercase mb-3 d-block">Caminho inverso</span>

		<p><em>A história da família também ajuda a compreender as transformações vividas pelo Semiárido nas últimas décadas. Em 2014, após anos vivendo em Fortaleza, Zezão e Francisca decidiram retornar para o campo. “Gostei demais da mudança. Não me arrependo”, afirma. “Tinha a agricultura no sangue.”</em></p>
<p><!-- /wp:paragraph --> <!-- wp:paragraph --></p>
<p><em>Segundo ele, o retorno só foi possível graças ao acesso à água proporcionado pelas tecnologias de convivência com o Semiárido. “Não faz mais sentido voltar para a cidade grande. Vou visitar meu filho e já fico com vontade de voltar.”</em></p>
<p><!-- /wp:paragraph --> <!-- wp:paragraph --></p>
<p><em>A decisão ganha ainda mais significado quando comparada à trajetória de seu pai, que deixou a região em 1978 fugindo da seca. Décadas depois, a família percorreu o caminho inverso: retornou ao campo atraída justamente pelas condições que hoje permitem produzir, gerar renda e viver no Semiárido.</em></p>
<p><!-- /wp:paragraph --></p>
	</div>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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</p>
	                
                                            <span>Crédito: Inês Campelo/Marco Zero</span>
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<p>Para Maria do Socorro Ferreira Lima, a Socorrinho, coordenadora do P1+2 no território e integrante do Centro de Estudos do Trabalho e de Assessoria ao Trabalhador e à Trabalhadora (Cetra), o sucesso de experiências como a da família Oliveira não se explica apenas pela instalação de equipamentos. “Os projetos chegam não apenas para construir cisternas. Chegam para formação. Os agricultores também estão inseridos nas comunidades. São lideranças”, afirma.</p>



<p>A atuação comunitária faz parte da rotina de Zezão. Ele participa do Sindicato dos Trabalhadores Rurais e coordena uma casa de sementes, espaço coletivo dedicado à preservação, multiplicação e troca de variedades adaptadas às condições locais.</p>



<p>Na avaliação de Socorrinho, esse componente organizativo é tão importante quanto as tecnologias implantadas. “Quando a água chega acompanhada de formação, organização comunitária e troca de conhecimentos, ela produz muito mais do que alimentos. Produz autonomia.”</p>



<h2 class="wp-block-heading">Além do coco</h2>



<p>A experiência de Zezão e Francisca está longe de ser um caso isolado. Em maior ou menor grau, a lógica da agroecologia se espalha por diferentes comunidades rurais de Itapipoca, adaptando-se às características de cada território.</p>



<p>No Assentamento Maceió, no Sítio do Coqueiro, o quintal de Darliene e de sua mãe, Maria das Dores dos Santos, demonstra como pequenas áreas podem concentrar uma impressionante diversidade de produção.</p>



<p>Desde 2024, a família participa do projeto Quintal das Margaridas, iniciativa baseada nos princípios dos sistemas agroflorestais, que combina produção de alimentos, conservação ambiental e geração de renda.</p>



<p>Em uma caminhada pelos cerca de dois hectares da propriedade é possível encontrar abacaxi, limão, seriguela, goiaba, batata-doce, maxixe, abóbora, milho e coqueiros. A diversidade é resultado de um processo gradual de transformação da área. “Já existiam os coqueiros. Agora estamos tentando dar vida ao quintal plantando outras coisas”, explica Darliene. A mudança só foi possível graças ao acesso à irrigação, que ampliou as possibilidades de cultivo e permitiu a introdução de novas espécies.</p>



<p>A propriedade também incorpora tecnologias voltadas para o aproveitamento de recursos e a redução de custos. Um dos destaques é o biodigestor, instalado por meio de um projeto da Rede de Feiras Agroecológicas. O equipamento utiliza resíduos vegetais e dejetos dos animais criados na propriedade para produzir biogás. “Para a gente ser agricultor, tem que criar animais”, diz Darliene. Segundo ela, a tecnologia teve impacto direto no orçamento doméstico. “Desde que o biodigestor chegou, não compro mais gás.”</p>



<p>Outro equipamento presente no quintal é o minhocário, utilizado na produção de húmus, fertilizante orgânico empregado no cultivo das diversas espécies plantadas na área.</p>



<p>Além de abastecer a própria família, parte da produção é comercializada na Feira Agroecológica e Solidária de Itapipoca. Outra parte circula por meio de trocas com vizinhos e agricultores da comunidade.</p>



<p>Os cocos colhidos na propriedade também geram renda. Parte deles é destinada à produção artesanal de óleo. Mas essa já é outra história.</p>



<h3 class="wp-block-heading">Balanço do Coqueiro</h3>



<p>Bem perto do quintal de Darliene funciona uma iniciativa que reúne cultura, trabalho coletivo e geração de renda. O som que antes marcava o ritmo dos tambores e das apresentações culturais hoje também acompanha o funcionamento de prensas, raspadores e liquidificadores industriais. Foi desse encontro entre tradição e reinvenção que nasceu o Balanço do Coqueiro, grupo de mulheres que transformou o coco em fonte de renda e fortalecimento comunitário.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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                                            <span>Crédito: Inês Campelo/Marco Zero</span>
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<p>A história começou em 2010, quando o Balanço do Coqueiro surgiu como um grupo de percussão, arte e cultura. Formado por jovens, mulheres e crianças da comunidade, o coletivo tinha como objetivo fortalecer vínculos sociais e valorizar as expressões culturais locais. “Eu sou uma das mais antigas. Entrei no começo e estou até hoje”, conta Rojane Alves do Nascimento, atualmente presidente da Associação de Moradores do Sítio Coqueiro.</p>



<p>O beneficiamento do coco veio alguns anos depois. Em 2017, a partir de projetos de apoio e capacitação, surgiu a ideia de transformar uma matéria-prima abundante na região em produtos com maior valor agregado. “Primeiro veio o grupo cultural. Depois vieram os projetos que permitiram transformar o coco em produto”, explica Rojane.</p>



<p>No início, tudo era feito de forma improvisada. Como não havia recursos para comprar matéria-prima, as integrantes utilizavam cocos retirados de suas próprias propriedades. Com o tempo, o grupo passou a adquirir o produto de agricultoras da comunidade, estabelecendo uma relação comercial que fortalece a economia local. Atualmente, paga R$ 1 por coco descascado, valor superior ao oferecido por atravessadores, que costumam pagar entre R$ 0,30 e R$ 0,50 pela unidade.</p>



<p>Hoje, o Balanço do Coqueiro produz óleo de coco, farinha e sabonetes artesanais. O principal produto é o óleo extraído por prensagem a frio, técnica que preserva melhor as propriedades nutricionais quando comparada ao método tradicional de cozimento.</p>



<p>Versátil, o óleo é utilizado tanto na alimentação quanto nos cuidados com a pele e os cabelos, dialogando com conhecimentos tradicionais presentes há gerações na comunidade.</p>



<p>A produção exige escala e organização. Cada litro de óleo demanda cerca de 16 cocos secos e maduros. Vendidos in natura, esses cocos renderiam aproximadamente R$ 16. Transformados em óleo, porém, ganham valor agregado: uma garrafa de 300 mililitros é comercializada atualmente por R$ 25.</p>



<p>A rotina de trabalho é intensa e coletiva. Quatro mulheres formam o núcleo permanente da produção, mas outras pessoas da comunidade colaboram em etapas como limpeza, transporte e comercialização.</p>



<p>Não há divisão rígida de funções. “Todo mundo faz de tudo”, resume Rojane. As integrantes ralham, prensam, embalam e vendem os produtos. Ao final do processo, as despesas são descontadas e o lucro é dividido igualmente. Dependendo da demanda e da disponibilidade de matéria-prima, a produção pode chegar a dez litros de óleo por dia.</p>



<p>Se no começo o trabalho acontecia no alpendre da casa de uma das integrantes, hoje o grupo conta com uma unidade própria de beneficiamento, inaugurada em 2021. O espaço foi viabilizado por iniciativas como o projeto Ecoforte, em parceria com o Banco do Brasil, além do apoio do Cetra e do Projeto São José, do Governo do Ceará. A estrutura reúne prensa, raspadores elétricos, liquidificador industrial, balança e seladora, permitindo ampliar a produção e melhorar as condições de trabalho.</p>



<p>O reconhecimento já ultrapassou os limites da comunidade. Em 2023, o grupo recebeu um prêmio na categoria Sustentabilidade durante a Naturaltech, uma das principais feiras do setor no país. Também levou seus produtos para eventos em estados como São Paulo, Pernambuco e Pará, além de Brasília.</p>



<p>A comercialização ocorre em diferentes espaços: na própria comunidade, em feiras locais e regionais e em uma feira mensal realizada em Fortaleza. O grupo também organiza sua própria feira no assentamento, fortalecendo redes de economia solidária e o intercâmbio entre produtores.</p>



<p>Apesar dos avanços, os desafios permanecem. Atualmente, o grupo busca adequar a unidade às exigências sanitárias necessárias para ampliar a comercialização. A obtenção das certificações permitiria acessar novos mercados, incluindo supermercados e vendas para outras regiões do país. A formalização da atividade por meio de um CNPJ também está em discussão.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Onde a luta virou escola</strong></h2>



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                                            <span>Crédito: Inês Campelo/Marco Zero</span>
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<p>Enquanto um grupo de crianças usando adereços indígenas desfruta alegremente a merenda escolar, Ezequiel Tremembé mostra orgulhoso a irrigação que alimenta o sistema agroflorestal da Escola Indígena Brolhos da Terra, em Itapipoca, no litoral oeste do Ceará. As fruteiras e hortaliças crescem graças à água reaproveitada da própria escola, transformada em fonte de produção de alimentos que, mais tarde, vão parar nos pratos dos alunos.</p>



<p>Para quem chega hoje ao território Tremembé da Barra do Mundaú, a cena pode até parecer corriqueira. Mas ela é resultado de uma luta que atravessou mais de duas décadas e opôs um povo indígena a um dos maiores empreendimentos turísticos já projetados para o litoral brasileiro. “Somos uma geração que estudou debaixo do cajueiro e hoje é professor”, resume Ezequiel, de 31 anos. Quando era criança, caminhava longas distâncias para estudar em espaços improvisados. Hoje, coordena o projeto Ensino Vivo na escola onde a agroecologia faz parte do currículo e da alimentação dos estudantes.</p>



<p>A escola consome alimentos produzidos no próprio território e também recebe produtos cultivados por agricultores indígenas por meio do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA). Macaxeira, frutas, ovos e galinha caipira ajudam a compor a merenda e fortalecem a economia local. A relação entre educação, produção de alimentos e defesa do território não surgiu por acaso. Ela foi construída em meio a um dos conflitos fundiários mais emblemáticos do Ceará.</p>



<p>No início dos anos 2000, um consórcio internacional anunciou a implantação do projeto Nova Atlântida, um megacomplexo turístico que prometia transformar a região na chamada “Cancún brasileira”. Resorts de luxo, campos de golfe e grandes estruturas de lazer ocupariam uma área sobreposta ao território tradicional Tremembé. A proposta veio acompanhada da promessa de desenvolvimento e empregos. Mas, para os indígenas, significava a perda da terra e do modo de vida construído ao longo de gerações.</p>



<p>Foi nesse contexto que os mais velhos da comunidade tomaram uma decisão que mudaria a história do território. Reunidos sob um cajueiro, escolheram mulheres para liderar a resistência. “Se os homens fossem para a linha de frente, poderia haver confronto e mortes”, lembra Cleideane Tremembé, hoje professora e coordenadora da escola. A estratégia funcionou. Em vez de uma estrutura concentrada em um cacique, a comunidade fortaleceu uma liderança coletiva, protagonizada por mulheres.</p>



<p>Durante anos, elas enfrentaram pressões políticas, ameaças e tentativas de convencimento para que o empreendimento fosse aceito. A resistência contou com o apoio de organizações parceiras, do movimento indígena e de instituições públicas. Em 2015, o território recebeu a portaria declaratória do Ministério da Justiça. O reconhecimento definitivo viria anos depois, com a homologação da Terra Indígena Tremembé da Barra do Mundaú, com 3.580 hectares.</p>



<p>A conquista, no entanto, não encerrou a disputa. A região continua pressionada pela especulação imobiliária, pelo turismo irregular e por projetos de infraestrutura que avançam sobre a zona costeira. A própria comunidade observa com preocupação os impactos provocados por grandes empreendimentos em áreas vizinhas. Para as lideranças, a experiência reforça a necessidade de construir alternativas próprias de desenvolvimento. É nesse ponto que a agroecologia ganha centralidade.</p>



<p>No território, ela aparece nos quintais produtivos, nos sistemas agroflorestais, no aproveitamento da água da chuva, na produção de alimentos para a escola e na valorização dos conhecimentos tradicionais. Também se manifesta em iniciativas de geração de renda, como a produção artesanal do óleo de bateputá e os projetos conduzidos por jovens agricultores. Durante a pandemia, quando a aldeia precisou restringir a circulação de pessoas, a busca por autonomia alimentar tornou-se ainda mais urgente. A produção local passou a ser vista não apenas como fonte de renda, mas como garantia de permanência no território.</p>



<p>Na escola, essa visão é ensinada desde cedo. As crianças aprendem a plantar, colher, cuidar das plantas medicinais e conhecer os lugares sagrados do povo Tremembé. O território inteiro é parte do processo educativo. Mais do que preservar tradições, a comunidade busca formar novas gerações capazes de defender a terra conquistada e enfrentar os desafios que continuam surgindo.</p>



<hr class="wp-block-separator has-alpha-channel-opacity"/>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
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</p>
	                
                                            <span>Crédito: Inês Campelo/Marco Zero</span>
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<h3 class="wp-block-heading"><strong>Entrevista | Adriana Tremembé:</strong> <em>“Governador passa. Empresa passa. Mas o povo Tremembé permanece”</em></h3>



<p>Há 25 anos na luta pela demarcação da Terra Indígena Tremembé da Barra do Mundaú, Adriana Tremembé tornou-se uma das principais referências da resistência indígena no litoral oeste do Ceará. Aos 54 anos, ela integra a geração de mulheres que assumiu a linha de frente do enfrentamento ao megaprojeto turístico Nova Atlântida e ajudou a conduzir a comunidade até a homologação do território, em 2023. Nesta entrevista, Adriana fala sobre as conquistas da luta, a defesa do território e os desafios que permanecem.</p>



<p><strong>Qual foi a maior conquista do povo Tremembé nos últimos anos?</strong></p>



<p>A maior conquista foi a homologação da nossa terra. Hoje ela está homologada, registrada e estamos avançando no processo de desintrusão. Isso significa que o Estado reconheceu oficialmente que esse território pertence aos povos indígenas que vivem aqui. É uma conquista construída por muitas mãos e por pessoas que já nem estão mais entre nós, mas que abriram esse caminho.</p>



<p><strong>Por que a luta pela terra era tão importante?</strong></p>



<p>Porque sem território não existe nada. A gente pode ter escola, saúde e outros direitos, mas, se não tiver a terra garantida, tudo fica ameaçado. O território é onde está nossa história, nossa espiritualidade, nossos alimentos e nossa cultura. É ele que sustenta tudo.</p>



<p><strong>O conflito com o empreendimento Nova Atlântida mudou a comunidade?</strong></p>



<p>Mudou muito. Foi um período muito difícil. Havia muita pressão e muita violência. Eles queriam implantar um grande projeto turístico aqui dentro e não consideravam nossa existência. Foi nesse momento que as mulheres assumiram a linha de frente da luta. Entendemos que, se colocássemos os homens para enfrentar diretamente aquele conflito, poderia haver mortes. Então as mulheres seguiram à frente e o território inteiro se organizou para resistir.</p>



<p><strong>O território continua ameaçado?</strong></p>



<p>Sim. A especulação imobiliária continua existindo. Existem pressões ligadas ao turismo, a grandes empreendimentos e a outros interesses econômicos. Nossa terra está numa área muito cobiçada da zona costeira. Por isso a luta não terminou com a homologação.</p>



<p><strong>Qual é o papel da escola nesse processo?</strong></p>



<p>A escola é fundamental porque ela ajuda a manter viva nossa história. Não ensinamos apenas português ou matemática. Ensinamos também nossa cultura, nossa espiritualidade, o Torém, os conhecimentos tradicionais e a importância de defender o território. É assim que garantimos que os jovens continuem essa luta.</p>



<p><strong>Depois de tantos anos de mobilização, o que mantém vocês firmes?</strong></p>



<p>A certeza de que estamos defendendo algo que pertence às futuras gerações. Governador passa. Empresa passa. Mas o povo Tremembé permanece. Essa é a força que nos faz continuar.</p>
</blockquote>



<hr class="wp-block-separator has-alpha-channel-opacity"/>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Do fruto da mata ao sustento da aldeia</strong></h3>



<p>Quem vê aquela pequena fruta amarela espalhada pela mata da Barra do Mundaú talvez não imagine seu potencial. Do Bateputá, planta nativa e tradicional do território Tremembé, famílias indígenas produzem artesanalmente um óleo utilizado tanto na alimentação quanto como remédio caseiro para inflamações, dores e problemas de garganta.</p>



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                                            <span>Crédito: Inês Campelo/Marco Zero</span>
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<p>Nascido e criado entre os pés de Bateputá, Samuel Nascimento de Castro aprendeu desde cedo os saberes tradicionais ligados à terra encontrou na agricultura uma forma de construir seu futuro sem precisar deixar a comunidade. Hoje, sua propriedade reúne uma diversidade de cultivos e criações, que variam de acordo com a época do ano, além da produção do óleo de Bateputá, comercializado no próprio território, em festas e feiras da região.</p>



<p>Ao perceber a necessidade de ampliar a produção de alimentos, Samuel tomou uma decisão arriscada. Vendeu as 40 galinhas poedeiras que criava para investir na implantação de uma mandala produtiva com criação de tilápias. A iniciativa surgiu após conhecer experiências semelhantes e identificar o potencial de integrar diferentes sistemas de produção.</p>



<p>O risco foi compensado algum tempo depois, quando ele foi contemplado pelo programa São José Jovem, política pública do Governo do Ceará voltada para jovens empreendedores rurais. Com os recursos recebidos, conseguiu reconstruir sua estrutura de criação de galinhas e fortalecer a produção familiar.</p>



<p>Mas a trajetória de Samuel não se limita à própria propriedade. Primeiro jovem a presidir o conselho indígena do território, ele ajudou a aproximar a comunidade de editais e políticas públicas voltadas para a agricultura familiar e a segurança alimentar.</p>



<p>Durante a pandemia de Covid-19, quando a aldeia permaneceu fechada por cerca de oito meses, a necessidade de produzir o próprio alimento tornou-se ainda mais evidente. A partir dessa experiência, foram fortalecidos projetos voltados à cultura alimentar, com incentivo a quintais produtivos, áreas coletivas de cultivo e outras iniciativas de autonomia produtiva.</p>



<p>Entre essas políticas está o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) Indígena, iniciativa do governo federal que compra alimentos produzidos pelas comunidades indígenas para distribuição a famílias em situação de vulnerabilidade e instituições públicas. Samuel também comercializa parte de sua produção por meio do programa.</p>



<p>“O PAA Indígena é um trabalho de fortalecimento da nossa cultura”, afirma. Para ele, a alimentação vai muito além da nutrição. “Quando você come bem, além de se alimentar, você se cura.” Segundo Samuel, valorizar os alimentos produzidos no território significa também fortalecer a identidade indígena. “É um resgate da nossa ancestralidade através da alimentação. Fortalece nossa luta e nossa identidade.”</p>


    <div class="infos mx-md-5 px-5 py-4 my-5">
        <span class="titulo text-uppercase mb-2 d-block"></span>

	    <p>Esta reportagem foi produzida em parceria com a <a href="https://redeaterne.org.br/">Rede Ater Nordeste</a>.</p>
    </div>



<h2 class="wp-block-heading">Leia também:</h2>



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            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

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                <a href="https://marcozero.org/em-valente-ba-a-seguranca-alimentar-comeca-na-escola/" class="titulo">Em Valente (BA), a segurança alimentar começa na escola</a>
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                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/semiarido/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Semiárido</a>
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        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

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                <a href="https://marcozero.org/um-escudo-contra-as-mudancas-climaticas/" class="titulo">Um escudo contra as mudanças climáticas</a>
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                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/clima/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Clima</a>
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            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

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            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

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			</item>
		<item>
		<title>Em Valente (BA), a segurança alimentar começa na escola</title>
		<link>https://marcozero.org/em-valente-ba-a-seguranca-alimentar-comeca-na-escola/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Inês Campelo]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 29 Dec 2025 18:15:43 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[Agricultura Familiar]]></category>
		<category><![CDATA[Rede Ater]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Quando a lei que amplia de 30% para 45% o percentual mínimo dos recursos do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) destinados à compra direta de alimentos da agricultura familiar entrar em vigor, em 1º de janeiro de 2026, muitas cidades brasileiras terão de se desdobrar para cumprir a nova exigência. Valente (BA), porém, não [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Quando a <a href="https://www.gov.br/mec/pt-br/assuntos/noticias/2025/outubro/lei-amplia-compra-da-agricultura-familiar-para-o-pnae" target="_blank" rel="noreferrer noopener">lei</a> que amplia de 30% para 45% o percentual mínimo dos recursos do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) destinados à compra direta de alimentos da agricultura familiar entrar em vigor, em 1º de janeiro de 2026, muitas cidades brasileiras terão de se desdobrar para cumprir a nova exigência. Valente (BA), porém, não deve enfrentar esse desafio. O município, localizado a 260 quilômetros de Salvador, já superou esse percentual em 2024 e tende a ampliar o desempenho em 2025, segundo dados ainda em consolidação. No ano passado, Valente recebeu R$ 943.668,00 do PNAE, dos quais R$ 454.493,83 foram destinados à compra de produtos da agricultura familiar &#8211; o equivalente a 48,16% do repasse anual.</p>



<p>Por trás desse investimento está um contexto que vai além do cumprimento da lei. Em Valente, assim como em outras partes do país, há sinais de redução no consumo de alimentos saudáveis e aumento da presença de produtos industrializados na dieta da população, além de mudanças nos canais de comercialização, com perda de espaço do autoconsumo e dos circuitos curtos. Diante desse cenário, fortalecer a merenda escolar como política pública de abastecimento local surge como uma das principais oportunidades para ampliar o acesso à comida de verdade e consolidar a segurança alimentar no município.</p>



<p>Outro fator decisivo para que o desempenho de Valente na alimentação escolar não seja fruto do acaso é o processo histórico de organização da agricultura familiar e de fortalecimento das políticas públicas locais. Ao longo das últimas décadas, agricultores e agricultoras se estruturaram em associações, cooperativas e grupos produtivos, muitos deles impulsionados por entidades da sociedade civil, o que garantiu diversidade, regularidade e capacidade de fornecimento ao mercado institucional. “Aqui, a política pública não funciona sozinha. Se não tivesse uma sociedade civil organizada, esses resultados não existiriam”, afirma a secretária municipal de Educação, Cultura, Esporte e Lazer, Maura da Silva Miranda.</p>



