Crédito: Instagram/@mansan.mst

A radicalização do debate político tornou o ambiente tão tenso nas assembleias legislativas e câmaras de vereadores do país que qualquer proposição rotineira, antes aprovada sem maiores discussões, passou a ser motivo de acirrados embates ideológicos. A proposta de conceder o título de cidadão pernambucano ao gaúcho Paulo Mansan, coordenador estadual do Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra (MST), tinha tudo para gerar um desses confrontos no plenário da Assembleia Legislativa.

Não foi o que aconteceu: o título acabou sendo aprovado por todos os 33 parlamentares presentes. Até bolsonaristas e evangélicos votaram a favor da homenagem ao líder do MST. Na verdade, nem discussão houve. Uma surpresa, afinal, há três anos, a Assembleia Legislativa rejeitou conferir o título de cidadão ao catarinense Jaime Amorim, veterano dirigente do movimento. As duas propostas partiram do mesmo deputado, Isaltino Nascimento (PSB).

De acordo com Isaltino, que é líder do governo Paulo Câmara na Assembleia, a aprovação do título se deu de maneira tranquila graças a um acordo entre as lideranças partidárias costurado por ele. “Isso foi construído no diálogo com o conjunto da Casa e com as lideranças. Foi indagado se alguém teria tem algum questionamento, alguma dúvida, mas não houve nada nesse sentido. Mesmo entre o pessoal de pensamento mais conservador, não houve nenhum tipo de questionamento”, explicou o deputado socialista.

A lista de parlamentares conservadores ou mesmo de extrema-direita favoráveis à honraria ao coordenador do MST é grande, incluindo Manoel Ferreira (PSC), talvez a principal liderança evangélica na Alepe. Pai do prefeito de Jaboatão, Anderson Ferreira, e ligado à Assembleia de Deus, ele confirmou, por meio de sua assessoria, que realmente houve o acordo de lideranças mencionado pelo líder do Governo para aprovar quase uma centena de resoluções. A proposta do título de Mansan estava entre elas.

Já o coronel Alberto Feitosa (PSC), um dos mais convictos defensores de Jair Bolsonaro no estado, assegurou saber o que estava fazendo quando votou favoravelmente. Lançando mão de um discurso moderado, explicou sua posição, mas afirma que não se alinhou ao acordo de líderes: “Eu voto contra quando acho que tenho de votar contra, mas não sou intolerante, não sou dessa turma que diz que tudo que vem de Bolsonaro não presta ou tudo que vem de Lula não presta. O currículo do Paulo é muito bom, não há nada que desabone sua conduta. Estudei o currículo bem direitinho, é professor, tem pós-graduação”. Feitosa recordou que, na tentativa de conferir o título de cidadão a Jaime Amorim, ele votou contra e fez campanha para não aprovar a homenagem.

Eleito com apoio e votos da Igreja Universal, o deputado William Brígido (PR), enviou uma nota para explicar seu voto: “O Republicanos faz parte da base do Governo do Estado e a proposta é de autoria do líder do governo na Alepe. Além disso, vejo como um bom gesto em conceder o título de cidadão pernambucano a quem tem serviços prestados ao estado. Afinal de contas, Paulo Mansan vem coordenando o projeto Mãos Solidárias, que agrega grupos e movimentos populares para realizar ações de distribuição de alimentos e máscaras descartáveis em Recife, o que tem sido de grande importância para os mais necessitados”.

Um dos votos favoráveis mais curiosos foi o do deputado Clóvis Paiva (PP), proprietário da usina Bom Jesus, no Cabo de Santo Agostinho, e principal representantes dos interesses dos usineiros no legislativo. Apesar desse curriculum vitae, ele também concordou com o título para o coordenador do movimento que é alvo de fazendeiros e usineiros na Zona da Mata. Infelizmente, não será possível conhecer as razões do deputado, pois sua equipe não respondeu ao e-mail enviado pela Marco Zero Conteúdo.

Entre os parlamentes de direita, conservadores ou explicitamente bolsonaristas que apoiaram o título para Mansan estão Henrique Queiroz Filho (PL, também ligado ao agronegócio), Cleiton Collins (PP) Delegado Erick Lessa (PP) e Priscila Krause (sem partido). Ironicamente, Doriel Barros e Dulci Amorim (ambos do PT) não votaram.

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