<p>Além da base social e produtiva, o município investiu na qualificação da gestão da alimentação escolar, tratando a merenda como eixo estruturante da política de segurança alimentar. Valente ampliou a equipe de nutricionistas, incluiu a produção local no planejamento dos cardápios e estruturou um sistema próprio de armazenamento e distribuição, com câmara fria, carro refrigerado e controle rigoroso da entrega dos alimentos. “A gente precisava ter domínio sobre o que chega à escola, na quantidade certa, com qualidade e segurança alimentar”, explica Maura. Segundo ela, essa estrutura é decisiva para viabilizar a compra de produtos da agricultura familiar, especialmente alimentos <em>in natura</em>. “Quando você organiza a logística e garante armazenamento adequado, você reduz desperdício e dá segurança tanto para quem produz quanto para quem consome”, completa.</p>


    <div class="box-explicacao mx-md-5 px-4 py-3 my-3" style="--cat-color: #1E69FA;">
        <span class="titulo"><+></span>

        <div class="int mx-auto">
	        <p>Localizado no Território do Sisal, no semiárido da Bahia, o <a href="https://cidades.ibge.gov.br/ranking-resumido/download.html?cod=2933000" target="_blank" rel="noopener">município de Valente</a> ocupa uma área de aproximadamente 395 km². Inserido no bioma Caatinga, o território é marcado por vegetação adaptada à escassez de água, como jurema-preta, licuri, caroá e cactáceas, fundamentais para o equilíbrio ambiental da região. O clima é quente e semiárido, com chuvas irregulares que variam entre 600 e 700 milímetros por ano e temperaturas que podem oscilar de 17 °C a 35 °C. Os solos, geralmente rasos, pedregosos e pobres em nutrientes, somados à presença de águas subterrâneas salobras, impõem desafios à produção agrícola e exigem práticas de manejo adequadas para evitar degradação e desertificação. Segundo o Censo de 2022, Valente tem 24.362 habitantes, com pouco mais de um terço da população vivendo na zona rural, mantendo modos de vida fortemente ligados à agricultura familiar e à convivência com o semiárido.</p>
        </div>
    </div>



<h2 class="wp-block-heading">A história que ajuda a explicar o presente</h2>



<p>Para entender como Valente desenvolveu uma sociedade civil tão forte, é preciso voltar um pouco no tempo e conhecer a história da comunidade rural de Papagaio. Distante 10 quilômetros da sede do município, Papagaio ocupa lugar estratégico na trajetória de organização social de Valente. Foi ali que, em 1972, a construção da Casa de Areia Branca se tornou um espaço de encontros, formações e articulação política promovidos pelo Movimento de Evangelização Rural (MER), contribuindo diretamente para o fortalecimento do movimento sindical e para a chamada “Tomada do Sindicato”, em 1975, quando agricultores assumiram o comando do Sindicato dos Trabalhadores Rurais. Décadas depois, Papagaio continuou a se destacar como território de inovação social e produtiva, com experiências como casas de farinha, grupos de beneficiamento de alimentos e iniciativas lideradas por mulheres que articulam economia solidária, agroecologia e políticas públicas como o PNAE.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/12/Associacao-de-Mulheres-de-Papagaio-1024x684.jpg" alt="Seis mulheres que fazem parte da Associação de Mulheres abores da Terra pousando para foto. Elas seguram pequenos potes com os produtos produzidos por elas. Na parede atrás delas a logomarca da associação pintada em tons terrosos." class="" loading="lazy" >
            </picture>

	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">A Sabores da Terra mudou a realidade de mais de 30 famílias na comunidade de Papagaio, zona rural de Valente, BA.</p>
	                
                                            <span>Crédito: Inês Campelo/Marco Zero</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Atualmente, são dois grupos de beneficiamento de alimentos: o Sabores da Terra e o Delícias da Mandioca, ambos compostos por mulheres vinculadas à Associação Comunitária de Papagaio. O objetivo era aproveitar o excedente de frutas como umbu, acerola, tamarindo, manga e caju e, ao mesmo tempo, gerar trabalho e renda para as famílias. Hoje, os dois empreendimentos beneficiam diretamente doze mulheres e 30 famílias da comunidade.</p>



<p>Eliete Oliveira, presidente da Associação e também do Conselho de Segurança Alimentar de Valente, lembra que, em 2007, quando surgiu o Sabores da Terra com apoio da APAEB (Associação de Desenvolvimento Sustentável e Solidário da Região Sisaleira), a situação das mulheres da comunidade era bem mais complicada. “As mães de família viviam com o Bolsa Família, passando necessidade, e não tinham condições de sair para trabalhar em outra comunidade porque não tinham transporte. Algumas mulheres não podiam sair porque os maridos não deixavam.” Hoje, elas vendem sua produção para a prefeitura de Valente, por meio do PNAE, para mercados locais e lojas em outras cidades.</p>



<p>Josielma Lima é uma dessas integrantes do grupo que teve sua vida transformada pelo projeto. Entrou em 2009, ainda adolescente. Hoje, com 32 anos, é mãe de três filhos e dedica parte do seu tempo à cozinha industrial montada na sede do Sabores da Terra, produzindo polpa de frutas congelada, sequilhos e uma diversidade de alimentos feitos com produtos da agricultura familiar. Além do reforço na renda familiar e do sentimento de empoderamento que compartilha com as outras mulheres do grupo, Josielma sente orgulho de ajudar a produzir alimentos de qualidade que seus filhos estão comendo na escola.</p>



<p>Ela conta que a filha mais velha, Laís, de 16 anos, já no ensino médio na Escola Wilson Lins, é tão fã da comida do Sabores da Terra que busca “informações privilegiadas” em casa. “Ela chega perguntando: ‘mãe, que dia vai ser aquele bolinho?’”, conta Josielma, referindo-se ao cupcake vendido para o PNAE e que se tornou o carro-chefe do cardápio entregue nas escolas do município.</p>


	<div class="informacao mx-md-5 px-5 py-4 my-5" style="--cat-color: #7BDDDD;">
		<span class="titulo text-uppercase mb-3 d-block">Fundação APAEB e Rede ATER em Valente</span>

		<p>A Fundação APAEB (Associação de Desenvolvimento Sustentável e Solidário da Região Sisaleira) e as organizações que integram a Rede ATER Nordeste têm desempenhado papel central na construção de políticas e estratégias voltadas à segurança alimentar e ao fortalecimento da agricultura familiar em Valente. No município, essa atuação se materializa por meio do projeto Cultivando Futuros – Transição agroecológica justa em sistemas alimentares do Semiárido brasileiro, que busca promover a agroecologia, fortalecer a soberania alimentar e ampliar a incidência das organizações da sociedade civil sobre as políticas públicas locais.</p>
<p>Executado em parceria com a AS-PTA e com apoio da organização alemã Brot für die Welt, o projeto integra uma rede de 12 organizações da Rede ATER Nordeste que atuam em 20 municípios do Semiárido. Em Valente, a iniciativa tem contribuído para criar espaços de diálogo entre agricultores familiares, poder público e sociedade civil, como oficinas temáticas, fóruns multiatores e a própria audiência pública sobre segurança alimentar e nutricional realizada no município.</p>
<p>A atuação da Fundação APAEB e da Rede ATER também se concentra na análise da efetividade das políticas públicas existentes, como o PNAE, o PAA, o acesso à água por meio de cisternas e mecanismos de proteção à renda, a exemplo do Garantia-Safra. O objetivo é identificar avanços, limites e oportunidades para ampliar o acesso a alimentos saudáveis, fortalecer os mercados institucionais e valorizar a produção agroecológica local.</p>
	</div>



<h2 class="wp-block-heading">Do quintal de casa para a escola</h2>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
            <picture>
                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/12/Renilton-de-Araujo-e-familia-300x200.jpg">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/12/Renilton-de-Araujo-e-familia-1024x683.jpg" alt="Família de agricultores, pai, mãe, dois filhos e dois netos, pousa para foto em um curral de cabras. Eles estão embaixo de um árvore." class="" loading="lazy" >
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Reury Araújo, de 12 anos, com a família na propriedade em que criam cabras. Produção vai parar na sua alimentação escolar</p>
	                
                                            <span>Crédito: Inês Campelo/Marco Zero</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Quem também come na escola o que vê sendo produzido em casa é Reury Araújo, de 12 anos, estudante do Centro Educacional Santa Rita de Cássia. Ele adora o iogurte de leite de cabra. “Quando tem, eu caio matando. Não sobra nada. Se pudesse, repetia”, conta, com orgulho. “Eu sempre falo para os meus amigos que o leite é lá de casa.” Ele não pode garantir, já que outros produtores locais também fornecem o produto, mas imagina que pode estar tomando leite de seu próprio animal de estimação. “Eu tenho uma cabra que se chama Estrelinha.”</p>



<p>Mas, para essa garrafinha de iogurte chegar à escola de Reury e de seus colegas de classe, há muito trabalho e política pública envolvidos. Tudo começa na pequena propriedade que o pai dele, Renilton Araújo, divide com a família para criar pouco mais de 30 cabeças de cabra, de onde tira uma média de 60 litros de leite por dia.</p>



<p>Na propriedade de Renilton existe um resfriador de leite com capacidade para armazenar mil litros. O equipamento, instalado pela <a href="https://www.dacabra.com.br/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Associação Comunitária Caprinocultura Solidária – Laticínio DaCabra,</a> é compartilhado com o irmão, Ricael, e com outros seis produtores vizinhos que trabalham de forma cooperada. Dia sim, dia não, uma equipe do Laticínio DaCabra recolhe a produção e leva para o beneficiamento, onde o leite é pasteurizado e transformado em queijos, doces e, claro, no iogurte que Reury tanto gosta.</p>



<p>O Laticínio DaCabra, criado nos anos 2000 pela APAEB, tem transformado a vida dos pequenos produtores locais. Além de comprar o leite cru, promove capacitações sobre manejo adequado dos animais, oferece assistência técnica às famílias, disponibiliza atendimento veterinário aos rebanhos e facilita a compra de ração, reduzindo os custos com insumos. A associação também paga um valor acima do mercado: Renilton vende o litro por R$ 3,51, enquanto atravessadores costumam pagar cerca de R$ 2,00. “Se não fosse a cooperativa, o preço do litro estaria a uns R$ 0,50”, calcula.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
            <picture>
                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/12/Os-irmaos-Renilton-e-Ricael-trabalham-em-familia-com-criacao-de-cabras_-68PQ-300x200.jpg">
                <source media="(min-width: 800px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/12/Os-irmaos-Renilton-e-Ricael-trabalham-em-familia-com-criacao-de-cabras_-68PQ-1024x684.jpg">
                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/12/Os-irmaos-Renilton-e-Ricael-trabalham-em-familia-com-criacao-de-cabras_-68PQ-1024x684.jpg" alt="Na imagem um homem jovem, de boné e camisa de botão, segura um deposito de leite de cabra que ele ordenhou. Do lado direito da imagem a cabra ainda no loca de ordenha." class="" loading="lazy" >
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Ricael vende o leite de cabra para produção de iogurte, queijos e doces</p>
	                
                                            <span>Crédito: Inês Campelo/Marco Zero</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>A família de Reury também acessa outras políticas públicas voltadas ao pequeno agricultor. Recentemente, conseguiu liberar um financiamento do programa de Fomento às Atividades Produtivas Rurais, do governo da Bahia. São duas parcelas, de R$ 2.600,00 e R$ 2.000,00, sem necessidade de ressarcimento. Com esse recurso, os irmãos pretendem ampliar a sala de ordenha, murar e aumentar a área coberta onde as cabras circulam. Agora, aguardam apenas o dinheiro cair na conta.</p>



<p>Tanto Renilton quanto Ricael aprenderam a criar cabras com o pai, Salvador Araújo, e a mãe, dona Eleonice, que estão no ramo há mais de 20 anos. Seu Salvador lembra do tempo em que colocava o leite em uma moto e saía para vender a produção — antes da cooperativa. Eram tempos mais difíceis. Tanto que outros dois filhos do casal foram tentar a vida em São Paulo, onde permanecem até hoje, repetindo um caminho comum a muitos jovens da região.</p>



<p>Agora, com as coisas melhorando, Reury já sonha em seguir na agricultura familiar e se prepara para entrar na Escola Família Agrícola Avani de Lima Cunha (EFA Valente). Na escola, que funciona em regime de semi-internato, ele passaria 15 dias na instituição e 15 dias em casa. Sairia de lá como técnico agrícola, preparado para ampliar os negócios da família e, no futuro, quem sabe, produzir seu próprio iogurte.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
            <picture>
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                <source media="(min-width: 800px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/12/Os-irmaos-Renilton-e-Ricael-trabalham-em-familia-com-criacao-de-cabras_-55PQ-1024x683.jpg">
                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/12/Os-irmaos-Renilton-e-Ricael-trabalham-em-familia-com-criacao-de-cabras_-55PQ-1024x683.jpg" alt="Rebanho de cabras brancas em curral. Ao fundo uma plantação de agave. O céu etá nublado." class="" loading="lazy" >
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                
                                            <span>Crédito: Inês Campelo/Marco Zero</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	

    <div class="infos mx-md-5 px-5 py-4 my-5">
        <span class="titulo text-uppercase mb-2 d-block"></span>

	    <p>Esta reportagem foi produzida em parceria com a <a href="https://redeaterne.org.br/">Rede Ater Nordeste</a>.</p>
    </div>



<h2 class="wp-block-heading">Leia também:</h2>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/um-escudo-contra-as-mudancas-climaticas/" class="titulo">Um escudo contra as mudanças climáticas</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/clima/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Clima</a>
			        </div>
	            </div>
        </div>

		


        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/articulacao-entre-ong-e-prefeitura-eliminou-ultraprocessados-da-merenda-escolar-em-cumaru/" class="titulo">Articulação entre ONG e prefeitura eliminou ultraprocessados da merenda escolar em Cumaru</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/educacao/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Educação</a>
			        </div>
	            </div>
        </div>

		


        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/a-peleja-da-agricultura-familiar-contra-os-salgadinhos-e-sucos-de-caixinha/" class="titulo">A peleja da agricultura familiar contra os salgadinhos e sucos de caixinha</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/educacao/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Educação</a>
			        </div>
	            </div>
        </div>

		<p>O post <a href="https://marcozero.org/em-valente-ba-a-seguranca-alimentar-comeca-na-escola/">Em Valente (BA), a segurança alimentar começa na escola</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
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					<wfw:commentRss>https://marcozero.org/em-valente-ba-a-seguranca-alimentar-comeca-na-escola/feed/</wfw:commentRss>
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			</item>
		<item>
		<title>Um escudo contra as mudanças climáticas</title>
		<link>https://marcozero.org/um-escudo-contra-as-mudancas-climaticas/</link>
					<comments>https://marcozero.org/um-escudo-contra-as-mudancas-climaticas/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Inês Campelo]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 26 Dec 2025 14:34:35 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[Agricultura Familiar]]></category>
		<category><![CDATA[Meio Ambiente]]></category>
		<category><![CDATA[Rede Ater]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Quem chega a Pé de Serra pela BA-233, principal via de acesso à cidade, é logo impactado pela beleza natural do local. Da janela do carro, dois maciços de rocha se impõem à paisagem, não deixando dúvidas sobre a origem do nome do município baiano. Mas a paisagem extremamente árida também traz, de imediato, outra [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Quem chega a Pé de Serra pela BA-233, principal via de acesso à cidade, é logo impactado pela beleza natural do local. Da janela do carro, dois maciços de rocha se impõem à paisagem, não deixando dúvidas sobre a origem do nome do município baiano. Mas a paisagem extremamente árida também traz, de imediato, outra constatação: o município do centro-norte da Bahia, a aproximadamente 220 quilômetros de Salvador, enfrenta uma grande seca. Tanto é assim que, em 9 de setembro, a Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil publicou uma portaria colocando o município em situação de emergência devido ao longo período de estiagem.</p>



<p>A situação é grave, principalmente para a população da zona rural. Segundo Jorge Irineu, diretor de Meio Ambiente do município, algumas comunidades estão sendo abastecidas com carros-pipa desde outubro de 2024, portanto, há mais de um ano. Na quarta-feira (17), quando conversou com a reportagem, Jorge afirmou que, das 28 aguadas (mananciais que abastecem a zona rural), apenas duas ainda tinham água.<br></p>


    <div class="box-explicacao mx-md-5 px-4 py-3 my-3" style="--cat-color: #1E69FA;">
        <span class="titulo"><+></span>

        <div class="int mx-auto">
	        <p><a href="https://cidades.ibge.gov.br/ranking-resumido/download.html?cod=2924058" target="_blank" rel="noopener">Pé de Serra</a> está localizado no Território de Identidade da Bacia do Jacuípe, no centro-norte da Bahia, fazendo divisa com os municípios de Riachão do Jacuípe, Ipirá, Capela do Alto Alegre e Nova Fátima. O município, com 13.243 habitantes, tem 596,7 km² de extensão territorial, situando-se integralmente no bioma Caatinga, característica que condiciona fortemente sua paisagem, uso do solo e formas de ocupação humana.</p>
        </div>
    </div>



<p>Os impactos da seca afetam principalmente as famílias de agricultores. E a situação poderia ser muito mais grave se não fossem uma série de ações e tecnologias de convivência com o semiárido implementadas com o apoio da sociedade civil organizada, muitas delas transformadas em políticas públicas. “Se não fossem essas políticas…”, suspira Jorge Irineu.</p>



<p>A família de Pascoal Pinto de Jesus, que tem uma pequena propriedade de dois hectares no povoado de Lagoa do Curral, uma das áreas mais afetadas pela estiagem no município, tem se desdobrado para manter a produção de caprinos com tão pouca água. Hoje, Pascoal e a esposa Maria de Lurdes, com quem está casado há 34 anos, criam 23 cabras e algumas galinhas. Já desistiu de plantar feijão e milho há, pelo menos, cinco anos. Cansou de perder a colheita. Para ele, a situação tem se agravado com o tempo. “Antigamente, a gente perdia uma colheita a cada dez. Hoje se perde dez para ganhar uma.”</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/12/Pascoal-e-Maria-de-Lurdes-300x200.jpg">
                <source media="(min-width: 800px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/12/Pascoal-e-Maria-de-Lurdes-1024x683.jpg">
                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/12/Pascoal-e-Maria-de-Lurdes-1024x683.jpg" alt="Duas pessoas - uma mulher e um homem - estão em pé sobre um terreno seco e irregular, com sulcos profundos e pouca vegetação. O solo parece árido, com algumas árvores verdes ao fundo e o céu parcialmente nublado. Ambas estão vestidas de forma simples, apropriadas para clima quente, e uma delas segura um bastão de caminhada. A paisagem sugere uma área rural afetada por erosão ou seca." class="" loading="lazy" >
            </picture>

	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Pascoal Pinto de Jesus e Maria de Lurdes, agricultores de Pé de Serra 
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Inês Campelo/Marco Zero</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Pascoal adora criar bode. Segundo ele, “é dinheiro na mão”, já que tem mais clientes para comprar a carne do que ele pode oferecer. É a famosa lei da oferta e da procura. “Mas quando chega a seca, o produtor já perde. Tem que gastar mais para produzir menos. A criação não evolui. É, praticamente, manter o rebanho e esperar que um dia vai melhorar.”</p>



<p>Enquanto espera as coisas melhorarem, ele segue trabalhando com capricho. “Bode tem que ter cuidado, tem que ter zelo. Tem que limpar o local onde eles dormem, colocar água sanitária, cal, para evitar vermes.” Pascoal, que mora em uma casa a poucos quilômetros da propriedade, instalou internet e câmeras de segurança para vigiar o rebanho quando está longe.</p>



<p>Em meio a mais de um ano sem chuva, Pascoal vai sobrevivendo com seu esforço e também acessando políticas públicas e tecnologias de convivência com o semiárido. Há 12 anos, por exemplo, ele foi beneficiado com a construção de um barreiro para armazenar água em sua propriedade, por meio de um programa coordenado pela Articulação Semiárido Brasileiro (ASA). O barreiro, com capacidade para 600 mil litros, quando cheio, garantiria água por dois anos. Mas não enche há quatro anos. Pascoal também recebe assistência técnica do Movimento de Organização Comunitária (MOC), por meio do programa Ater Biomas da Bahia.</p>


	<div class="informacao mx-md-5 px-5 py-4 my-5" style="--cat-color: #7BDDDD;">
		<span class="titulo text-uppercase mb-3 d-block">MOC e Rede ATER: políticas públicas que viraram resultados em Pé de Serra</span>

		<p><!-- wp:paragraph --></p>
<p>A presença continuada do Movimento de Organização Comunitária (MOC), articulado à Rede ATER Nordeste de Agroecologia, foi decisiva para transformar políticas públicas em resultados concretos no município de Pé de Serra, no Semiárido baiano. Desde os anos 2000, a assessoria técnica e o trabalho de organização social contribuíram para ampliar o acesso à água, com a implantação de centenas de cisternas para consumo humano e produção, reduzindo a vulnerabilidade das famílias rurais à seca e criando condições para a retomada da produção de alimentos.</p>
<p>Esse apoio técnico também impulsionou a diversificação produtiva e o fortalecimento da agricultura familiar, com estímulo a quintais produtivos, criação animal, manejo da palma forrageira e adoção de práticas agroecológicas. Ao mesmo tempo, agricultores e agricultoras passaram a acessar de forma mais consistente mercados institucionais, como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), além de feiras locais, garantindo renda e escoamento da produção. O fortalecimento de cooperativas, grupos produtivos e espaços de participação social consolidou a atuação do MOC e da Rede ATER como um dos principais pilares do desenvolvimento rural e da convivência com o Semiárido em Pé de Serra.</p>
	</div>



<p>Apesar do esforço de Pascoal, o terreno onde ele cria seus animais possui pouquíssima vegetação, sem praticamente nenhum vestígio de que ali já foi uma área coberta por caatinga. Antes de avançar na reportagem, é preciso entender o que aconteceu em Pé de Serra do ponto de vista econômico e social.</p>



<p>Por conta do solo raso, pedregoso e de fertilidade limitada, ao longo do tempo a população foi derrubando áreas de vegetação nativa para a formação de roçados, pastagens e atividades extrativistas, em um contexto de baixa disponibilidade hídrica e alta vulnerabilidade climática.</p>



<p>A conversão de áreas de caatinga em pastagens, devido à expansão da pecuária, ocorreu de forma contínua ao longo das últimas décadas, com o uso de máquinas agrícolas e a substituição de sistemas produtivos diversificados por áreas abertas permanentes.</p>



<p>Além da pecuária, o desmatamento também esteve historicamente ligado a atividades extrativas, como a produção de carvão vegetal e a exploração de madeira nativa, bem como à mineração de pedra presente no município. Essas atividades provocaram impactos diretos sobre a vegetação e o solo, frequentemente associadas à ausência de fiscalização ambiental adequada e a condições precárias de trabalho, ampliando os passivos socioambientais no território.</p>



<p>Outro fator relevante foi a introdução e expansão do sisal, que romperam com práticas tradicionais de manejo e favoreceram a simplificação dos agroecossistemas. A substituição da vegetação nativa por cultivos homogêneos reduziu a biodiversidade local e aumentou a exposição do solo à erosão, especialmente em anos de seca prolongada.</p>



<h2 class="wp-block-heading">O exemplo de Dona Dadá</h2>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/12/Maria-do-Carmo-e-familia-no-sitio-300x200.jpg">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/12/Maria-do-Carmo-e-familia-no-sitio-1024x683.jpg" alt="Quatro pessoas estão em pé em uma área de cultivo ao ar livre, sob um céu parcialmente nublado. São três adultos e uma criança, todos segurando chapéus de palha. Um dos adultos também segura um pequeno ramo de plantas verdes. A pessoa ao centro veste uma camiseta com os dizeres “Feira da Economia Solidária”, indicando participação em uma atividade comunitária ligada à agricultura sustentável. Ao fundo, há plantas cultivadas e uma estrutura com tela, possivelmente usada para proteção ou sombreamento." class="" loading="lazy" >
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Maria do Carmo de Carvalho Silva, dona Dadá, e sua família
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Inês Campelo/Marco Zero</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Em meio a uma paisagem seca e degradada, uma pequena área verde chama a atenção. Em aproximadamente cinco hectares, Maria do Carmo de Carvalho Silva, junto com sua família de agricultores, construiu uma espécie de oásis na zona rural de Pé de Serra. Pelo nome de batismo, pouca gente a conhece, mas, ao falar de Dona Dadá, todo mundo da redondeza sabe exatamente quem é. Aos 63 anos, Dadá mora na propriedade desde os anos 1980.</p>



<p>De lá para cá, conseguiu montar um sistema de produção bastante diversificado, com horta, criação de abelhas, vacas (20 cabeças), cabras (oito cabeças) e galinhas. A horta, orgulho de Dona Dadá, tem de tudo um pouco durante o ano inteiro. No período de chuva, ela planta uma roça com feijão, milho, batata-doce, maxixe, abóbora e mais o que consegue. Ainda tem a plantação de palma, que serve de alimento para o gado, e uma área de reserva, onde mantém a caatinga preservada.</p>



<p>Para manter tudo isso, além da assistência técnica do MOC, acessa vários programas e políticas públicas, como o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), participa da feira agroecológica todos os sábados e tem uma cisterna calçadão onde coleta e armazena água. Recentemente, comprou umas cabras com financiamento do Banco do Nordeste. “Depois que comecei no banco, agora eu nado na terra seca”.</p>



<p>Maria da Paz, filha mais velha de Dadá, segue os passos da mãe e do pai, Gervásio da Silva, na paixão pela agricultura. Para Maria, a grande dificuldade é a falta d’água. “Porque força de vontade, carinho e conhecimento a gente tem para plantar”, complementa. Segundo ela, apesar de a cisterna ser importante, não é suficiente para dar conta da demanda de água, principalmente em períodos de estiagem como os que a população de Pé de Serra tem enfrentado.</p>



<p>Para complementar a cisterna, eles têm comprado cerca de quatro caminhões-pipa de dez mil litros cada por mês. “Pagamos R$ 100 por caminhão porque somos clientes antigos. O preço normal é R$ 250.” Para cobrir os custos, ela faz um cálculo rápido. “Uma semana de trabalho na roça paga um mês de caminhão-pipa. As outras três semanas de trabalho são para tirar todo o resto.”</p>



<p>Mateus Jonnei, coordenador de projetos do MOC, explica que está havendo um desequilíbrio de chuvas dentro do próprio município. Já começou a chover em algumas partes e em outras não. “Antes não era assim”, relembra. Talvez Dona Dadá tenha a explicação para esse fenômeno recente. “Quando eu era criança, isso tudo aqui era mato. O homem veio e desmatou tudo. Depois de velha, ter que ver uma estiagem dessa.”</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Agrofloresta como projeto de vida</strong></h2>



<p>A pouco mais de 50 quilômetros de Pé de Serra, no distrito de Barreiras, no município vizinho de Riachão do Jacuípe, está um exemplo importante de como enfrentar as mudanças climáticas. Em uma pequena propriedade, Eduardo Emídio e sua esposa, Cristina Queiroz, transformaram a terra árida e degradada em uma vibrante e lucrativa agrofloresta. Uma história de relação com a terra que começou a ser construída há mais de duas décadas a partir de uma ruptura. No início dos anos 2000, ele e Cristina deixaram o emprego na cidade e retornaram à propriedade herdada da família, movidos pela ideia de preservar o pouco de caatinga que ainda existia na área. “No começo era pensamento, era ideia”, resume.</p>



<p>A ruptura não foi apenas do ponto de vista profissional. Era romper também com a maneira como o pai, o avô e os tios entendiam a relação com a terra. Era fazer tudo de outro jeito. “A diferença era que a gente vinha de uma cultura do desmatamento para produção de alimentos, para a criação de animais. E a gente passou a ver que, em toda seca, morria metade dos animais. Toda seca as famílias passavam fome e necessidade por conta de não ter segurança alimentar. Então a gente passou a entender que áreas que eram muito produtivas, com o tempo deixavam de ser. Foi aí que passamos a ter o entendimento de que a caatinga era importante para manter a fertilidade do solo e a produção.”</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/12/Vista-aerea-do-terreno-de-Eduardo-300x169.jpg">
                <source media="(min-width: 800px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/12/Vista-aerea-do-terreno-de-Eduardo-1024x576.jpg">
                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/12/Vista-aerea-do-terreno-de-Eduardo-1024x576.jpg" alt="A imagem mostra uma vista aérea de uma propriedade rural cercada por vegetação densa. No centro, há uma casa com telhado de cerâmica vermelha e painéis solares instalados. Ao lado da casa, vê-se uma estrutura circular com cobertura vermelha, parecida com um quiosque, e uma espécie de trampolim ao redor. Há também um pequeno galpão com telhado de telha e um reservatório de água redondo. Uma estrada de terra passa na parte inferior da imagem, onde está estacionado um carro. A área ao redor combina vegetação nativa com partes cultivadas, delimitadas por cercas." class="" loading="lazy" >
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Eduardo Emídio recaatingou seu terreno e hoje lida de forma mais tranquila com a estiagem.
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Inês Campelo/Marco Zero</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>A decisão de viver da terra, no entanto, não foi imediata. Até 2005, Eduardo ainda conciliou o trabalho na indústria cerâmica com o manejo da propriedade. A virada veio com o acesso ao Pronaf, em 2005. Com um financiamento de R$ 8.500, eles investiram em um galpão para armazenar capim seco, uma máquina forrageira, o plantio de palma e a compra de caprinos e ovinos &#8211; escolhas consideradas “loucuras” à época. “Galpão era visto como casa para morar, não para guardar capim”, lembra. Do recurso ainda sobrou dinheiro para a compra de uma vaca, que acabou se tornando central na sustentabilidade financeira do projeto: ao longo dos anos, a venda de bezerros e do leite permitiu quitar integralmente o financiamento. Ao final, a vaca foi vendida para pagar a última prestação, e o restante da estrutura permaneceu.</p>



<p>A partir de 2010, o sistema produtivo já estava consolidado em bases agroflorestais e de sustentabilidade, atraindo visitas de entidades e organizações interessadas em conhecer a experiência. Foi também nesse período que surgiram conflitos. Eduardo relata perseguições políticas e tentativas de interferência no projeto, incluindo disputas envolvendo despejo de resíduos de esgoto e interesses ligados à indústria cerâmica. “A ameaça não era a gente, era o que a gente indicava: que dava para manter a caatinga de pé”, afirma. A disputa se estendeu por oito anos e só foi resolvida em 2018, quando a família obteve segurança jurídica para seguir com o trabalho.</p>



<p>Durante esse período, a relação com a comunidade também exigiu estratégias de diálogo. Eduardo conta que levou escolas e crianças para dentro da propriedade, apostando na educação ambiental como forma de reduzir resistências. “A criança voltava para casa contando o que viu: o peixe, a galinha, o cabrito, o passarinho. Isso ajudou os pais a entenderem que não éramos uma ameaça”, diz.</p>



<p>Hoje, a propriedade funciona com base na convivência com o semiárido. Não há poços artesianos nem rios permanentes, mas o sistema de captação de água da chuva garante abastecimento durante todo o ano. São quatro cisternas, dois barreiros subterrâneos, três barreiros convencionais e uma mandala produtiva. Mesmo após longos períodos de estiagem, Eduardo afirma não enfrentar falta de água nem perda de animais. “A gente não compra alimento, não perde animal e consegue manter a produção”.</p>



<p>A caatinga deixou de ser vista como obstáculo e passou a ser tratada como ativo produtivo. Em uma área de 24 hectares, quase 95% permanecem cobertos por vegetação nativa, com 40% de reserva legal. A propriedade abriga aproximadamente 40 bovinos, 90 caprinos, além de galinhas, peixes e abelhas. Segundo Eduardo, a recuperação ambiental atraiu a fauna silvestre: um levantamento recente identificou cerca de 130 espécies de animais vivendo na área. Em alguns pontos da propriedade, a temperatura chega a ficar 8 graus abaixo da média local.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/12/Eduardo-Emidio-300x200.jpg">
                <source media="(min-width: 800px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/12/Eduardo-Emidio-1024x683.jpg">
                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/12/Eduardo-Emidio-1024x683.jpg" alt="Eduardo Emídio está em pé em uma área de mata verde, sob um céu azul claro. Ele veste uma camisa verde de mangas compridas com um emblema circular no peito e usa um chapéu de palha de aba larga. Ao redor, há capim alto e árvores finas com poucas folhas, indicando um ambiente natural, possivelmente reflorestado. A luz do sol é suave, sugerindo que a foto foi tirada pela manhã ou no fim da tarde." class="" loading="lazy" >
            </picture>

	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Ao tirar o sustento da caatinga em pé, Eduardo chegou a ser visto como ameaça
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Inês Campelo/Marco Zero</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>A diversificação produtiva levou à criação de uma queijaria certificada, hoje a única da Bahia a industrializar laticínios a partir de produtos da caatinga. A produção inclui queijos, iogurtes, manteigas e doces feitos com frutas nativas como umbu, mandacaru, palma, licuri e maracujá-do-mato (diferente daquele que geralmente encontramos nos supermercados). Parte significativa da renda vem desses produtos, vendidos principalmente na loja da própria propriedade e em feiras agroecológicas da região.</p>



<p>Além de Eduardo e Cristina, mais duas pessoas trabalham na propriedade. O filho do casal, Fábio Queiroz, de 22 anos, cada vez mais tem assumido os negócios da família. Eles também contam com a ajuda de um profissional que cuida do curral. Atualmente, são produzidos 200 litros de leite por dia, que são transformados integralmente em queijo e iogurte.</p>



<p>Eduardo destaca que a lógica do projeto sempre foi de longo prazo. Planejado em 2000 para ser concluído em 2020, o processo de “recatingamento” só terminou em 2021. Para ele, o diferencial não está em ensinar técnicas, mas em promover entendimento. “Não é aprendizado, é entendimento. Entender que armazenar água da chuva é melhor do que furar poço; que a caatinga é produtiva; que o sistema define o animal, e não o contrário.”</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
            <picture>
                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/12/Terrenos-de-Eduardo-e-Pascoal-300x83.jpg">
                <source media="(min-width: 800px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/12/Terrenos-de-Eduardo-e-Pascoal-1024x284.jpg">
                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/12/Terrenos-de-Eduardo-e-Pascoal-1024x284.jpg" alt="A imagem apresenta duas paisagens aéreas lado a lado, formando um contraste marcante. À esquerda, vê-se uma floresta densa e verde, com árvores variadas e vegetação abundante, transmitindo a ideia de um ecossistema saudável e preservado. À direita, o cenário é seco e árido, com pouca vegetação, um pequeno reservatório de água e uma estrada de terra sinuosa cortando o terreno. A diferença entre os dois lados evidencia os impactos da degradação ambiental, como desmatamento ou uso inadequado do solo, em oposição à conservação da natureza. Essa comparação visual destaca a importância da proteção dos ambientes naturais para manter o equilíbrio ecológico." class="" loading="lazy" >
            </picture>

	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Duas propriedades, uma com agrofloresta preservada outra degradada. Mais de 8 graus de diferença na temperatura entre uma e outra.
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Inês Campelo/Marco Zero</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	

    <div class="infos mx-md-5 px-5 py-4 my-5">
        <span class="titulo text-uppercase mb-2 d-block"></span>

	    <p>Esta reportagem foi produzida em parceria com a <a href="https://redeaterne.org.br/">Rede Ater Nordeste</a>.</p>
    </div>



<h2 class="wp-block-heading">Leia também:</h2>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/em-valente-ba-a-seguranca-alimentar-comeca-na-escola/" class="titulo">Em Valente (BA), a segurança alimentar começa na escola</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/semiarido/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Semiárido</a>
			        </div>
	            </div>
        </div>

		


        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/articulacao-entre-ong-e-prefeitura-eliminou-ultraprocessados-da-merenda-escolar-em-cumaru/" class="titulo">Articulação entre ONG e prefeitura eliminou ultraprocessados da merenda escolar em Cumaru</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/educacao/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Educação</a>
			        </div>
	            </div>
        </div>

		


        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/a-peleja-da-agricultura-familiar-contra-os-salgadinhos-e-sucos-de-caixinha/" class="titulo">A peleja da agricultura familiar contra os salgadinhos e sucos de caixinha</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/educacao/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Educação</a>
			        </div>
	            </div>
        </div>

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		<title>“Tecendo o futuro com as próprias mãos”</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Inês Campelo]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 06 Jun 2025 22:35:54 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Diversidade]]></category>
		<category><![CDATA[artesanato]]></category>
		<category><![CDATA[Casa de Maria]]></category>
		<category><![CDATA[empoderamento]]></category>
		<category><![CDATA[empreendedorismo]]></category>
		<category><![CDATA[feminino]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O que tem em comum entre uma bolsa de palha de carnaúba trançada em Cabreiro de Cima, distrito de Aracati (CE), e uma bolsa de crochê produzida na Casa de Maria, em Jaboatão dos Guararapes (PE)? Além de belíssimas, as duas peças são exemplos de como o trabalho manual, aliado a uma boa dose de [&#8230;]</p>
<p>O post <a href="https://marcozero.org/tecendo-o-futuro-com-as-proprias-maos/">“Tecendo o futuro com as próprias mãos”</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>O que tem em comum entre uma bolsa de palha de carnaúba trançada em Cabreiro de Cima, distrito de Aracati (CE), e uma bolsa de crochê produzida na Casa de Maria, em Jaboatão dos Guararapes (PE)? Além de belíssimas, as duas peças são exemplos de como o trabalho manual, aliado a uma boa dose de empreendedorismo, vem gerando renda e empoderando dezenas de mulheres brasileiras.</p>



<p>São duas realidades bem diferentes uma da outra, mas, ao serem mostradas e colocadas lado a lado, elas se somam e ajudam a pintar um quadro mais completo da potência transformadora do artesanato no Brasil. Estamos falando de Aracati e seu entorno e da Casa de Maria, mas poderia ser de qualquer outro lugar do país.</p>



<p>Vamos começar a história por Cabreiro de Cima, ou melhor, por Natália Sena Costa. Nat, como é mais conhecida, tem trinta anos e trabalha com palha há sete, incentivada pela tia Socorro Saboia, 62 anos, que, por sua vez, aprendeu o ofício com a mãe. Como muitas das meninas da região, começou fazendo descanso de panela e depois passou para bolsas e cestos que são peças mais elaboradas. Tudo feito com palha de carnaúba, palmeira-símbolo do Ceará e principal matéria-prima para o artesanato da região.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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	                                        <p class="m-0">Nat, a sócia Vanessa e tia Socorro. Foto: Inês Campelo/MZ
</p>
	                
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>O que diferencia Nat da maioria das mulheres que fazem trabalho com palha é a visão empreendedora. Antes do artesanato, ela já era ativa no Instagram, com uma conta sobre autoaceitação de pessoas com deficiência. Aqui cabe uma explicação: Natália nasceu com uma malformação na coluna vertebral chamada de escoliose. Em 2018, ela levou a experiência digital para o artesanato e abriu uma loja virtual. “Pesquiso tudo no Instagram. Sou muito curiosa. Aprendi sobre tráfego pago e estou usando. As vendas cresceram muito.”</p>



<p>Nat é uma influenciadora do bem. Somando seu perfil pessoal (<a href="https://www.instagram.com/costa_natt/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">@costa_natt</a>) e o profissional (<a href="https://www.instagram.com/natartartesanato/" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><a href="https://www.instagram.com/natartartesanato/#">natartartesanato</a></a>) já está batendo os 100 mil seguidores. Mas ela não ficou apenas no “virtual”. “Com a paixão pelo artesanato e a vontade de empreender, decidi reunir as mulheres artesãs da minha família e criar a empresa Nat Art Artesanato em novembro de 2018. Minha primeira venda em atacado foi no mês seguinte”.</p>



<p>Natália começou seu negócio muito mais na intuição. “Comecei sem plano nenhum e ao longo dos meses as vendas foram aumentando”. Mas ela viu que só intuição, talento e boa vontade não seriam suficientes. Foi aí que resolveu investir em formação profissional. Fez vários cursos, entre eles o Empretec, uma metodologia criada pela ONU, oferecida pelo Sebrae no Brasil, com o objetivo de desenvolver o comportamento empreendedor e identificar novas oportunidades de negócio. Deu certo. “Já vendi para todos os estados do Brasil”.</p>



<p>Tudo isso fez de Nat um exemplo. “Meu trabalho incentiva outras mulheres com deficiência. Mas ainda há preconceito: por ser do interior, por ser deficiente. Sempre me perguntam se tenho capacidade de entregar.”</p>



<p>Vanessa da Silva Barbosa, 18 anos, é parceira de Nat nas vendas e produção. Desde os 12, trabalha com customização de palha. As duas formam uma dupla inseparável. Vanessa vê no artesanato uma forma de garantir renda e manter os laços com sua história.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Laços de palha e amizade</strong></h2>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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	                                        <p class="m-0">Retrato das tardes de trançar palha e bater papo na casa de Santinha. Foto: Inês Campelo/MZ
</p>
	                
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Natália é o que se pode chamar de “caso de sucesso”. Mas, como ela, existem milhares de mulheres que são responsáveis pela região do baixo Jaguaribe ser reconhecida pela excelência do artesanato feito com palha de carnaúba, técnica passada de geração em geração, com beleza, saber e resistência.</p>



<p>Na comunidade de Tabuleiro do Luna, em Itaiçaba (CE), por exemplo, a força da tradição se entrelaça com os fios da amizade. Francisca da Silva dos Santos, 75 anos, é uma referência pela qualidade do seu trabalho, bom humor e espírito agregador. Junto com outras nove mulheres, Santinha, como é conhecida, forma um grupo que produz de maneira compartilhada: cada uma é especialista em um ponto ou etapa. “Somos amigas desde os anos 1970.” Estão no grupo Rita Araújo (81), Ocirema Rodrigues (60), Maria de Lurdes (65) e seu marido Aluísio de Lima (74, que costura as esteiras), e Maria do Carmo Araújo (57), filha de dona Rita.</p>


    <div class="box-explicacao mx-md-5 px-4 py-3 my-3" style="--cat-color: #1E69FA;">
        <span class="titulo"><+></span>

        <div class="int mx-auto">
	        <p><em>O litoral leste do Ceará e o Baixo Jaguaribe — que inclui municípios como Aracati, Itaiçaba, Palhano, entre outros — é marcado por paisagens de carnaubais, mangues e dunas, com comunidades rurais e pesqueiras espalhadas entre vilarejos e zonas urbanas. Nessas áreas, o artesanato com palha de carnaúba é uma prática tradicional, especialmente entre as mulheres, unindo saberes transmitidos por gerações ao uso sustentável dos recursos naturais, e representando uma importante fonte de identidade e renda para a população local.</em></p>
        </div>
    </div>



        <figure class="wp-block-image my-5 ">
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Santinha e as tranças de carnaúba. Foto: Inês Campelo/MZ
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Inês Campelo/MZ</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Santinha aprendeu a arte com a mãe e a avó. “As coisas que elas faziam eram mais simples&#8230; chapéus grosseiros. A inovação chegou e melhoramos o trabalho.” Ela nunca trabalhou em uma empresa. Construiu sua casa e criou os 12 filhos com a renda da palha. “Só um ainda trabalha com isso, cortando palha.” E lamenta: está cada vez mais difícil conseguir matéria-prima.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Da pintura ao banquinho de bode</strong></h2>



<p>Para que a bolsa, aquela que falamos no início da reportagem, faça sucesso no Instagram e nas lojas especializadas, existe antes uma cadeia de produção.</p>




	<div class="informacao mx-md-5 px-5 py-4 my-5" style="--cat-color: #7BDDDD;">
		<span class="titulo text-uppercase mb-3 d-block">Como a palha vira ouro</span>

		<p><strong>Matéria-prima:</strong></p>
<ul>
<li>Utiliza-se a folha da carnaúba, conhecida como “olho da carnaúba”.</li>
</ul>
<p><strong>Secagem:</strong></p>
<ul>
<li>A folha é colhida e passa por um processo de secagem ao sol que dura até 4 dias.</li>
</ul>
<p><strong>Riscagem:</strong></p>
<ul>
<li>Após a secagem, a artesã usa uma pequena faca para “riscar” o olho da carnaúba.</li>
<li>Nesse processo, separa-se o “lombo” da palha, parte que dá volume e estrutura à peça.</li>
</ul>
<p><strong>Armazenamento:</strong></p>
<ul>
<li>A palha é guardada em local arejado.</li>
</ul>
<p><strong>Preparação para uso:</strong></p>
<ul>
<li>Antes de ser trabalhada, a palha é umedecida com um pano para ficar mais maleável.</li>
</ul>
<p><strong>Confecção da peça:</strong></p>
<ul>
<li>A artesã inicia a criação usando pontos abertos e fechados.</li>
<li>Quando necessário, utiliza-se uma forma de madeira como molde para garantir o formato desejado.</li>
</ul>
	</div>



<p>Outro trabalho importante é a pintura das palhas. Em Itaiçaba, apenas três mulheres fazem esse trabalho de forma mais sistemática. Uma delas é Maria Lúcia Barbosa, 66 anos, que aprendeu a pintar palha observando a vizinha pela cerca no seu quintal. “O pacote de corante custa R$ 7 e pinta 75 olhos de palha. Preto e verde musgo são os que mais saem.”</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 ">
            <picture>
                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/06/Trabalho-com-palha-de-Carnauba-no-Ceara_-6-300x225.jpg">
                <source media="(min-width: 800px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/06/Trabalho-com-palha-de-Carnauba-no-Ceara_-6-1024x768.jpg">
                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/06/Trabalho-com-palha-de-Carnauba-no-Ceara_-6-1024x768.jpg" alt="Maria Lúcia Barbosa artesã" class="w-100" loading="lazy" >
            </picture>

	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Maria Lúcia tingiu a palha para que a reportagem conhecesse o processo. Foto: Inês Campelo/MZ
</p>
	                
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Ela vende cada olho de palha pintado por R$ 3. O preço fica por R$ 2,50, se a palha for da cliente. Pinta cerca de 150 olhos por mês. “Trabalho quieta, mas firme. Tenho um casal de filhos.”</p>



<p>Já Iracema Maria de Lima, 51 anos, brinca dizendo que trabalha com palha desde “dentro da barriga da mãe”. Começou com camisa de litro, peça que veste as garrafas decorando-as, passou 15 anos em Petrópolis (RJ), mas voltou para casa. Hoje, faz roupas de palha e banquinhos em forma de bode e jumento. Peças únicas. Mora com a mãe, o marido e o filho de 14 anos. “É difícil fazer e nem sempre as pessoas dão valor.” Venceu três vezes o tradicional concurso de artesanato da festa da Pescaria da cidade, no Sete de Setembro.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/06/Trabalho-com-palha-de-Carnauba-no-Ceara_-7-300x225.jpg">
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Iracema e sua mãe, artesãs. Crédito: Inês Campelo/MZ
</p>
	                
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<h2 class="wp-block-heading"><strong>Esvaziamento de uma tradição</strong></h2>



        <figure class="wp-block-image my-5 ">
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                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/06/No-rastro-da-palha_Carnauba_0014___-300x225.jpg">
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Viveiro de camarão no distrito de Cabreiro de Cima, Aracati. Foto: Inês Campelo/MZ
</p>
	                
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>A palha de carnaúba não é só matéria-prima. É símbolo de pertencimento e sobrevivência. Seu ciclo envolve cuidado com a natureza, técnica apurada e um olhar coletivo. É uma economia de afeto, saber e resistência, exatamente o oposto da carcinicultura, atividade econômica que se expande velozmente na região. Neste contexto, o aumento de áreas para criação de camarões tem provocado impactos negativos cada vez maiores na cadeia produtiva do artesanato local.</p>



<p>A principal preocupação, a mais visível e mensurável também, é a destruição de áreas naturais onde crescem as carnaubeiras, convertidas em fazendas de camarão. Como essas plantações exigem grandes extensões de terra e água, há uma redução nas áreas disponíveis para o cultivo e coleta da palha, essencial para a produção artesanal. Além disso, alterações ambientais provocadas pela atividade, como a poluição da água e perda de biodiversidade, também comprometem a qualidade da matéria-prima.</p>



<p>Outro efeito significativo da carcinicultura é a mudança na dinâmica econômica local. Com a promessa de empregos e lucros rápidos, a criação de camarões atrai investimentos e mão de obra que antes estavam ligados ao artesanato. Isso provoca um esvaziamento do setor artesanal, reduzindo a produção de peças em palha de carnaúba e enfraquecendo a cultura local. A longo prazo, esses impactos colocam em risco tanto o sustento de artesãos quanto a preservação desse saber tradicional.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
            <picture>
                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/06/Trabalho-com-palha-de-Carnauba-no-Ceara_-8-300x200.jpg">
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Cerzina mostrando o trançado das bolsas de carnaúba. Crédito: Inês Campelo/MZ
</p>
	                
                                    </figcaption>
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<p>Cerzina Ferreira da Silva, presidente da <a href="https://www.instagram.com/arti.itaicaba/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Associação das Mulheres Artesãs</a>, que já teve mais de 200 integrantes, hoje conta com apenas cerca de 60 participantes ativos, fala das dificuldades que se acumulam: a redução das áreas de carnaubeira, a perda de qualidade da água e o desinteresse da juventude.</p>



<p>“De janeiro até maio, junho, por conta das chuvas, as famílias artesãs sofrem muito. As palhas mofam e o valor cai”, explica Cerzina. “É mais fácil um jovem ser vigia de um viveiro de camarão do que ir trabalhar com artesanato.” Além dos desafios materiais, há um sistema de exclusão mais profundo. “O sistema que está por trás disso tudo não deixa a gente crescer”.</p>



<p>“Aqui era cheio de carnaubeira. No caminho para Aracati era tudo carnaúba. Agora é só viveiro de camarão. Esculhambou o rio, esculhambou as carnaúbas, esculhambou tudo”, resume Dona Raimunda Ferreira, mãe de Cerzina.</p>



<p>O ex-secretário de agricultura Raimundo Nonato, 56 anos, conhece de perto esse cenário. Ele pagou os estudos com a renda do artesanato feito com a mãe. Formado em contabilidade e administração, teme que o saber que moldou sua trajetória desapareça. “Daqui uns dez anos, tenho medo que o artesanato com palha de Itaiçaba se acabe.”</p>



<hr class="wp-block-separator has-alpha-channel-opacity"/>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>OURO FEMININO</strong></h2>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
            <picture>
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Aula de macramê na Casa de Maria. Crédito: Inês Campelo/MZ
</p>
	                
                                    </figcaption>
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<p>Lembra a história de Santinha e suas amigas criando juntas peças de palha de carnaúba lá em Itaiçaba? Pois bem, em Pernambuco, mais especificamente em Jaboatão dos Guararapes, a lógica é a mesma. Aqui os nós do empreendedorismo já foram desatados, e, como nos pontos de macramê e de crochê, a <a href="https://www.instagram.com/projetocasademaria/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Casa de Maria</a> junta sempre o criar e empreender na mesma peça. A frase na entrada da sede do projeto resume o espírito do lugar: “Tecendo o futuro com as próprias mãos”.</p>



<p>Primeiro, é preciso entender o que é o projeto. A <a href="https://www.instagram.com/projetocasademaria/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Casa de Maria</a> nasceu, em 2017, a partir do compartilhamento de conhecimento de crochê entre as mães que aguardavam seus filhos atendidos pelo <a href="https://www.instagram.com/projetoariasocial/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Ária Social</a>. A ideia foi reconhecida e abraçada por Cecília Brennand, presidenta do Ária, que de imediato promoveu a profissionalização de artesãs, gerando renda através do empreendedorismo social. O nome vem da junção do “M” de mãe com o “aria” do projeto inicial, resultando em Maria.</p>



<p>Atualmente são atendidas 140 mulheres, divididas em cinco oficinas: macramê, crochê, amigurumi, tecelagem de jornal e costura. E não é só isso. A busca pela excelência é constante, está presente em todas as etapas da formação e na produção das peças para as coleções que são comercializadas nas <a href="https://projetocasademaria.com/?fbclid=PAZXh0bgNhZW0CMTEAAafHNqTd2Ch3UlFQhQHqoDckcd3Rxjh0uAAjQ0B8Lt9u5Jksr47QKANbo2Ts-Q_aem_ks9GBHl6CTvHEQf6I3vqrg" target="_blank" rel="noreferrer noopener">lojas do projeto</a>. Já passaram pela Casa designers renomados como Sérgio Matos e Luly Vianna, criando coleções com várias técnicas.</p>



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	                                        <p class="m-0">Inês fazendo o protótipo de uma bolsa. Foto: Inês Campelo/MZ
</p>
	                
                                    </figcaption>
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<p>Maria Inês Costa Silva, é uma das responsáveis pela produção de bolsas em material sintético na Casa de Maria. “Eu tenho a responsabilidade de criar ou de tirar do desenho as peças, a gente recebe visitas de designers, pessoas que criam peças em desenhos, e eu sou responsável por tirar esse desenho do papel”, explica.</p>



<p>Ela participa do projeto desde 2016, quando acompanhava uma prima. “Eu aprendi a fazer crochê e passei a ensinar o que eu aprendi. Depois, Sérgio Matos chegou e trouxe também uma outra técnica, que a gente batizou de Sérgio Matos, porque a gente não sabe exatamente o nome”.</p>



<p>Inês afirma, com convicção, que a entrada no projeto transformou sua vida. “Mudou muito. Antes eu trabalhava como operadora de telemarketing. Gosto de estar aqui por conta da variedade de coisas que a gente consegue fazer. Não fico presa apenas a uma coisa. O tempo todo chega gente com ideias novas, com produtos novos.”</p>



<p>Gilliane da Silva Torres Lins, que está no projeto há sete anos, desde que sua filha começou a fazer aulas de balé, violão e dança contemporânea. “Comecei na Casa de Maria fazendo os cursos. Já fiz de tecelagem. Depois, fiz de macramê. E, agora, faço parte da equipe de produção de macramê da Casa. Faço a bolsa Freda que é toda em macramê com fio sintético. É uma bolsa que leva uns quinze dias para ficar pronta”, diz orgulhosa.</p>



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	                                        <p class="m-0"> Gilliane e a bolsa Freda. Na Casa de Maria o nome de todas as peças homenageiam mulheres. Crédito: Inês Campelo/MZ
</p>
	                
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<p>Sempre tem novidade. “É muito bom o que acontece aqui, porque assim, além da gente aprender sempre uma coisa diferente, tem a socialização com as outras mães, a gente conversa bastante, aí uma vai ensinando pra outra, é um momento de descontração, de aprendizado, é um convívio muito bom”, complementa.</p>



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	                                        <p class="m-0">Tatiana mostra suas ferramentas de trabalho. Foto: Inês Campelo/MZ
</p>
	                
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<p>A transformação é profunda e, na maioria das vezes, rápida. Se Gilliane está há sete anos, Tatiana Lúcia da Silva, por exemplo, entrou no ano passado. “Minha filha tem 10 anos, faz balé, teatro e toca flauta. E, eu aprendi crochê do zero. Nunca peguei em uma agulha e hoje faço vários modelos de Amigurumi. Faço as peças da Casa de Maria e ainda faço peças para vender na lojinha que eu tenho em casa. Depois que eu vim pra cá, tudo melhorou muito”, comemora.</p>



<p>A história de Jaísas Lima reflete o caminho que a maioria das mães podem percorrer dentro do Ária. Entrou como aluna e hoje é professora.“Minha vida mudou depois que eu entrei aqui. Passei a ser reconhecida. A gente aprende coisas novas todo dia. Conseguimos chegar onde a gente quer, no nosso objetivo. Sempre digo isso para minhas alunas: não quero ouvir a frase, eu não posso. Ah, eu não consigo. Quando a gente quer, a gente pode e a gente consegue”.</p>



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	                                        <p class="m-0">O espírito de criação conjunta é registrado na aula de crochê de Jaísas. Foto: Inês Campelo/MZ
</p>
	                
                                    </figcaption>
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<h6 class="wp-block-heading">A reportagem decidiu publicar foto de cada uma das mulheres que dedicou parte do seu dia contando um pouco da sua história.</h6>
<p>O post <a href="https://marcozero.org/tecendo-o-futuro-com-as-proprias-maos/">“Tecendo o futuro com as próprias mãos”</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
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		<title>Potiguaras concluem limpeza do Rio do Aterro</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Inês Campelo]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 17 Feb 2025 19:23:58 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Socioambiental]]></category>
		<category><![CDATA[Agrofloresta]]></category>
		<category><![CDATA[Água Potiguaras]]></category>
		<category><![CDATA[Meio Ambiente]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Foi na manhã de um sábado de janeiro que eu, Inês Campelo e, Sérgio Miguel Buarque, repórteres da Marco Zero, estivemos mais uma vez nas terras da aldeia Alto do Tambá, Baía da Traição, na Paraíba. Um retorno motivado pelo trabalho dos indígenas Potiguaras, que, há quatro anos, iniciaram a abertura do rio do Aterro [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Foi na manhã de um sábado de janeiro que eu, Inês Campelo e, Sérgio Miguel Buarque, repórteres da Marco Zero, estivemos mais uma vez nas terras da aldeia Alto do Tambá, Baía da Traição, na Paraíba. Um retorno motivado pelo trabalho dos indígenas Potiguaras, que, há quatro anos, iniciaram a abertura do rio do Aterro com as próprias mãos e a concluíram por esses dias de janeiro de 2025.</p>



<p>Se você, leitor, chegou aqui nesse texto e ainda não está entendendo ou não recorda muita coisa, os indígenas criaram o projeto Águas Potiguara, que tem como objetivo limpar os rios do território, discutir políticas para os povos indígenas e reconstruir a mata ciliar. O trabalho iniciou pelo rio do Aterro, afluente do rio Sinimbu, que corta as duas aldeias, Alto do Tambá e Forte. Pra quem quiser ler ou recordar aqui está nossa primeira reportagem <a href="https://marcozero.org/um-rio-aberto-com-as-proprias-maos/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Um rio aberto com as próprias mãos</a>.</p>



<p>Começo a história já me explicando! Dessa vez, não conseguimos chegar pertinho da água. Meu zero preparo físico para uma trilha pesou. Além de uma longa descida em um caminho estreito, por dentro da mata, mas com bastante pedras e um calor excruciante, já deixou trêmula as pernas e dolorido os pés, que calçavam um chinelo inadequado para o local. Tendo como outra opção, pior, uma bota de borracha sete léguas, carregada por Sérgio. Não bastasse o desgaste pessoal, sobre o corpo, que já não é tão leve, carregava os equipamentos de imagem.</p>



<p>Ao meio do caminho, uma parada na cozinha improvisada para respirar cinco minutos do ar puro de uma reserva indígena. Era a hora de calçar “as belas” sete léguas para a travessia de um trecho de mais ou menos um quilômetro em um paul &#8211; que vem a ser um terreno semelhante a um pântano. A cada pisada afundava 20, 30, 40 centímetros e tremia igual uma vara verde com medo de afundar completamente e molhar todo equipamento. Um décimo do percurso e resolvi voltar. Por sorte carregava um drone.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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	                                        <p class="m-0">Caminho pelo paul. Crédito: Inês Campelo/MZ
</p>
	                
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<p>O espírito de coletividade continua sendo o norte do Águas. Ficamos na cozinha improvisada, que nada mais é que um frondoso cajueiro, com uns poucos assentos em sua sombra, uma mesa, água gelada, frutas frescas, um empilhado de tijolos criando um fogão a lenha com um caldeirão de peixada fervendo e perfumando. Foi de lá que subi o drone para sobrevoar Jessé e sua filha, que estava pela primeira vez acompanhando o pai, até o ponto de trabalho do dia.</p>



<p>Integrante do Águas Potiguara desde o início e também um dos entrevistados na nossa primeira reportagem, Jessé Viana da Silva, conversou com a gente e contou um pouco sobre sua experiência.</p>



<p>“Foi um trabalho muito difícil. A verdade é essa! Mas também foi uma emoção muito grande quando conseguimos abrir quase cinco quilômetros do rio, então foi gratificante. E a tendência agora é a gente permanecer fazendo a manutenção, pois as raízes das aningas crescem muito rápido”. Além de trazer vida novamente ao rio, a comunidade resgata costumes ancestrais com uso social do rio. “Nos finais de semana sempre estamos lá. Passando o dia. Tomando banho. Brincando. E, hoje você já consegue até pegar alguns peixinhos”, comemora.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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	                                        <p class="m-0">Crédito: Ju Potiguara/Águas Potiguara
</p>
	                
                                    </figcaption>
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<p></p>



<p>Para o futuro a ideia é de reflorestar as margens do rio. “Planejamos fazer uma agrofloresta. Plantar diversos tipos de árvores. Garantir a nossa agricultura familiar com a roça. Mantendo o rio com seu fluxo normal podemos aproveitar principalmente quando os pauis – sim, esse é o plural de paul &#8211; baixarem”, explicou Jessé.</p>



<p>Aproveitamos nossa volta e tiramos algumas dúvidas que nossos leitores e seguidores das redes sociais levantaram quando postamos a primeira matéria. </p>


	<div class="informacao mx-md-5 px-5 py-4 my-5" style="--cat-color: #7BDDDD;">
		<span class="titulo text-uppercase mb-3 d-block"></span>

		<p>A pergunta mais feita foi: por que não usaram uma máquina? “A gente está todos os finais de semana no rio. Limpando, cortando. Até correndo perigo de ser mordido por alguns animais, especialmente cobras. Tentamos parceria com a secretaria do Meio Ambiente do Estado. Infelizmente nos prometeram uma máquina para o trecho mais estreito do rio do Aterro. Já que o Sinibu é muito largo. E para lá tem que ser uma dragagem de fato. Prometeram dar uma resposta. Até hoje a gente espera”, explica Jessé.</p>
<p>Outro questionamento constante foi sobre a identidade indígena do povo potiguara. Para Jessé o desrespeito começa pela maneira pejorativa a qual algumas pessoas se referem aos povos indígenas. “O termo correto é indígena. A gente tenta reeducar as pessoas. Outra coisa, por exemplo que nos questionam muito é por que índio tem celular? Índio tem relógio? Índio tem carro? Índio tem casa de tijolo? O indígena tem tudo isso. O indígena é um cidadão como qualquer outro e que chegou aqui bem antes dos invasores. O povo Potiguara foi guerreiro para poder resistir até hoje. Não é uma questão de aparência. É questão de sangue. De história”, ressalta.</p>
<p>Para não alongar, uma última pergunta: será que vocês estão ‘enxugando gelo’? “Não necessariamente. Porque em parte do rio o problema não é o assoreamento. O que fechou o rio na verdade foi a própria vegetação natural dele. A aninga cresceu de uma forma que ela atravessou totalmente o caminho do fluxo normal do rio”. O reflorestamento das margens será fundamental para manutenção do rio aberto. “Fizemos uma ação em busca de sementes nativas de sucupira, pau-ferro, maçaranduba para fazer mudas e sair plantando, distribuindo no nosso território já com essa mentalidade de proteger também aquelas margens”, concluiu.</p>
	</div>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p>E assim terminamos a manhã do sábado, 25 de janeiro de 2025. Como ainda precisávamos percorrer outros pontos do rio, não ficamos para almoçar a peixada que é feita coletivamente pelas mulheres indígenas e saboreada após a manhã de ação que integra, valoriza, resgata e une o povo potiguara.</p>
</blockquote>
</blockquote>



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</div>
</div></div>
</div>
</div>
</div>
</div>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p><strong>Uma questão importante!</strong></p>



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</blockquote>
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		<title>Em Cruz da Menina, o autorreconhecimento começa na primeira infância</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Inês Campelo]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 23 Dec 2024 20:45:10 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Diversidade]]></category>
		<category><![CDATA[comunidades quilombolas]]></category>
		<category><![CDATA[Dona Inês]]></category>
		<category><![CDATA[Primeira Infância]]></category>
		<category><![CDATA[Programa Criança Feliz]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Toda quinta-feira, as irmãs Rebeca e Radassah têm um compromisso que aguardam com ansiedade a semana toda. É nesse dia que as duas meninas da comunidade quilombola de Cruz da Menina encontram Raquel Oliveira, visitadora do Programa Criança Feliz no município de Dona Inês (PB). Radassah e Rebeca, que têm um e dois anos respectivamente, [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Toda quinta-feira, as irmãs Rebeca e Radassah têm um compromisso que aguardam com ansiedade a semana toda. É nesse dia que as duas meninas da comunidade quilombola de Cruz da Menina encontram Raquel Oliveira, visitadora do Programa Criança Feliz no município de Dona Inês (PB). Radassah e Rebeca, que têm um e dois anos respectivamente, estão entre as 15 crianças da comunidade atendidas pelo programa do Governo Federal voltado para a primeira infância. “Elas mandam áudio perguntando se vou. Muitas vezes ficam esperando na janela. Quando eu chego, elas correm dizendo: ‘Kel chegou, Kel chegou’.”</p>



<p>Esse vínculo afetivo criado entre as meninas e a visitadora, construído ao longo de meses de contatos, é fundamental para o sucesso do programa. A alegria das meninas também vem do fato de que, durante os encontros que duram, em média, 40 minutos, mãe e filhas aprendem de forma lúdica, fazendo tudo parecer uma grande brincadeira. “A visitadora vem uma vez na semana acompanhar as meninas e traz várias atividades. Sempre utiliza coisas domésticas: tampinha de garrafa, pregadores de roupa&#8230; é um acompanhamento muito bom no desenvolvimento da coordenação motora da criança. Para mim, é um excelente trabalho”, define Eliete Pereira Frazão, mãe de Rebeca e Radassah.</p>


    <div class="box-explicacao mx-md-5 px-4 py-3 my-3" style="--cat-color: #1E69FA;">
        <span class="titulo"><+></span>

        <div class="int mx-auto">
	        <p><b>Criança Feliz</b> é um programa do governo federal, com ações realizadas pelos municípios de forma articulada com os serviços socioassistenciais, via Centros de Referência de Assistência Social (CRAS) e com as demais políticas públicas setoriais. Por meio de visitas domiciliares às famílias participantes do Cadastro Único, as equipes do Criança Feliz fazem o acompanhamento e dão orientações importantes para fortalecer os vínculos familiares e comunitários, além de estimular o desenvolvimento infantil.</p>
<p>Quem pode participar:</p>
<p>• Gestantes, crianças de até três anos e suas famílias beneficiárias do Programa Bolsa Família;<br />
• Crianças de até seis anos beneficiárias do Benefício de Prestação Continuada e suas famílias;<br />
• Crianças de até seis anos afastadas do convívio familiar em razão da aplicação de medida de proteção prevista no art. 101 da Lei nº 8.609, de 13 de julho de 1990, e suas famílias.</p>
        </div>
    </div>



<p>O Criança Feliz, que funciona desde 2017 em Dona Inês, tem sido uma ferramenta importante para que a cidade apresente bons indicadores relacionados à primeira infância, culminando com o recebimento, em 2024, do<a href="https://www.selounicef.org.br/"> Selo Unicef</a>. Mas em Cruz da Menina, o programa vai além. Durante os encontros, enquanto repassam todo conteúdo comum, as visitadoras também buscam fortalecer os vínculos das crianças com a comunidade a partir de um trabalho de valorização da história local, desenvolvendo um sentimento de pertencimento com o lugar onde moram.</p>



<p>Para isso, as visitadoras recebem formação, direcionamento e capacitação específica para o atendimento à comunidade quilombola. “Elas são preparadas para respeitar, acima de qualquer coisa, a história da própria comunidade. O olhar precisa e deve ser diante da realidade do chão do território”, explica Maria Rejane da Silva Araújo, coordenadora do Centros de Referência de Assistência Social (CRAS) do município.</p>



<p>A formação para os trabalhadores que atuam diretamente na comunidade está dentro do plano de ação da assistência social do município. Em 2024, duas visitadoras dividiram o atendimento em Cruz da Menina. Além de Raquel, que atende a três famílias semanalmente, Paula Clementina da Silva atende a outras seis.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Desenvolvimento mais rápido</strong></h2>



<p>Eliete tem outras duas filhas mais velhas, Rúbia (10 anos) e Raíssa (6 anos). Por conta da idade, elas não tiveram oportunidade de entrar no programa. “Quando eu fui lá no CRAS atualizar meu Cadastro Único me falaram sobre esse programa. Aí eu me cadastrei ainda grávida de Rebeca. Eu achei muito bom esse acompanhamento” lembra Eliete.</p>



<p>Assim, comparando as situações distintas vividas na criação das filhas, a mãe pôde perceber a vantagem do acompanhamento semanal feito pelo programa. “O desenvolvimento é mais rápido. Porque quando a pessoa é mãe, é uma correria, né? No dia a dia, você não tem muito tempo para fazer isso ou aquilo. E essa visita, uma vez na semana, ajuda bastante o desenvolvimento delas”.</p>



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	                                        <p class="m-0">Eliete Pereira Frazão e suas filhas. Elas estão sendo acompanhadas pelo Programa Criança Feliz. Crédito: Inês Campelo/Marco Zero</p>
	                
                                            <span>Crédito: Inês Campelo/Marco Zero</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	

    <div class="box-explicacao mx-md-5 px-4 py-3 my-3" style="--cat-color: #1E69FA;">
        <span class="titulo"><+></span>

        <div class="int mx-auto">
	        <p><b>P</b><b>rimeira infância </b>é o período que abrange os primeiros seis anos completos ou 72 meses de vida da criança. São nos primeiros anos de vida que ocorrem o amadurecimento do cérebro, a aquisição dos movimentos, o desenvolvimento da capacidade de aprendizado, além da iniciação social e afetiva.</p>
        </div>
    </div>



<p>Já Rafaela Henrique dos Santos, que tem 32 anos e mora na comunidade desde que nasceu, entrou no programa apenas em 2024, antes de ter a primeira filha. Quando conversou com a reportagem, estava com nove meses de gestação, só esperando a hora de ir para a maternidade. “Eu conheci o Criança Feliz através da minha irmã, que tinha colocado a minha sobrinha no programa. Aí, quando eu descobri que estava grávida, quis entrar logo. A visitadora está me visitando até hoje. E vai me visitar por muito tempo”.</p>



<p>Ela conta que durante as visitas aprendeu muito sobre a gestação. Nos últimos meses também participou de palestras com a enfermeira, que orientou sobre os primeiros cuidados com o bebê. “E teve com a nutricionista, que falou da importância dos alimentos. De como se alimentar bem ajuda no bom crescimento do feto e na boa gestação como um todo”.</p>



<p>Atenta ao trabalho feito pelas visitadoras com as crianças da comunidade, Rafaela aponta outra questão importante do programa. “Às vezes, a mãe não percebe que o filho tem alguma deficiência. Mas as visitadoras percebem logo e já encaminham as crianças para serem acompanhadas por especialistas”.</p>



<p>Rafaela demonstrou estar muito satisfeita com o atendimento que ela, e também a sobrinha, vem recebendo do programa. Em tom de brincadeira, fez apenas uma reclamação: “São só três anos. Era para ser mais tempo&#8230;”</p>



<h2 class="wp-block-heading">“<strong>C</strong><strong>omo estou linda”</strong></h2>



<p>Quem entra na Escola Municipal Educador Paulo Freire, em Cruz da Menina, tem sua imagem refletida em um espelho fixado de frente para a entrada principal da instituição, que faz parte da rede de ensino municipal. Mais do que uma questão estética, o espelho foi colocado ali com o objetivo de despertar, por meio da aceitação da cor da pele e do cabelo, o sentimento de pertencimento e vínculo com a história de luta da comunidade.</p>



<p>“Uma das coisas que a gente trabalha muito forte aqui dentro da comunidade é a escola. Então, a gente pensou em colocar um espelho na entrada para que todas as vezes que as crianças chegassem, elas se vissem”, explica Bianca Quilombola, presidente da associação local. Bianca, que tem 41 anos, lembra que faz parte de uma geração que tinha dificuldade de se aceitar como negra e, muito por conta de sua história de vida, reconhece a importância do sentimento de pertencimento na conquista de direitos por parte da comunidade.</p>



<p>Por isso, ela fica feliz com a postura das crianças diante do espelho da escola. “Todas elas dizem: ‘como estou linda, estou bonita, sou linda’. Todas com cabelo solto, <em>black</em>, cabelo trançado, que muitas de nós não usávamos. Hoje nós podemos dizer que nossas crianças têm já esse sentimento de pertencimento, aceitação, esse sentimento que muitos dos nossos mais velhos não têm”.</p>



<p>Fernanda de Araújo Oliveira, no artigo <em>Bianca Cristina e o Quilombo Cruz da Menina: Trajetória e Resistência Comunitária em Dona Inês/PB (1994-2016)</em> observou que o autorreconhecimento é um processo difícil e doloroso, “pois envolve diretamente assumir uma identidade negra que foi posta historicamente na marginalização”.</p>



<p>Rafaela Santos, que além de participar do Criança Feliz ocupa a vice-presidência da associação de moradores, também teve um processo difícil de aceitação. “Eu sempre queria alisar o cabelo. Pagava caro e, no outro dia, caia. O cabelo não aguentava a química, aí eu desisti de fazer isso. Deixei meu cabelo natural, acho que faz mais de 10 anos que eu alisei meu cabelo pela última vez. E ele está natural e eu acho ele lindo assim, do jeito que ele é”.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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	                                        <p class="m-0">Rafaela Henrique dos Santos participa do Programa Criança Feliz, que acompanha gestantes e posteriormente criança até os três anos. Crédito: Inês Campelo/Marco Zero</p>
	                
                                            <span>Crédito: Inês Campelo/Marco Zero</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Experiência parecida foi vivida por Bianca Quilombola. “Eu mesma vim me libertar da progressiva, que é a questão de alisar cabelo para agradar os outros, em 2017. Então, de 2017 para cá, eu não sei o que é colocar um alisante no cabelo, não sei o que é colocar uma escova a mais”.</p>



<p>Para Bianca, as coisas estão mudando para melhor. “Hoje, se você chegar na comunidade, você vai ver a diferença das crianças. Agora, as nossas crianças se aceitam como são. Você chega na casa, elas estão com o cabelo cacheadão, cabelo solto, esvoaçado”.</p>



<p>Rafaela lembra que a mudança também se materializa na forma das crianças se comportarem e se relacionarem. “Existiam algumas brincadeiras que hoje a gente não pode deixar existir mais. Na época, a gente não sabia, só que agora a gente tem o conhecimento. A gente sabe e repassa para as outras crianças que estão vindo, as criancinhas pequenininhas, para que elas não reproduzam e não sofram aqueles <em>bullying</em> que a gente sofria, mas não entendia”.</p>



<p>Um ponto de inflexão na forma como a comunidade passou a se aceitar e desenvolver um sentimento de pertencimento com o território onde vivem foi quando recebeu a certidão de autodefinição como comunidade remanescente de quilombo pela Fundação Cultural Palmares, em de 12 de março de 2008.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>História de geração para geração</strong></h2>



<p>A comunidade de Cruz da Menina nasce de um processo territorial singular, que é contado de geração para geração, tendo muitas versões sobre os fatos que começaram a ocorrer em 1877. O curioso é que tem origem em um episódio de nítida violação de direitos da primeira infância, quando um fazendeiro poderoso negou água e comida para uma garotinha que fugia, com os pais, da grande seca que castigava a região. Conheça a história no vídeo abaixo:</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<div class="ratio ratio-16x9"><iframe title="CRUZ DA MENINA" width="500" height="281" src="https://www.youtube.com/embed/h28UhHo4ADs?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
</div></figure>


    <div class="box-explicacao mx-md-5 px-4 py-3 my-3" style="--cat-color: #1E69FA;">
        <span class="titulo"><+></span>

        <div class="int mx-auto">
	        <p>O <b>município de Dona Inês </b>está localizado no brejo paraibano (a 153 km de João Pessoa), com uma população de 10.380 pessoas (Censo 2022). A comunidade quilombola de Cruz da Menina está na Zona Rural do município, a aproximadamente dois quilômetros do centro da cidade. Atualmente, 110 famílias moram no território quilombola.</p>
        </div>
    </div>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Infância antes e hoje</strong></h2>



<p>As mudanças que acontecem em Cruz da Menina também têm impactado positivamente na primeira infância. Na comunidade, todas as crianças com idade escolar frequentam as aulas e estão com a carteira de vacinação em dia. “Você vê muita diferença. A minha infância foi cuidar das minhas irmãs. Aos quatro anos, minha mãe saía para trabalhar na roça e me deixava em casa cuidando das minhas outras duas irmãs. A gente tinha aquela obrigação de ter que pegar lenha, pegar água. A gente não teve infância livre, porque a gente tinha que, de alguma forma, ajudar”, compara Bicanca Quilombola.</p>



<p>Mas a melhora da qualidade de vida também se torna visível nas questões materiais. “Minha mãe, minha avó, minha bisavó, lá atrás, não tinham uma casa decente. Eram casas cobertas só com palha e só o chão batido. O fogo era a lenha e não existia luz elétrica. Luz elétrica aqui foi só a partir dos anos 1990”, lembra Bianca.</p>



<p>Para ela, hoje a vida das pessoas da comunidade melhorou bastante, o que se reflete diretamente no desenvolvimento das crianças pequenas. A gente tem luz, bujão de gás, geladeira, ventilador, micro-ondas. A gente tem internet e uma escola dentro da comunidade. A gente tem a casa decente, as famílias, todas elas têm suas casas de alvenaria, cobertinha de telha, tem seu banheiro decente. E isso, para nós, é muita evolução, comparado com o que nós não tínhamos lá atrás”.</p>



<p>Claro que a comunidade ainda enfrenta muitos problemas, parte deles na área da saúde e que afetam diretamente a primeira infância. “Nós até temos posto de saúde, porém, não dentro do território. Fica um pouquinho distante e não atende só Cruz da Menina. A gente recebe atendimento, mas um atendimento junto com outros setores. Não é um posto de saúde direcionado para o quilombo”, lamenta Bianca.</p>



<p>Segundo ela, o ideal seria ter um acompanhamento direcionado para as famílias quilombolas. “Porque a gente tem problemas específicos. Temos, por exemplo, muita questão de hipertensão dentro da comunidade. Para a gente ter um atendimento, a gente tem que sair entre 3h e 4h da manhã para pegar uma ficha. Aí, se não pegar, vai ter que ir outro dia”.</p>



<p>Mesmo assim, as mudanças conquistadas fazem Rafaela pensar em um futuro muito melhor para a filha. “Vai ser diferente, né? Porque a realidade é totalmente diferente de quando eu nasci. Vou tentar passar um pouco para ela do que a minha mãe ensinou. Mostrar para ela o que é certo e o que é errado”.</p>


    <div class="infos mx-md-5 px-5 py-4 my-5">
        <span class="titulo text-uppercase mb-2 d-block"></span>

	    <p><em>Este conteúdo faz parte de uma parceria da Alma Preta com a Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal para a produção de reportagens sobre a primeira infância.</em></p>
    </div>
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		<title>Em se plantando, tudo vende</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Inês Campelo]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 10 Jul 2024 12:28:04 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Socioambiental]]></category>
		<category><![CDATA[Agricultura Familiar]]></category>
		<category><![CDATA[Bahia]]></category>
		<category><![CDATA[Campo Alegre de Lourdes]]></category>
		<category><![CDATA[Meio Ambiente]]></category>
		<category><![CDATA[sertão baiano]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Campo Alegre de Lourdes (BA) &#8211; Nelita Pereira dos Passos, agricultora da Comunidade Carolino, em Campo Alegre de Lourdes (BA), tem planos ousados para os próximos meses. Ela pretende investir na ampliação da área do seu quintal produtivo para atender ao crescimento da clientela. A ideia é ocupar um terreno, ainda sem irrigação, contínuo ao [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<div class="wp-block-media-text is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:15% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="341" height="341" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2024/06/image.png" alt="" class="wp-image-63685 size-full"/></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p><strong>Campo Alegre de Lourdes (BA) &#8211;</strong> Nelita Pereira dos Passos, agricultora da Comunidade Carolino, em Campo Alegre de Lourdes (BA), tem planos ousados para os próximos meses. Ela pretende investir na ampliação da área do seu quintal produtivo para atender ao crescimento da clientela. </p>
</div></div>



<p>A ideia é ocupar um terreno, ainda sem irrigação, contínuo ao que já produz hortaliças e algumas frutas. “Nós queremos ampliar para poder plantar mais, fazer os canteiros para produzir mais coentro e tomates, que já estou com uns ali no ponto de mudança e não tenho espaço.” Mais espaço plantado significa mais produtos para vender e, claro, mais renda para família.</p>



<p>A alguns poucos quilômetros dali, no Sítio Tanque, Cármen Lúcia e o marido Antônio Damaceno esperavam sorridentes a equipe da Marco Zero para o café da manhã. No cardápio, uma reforçada panela de mocotó com bucho de bode que, além de garantir energia para o dia de trabalho puxado, era uma espécie de símbolo de fartura, garantida pela boa produtividade do quintal por trás da casa. No terreno de cerca de um hectare, dividido em uma área irrigada e uma área de sequeiro, o casal planta de tudo um pouco (são cerca de 40 produtos diferentes) além de criar cabras e galinhas.</p>



<p>Nas duas casas não havia sinal de ostentação, longe disso. Mas em ambas, alguns detalhes mostravam que a vida estava melhorando e, como vocês poderão constatar ao longo da reportagem, não se tratava de casos isolados. Em uma rápida olhada pelas duas cozinhas, por exemplo, era possível ver todo tipo de eletrodoméstico, do liquidificador ao <em>air fryer</em>. “Só não tenho cafeteira porque gosto do café passado na hora”, brinca Lúcia com um sorriso de satisfação como que comemorando os “pequenos luxos” que conquistou.</p>


    <div class="box-explicacao mx-md-5 px-4 py-3 my-3" style="--cat-color: #1E69FA;">
        <span class="titulo"><+></span>

        <div class="int mx-auto">
	        <p>Campo Alegre de Lourdes fica no extremo norte da Bahia, divisa com o Piauí. O censo demográfico de 2022 informa uma população de 30.671 pessoas. Segundo o Censo Agropecuário de 2017, existem no município 4.693 estabelecimentos agropecuários caracterizados como agricultura familiar, o que corresponde a 89% do total (5.260). Deste total, 83% possuem cisternas.</p>
        </div>
    </div>



<p>Mas nem sempre foi assim. Há menos de três anos, Nelita, o marido Manuel e o restante da família viviam apenas com os recursos dos programas sociais do governo e com o que conseguiam colher da lavoura de subsistência plantada no período de chuva. “Até então, a gente não mexia com nada disso. Vivíamos do que conseguíamos. A gente só produzia mesmo para o consumo de casa, que era o milho, o feijão e umas galinhas”.</p>



<p>De certa forma, era o mesmo com Lúcia e Damaceno. Há uns quatro anos, o casal não tinha renda fixa e nem um quintal tão diverso e produtivo. Com isso, a economia doméstica dependia dos programas governamentais, da “boa vontade” das chuvas e do incerto comércio “na rua”. “Era muito ruim você plantar sem ter a garantia de que iria conseguir vender”, lembra Damaceno.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 ">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2024/07/CampoAlegredeLourdes-1-Nelita.jpg" alt="Foto colorida da família de Nelita Pereira Passos, que foi fotograda sentada em uma cadeira de plástico branco. Seu marido e os dois filhos estão em pé por trás dela. O marido é um homem moreno, de pele bronzeada, usando uma camisa roxa de mangas compridas (provavelmente uma antiUV) e bermuda jeans. O filho mais novo é um adolescente magro, de pele clara bronzeada e cabelos escuros e curtos, usando camiseta azul escura. Ele está com as mãos sobre os ombros de Nelita. O filho que aparenta ser mais velho está à esquerda, usando camisa branca com mangas e gola amarelas, com um calção azul. Ele também tem cabelos curtos, mas tem bigode e um cavanhaque ralo. A família foi fotograda dentro de casa, com uma a televisão instalada num painel de madeira escura ao fundo, uma janela fechada na parede à esquerda, modem instalado e na parede e telhado com telhas e caibros de madeira à mostra." class="w-100" loading="lazy" >
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Não há luxo na casa de Nelita, mas ela tem equipamentos que seriam impensáveis há alguns anos
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Inês Campelo/Marco Zero</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<h2 class="wp-block-heading">Os fatores da mudança</h2>



<p>A transformação na vida das duas famílias &#8211; e na de dezenas de outras do município &#8211; foi a conjunção de, pelo menos, dois fatores estruturantes. Ambos resultado de muita articulação, mobilização e luta a partir da organização das agricultoras e agricultores com o apoio da sociedade civil.</p>



<p>O primeiro fator transformador, surgido bem antes de Nelita ou Lúcia pensarem em ter seus próprios quintais produtivos, foi a consolidação do conceito de “Convivência com o Semiárido”, muito em consequência da mobilização feita pela <a href="https://www.asabrasil.org.br/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Articulação Semiárido Brasileiro (ASA)</a> a partir do final da década de 1990 e que orientou diversas políticas públicas abrangentes. Você pode acompanhar muitos aspectos dessa revolução silenciosa que acontece no semiárido nordestino lendo as outras reportagens já publicadas da série <a href="https://marcozero.org/a-reinvencao-do-nordeste/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">A Reinvenção do Nordeste</a>. </p>



<p>Para se ter ideia de como as estratégias de convivência com o semiárido causaram impactos tanto econômico quanto social basta ver o levantamento feito por Denis Monteiro na sua tese de doutorado em Ciência, Tecnologia e Inovação em Agropecuária na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRJ): <a href="https://rima.ufrrj.br/jspui/handle/20.500.14407/9858"><em>Gente é pra brilhar: Interpretação do desenvolvimento de comunidades camponesas do Sertão do São Francisco</em>.</a> </p>



<p>De acordo com o estudo feito por Denis, em 1991, o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do município de Campo Alegre de Lourdes era 0,273, passando a 0,365 em 2000, e chegando a 0,557 em 2010 (o último disponível). “Apesar de ainda baixo, sua nítida evolução indica ter havido mudanças positivas muito significativas desde o início dos anos 1990”, concluiu.</p>


	<div class="informacao mx-md-5 px-5 py-4 my-5" style="--cat-color: #7BDDDD;">
		<span class="titulo text-uppercase mb-3 d-block">O que mudou</span>

		<p>A grande seca que ocorreu no semiárido brasileiro entre 1979 e 1983 deixou marcas profundas em Campo Alegre de Lourdes. O teólogo Roberto Malvezzi, assessor da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e da Comissão Pastoral da Terra (CPT), morou na cidade nesse período. “Vi o flagelo que ficou retratado na música de Luiz Gonzaga, nos romances da Raquel de Queiroz, de Graciliano, na poesia de João Cabral de Melo Neto ou na pintura de Portinari. Todos aqueles fenômenos de fome, de sede, de migração intensa, mortalidade infantil e depois o saque”.</p>
<p>Campo Alegre está a 120 quilômetros das margens do São Francisco. “Como não tem rios ou nascentes, ou você tinha a água da chuva ou não tinha nada. Isso naquele tempo, hoje tem uma adutora”, lembra Malvezzi.</p>
<p>A última grande seca na região aconteceu entre 2012 e 2017. A carta do IX Encontro Nacional da Articulação do Semiárido (ASA), de novembro de 2016, afirmou que: “Vivemos hoje o quinto ano de uma estiagem ainda mais severa e nenhum ser humano teve sua vida ceifada pelos efeitos da seca”.</p>
<p>O que mudou? Segundo Denis Monteiro, “as inovações no manejo dos agroecossistemas, as políticas sociais e as rendas de pluriatividade conferiram aos agroecossistemas maior capacidade de resistir aos efeitos da grande seca entre 2012 e 2017. A seca foi também um alerta às famílias sobre a importância de seguir investindo na estocagem de forragem e água. Muitas infraestruturas foram construídas justamente nos anos mais secos, com as políticas públicas em execução. As inovações permitiram uma rápida recuperação após os bons invernos a partir de 2018”.</p>
	</div>



<p>O segundo fator, pelo menos em Campo Alegre de Lourdes, é bem mais recente. A maior apropriação da riqueza produzida a partir das tecnologias sociais de convivência com o semiárido foi possível pela inserção das famílias em iniciativas de venda direta aos consumidores, associada ao apoio técnico qualificado, ao engajamento em associações e cooperativas que comercializam a produção das comunidades e a integração a eventos onde a produção é vendida e onde se forma clientela como, por exemplo, as feiras agroecológicas.</p>



<p>Lá, especificamente, os mercados institucionais começam a ganhar mais força a partir de 2021, quando aconteceu a primeira tentativa de acessar, de forma articulada e coletiva, o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE).</p>



<p>“Isso aconteceu de forma gradativa. Em 2021, o valor foi muito pequeno, mesmo assim, as famílias não desanimaram. Em 2022, a gente já foi para um valor bem mais interessante, passando para quase R$ 600 mil. Agora, em 2024, a gente já tem contratos firmados de quase um milhão de reais”, explica Francisco José da Silva, conhecido por todos com Franzé, que é assessor técnico do<a href="http://sasop.org.br"> Serviço de Assessoria a Organizações Populares Rurais (SASOP)</a> nos territórios de três municípios da região: Remanso, Campo Alegre de Lurdes e Pilão Arcado.</p>


    <div class="box-explicacao mx-md-5 px-4 py-3 my-3" style="--cat-color: #1E69FA;">
        <span class="titulo"><+></span>

        <div class="int mx-auto">
	        <p>Criado pela Lei nº 11.947, de 16/6/2009, o <strong>Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE)</strong> consiste no repasse de recursos financeiros federais para o atendimento de estudantes matriculados em todas as etapas e modalidades da educação básica nas redes municipal, distrital, estadual e federal e nas entidades qualificadas como filantrópicas ou por elas mantidas, nas escolas confessionais mantidas por entidade sem fins lucrativos e nas escolas comunitárias conveniadas com os estados, o Distrito Federal e os municípios, com o objetivo de contribuir para o crescimento e o desenvolvimento biopsicossocial, a aprendizagem, o rendimento escolar e a formação de hábitos alimentares saudáveis dos alunos, por meio de ações de educação alimentar e nutricional e da oferta de refeições que cubram as suas necessidades nutricionais durante o período letivo.</p>
<p>Fundamentado pela diretriz de emprego da alimentação saudável e adequada e o apoio ao desenvolvimento sustentável, com valorização dos gêneros alimentícios produzidos em âmbito local, a lei estabelece que, no mínimo, 30% do valor dos recursos federais do PNAE repassados pelo FNDE deve ser investido na compra direta de produtos da agricultura familiar, medida que estimula o desenvolvimento econômico e sustentável das comunidades.</p>
<p>O mesmo dispositivo estabelece, ainda, que sejam priorizados os assentamentos da reforma agrária, as comunidades tradicionais indígenas, as comunidades quilombolas e os grupos formais e informais de mulheres.</p>
<p>A novidade, trazida pela Lei nº 14.660, em 24 de agosto de 2023, é de que a aquisição dos gêneros, quando comprados de família rural individual, deverá ser feita no nome da mulher, em no mínimo, 50% (cinquenta por cento) do valor adquirido.</p>
        </div>
    </div>



<p>O programa ganhou força, passando a ter mais relevância e impacto na vida das pessoas, quando o poder público (a prefeitura de Campo Alegre de Lurdes, no caso), passou a destinar 100%, do que é repassado pelo FNDE, para a compra de produtos da agricultura familiar, indo muito além dos 30% determinado por lei. Além disso, a prefeitura tem trabalhado em parceria com a sociedade civil organizada no mapeamento e definição de um preço justo para o que é produzido no município. O resultado desse esforço subsidia a elaboração da chamada pública, instrumento legal que define todos os parâmetros para a elaboração dos contratos.</p>



<p>Para ver como isso tem sido um diferencial importante, é só fazer um contraponto com o município vizinho de Pilão Arcado. Segundo Franzé, por lá o processo está muito mais difícil. “Saiu a chamada pública com produtos que não são de produção da região, totalmente fora de contexto e com preços abaixo do mercado. Ou seja, foi uma chamada pública elaborada sem fazer aqueles primeiros processos: mapeamento e cotação de preço. Então, só pra ter uma ideia, lá eles querem batata-inglesa, um produto que não é de nossa região. E tá lá. Quem vai fornecer? Vão ter que pegar de um atravessador…”</p>



<p>Para Franzé, o que acontece em Pilão Arcado e em outros municípios que sequer cumprem a cota de 30% de compra para o PNAE na agricultura familiar, não é desconhecimento técnico ou da legislação. “Eles têm o conhecimento de que a chamada pública para a compra de produtos da agricultura familiar tem que ser regionalizada. Na verdade, é falta de vontade política”.</p>



<p>Falta vontade política e falta visão administrativa, para dizer o mínimo. “Quando eles (os prefeitos) derem a importância devida a essa política dentro do seu município, eles vão abraçar essa ideia e nunca mais vão largar. Porque isso é fazer com que o recurso gire dentro do próprio município. Se ele paga para o agricultor, o agricultor compra no seu comércio”, explica Franzé.</p>



<p>O fato é que a entrada no PNAE transformou a vida de muita gente. Atualmente, são 68 famílias que participam do programa no âmbito municipal. O contrato assinado para 2024 prevê o valor anual de R$ 982.874,16 para compras na agricultura familiar. Isso dá um valor médio próximo dos 15 mil reais para cada família participante. São quase R$ 1.250 por mês. “É mais de um salário-mínimo por mês e é melhor do que o Bolsa Família”, calcula Damaceno que, junto com Lúcia, fornece para o PNAE  desde 2022.</p>



<p>Cármen Lúcia fala de outro motivo de satisfação que não tem relação direta com ganhos materiais: “Nossos filhos passam a ter alimentos saudáveis na escola. Às vezes, minha filha Vitória [de oito anos] diz: ‘mamãe’, vi os mamões que você levou lá na escola”.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 ">
            <picture>
                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2024/07/CampoAlegredeLourdes-2-damaceno.jpg">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2024/07/CampoAlegredeLourdes-2-damaceno.jpg" alt="A cena retrata um casal de pessoas de meia-idade juntas, com os rostos colados. À esquerda, o homem tem cabelos brancos e usa uma camisa de listas verdes e brancas. À direita, a mulher de cabelos castanhos e curtos, usa óculos, brincos grandes e dourados, e está vestida com uma blusa ou vestido verde escuro. Elas estão ao ar livre, cercadas por altos pés de mamão que se estendem em direção a um céu azul claro. As folhas dos mamoeiros são exuberantes e verdes, e uma das árvores tem um cacho de mamões pendurados acima. O sol brilha intensamente através das folhas, criando um efeito de luz difusa ao redor da cena." class="w-100" loading="lazy" >
            </picture>

	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Antônio Damaceno e Cármen Lúcia fornecem alimentos para as escolas estaduais
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Inês Campelo/Marco Zero</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Lúcia e Damaceno também fazem parte do grupo reduzido de famílias que vendem para o PNAE do governo estadual da Bahia. Por questões burocráticas, são apenas três pessoas formalmente inscritas que representam algumas outras de suas respectivas comunidades. Elas recebem algo em torno de R$ 11 mil por ano. Leandro Nonato de Lacerda, que mora na comunidade tradicional de Fundo de Pasto Lagoa do Gato, fornece desde 2021 para o PNAE, tanto o municipal quanto para o estadual, é um dos coordenadores do programa. Segundo ele, os benefícios do PNAE vão além das famílias que assinaram contrato. “Acaba beneficiando cerca de 300 famílias indiretamente. Isso porque, quando não temos o produto solicitado para entregar, pedimos aos outros da comunidade”.</p>



<p>Leandro, que é um dos coordenadores do programa, explica que são nove grupos de agricultoras e agricultores, cada um com um representante, que se articulam através do WhatsApp. “A nutricionista (que define o cardápio das escolas municipais) pede o que precisa, geralmente, na sexta-feira, e os representantes organizam a divisão entre os produtores para a entrega nas segundas-feiras”.</p>



<p>Para ele, a vantagem de participar do PNAE é muito grande. Além de oferecer produtos naturais para as escolas, aumenta nossa renda”. Melhorou muito nossa vida. Hoje é a principal fonte de renda de muitas famílias”.</p>



<p><em>“Nossos filhos passam a ter alimentos saudáveis na escola. Às vezes, minha filha Vitória (de oito anos) diz: ‘papai’, vi os mamões que você levou lá na escola”.</em></p>



<p><em>Cármen Lúcia, Sítio Tanque</em></p>


	<div class="informacao mx-md-5 px-5 py-4 my-5" style="--cat-color: #7BDDDD;">
		<span class="titulo text-uppercase mb-3 d-block">Bom para todos</span>

		<p>A importância do PNAE vai além da questão da garantia de renda para as famílias agricultoras ou o incremento da economia local. É possível elencar uma série de benefícios que essa política pública traz, não só para as pessoas envolvidas diretamente no processo como para a sociedade como um todo:</p>
<ul>
<li>Convivência sustentável com o meio ambiente;</li>
<li>Empoderamento das mulheres que passam a receber os recursos em suas próprias contas bancárias;</li>
<li>Envolvimento da juventude, com aumento de renda e sentimento de pertencimento;</li>
<li>Transparência no processo de compra dos produtos e diminuição da corrupção;</li>
<li>Segurança alimentar das crianças que passam a ter uma alimentação de qualidade na escola.</li>
</ul>
	</div>



<h3 class="wp-block-heading">“Todo dia aprendo algo”</h3>



<p>Conseguir assinar o contrato com a prefeitura e o Governo do Estado para vender a produção para o PNAE foi uma vitória. Mas entregar os produtos na quantidade, qualidade e prazos acordados, tão fundamental para a continuidade do programa, não é uma tarefa fácil para as famílias agricultoras. É aí que entra o apoio técnico.</p>



<p>O SASOP, onde Franzé trabalha, faz parte da Rede de Assistência Técnica e Extensão Rural Nordeste (Rede Ater NE), e tem um papel importante nesse processo. Atualmente, o SASOP atua em quatro municípios do Sertão do São Francisco: Campo Alegre de Lourdes, Remanso, Casa Nova e Pilão Arcado, acompanhando famílias de agricultores/as, pescadoras artesanais e as comunidades tradicionais de Fundo de Pasto. A atuação em Campo Alegre começou ainda no início da década de 2010, com foco na apicultura, e foi se expandindo e diversificando para a caprinocultura, quintais agroecológicos, beneficiamento de frutas e acesso a mercados.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 ">
            <picture>
                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2024/07/CampoAlegredeLourdes-3-mamao.jpg">
                <source media="(min-width: 800px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2024/07/CampoAlegredeLourdes-3-mamao.jpg">
                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2024/07/CampoAlegredeLourdes-3-mamao.jpg" alt="A imagem mostra um grupo de mamões verdes pendurados em uma árvore. As folhas da árvore são largas, com bordas lobadas, e o céu ao fundo está claro e azul. O sol brilha intensamente através das folhas, criando um efeito de lente." class="w-100" loading="lazy" >
            </picture>

	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Dos quintais e roças, as frutas seguem direto para a merenda escolar
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Inês Campelo/Marco Zero</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>“Não existiria a participação no PNAE sem o apoio da assessoria técnica. Como a gente iria acessar o programa?”, questiona Antônio Damaceno. Para ele, a assessoria técnica resultou no aumento da produtividade e, o mais importante, na qualidade dos produtos. “A gente vai aprendendo todo dia. Sempre tem algo para melhorar. Na semana passada, por exemplo, aprendi a usar água oxigenada para combater um fungo que dá na laranjeira”.</p>



<p>O sentimento de Nelita é semelhante ao de Damaceno. “Mudou, mudou bastante, porque a gente pegou experiência. Antes, a gente não sabia nem para onde ir. Agora, o pessoal do SASOP está sempre apoiando, ensinando o manejo de tudo”. Desde que começou a receber o apoio, ela conta que passou a aproveitar mais a área do quintal e, assim, pôde ter mais produtos para vender: &#8220;na verdade, o bom é ter a renda, que antes só produzíamos para comer.”</p>



<h3 class="wp-block-heading">Sábado é dia de feira</h3>



<p>Há cerca de 30 anos que as comunidades vendem seus produtos na feira da cidade. Só que isso era feito de forma individual, misturado com os demais comerciantes. De forma organizada, dentro do espaço agroecológico, faz apenas uns cinco meses. Desde o ano passado, essa forma de venda direta ao consumidor tem melhorado para um bom número de famílias agricultoras. </p>



<p>Desde o ano passado, uma média de 35 famílias (na época de chuva na região, entre dezembro a março, são cerca de 40 famílias), representando cerca de 25 comunidades, passaram a ocupar uma área específica e padronizada no galpão onde a feira funciona aos sábados.</p>



<p>O grupo começa a chegar das comunidades por volta das 5h30 e ficam até meio dia. As famílias que não podem ir, mandam seus produtos pelos vizinhos. Lá vendem de tudo um pouco, sendo mais uma oportunidade de escoar a produção excedente dos seus quintais produtivos. Outros, como a família de Leandro Lacerda, perceberam que podem aumentar os lucros agregando valor aos seus produtos.</p>



<p>“Minha família foca na alimentação. Bolos, doces, galinha caipira, beiju, cafezinho… Tudo feito em fogão agroecológico, que consome menos lenha, faz menos fumaça e foi construído através do Programa <a href="https://www.car.ba.gov.br/projetos/pro-semiarido#:~:text=O%20Projeto%20Pr%C3%B3-Semi%C3%A1rido%20%C3%A9%20parte%20integrante%20de%20um,Agr%C3%ADcola%20%28FIDA%29%2C%20da%20Organiza%C3%A7%C3%A3o%20das%20Na%C3%A7%C3%B5es%20Unidas%20%28ONU%29." target="_blank" rel="noreferrer noopener">Pró-Semiárido </a>do Governo da Bahia, há cerca de dois anos.”</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2024/07/CampoAlegredeLourdes-4-Leandro.jpg">
                <source media="(min-width: 800px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2024/07/CampoAlegredeLourdes-4-Leandro.jpg">
                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2024/07/CampoAlegredeLourdes-4-Leandro.jpg" alt="A foto retrata uma cena de mercado com várias pessoas e diversos itens à venda. Na frente, há uma homem negro, maduro, vestindo uma camiseta branca com o texto “Semiarido” e uma ilustração de um cacto e um sol. Ele está com o braço esquerdo esticado, segurando a haste de um barraca de feira. Sua outra mão está apoiada sobre uma mesa repleta de produtos alimentícios em recipientes de plástico. À esquerda, sua esposa, morena, de meia-idade, cabelos presos por trás da cabeça, e usando uma blusa preta. Há duas crianças, um menino negro pequeno e uma menina morena de cabelos lisos e blusa vermelha, estão à esquerda. Ao fundo, mais barracas de mercado podem ser vistas, e outra pessoa vestida de verde está parcialmente visível." class="" loading="lazy" >
            </picture>

	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Leandro Lacerda vende produtos com valor agregado na feira de Campo Alegre de Lourdes
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Inês Campelo/Marco Zero</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<ul class="wp-block-list">
<li><strong>Leia todas as reportagens da série <em>A reinvenção do Nordeste</em></strong>:</li>
</ul>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/a-reinvencao-do-nordeste/" class="titulo">A reinvenção do Nordeste</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/semiarido/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Semiárido</a>
			        </div>
	            </div>
        </div>

		<p>O post <a href="https://marcozero.org/em-se-plantando-tudo-vende/">Em se plantando, tudo vende</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
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			</item>
		<item>
		<title>Um rio aberto com as próprias mãos</title>
		<link>https://marcozero.org/um-rio-aberto-com-as-proprias-maos/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Inês Campelo]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 20 Jan 2024 15:50:06 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Socioambiental]]></category>
		<category><![CDATA[Água Potiguaras]]></category>
		<category><![CDATA[Baía da Traição]]></category>
		<category><![CDATA[Meio Ambiente]]></category>
		<category><![CDATA[Paraíba]]></category>
		<category><![CDATA[Rio do Aterro]]></category>
		<category><![CDATA[socioambiental]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O sábado amanheceu chovendo forte. Mesmo assim, por volta das 6h30min, os organizadores do projeto Águas Potiguara já estavam no ponto de encontro combinado na aldeia do Alto Tambá, na Baía da Traição/PB, para cumprir uma rotina que começou há exatos três anos. Desde 21 de janeiro de 2021, um grupo cada vez maior de [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>O sábado amanheceu chovendo forte. Mesmo assim, por volta das 6h30min, os organizadores do projeto Águas Potiguara já estavam no ponto de encontro combinado na aldeia do Alto Tambá, na Baía da Traição/PB, para cumprir uma rotina que começou há exatos três anos. Desde 21 de janeiro de 2021, um grupo cada vez maior de indígenas da etnia potiguara se reúne aos sábados para trabalhar na revitalização do Rio do Aterro.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p><em>O Águas Potiguara é um projeto localizado nas aldeias Forte e Alto do Tambá, na Baía da Traição (PB) e tem como objetivo limpar os rios do Território Indígena Potiguara. O projeto começou pelo rio do Aterro, afluente do rio Sinimbu e que corta as duas aldeias.</em></p>
</blockquote>



<p>Aos poucos, a chuva foi diminuindo e os voluntários chegando ao ponto do rio onde a limpeza havia parado na semana anterior. Por volta das 9h, com o sol já forte, 12 pessoas estavam com as ferramentas na mão, iniciando o duro trabalho de revitalização. Com facões, enxadas e cavadeiras retas, os voluntários precisam de força para cortar, arrancar e remover blocos formados por uma mistura de raízes de aningas (planta que cresce às margens de rios, em solos cobertos com água), terra e matéria orgânica que se entranharam no leito ao longo do tempo.</p>



<p>A cada sábado, a limpeza do rio avança um pouco. No dia em que a equipe da<strong> Marco Zero</strong> visitou o projeto, ainda em 2023, foram pouco mais de sete metros conquistados. Parece pouco, mas é que o grupo chegou na parte mais difícil de trabalhar, onde os sedimentos estão mais consolidados e a vegetação mais densa. Mesmo assim, ao completar três anos, já foram recuperados mais de 3,5 quilômetros, faltando cerca de um quilômetro para liberar todo o rio.</p>



<p>Apesar da dureza do trabalho, o ambiente durante a limpeza é leve, divertido e, como eles fazem questão de dizer, familiar. A conversa rola solta e as risadas podem ser ouvidas de longe. “A maioria trabalha durante a semana. Às vezes tem até uma jornada dupla. Trabalha, faz universidade, faz outra coisa, mas o sábado é sagrado”, lembra Ivson Antônio Souza e Silva, um dos participantes mais assíduos. “Eu costumo dizer que o Águas, hoje, é uma família. É uma família que a gente já colocou no dia a dia como uma rotina”, complementa Cristina Potiguara, que participa do projeto desde o início.</p>



<p>Cristina contribui com uma parte muito importante da rotina dos sábados pela manhã. “Enquanto os meninos estão lá trabalhando, a gente fica preparando a comida. Esse trabalho aqui, a gente sabe, que é um trabalho que requer bastante energia, esforço e, principalmente, força vontade”. O almoço, feito com ingredientes doados pelas famílias dos próprios voluntários, é servido no final da manhã, quando o sol forte determina o fim dos trabalhos. Além de repor as energias, a refeição feita ali mesmo, em uma sombra próxima ao rio, é um momento de troca de brincadeiras e afetos. É quando o sentido de “família” do Águas Potiguara fica mais evidente.</p>



<p>Essa ideia de construção coletiva, com cada uma contribuindo como pode, norteia todo o projeto. “Para gente, cada sábado é um desafio. A gente consegue ter apoio de alguns parceiros que disponibilizam alimentação, ferramentas&#8230; Mas é um desafio no sentido de dizer assim: &#8216;olha, hoje eu vou contribuir com mais alguns metros de abertura do rio&#8217;. Quando estou lá me sinto bem. É gratificante estar ali, com todos reunidos num pensamento só”, explica Gessé Viana da Silva, que é pedagogo com especialização em educação indígena.</p>



<p>A ideia de limpar o rio do Aterro nasceu em um momento muito difícil para a comunidade. “Durante a pandemia de covid-19, a gente se fechou para o mundo. A gente começou a discutir muito a questão ambiental, a gestão territorial. Vimos que a gente precisava cuidar do nosso rio”, lembra Poran Potiguara, uma das lideranças do projeto e que hoje trabalha na ONG <a href="https://www.tnc.org.br/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">The Nature Conservancy</a>, em Belém (PA).</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-default is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p><em>“O rio é o território. É o responsável pela existência e pela fertilidade do território.”</em></p>



<p><em><strong>Gessé Viana da Silva</strong></em></p>
</blockquote>



<p>Na hora de tirar a ideia do papel, o grupo foi procurar o apoio das autoridades municipais. “Na conversa com alguns candidatos a vereador, a prefeito, perguntávamos qual era a proposta deles para o rio da comunidade”, conta Poran. Mas aí a gente se deu conta de que não tínhamos que esperar por ninguém. Que a gente tinha que fazer o negócio acontecer. Então, decidimos abrir o rio no ano seguinte. Combinamos isso novembro, dezembro. Em 21 de janeiro de 2021 fizemos a primeira ação de limpeza”.</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>De pai para filho</strong></h3>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
            <picture>
                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2024/01/Poran-Cristina-Ivson-Ailton-e-a-neta-300x200.jpg">
                <source media="(min-width: 800px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2024/01/Poran-Cristina-Ivson-Ailton-e-a-neta-1024x683.jpg">
                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2024/01/Poran-Cristina-Ivson-Ailton-e-a-neta-1024x683.jpg" alt="Indigenas Potiguaras: Poran, Cristina, Ivson, Ailton e a neta" class="" loading="lazy" >
            </picture>

	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Poran, Cristina, Ivson e Seu Aílton, ao lado da neta: o conhecimento ancestral é uma das bases do projeto. Crédito: Inês Campelo/MZ Conteúdo
</p>
	                
                                    </figcaption>
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<p>O projeto nasce a partir de uma perspectiva ambiental e territorial, mas também do resgate de uma memória coletiva, alimentada pelas histórias contadas e recontadas pelos mais velhos. &#8220;É um projeto genuinamente indígena, nascido dentro do território potiguara e totalmente voluntário&#8221;, conta com orgulho Aílton Silva Lima, pai de Poran, tio de Cristina e que, aos 57 anos, é um dos mais experientes do grupo. Essa experiência é muito respeitada pela turma mais nova. A contribuição dos “anciões”, o conhecimento ancestral, é um dos pilares do Águas Potiguara. “O projeto nasce inspirado no pessoal que já fazia a limpeza. Eles limpavam uns duzentos, trezentos metros, temporariamente, a cada dois anos, três anos. Mantinham o rio aberto para não alagar o local onde plantam até hoje”, conta Poran.</p>



<p>Para Cristina, devolver a vida por completo ao rio passou a ser uma missão de sua geração. “É a nossa devolutiva enquanto juventude. Nós que estamos saindo da universidade, que estamos na universidade, a gente pode até ter a teoria. Mas a prática está com os anciões. São eles que guiam toda essa juventude na abertura do rio. Nada estaria acontecendo se não fosse a presença deles. Por isso é tão importante esse diálogo e essa comunicação que existe entre nós jovens e os anciãos.”</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Como um rio morre?</strong></h3>



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	                                        <p class="m-0">Trecho do rio do Aterro, coberto por aningas, antes de ser recuperado pelo Águas Potiguara. Crédito: Inês Campelo/MZ Conteúdo
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<p>A morte do rio do Aterro foi lenta e gradual, fruto de um processo de urbanização desordenado e de mudanças culturais que afastaram as pessoas do curso d’água que cortava a comunidade. Difícil saber exatamente quando a destruição começou, mas os relatos dos moradores mais antigos sugerem que o processo de assoreamento se acentuou, há cerca de três décadas, após uma dragagem que não respeitou a sinuosidade do rio e praticamente destruiu a mata ciliar.</p>



<p>O certo é que, aos poucos, as pessoas foram se afastando do rio. Um dos fatores desse afastamento, que parece ser consenso entre os moradores mais antigos, foi a chegada da água encanada, por volta do final dos anos 1990. “Água encanada facilita a vida do morador e, então, a gente esquece um pouco o rio e foca nas coisas que tem que fazer no quintal mesmo”, explica Aílton que, na infância tinha a casa abastecida por latas d’água trazidas do Aterro.</p>



<p>Poran é um dos que concordam que a dragagem teve um papel fundamental, mas acrescenta outros fatores que interferiram no processo. &#8220;Um rio que era sinuoso, que tinha seus meandros, ele passou a ser reto. Junto com isso, o povo foi deixando de plantar na margem. Então, foi deixando de cuidar também, porque o plantar na margem do rio gerava um cuidado, principalmente, o cuidado com as enchentes. As chuvas torrenciais poderiam fazer você perder toda a sua plantação. Você tinha que manter o canal aberto para a água descer. Você deixou de plantar, deixou de fazer o uso social do banho, de pegar frutas, de pegar água, de lavar roupa&#8230; Aí o rio começou a ser esquecido&#8221;.</p>



<p>Com o tempo e o abandono, as aningas começaram a crescer descontroladamente formando blocos de lama e raízes emaranhadas. Aos poucos, o rio do Aterro estava literalmente aterrado.</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>A dimensão ambiental</strong></h3>



<p>Não basta apenas abrir o caminho para a água. Para o rio continuar vivo é preciso restabelecer o equilíbrio da natureza em seu entorno. Por isso, o pessoal do Águas Potiguara iniciou um projeto para recuperar a mata ciliar. “No momento, estamos construindo o nosso viveiro de mudas. Estamos com várias mudas de jenipapo, ipê, copaíba, pau-brasil e entre outras. Iremos realizar o plantio assim que o período de chuvas começar”, conta Fernanda Soraggi que, entre outras coisas, foi responsável pela comunicação do projeto até mudar-se para Belém (PA) no final do ano passado.</p>



<p>O viveiro fica na sede do projeto, na principal rua da aldeia Alto do Tambá. Como tudo no Águas Potiguara, a sede foi instalada em uma casa recuperada com o trabalho coletivo e voluntário. Hoje, além do viveiro de mudas, o local é usado para eventos culturais, reuniões e apoio. Segundo Poran, que é engenheiro florestal, a ideia é fazer uma casa de sementes e um viveiro com capacidade de 5 mil mudas a cada seis meses, 10 mil mudas anuais. “Então, nosso grupo agora também tem essa missão. A gente sabe que essa é a segunda parte da recuperação do rio, reflorestar a mata ciliar. É um processo que leva anos, décadas. Porque a mata praticamente não existe”.</p>



<p>Mesmo sem ter sido concluído e ainda sem a mata ciliar, o projeto já começa a ter impacto no meio ambiente. “A medida que a gente foi abrindo, que a gente voltava no ano seguinte, a gente começou a ver espécies de peixes que a gente não tinha visto antes, que mesmo na infância a gente já achava difícil encontrar”, comemora Poran.</p>



<p>Os mais jovens do projeto têm um exemplo e uma inspiração quando o assunto é ecologia. Francisco Balbino Neto, mas conhecido como seu Cedinha, tem 64 anos e trabalha com agricultura familiar em uma propriedade de cerca de oito hectares cortada pelo rio do Aterro, em um trecho que já foi aberto logo no início do projeto. A forma equilibra como a família se relaciona com a terra, o rio e a natureza acabou se tornando uma espécie de modelo de convivência com o meio ambiente.</p>



<p>A propriedade é dividida, basicamente, em três partes. Uma delas é o paul, uma área mais próxima do rio que fica alagada durante o período de inverno. Quando seca, no verão, é usada para a agricultura. A outra, que eles chamam de “arisco”, é o terreno que fica seco o ano todo e que vira roça durante o inverno. A terceira parte, orgulho de seu Cedinha, é a área em que a mata nativa, cada vez mais rara, foi recuperada e preservada pela família.</p>



<p>Fernando Duarte Balbino é filho de Seu Cedinha e parceiro do pai na lida com a terra. Para ele, o que é feito na propriedade da família é um exemplo de que se pode plantar e preservar ao mesmo tempo. “Estamos deixando um legado para nossos filhos e para toda a comunidade”. Fernando conta que sempre esteve ligado à natureza mas que seu Cedinha não. “Pai era de caçar, pescar… Com o tempo e a experiência foi criando consciência. Hoje ele é mais do que eu”.</p>



<p>Tanto seu Cedinha quanto Fernando estão entre os mais atuantes no projeto de limpeza do Rio do Aterro. No dia em que a equipe da <strong>Marco Zero </strong>visitou o projeto, os dois passaram a manhã dentro d’água. Fernando, com um facão, cortando as raízes de aningasentrelaçadas com lama e o pai ajudando a colocar o material cortado para fora do leito do rio.</p>



<p>Seu Cedinha não falta a um sábado de limpeza. Ele sonha em voltar a ver o rio do Aterro como era no seu tempo de criança. Todo mundo tomando banho, todo mundo pulando dentro do rio. A água não era suja nem nada e a gente bebia água do rio mesmo. Fomos criados com água do rio. E agora nem pode nem tomar água do rio. Ninguém sabe nem onde é o rio”.</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>A dimensão social</strong></h3>



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	                                        <p class="m-0">Para Cristina, o projeto precisa mostrar às famílias como elas podem produzir a partir dos recursos oferecidos pela natureza. Crédito: Inês Campelo/MZ Conteúdo
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<p>O rio do Aterro era parte importante na dinâmica das comunidades que nasceram em seu entorno. “Precisamos devolver o uso coletivo do rio. Mostrar para as famílias como elas podem produzir a agricultura familiar, tirando sua subsistência a partir desses recursos que são oferecidos pela própria natureza”, explica Cristina que é mestra em antropologia social. Segundo ela, o projeto pretende trabalhar com roçados coletivos e com agrofloresta, mostrando a importância do uso social e familiar tanto dos rios quanto dos espaços de produção.</p>



<p>A agricultura pode ser o primeiro passo para resgatar o papel central que o rio tinha nas aldeias. Aílton lembra que antigamente o rio tinha divisões. “Tinha os horários do banho, tinha a parte das mulheres, tinha o lugar de lavar roupa, tinha um local onde se podia pegar água. Então era, assim, cheio de regras distribuídas ao longo do rio”.</p>



<p>Mas o rio também tinha outra importante função social: o lazer. Gerações, inclusive a dos idealizadores do Águas Potiguara, tomaram muito banho, pescaram e brincaram por lá. “A gente percebeu que as crianças de hoje não sabem sequer como era a infância no nosso tempo. Isso gerou um incômodo e a gente viu que precisava fazer alguma coisa”, relembra Cristina. “Queria ver meus filhos pulando dentro da água, todos felizes”, resume seu Cedinha, ao falar de sua preocupação com a limpeza do rio do Aterro.</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>A dimensão do sagrado</strong></h3>



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	                                        <p class="m-0">Crédito: Inês Campelo/MZ Conteúdo
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<p>Um marco no projeto foi o dia em que apareceu uma jararaca durante a limpeza do rio. Na época, por volta de setembro de 2022, o projeto ainda era uma coisa muito fechada no grupo interno. “A gente não se preocupava muito em ter rede social, íamos sem EPI (Equipamento de Proteção Individual)”, lembra Poran.</p>



<p>Foi quando Fernando, que estava na função de cortar as raízes, partiu acidentalmente a cobra no meio. “Ficou todo mundo assustado. Se uma jararaca picasse alguém? Poderia atrofiar músculos ou até mesmo matar. Naquele dia, a gente decidiu que iríamos fazer uma campanha na rede social para comprar EPIs. A gente decidiu que iria criar um Instagram e que precisava de um nome para o projeto”. Foi aí que surgiu o Águas Potiguara.</p>



<p>Segundo Poran, essa campanha de comprar EPIS levou o projeto a outro patamar. “Tornou o nosso projeto muito reconhecido. Na mídia local mesmo saiu reportagem na televisão, entrevista para rádio e todo mundo começou a disseminar o projeto”.</p>



<p>O curioso é que o episódio da jararaca também despertou o grupo para a dimensão do “sagrado espiritual” que o Águas Potiguara carregava. “Consultamos um pajé nosso para tentar entender o porquê da cobra. E aí a gente descobriu que a cobra foi um presente do sagrado e do rio. A dona do rio, que para nós é a mãe d&#8217;água, a sereia, ela nos deu o presente que foi a cobra. A gente foi entender que a cobra ali foi só o simbólico. Descobrimos que a cobra significa mudança. E de fato mudamos&#8221;, lembra Poran.</p>



<p>Desde então, as pessoas que tocam o projeto passaram a ter o entendimento de que, à medida que o rio estava fechado, assoreado, ele estava morrendo e o sagrado estava ficando enfraquecido também. Gessé, por exemplo, entende que trabalhar com o rio não é só abrir o canal, não é só replantar, mas é também fortalecer o sagrado. “Que é um sagrado cultural, muito lógico e parte da nossa realidade”.</p>



<p>Seu Aílton manda um recado para os céticos: “Pouca gente vai acessar porque, talvez, não acredite. Tem muitas pessoas céticas. Mas quem minimamente enxerga o mundo espiritual, verá que é um mundo que existe”.</p>



<p>“Nem todo mundo vai conseguir sentir, nem todo mundo vai conseguir entender, mas existe na minha concepção, naquilo que eu vivo e naquilo que eu tenho procurado entender de cada dimensão”, complementa Gessé.</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>O resgate da identidade</strong></h3>



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	                                        <p class="m-0">No resgate da identidade potiguara, Gessé passou a usar o cocar característico feito de palha de carnaúba. Crédito: Inês Campelo/MZ Conteúdo</p>
	                
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<p>O trabalho de revitalização do rio, da forma como vem sendo feito, acaba sendo também o resgate da história e da identidade potiguara. Um resgate que se manifesta no sentimento de pertencimento que começa a crescer entre os jovens, na redescoberta de símbolos ancestrais, das pinturas, do artesanato, da forma de ver o mundo, tanto o material quanto o sagrado.</p>



<p>Em três anos, o Águas Potiguara tomou uma dimensão maior do que qualquer um dos fundadores poderia imaginar naqueles dias de pandemia. Agora, eles já pensam em voos maiores no futuro. Futuro que Seu Ailton fala com brilho nos olhos. “Não é só essa parte aqui no Rio do Aterro. É fazer em todo território potiguara. Mas, para isso, temos que ter também condições. É um trabalho árduo. A gente precisa de parceria, precisa de ajuda. Eu tenho certeza que é um projeto de larga a escala. Pode-se dizer que não é um projeto só pra hoje. É um projeto duradouro, um projeto que visa o futuro das próximas gerações. Para que eles possam cuidar também e ser multiplicadores como Águas Potiguara está sendo hoje”.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p><strong>Uma questão importante!</strong></p>



<p><em>Se você chegou até aqui, já deve saber que colocar em prática um projeto jornalístico ousado custa caro. Precisamos do apoio das nossas leitoras e leitores para realizar tudo que planejamos com um mínimo de tranquilidade. Doe para a Marco Zero. É muito fácil. Você pode acessar nossa</em><a href="https://marcozero.org/assine/" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><strong>página de doaçã</strong></a><strong><a href="https://marcozero.org/assine/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">o</a></strong><em>ou, se preferir, usar nosso</em><strong>PIX (CNPJ: 28.660.021/0001-52)</strong><em>.</em></p>



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</blockquote>



<p></p>
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			</item>
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		<title>Jornalismo Independente no NE: desafios e soluções</title>
		<link>https://marcozero.org/jornalismo-independente-no-ne-desafios-e-solucoes/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Inês Campelo]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 19 May 2023 19:50:46 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Prazo para inscrições gratuitas: até 09 de junho de 2023 pelo Sympla Realização: Marco Zero em parceria com o Mestrado de Indústrias Criativas da Unicap Apoio: OAK Foundation e International Fund for Public Interest Media (IFPIM) Vivemos os últimos anos sob ataques e desmontes que impactaram a vida de todos, todas e todes. No Nordeste, [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="has-text-align-center"><em><strong>Prazo para inscrições gratuitas: até 09 de junho de 2023 pelo <a href="https://www.sympla.com.br/jornalismo-independente-no-ne-desafios-e-solucoes__2000473" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Sympla</a></strong></em></p>



<p><em><strong>Realização:</strong> Marco Zero em parceria com o Mestrado de Indústrias Criativas da Unicap</em> </p>



<p><strong><em>A</em></strong><em><strong>poio:</strong> OAK Foundation e International Fund for Public Interest Media (IFPIM)</em></p>



<p>Vivemos os últimos anos sob ataques e desmontes que impactaram a vida de todos, todas e todes. No Nordeste, região com os piores indicadores sociais e econômicos do país, a situação foi ainda mais grave, com as populações mais pobres, os moradores das periferias, os negros, as mulheres, os indígenas e os quilombolas sendo os mais atingidos. </p>



<p>Na linha de frente da resistência e defesa da democracia estão as organizações de jornalismo independente que fazem um trabalho constante de combate à desinformação, produzindo conteúdos que contribuem para a pluralidade da informação, qualificação do debate público, dando visibilidade e empoderando setores da sociedade excluídos da cobertura feita pelos veículos de comunicação tradicionais.</p>



<p>Considerando a importância do fortalecimento de uma rede de organizações de jornalismo independente no Nordeste e que a consolidação dessa rede passa pelo fortalecimento institucional e pela sustentabilidade financeira das organizações integrantes, a Marco Zero Conteúdo, em parceria com o mestrado de Indústrias Criativas da Universidade Católica de Pernambuco, abre 30 vagas para o curso <strong>Jornalismo Independente no NE: desafios e soluções</strong>.&nbsp;</p>



<p><strong>Inscrições:</strong></p>



<p>As inscrições serão feitas, exclusivamente, via formulário de inscrição a ser disponibilizado<strong><span class="has-inline-color has-vivid-cyan-blue-color"> <a href="https://www.sympla.com.br/jornalismo-independente-no-ne-desafios-e-solucoes__2000473" target="_blank" rel="noreferrer noopener">[neste link]</a>.</span></strong></p>



<p>As inscrições serão abertas no dia 23 de maio de 2023 e finalizadas na sexta, 09 de junho de 2023, às 18h, não sendo aceitas propostas enviadas após a data determinada.&nbsp;</p>



<p>A organização será contemplada com uma vaga. Podendo inscrever uma pessoa por rodada ou apenas um participante para os quatro momentos.</p>



<p>As dúvidas sobre este edital podem ser encaminhadas para o e-mail <span class="has-inline-color has-black-color"><strong>redene@marcozero.org</strong></span>.</p>



<p><strong>Sobre as vagas (30 no total):</strong></p>



<p><strong>25 vagas:</strong></p>



<ul class="wp-block-list"><li>Profissionais de organizações de jornalismo independente que atuem na região Nordeste;</li><li>Profissionais de organizações de jornalismo que fazem parte do Mapa da Mídia Independente e Popular de Pernambuco;</li></ul>



<p><strong>5 vagas:</strong></p>



<ul class="wp-block-list"><li>estudantes de Comunicação que estejam entre o sétimo e oitavo períodos;</li></ul>



<p>Cada organização tem direito a uma vaga. No entanto, pode haver rodízio de profissionais para as rodadas desde que seja previamente apontado no formulário de inscrição.</p>



<p><strong>Após o curso, serão selecionadas:</strong></p>



<ul class="wp-block-list"><li>Até três organizações participantes para um processo de mentoria e financiamento da formalização (um ano de endereço fiscal, taxas de cartório, regularização na Secretaria da Fazenda, entre outros custos);</li><li>Até cinco organizações para construção, publicação e distribuição nas redes sociais de uma matéria especial com bolsa no valor de R$ 2 mil para cada organização;</li><li>Até cinco organizações para desenvolver um projeto de captação de recursos para execução conjunta.</li></ul>



<p><strong>Critérios para seleção das mentorias:</strong></p>



<ul class="wp-block-list"><li>Ter participado de pelo menos 80% das aulas;</li><li>Ser de um coletivo ou organização jornalística que atue no Nordeste;</li><li>Ter produção jornalística constante e comprovada;</li><li>Ter no mínimo um ano de existência.<strong><br></strong></li></ul>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Programação do curso:</strong></h2>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>• Encontro de abertura: 13/06/2023 </strong></h3>



<p>Apresentação geral do que será oferecido nas quatro rodadas.</p>



<p>Palestra com Carol Munis (Oficial de Programa da OAK no Brasil) e Maristela Crispim (fundadora e editora da Eco Nordeste) e mediação de Carolina Monteiro (Marco Zero e Diretora da Escola de Comunicação da Unicap).</p>



<p>Das 19h às 21h.</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Rodada 1: Formalizando o jornalismo independente</strong></h3>



<p>Dias: 14 e 15/06/2023 das 19h às 22h</p>



<p><strong><em>Havanna Marques</em></strong> é professora de gestão financeira e contabilidade curso de pós graduação de jornalismo independente na Unicap. Contadora, com aproximadamente quinze anos de experiência, atuou como auditora independente e consultora financeira, especialista em controles internos, mapeamento e implementação de processos e procedimentos administrativos e financeiros com ênfase na transparência e sustentabilidade nas instituições. Especialista em Gestão de Projetos Culturais pela Universidade de São Paulo, acredita que a gestão financeira e administrativa, assim como a contabilidade são potentes recursos e ferramentas para as organizações sociais, podendo ser um conhecimento a ser trocado de forma mais acolhedora.</p>



<p><strong>Profissional convidado: </strong><em>Sérgio Miguel Buarque</em> é cofundador e coordenador executivo da Marco Zero Conteúdo. Graduado em jornalismo pela Universidade Católica de Pernambuco, trabalhou por 15 anos no Diario de Pernambuco, onde foi repórter esportivo, editor de política e editor executivo.</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Rodada 2: Presença digital – o que você precisa saber sobre o mundo digital</strong></h3>



<p>Dias: 27, 28 e 29/06/2023 das 19h às 22h</p>



<p><strong><em>Fernando Fontanella</em></strong><em> é publicitário, formado pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos. É mestre em Comunicação pela Universidade Federal de Pernambuco. Atualmente é professor dos cursos de Publicidade e Propaganda e de Jogos Digitais da Universidade Católica de Pernambuco. Tem interesse nas áreas de cultura digital, redes digitais, cultura pop e publicidade e propaganda.</em></p>



<p><strong>Profissional convidado: </strong><em>Ivson Santo</em> é gestor das redes sociais da Marco Zero, profissional de marketing e fotógrafo de moda, atuando há oito anos na criação e na distribuição de conteúdos com respeito aos direitos humanos. Graduado em Rádio, TV e Internet pela UFPE.</p>



<h3 class="wp-block-heading"><br><strong>Rodada 3: O poder da indústria criativa</strong></h3>



<p>Dias: 11, 12 e 13 de julho de 2023 das 19h às 22h</p>



<p><strong><em>Carolina Monteiro</em></strong><em> é jornalista, formada pela Universidade Federal de Pernambuco. Tem especialização em Design da Informação pela mesma instituição, master em Jornalismo Digital pelo Instituto Internacional de Ciências Sociais (IICS) e Universidade de Navarra, mestrado e Doutorado acadêmico em Design, também na UFPE. Atualmente é a diretora da Escola de Comunicação da Universidade Católica de Pernambuco, onde leciona nos cursos de Jornalismo, Fotografia e no Mestrado em Indústrias Criativas.</em></p>



<p><strong><em>João Guilherme</em></strong><em> é jornalista, formado na Universidade Federal de Pernambuco. Doutor em comunicação social pela mesma universidade, é professor permanente do Mestrado em Indústrias Criativas da Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP) e nos cursos de graduação em Fotografia e Jornalismo. É servidor público do Tribunal de Justiça de Pernambuco (TJPE), onde atua na Escola Judicial de Pernambuco (Esmape) coordenando ações de formação no Instituto de Desenvolvimento de Inovações Aplicadas ao Tribunal de Justiça de Pernambuco (IDEIAS TJPE).</em></p>



<h3 class="wp-block-heading"><br><strong>Rodada 4: Construção de projetos e captação de recursos</strong></h3>



<p>Dias: 25, 26 e 27/07/2023 das 19h às 22h</p>



<p><strong><em>Dario Brito</em></strong><em> é jornalista formado pela Universidade Federal de Pernambuco, sendo atualmente professor assistente IV da Universidade Católica de Pernambuco. Integra o corpo docente do Programa de Pós-Graduação em Indústrias Criativas (PPGIC) e também do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Linguagem (PPGCL). Ensina ainda nos cursos de graduação em Jornalismo, em Jogos Digitais e em Publicidade e Propaganda da Escola de Comunicação da Unicap. Ocupa o cargo de Coordenador de Pesquisa e Inovação (CPqI) da Universidade.</em></p>



<p><strong>Profissional convidada:<em> </em></strong><em>Daiane Dultra</em> é captadora de recursos, com mais de 15 anos de experiência na área, já liderou projetos de impacto nos temas de equidade de gênero, resiliência climática e desenvolvimento. Possui uma consultoria focada em sustentabilidade financeira para ONGs e um projeto de democratização do conhecimento sobre captação nas redes sociais e YouTube.</p>



<p><strong>Coordenação:</strong> Inês Campelo e Luis Carlos Pinto</p>



<p><strong>Arte:</strong> Celeste Campelo</p>
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		<title>A viagem que mudou o Brasil</title>
		<link>https://marcozero.org/a-viagem-que-mudou-o-brasil/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Inês Campelo]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 29 Dec 2022 22:19:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Setenta anos depois, a Marco Zero refaz o caminho que Luiz Inácio Lula da Silva percorreu quando saiu de Caetés, no Agreste de Pernambuco, até Vicente de Carvalho, distrito do Guarujá, em São Paulo Quando Luiz Inácio Lula da Silva subir a rampa do Palácio do Planalto para cumprir seu terceiro mandato como presidente da [&#8230;]</p>
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<p class="has-text-align-left"><strong>Setenta anos depois, a Marco Zero refaz o caminho que Luiz Inácio Lula da Silva percorreu quando saiu de Caetés, no Agreste de Pernambuco, até Vicente de Carvalho, distrito do Guarujá, em São Paulo</strong></p>



<p>Quando Luiz Inácio Lula da Silva subir a rampa do Palácio do Planalto para cumprir seu terceiro mandato como presidente da República, no próximo dia 1º de janeiro, chegará ao ápice de uma trajetória singular, que levou o menino retirante da seca do Nordeste a se tornar a primeira pessoa a ser eleita três vezes para presidir o Brasil. Uma história de vida que possibilitou ao torneiro mecânico, líder sindical, deputado constituinte, dirigente partidário e ex-presidente da República por duas vezes acumular um conhecimento profundo do país. Os caminhos espinhosos, como são os da grande maioria das pessoas, o tornaram um hábil articulador político que foi capaz de convergir a esperança de milhões de brasileiros por um futuro melhor.</p>



<p>Mas todo caminho tem o primeiro passo. O de Lula foi dado há exatos 70 anos, em dezembro de 1952, quando ele deixou o Sítio Vargem Comprida, no então distrito de Caetés, com destino a São Paulo. Lula, a mãe Dona Lindu e mais cinco irmãos subiram em um pau de arara para fugir da fome, da seca e da falta de perspectiva. Foram mais de 2.500 quilômetros de estradas, dividindo a carroceria de um caminhão com cerca de 60 pessoas, durante 13 dias e 13 noites, em busca de um futuro melhor.</p>



<p>A viagem de Caetés a São Paulo foi a primeira lição que Lula teve sobre o Brasil. De uma hora para outra, o garoto que até os sete anos de idade nunca tinha ido além dos cerca de 15 quilômetros que separavam o Sítio Vargem Comprida de Garanhuns, viu-se transportado para outro mundo. Em 13 dias, viu o Rio São Francisco, passou pela Bahia, Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo, conheceu outras vegetações, sotaques, descobriu que existiam sobrados, prédios, automóveis, mar… Saiu de um mundo rural para um urbano e constatou que no Brasil existia muita riqueza e também muita desigualdade.</p>





<p>Não é exagero dizer que a mudança para São Paulo transformou a vida do garoto Lula e deixou marcas profundas que, de alguma forma, influenciaram e ainda influenciam as decisões do Lula presidente. Por isso, para entender o futuro que podemos esperar, resolvemos olhar para o passado.</p>



<p>Setenta anos depois, a <strong>Marco Zero</strong> refez o caminho que liga as casas onde Lula morou quando partiu do Sítio Vargem Comprida e quando chegou a Itapema, que logo mudaria de nome para Vicente de Carvalho, um distrito do Guarujá (SP). Em mais de 2.500 quilômetros de estradas e cinco estados, registramos flashes de um Brasil cheio de contradições, com muitas diferenças e ainda com muitas semelhanças do país que Lula descobriu sete décadas atrás. Paradoxo que mostra o tamanho do desafio que se apresenta para este terceiro mandato.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Lula viu o mundo. Ele começava em Caetés</strong></h2>



<p>Para entender o que Lula se tornou, é preciso saber de onde ele partiu.</p>



<p>Em 1952, Caetés ainda era um distrito de Garanhuns, no Agreste pernambucano. O Sítio Vargem Comprida ficava na zona rural do município e consistia num punhado de casas esparsas, ocupadas por famílias que viviam da agricultura de subsistência. A família Silva era uma delas.</p>



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	                                        <p class="m-0">Primeiro retrato de Lula, tirado aos 3 anos, junto com a irmã Maria Baixinha, dois anos mais velha, num estúdio em Garanhuns.
</p>
	                
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<p>A vida, que já era difícil, tornou-se ainda mais penosa com a forte seca que castigou a região entre 1951 e 1953. No livo <em>A história de Lula</em>, Denise Paraná descreve um pouco da dureza daqueles dias. “A água que a família bebia era transportada em latões, trazida de açudes ou de barreiros, buracos feitos na terra que serviam como reservatório de chuva. A sujeira era tanta que a água precisava ser coada. Depois, Lindu a colocava numa jarra de barro e esperava assentar. Só quando a camada de terra pousava no fundo, é que a água ainda salobra, amarelada e morna podia ser tomada. Às vezes, um sapinho, um grilo ou outro pequeno animal pulava para fora da jarra”.</p>



<p>Tanto Dona Lindu quanto os seis filhos que moravam com ela (o marido Aristides já havia migrado para São Paulo anos antes levando os dois filhos mais velhos do casal) não sabiam ler e escrever. As crianças andavam descalças e não tinham assistência médica. Nos períodos mais difíceis, a alimentação era escassa e de baixo valor nutricional. Os Silva, como seus vizinhos e parentes, eram sobreviventes.</p>



<p>Estamos falando de Caetés, mas poderia ser qualquer outro ponto do semiárido nordestino. Os indicadores sociais da região eram chocantes. Segundo o Anuário Estatístico Brasileiro, em 1950, três em cada quatro nordestinos acima de cinco anos de idade eram analfabetos (74,1%). Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que a taxa de mortalidade infantil na região era de 175 para cada mil crianças nascidas.</p>



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	                                        <p class="m-0">Réplica da casa onde Lula viveu até os sete anos. Crédito: Inês Campelo/MZ Conteúdo
</p>
	                
                                    </figcaption>
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<p>Em meio a tanta dificuldade, no final de 1952, Dona Lindu resolveu fazer o caminho de tantos conterrâneos: migrar para São Paulo com os seis filhos na esperança de se juntar ao marido Aristides e reconstruir uma vida melhor. Segundo o jornalista Fernando Morais apurou para o livro <em>Lula – Volume 1</em>, para viajar, dona Lindu “vendeu por Cr$ 13 mil (R$ 18,6 mil em 2021) o sítio de dez alqueires — o valor pago incluía um casebre, uma jumenta, meia dúzia de galinhas e a vaquinha que garantia o leite da família”.</p>



<p>Levantamento feito por Monica de Melo Ferrari para a dissertaçã<em>o A Migração Nordestina para São Paulo no segundo governo Vargas (1951-1954) &#8211; Seca e desigualdades regionais</em> mostra que, segundo o censo demográfico de 1950, 387.612 nordestinos migraram para São Paulo. Destes, 62.745 eram de Pernambuco. Uma década depois, esses números eram 862.890 e 182.762, respectivamente.</p>



<p>Se antes os nordestinos deixavam a região para ir trabalhar na agricultura e em áreas rurais do estado de São Paulo, sobretudo nas fazendas de café, os Silva agora seguiam o novo fluxo migratório intensificado com a crescente industrialização do país. Estavam mudando para o estado mais industrializado e populoso, indo morar em áreas urbanas e tentando a sorte como operários.</p>



<p>Setenta anos depois da partida de Lula, a reportagem da <strong>Marco Zero</strong> encontrou outra realidade em Caetés, agora uma cidade, emancipada de Garanhuns desde 1963. Os problemas ainda são muitos, mas os indicadores sociais apresentam uma melhora substancial em toda região. A taxa de mortalidade infantil no Nordeste, por exemplo, caiu para 13,2 mortes para cada mil crianças (eram 175/1000 em 1950), segundo o IBGE. O número de analfabetos agora é de 13,9% da população (contra 74,1% há 70 anos).</p>



<p>As políticas de distribuição de renda e os programas sociais do governo Lula (2003 a 2010) impulsionaram a economia local. Entre 2003 e 2014 (inclui-se aí o primeiro mandato de Dilma Rousseff), cerca de 25 milhões de pessoas deixaram a linha de pobreza. Dados do Banco Mundial mostram que a parcela da população em situação de extrema pobreza no país era de 13,6% em 2001, caindo para 4,9% em 2013. Enquanto a renda média dos brasileiros, no geral, cresceu 4,4% entre 2003 e 2014, a renda dos 40% mais pobres cresceu 7,1%. <a href="https://www.redebrasilatual.com.br/cidadania/pobreza-brasil-banco-mundial/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Essa reportagem da Rede Brasil Atual</a> explica tudo isso em detalhes. </p>



<p>O fato é que, com a melhora das condições de vida em Caetés e no Nordeste como um todo, o fluxo migratório inverteu-se. Segundo o IBGE, na primeira década dos anos 2000, que corresponde aos dois mandatos de Lula, houve um movimento de retorno da população às regiões de origem em todo o país. O Nordeste foi a região que mais recebeu migrantes de volta. Em 2009, de acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), Pernambuco foi o estado com a maior taxa de migração de retorno da região, com 23,61%. Sergipe, Paraíba e Rio Grande do Nortes também apresentaram taxas superiores a 20%.</p>



<p>José Pedro Alexandre, que tem 54 anos e atualmente mora no Sítio Vargem Comprida, bem pertinho de onde Lula vivia quando criança, foi uma dessas pessoas que migraram para São Paulo na década de 1980 e voltou para Caetés nos anos 2000. Nesse vídeo, ele conta parte dessa história:</p>





<p>Se na época do governo Lula as coisas melhoraram, os últimos anos foram de retrocessos. O mais sintomático deles é o retorno do Brasil ao mapa da fome. Dados do segundo<a href="https://olheparaafome.com.br/wp-content/uploads/2022/06/Relatorio-II-VIGISAN-2022.pdf" target="_blank" rel="noreferrer noopener"> <em>Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia de Covid-19 no Brasil</em></a><em>,</em> elaborado pela rede Penssan com apoio da Oxfam Brasil e outras organizações, mostram que a insegurança alimentar tem se agravado no país, e a fome esteve ainda mais presente na vida dos brasileiros em 2022. Apenas quatro entre 10 famílias conseguem acesso pleno à alimentação. A fome já atinge 33,1 milhões de pessoas.</p>



<p>As razões, ainda de acordo com o relatório, são o aprofundamento da crise econômica, o segundo ano da pandemia de covid-19 e a continuidade do desmonte de políticas públicas que promoviam a redução das desigualdades sociais da população.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>A difícil travessia entre dois mundos</strong></h2>



<div class="wp-block-columns are-vertically-aligned-center is-layout-flex wp-container-core-columns-is-layout-9d6595d7 wp-block-columns-is-layout-flex">
<div class="wp-block-column is-vertically-aligned-center is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow" style="flex-basis:100%">
<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-flow wp-block-group-is-layout-flow"></div></div>
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</div>



<p>Em dezembro de 1952 a família Silva embarcou no caminhão Mercedes-Benz, “cara curta”, pertencente a Zé de Né, um “empreendedor” que morava em Caetés e regularmente fazia a viagem até São Paulo. Na ida levava as pessoas no pau de arara e, na volta, vinha com a carroceria apinhada de mercadorias. Zé de Né morreu em 2013, orgulhoso do ilustre passageiro que saiu de Vargem Comprida para fazer história. Antes de morrer, em 2003, ele se encontrou com Lula em uma das visitas do já presidente da República à cidade natal.</p>



<p>Jorge, o irmão mais novo de Zé de Né, ainda é vivo. Aos 91 anos, ele lembra de poucos detalhes daquela viagem histórica. O principal deles é que foram 13 dias muito difíceis. “O sofrimento era grande, uma viagem dessa com criança, estrada de barro. Tinham poucos postos de gasolina e, em muitos deles a bomba era na manivela. Não era brincadeira não. Ele dava tanta volta no mundo. Hoje, para São Paulo é um salto”.</p>



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	                                        <p class="m-0">Jorge é irmão de Zé de Né, dono do pau de arara que levou Lula. Crédito: Inês Campelo/MZ Conteúdo
</p>
	                
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<p>Lindu sempre soube que a viagem era perigosa. Segundo Denise Paraná narrou em seu livro: “As notícias de retirantes que morriam na estrada não eram segredo. A travessia era longa, dura, incerta. Uma viagem sem garantias, ao Deus dará. As cruzes nas margens do caminho lembravam as vítimas daquelas estradas sem segurança. Pessoas eram transportadas como gado. Caminhões tombavam, derramando sua carga humana. O sol e a chuva castigavam. Apesar de saber de tudo, Lindu decidiu partir. Foi uma decisão que mudou o destino dela e de seus filhos e ficaria registrada na história.”</p>



<p>A reportagem <em>Uma tragédia brasileira – pau de araras,</em> assinada por Mário de Moraes e Ubiratã de Lemos e publicada na revista O Cruzeiro em 22 de outubro de 1955 (a reportagem viria a ganhar o prêmio Esso daquele ano) afirmava que a rodovia Rio-Bahia, hoje a BR-116, na época com 1.589 quilômetros ligando a então capital federal a Feira de Santana (BA), havia se transformado num cemitério. “Suas curvas são assinaladas por cruzes. E cada cruz é uma história. Caminhões que perderam o freio e se chocaram com barrancos, outros saltaram da estrada nos abismos laterais, outros pegaram fogo, explodiram”, escreveram.</p>



<p>Em seu trabalho, <em>Em torno da sociologia do caminhão</em>, Marcos Vinícius Vilaça descreve um outro aspecto grave das viagens em paus de araras nos asnos de 1950: as precárias condições de higiene. “As condições de higiene nessas travessias são as mais contundentes. Chegam aos sessenta os que viajam inclusive os meninos aceleradores da fedentina, às vezes insuportáveis provocadora de protesto nos lugares em que escala o caminhão mal cheiroso. Na viagem os adultos atendem às necessidades fisiológicas em sanitários de postos de abastecimento ou &#8216;indo ao mato&#8217;, nas paradas, geralmente, de três em três horas. Quando vão ao mato convenciona-se, os homens tomam a margem esquerda da estrada, as mulheres a da direita. Prefere-se &#8216;ir ao mato&#8217; que às privadas por serem essas sempre imundas e espalhadoras de doenças”, escreveu em 1987.</p>



<p>As condições das estradas, 70 anos depois, de maneira geral estão bem melhores, mas ainda longe do ideal. Boa parte dos cerca de 2.500 quilômetros que separam o Sítio Vargem Comprida (PE) de Vicente de Carvalho (SP) estão sob a administração de concessionárias, ou seja, tem cobrados pedágios. Para refazer o trajeto que Lula fez a equipe da <strong>Marco Zero</strong> passou por 19 postos de pedágio a um custo total de R$ 146,30. Mesmo assim, na maior parte do percurso, as estradas estão em condições precárias, com muitos buracos e mal sinalizadas.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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	                                        <p class="m-0">Estradas sem conservação mesmo em trechos pedagiados. Crédito: Inês Campelo/MZ Conteúdo
</p>
	                
                                    </figcaption>
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<p>Apesar dos riscos e desconfortos, após 13 dias e 13 noites de viagem, o caminhão Mercedes-Benz de Zé de Né chegou ao bairro do Brás, em São Paulo. A família Silva nunca tinha visto nada igual. Mas ainda faltavam mais alguns quilômetros até a última parada, no Guarujá. O percurso foi completado de táxi e balsa, “confortos” que Lula nem sabia que existia e que demorou a ter novamente.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>O encontro com o Velho Chico</strong></h2>



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	                                        <p class="m-0">Vista do rio São Francisco na cidade de Paulo Afonso, Bahia. Crédito: Inês Campelo/MZ Conteúdo</p>
	                
                                    </figcaption>
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<p>Ainda no começo da viagem, após uma parada em Tupanatinga (PE), o caminhão que levava a família Silva chega em Paulo Afonso (BA). Como ainda não existia ponte, a travessia do Rio São Francisco precisou ser feita de balsa. Foi o primeiro contato com o Velho Chico e Lula nunca tinha visto tanta água. Um contraste comparado ao ambiente árido que deixava para trás. Ele só não poderia imaginar que, 55 anos depois daquele encontro, iniciaria a obra que levaria parte de toda aquela água para milhões de nordestinos. Em 4 de junho 2007, já no seu segundo mandato como presidente da República, Lula iniciava as obras da <a href="https://marcozero.org/aesperadagua/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Transposição do Rio São Francisco</a>. </p>



<p>Mais de quinze anos depois, Lula iniciará seu terceiro mandato como presidente sem as obras da transposição estarem totalmente concluídas. Embora os eixos Norte e Leste tenham sido oficialmente concluídos em 9 de fevereiro de 2022, o governo federal ainda precisará entregar as obras dos ramais do Apodi (RN), do Salgado (CE), o Cinturão das Águas do Ceará (CAC), as Vertentes Litorâneas da Paraíba, a Adutora do Agreste Pernambucano e o Canal do Xingó (SE). Sem falar do Ramal do Piancó (PB), o Sistema Seridó (RN) e o Canal do Sertão Baiano que ainda estão em fase de estudos e elaboração de projetos.</p>



<p>Se a Transposição do São Francisco foi a “grande obra”, o governo petista também enfrentou a questão hídrica com tecnologias sociais de captação e de estocagem de água mais democráticas, baratas e eficientes. Logo que assumiu a presidência, em 2003, Lula transformou o Programa Um Milhão de Cisternas (P1MC), o maior programa de armazenamento de água do país criado pela Articulação Semiárido Brasileiro (ASA), em uma política pública com dotação orçamentária. Desde então, foram entregues 1,5 milhões de cisternas, beneficiando cerca de 5 milhões de brasileiros.</p>



<p>O programa, que chegou a ser premiado pela ONU, foi praticamente destruído no governo Bolsonaro. Desde que começou, em janeiro de 2019, o atual governo entregou menos de 38 mil cisternas. O mais grave é que, para 2023, previa apenas R$ 2.283.326, como detalha o jornalista Carlos Madeiro <a href="https://noticias.uol.com.br/colunas/carlos-madeiro/2022/09/25/governo-bolsonaro-corta-e-para-maior-programa-de-acesso-a-agua-do-nordeste.htm" target="_blank" rel="noreferrer noopener">nesta reportagem</a>.</p>



<p>A cidade de Paulo Afonso que a <strong>Marco Zero</strong> encontrou é totalmente diferente da que Lula conheceu na sua primeira passagem por lá. Hoje abriga um complexo hidrelétrico formado pelas usinas de Paulo Afonso I, II, III, IV e Apolônio Sales (Moxotó), que gera 4.279,6 megawatts de energia. Há 70 anos só existia o canteiro de obras que, mais tarde, iria se transformar na usina de Paulo Afonso I, inaugurada em 1955.</p>



<p>Se a <a href="https://marcozero.org/energiasdonordeste/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">questão energética</a> não era uma preocupação do garoto de sete anos e de ninguém naquele caminhão com problemas de sobrevivência muito mais urgentes, quando Lula assumiu, em 2003, esse era um problema central no Brasil. O país ainda convivia com o apagão de energia elétrica e com os racionamentos impostos ao setor elétrico pelo governo de Fernando Henrique Cardoso. Para enfrentar o problema, o governo Lula tomou uma série de medidas. Algumas delas, inclusive, questionáveis do ponto de vista ambiental.</p>



<p>Inicialmente, houve a retomada da construção de usinas hidrelétricas (Belo Monte a principal delas), além de leilões de outras fontes de energia limpa mais sustentáveis, <a href="https://marcozero.org/a-luta-das-pescadoras-cercadas-por-parques-eolicos-e-especuladores-no-rio-grande-do-norte/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">como a eólica</a>. O primeiro leilão de energia eólica foi realizado em 2009 e garantiu um investimento de R$ 9,4 bilhões na construção das usinas desse tipo de matriz.</p>



<p>Para 2023, alguns desafios se impõem. Baixar o valor da tarifa de energia, <a href="https://www.correiobraziliense.com.br/brasil/2022/07/5024021-brasil-tem-a-segunda-energia-eletrica-mais-cara-do-mundo.html" target="_blank" rel="noreferrer noopener">a segunda mais cara do mundo</a>, talvez seja o mais imediato. Aumentar a produção de energia sem impactar o já tão degradado meio ambiente é o mais complexo. E isso tudo em um contexto de privatização da Eletrobras.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Uma Bahia sem fim</strong></h2>



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	                                        <p class="m-0">Plantações de eucaliptos: uma paisagem constante no Sul da Bahia. Crédito: Inês Campelo/MZ Conteúdo
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                                    </figcaption>
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<p>São 890 quilômetros entre a entrada na Bahia, por Paulo Afonso, até a cidade de Divisa Alegre, já no lado mineiro. Se cortar o território baiano de norte a sul de carro, em 2022, é uma experiência desafiadora, imagina em 1952, em estradas de terra, na carroceria de um pau de arara e durante uma das maiores secas registradas no século passado.<br><br>O trecho baiano da viagem é longo e, à medida que os quilômetros percorridos avançam, é possível perceber uma gradual mudança na vegetação, que ganha tons cada vez mais variados de verde. Mas aí, uma transformação profunda ocorreu desde a primeira passagem dos Silva por aquelas bandas: a paisagem que era coberta pela Mata Atlântica e, quando não, por pastagem, agora é dominada por plantações de eucaliptos.<br><br>Por conta do tipo de clima e solo, além da alta produtividade para uso industrial, hoje o eucalipto é a principal árvore cultivada para fins comerciais na Bahia. De acordo com a Associação Baiana das Empresas de Base Florestal (Abaf), o estado tem 585,6 mil hectares de áreas plantadas.<br><br>A transformação começou a acontecer no final dos anos 1980, no Extremo Sul do estado, visando transformar a região numa grande produtora de matéria prima florestal para produção de celulose.<br><br>Nessa mesma época, a primeira fábrica de celulose foi implantada em Muruci, município vizinho ao Espírito Santo, pela Bahia Sul Celulose, hoje denominada Suzano. No início da década de 90, foi implantada a Aracruz Celulose (hoje Fibria) e a Veracel.<br><br>O problema é que agora restam apenas 4% da cobertura original da Mata Atlântica preservada na Bahia. A mudança drástica de bioma, segundo os ambientalistas de várias ONGs que atuam na região, causa um cenário de seca, rios contaminados, esgotamento do solo e insegurança fundiária. Além disso, o som constante de motosserras e caminhões são uma preocupação adicional para muitas comunidades.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>A estrada do aço</strong></h2>



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	                                        <p class="m-0">Companhia Siderúrgica Nacional. Crédito: Inês Campelo/MZ Conteúdo
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<p>Mesmo depois de cruzar a divisa com Minas Gerais, as plantações de eucalipto continuam e até se intensificam. Não é para menos, Minas é hoje o maior produtor do Brasil e isso fica claro ao se olhar pela janela do carro. O movimento pesado de caminhões e os trens carregados de minérios passam, cada vez mais, a dividir o cenário com os eucaliptos à medida que o Vale do Rio Doce se aproxima. Começa a “estrada do aço”, ligando a região produtora de minério às indústrias pesadas no Rio de Janeiro e São Paulo.<br><br>Se quando Lula passou por ali ainda não existiam os eucaliptos, o transporte de minérios começava a ganhar força. No início dos anos 1950, no período do segundo governo Vargas (1951-1954), o Brasil atingia o auge da terceira fase de desenvolvimento industrial, quando os investimentos se voltaram para as chamadas indústrias de base, com um acentuado crescimento dos setores de transportes, energia e mineração. Nesse período surgiram a Petrobras, a Companhia Siderúrgica Nacional e a Companhia do Vale do Rio Doce. Todas estavam no caminho de Lula na sua primeira viagem e continuaram presentes na sua vida como operário, sindicalista e líder político.</p>



<p>Quando o ex-operário tomar posse pela terceira vez como presidente da República, encontrará um cenário de desindustrialização preocupante, bem diferente daquele de aceleração industrial da época que chegou menino em São Paulo e se tornou torneiro mecânico. De acordo com a Pesquisa Industrial Anual Empresa (PIA 2020), em dez anos, o setor industrial perdeu 9.579 empresas, ou 3,1% do total. Isso representou o fechamento de 1 milhão de postos de trabalho (-11,6% do total).</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>O começo de outro mundo<br></strong></h2>



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	                                        <p class="m-0">Tite pousa na parede de peroba preservada da casa original. Crédito: Inês Campelo/MZ Conteúdo</p>
	                
                                    </figcaption>
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<p>A casa onde Lula morou quando chegou em Itapema (como Vicente de Carvalho se chamava em 1952) continua de pé. Mas, setenta anos e algumas reformas depois, ela guarda apenas um pedaço da parede de madeira que por algum tempo abrigou os Silva. A pequena parte que remete ao tempo do antigo morador ilustre foi preservada graças à sensibilidade de Genelice Santos Ramor, dona Tite, mãe do atual proprietário. “Meu filho queria fazer tudo de alvenaria, mas eu não deixei. Isso aqui é peroba, cupim nenhum come. Era tudo lindo, aquelas portas antigas. Sempre digo que essa casa é muito abençoada”.<br><br>Em seu livro, Denise Paraná descreve assim a nova residência dos Silva: “E assim Lindu, Lula e seus irmãos passaram a morar numa velha casinha de madeira em Vicente de Carvalho, sem água encanada, poço próximo ou luz elétrica, mas muito além daquilo que imaginavam ter um dia na vida”.</p>



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<p>Tite descobriu que Lula morou na casa que seus pais compraram “há muito tempo”, antes mesmo dele virar presidente. “Foi na época que ele era candidato. Depois que ele ganhou já veio até a reportagem da Globo aqui”. Lula mesmo nunca voltou. Nem lá nem na casa de outros parentes que ainda moram na rua Minas Gerais. “Eles não são tão agarrados”, fala baixinho, com a autoridade de vizinha.<br><br>Ter morado na mesma casa não é o único ponto em comum entre Tite e Lula. Como o presidente, ela também saiu do Nordeste em um pau de arara quando tinha quatro anos de idade. Tite veio com o avô e os pais de Sergipe, há 71 anos, chegando em Itapema um ano antes da família Silva. “Isso aqui era tudo bananal, eram poucas ruas”. Como tinha apenas quatro anos, ela lembra pouco da viagem, apenas que durou oito dias e que foi muito difícil. “Pena meus pais não estarem mais aqui. Eles iriam contar essa história maravilhosamente bem”.<br><br>Embora tenham compartilhado do mesmo teto em épocas diferentes, terem idades bem próximas (ela tem 75 e ele 77) e estudado no mesmo colégio, o Marcílio Dias, os dois nunca se encontraram. Não que ela se lembre. Mas se um dia eles se cruzarem, ela já sabe o que dizer. “Espero que não repita os erros do passado. O Brasil tem tudo para ser primeiro mundo”.</p>





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