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Campanha “4G para estudar” supre falta de políticas públicas de acesso à internet

Débora Britto / 30/06/2020

Foto: 4G para estudar

Em quatro meses de pandemia e isolamento social, o coronavírus acentuou desigualdades que já existiam e vem revelando seus impactos a curto e longo prazos. No campo da educação, as consequências da pandemia e da falta de políticas públicaspode comprometer o futuro de milhares de jovens brasileiros que estavam se preparando para entrar em uma universidade.

A desigualdade social encontra com a desigualdade do acesso à internet que, por sua vez, aprofunda as distâncias entre estudantes de escolas públicas e privadas. Para quem estuda na rede pública de ensino, não há aulas desde março. Também não há perspectiva de retorno às atividades presenciais.

Diante da falta de perspectiva de uma resposta do Governo Federal, movimentos estudantis travaram uma primeira batalha pelo adiamento do ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio), que seria realizado em dezembro de 2020. O Ministério da Educação (MEC) adiou a prova, que está com uma enquete aberta até 30 de junho para escolha, pelos inscritos, da nova data da prova. As opções do MEC são a realização em dezembro deste ano, janeiro ou maio de 2021. Mas muitos especialistas questionam se apenas adiar o exame será suficiente.

Enquanto isso, a alternativa para muitos estudantes é tentar estudar sozinhos, em casa, pela internet. Nesse cenário, os cursinhos pré-vestibulares populares que muitos alunos do ensino público já acessavam se tornaram uma opção para quem não quer desistir do ENEM. Pensando nisso, estudantes organizados criaram uma campanha nacional para comprar pacotes de dados para que quem faz parte dos cursinhos possa acessar o conteúdo das aulas online, de suas casas.

Mas quando tudo parece se voltar para a internet, desde aulas a consultas médicas, quem não tem acesso fica como? Sheyla Xavier, pedagoga e integrante do Coletivo Afronte, uma das organizações que articulou a campanha de financiamento coletivo “4G para estudar“, explica que depois da vitória do adiamento, organizações estudantis perceberam que precisariam continuar apoiando os alunos de outras maneiras.

“Adiamos a prova, mas um dia ela vai acontecer. Enquanto os estudante de escolas privadas continuam se preparando, os estudantes da rede pública não têm aula. Em Pernambuco, ofereceram aulas na TVPE para ensino remoto, mas os estudantes falavam que na casa que só tem uma televisão não daria. O poder público não fez levantamento, por exemplo, do que os estudantes dispunham, de como era a internet para eles acessarem, simplesmente jogaram, mas sem nenhum planejamento”, argumenta.

A primeira briga dos estudantes foi para adiar o ENEM. Foto: Coletivo Afonte

A ideia não tira o foco de pressionar por políticas públicas, explica Xavier, mas é uma estratégia importante não apenas para garantir a continuidade do ensino, mas para preservar a esperança dos estudantes na educação. “Priorizamos o acesso à internet como caminho para facilitar acesso às aulas e acesso, em um segundo momento, ao apoio psicológico para que eles não desistam nesse contexto de tantas dificuldades e vulnerabilidades, para que não desistam do desejo de ingressar no ensino superior”, conta.

De acordo com o Consed (Conselho Nacional de Secretários de Educação), 80 % dos alunos matriculados no ensino médio no Brasil são de escolas estaduais, que estão com aulas suspensas. A entidade, assim como outros movimentos, também somaram forças às críticas à tentativa do MEC de manter o ENEM.

Estudantes organizados por si mesmos

Em uma semana, a campanha nacional bateu a meta inicial de 400 mil reais para garantir a compra de pacotes de internet para estudantes vinculados a cursinhos comunitários de preparação para vestibulares pelo país. A campanha fez parceria com 31 cursinhos espalhados em todas as regiões.

A iniciativa articulada por movimentos de juventude ligados a educação tenta promover o acesso a um direito ainda pouco discutido no Brasil: o acesso à internet como um direito humano que, nos tempos em que vivemos, é fator decisivo para garantia de outros direitos, como a educação. “A educação é a principal ferramenta de transformação social no Brasil e é essencial que os estudantes mais vulneráveis, negros em sua maioria, possam transformar o sonho da universidade em realidade”, defende a iniciativa.

Em Pernambuco, a campanha vai atender estudantes de três cursinhos comunitários da Região Metropolitana do Recife: o Pré-vestibular comunitário Carolina de Jesus, Pré-vestibular Solidário, e o Projeto Rumo à Universidade (PRU). Segundo Xavier, com os três cursinhos, a estimativa é apoiar no mínimo 700 estudantes vinculados às iniciativas.

A partir dessas trocas, uma Frente de Cursinhos Comunitários foi criada em Pernambuco, com participação de 13 organizações. Segundo Sheyla, inicialmente a rede funciona como espaço de troca e aprendizado, além de desabafos dos voluntários que constroem os cursinhos.

Uma queixa generalizada é a dificuldade de entrar em contato com alguns estudantes, uma vez que muitos não têm sequer celulares. Outros compartilham que desistiram de tentar o ENEM e vão postergar o sonho de entrar no ensino superior.

Conectados, mas sem acesso pleno à internet

O celular é o dispositivo mais usado para acessar a internet pela população brasileira (99%), de acordo com a pesquisa TIC Domicílios 2019. O estudo também identificou que 58% das pessoas acessam a internet apenas pelo celular. Na área rural esse dado corresponde a 79%, nas classes D e E é de 85%.

Isso significa que apesar de haver um aumento da conectividade no país, a experiência de acesso à internet não é igualitária. As possibilidades de acesso a sites, aplicativos e outras plataformas pelo celular é menor do que o acesso por computadores e tablets.

Para Marina Pita, pesquisadora e integrante do Coletivo Intervozes de Comunicação, o debate sobre a qualidade do acesso à internet, neste momento, é tão importante quanto a garantia da conexão. “Não adianta a gente falar só que 28% dos domicílios não estão conectados, segundo a TIC Domicílios, porque os domicílios conectados estão nesse modelo de conexão de banda larga móvel que é insuficiente para garantir o exercício da cidadania. É um negocio que o mesmo preço que paga na banda larga fixa, na móvel você não vai conseguir se conectar o mês inteiro para assistir aula, por exemplo”, explica.

Para a pesquisadora, a pandemia tem conectado os movimentos que debatem o acesso à internet com outros, como os estudantis, para um tema que ainda era restrito a poucos grupos. “Isso dá uma esperança, expectativa de avançar. Por outro lado a gente vê o descaso do poder público, eu não vejo nenhuma medida emergencial. Na França, você teve distribuição de computador, teve forca tarefa de levar conexão para áreas rurais. No Brasil não teve nada. A gente tem que superar a dualidade que é conexão versus desconexão, começar a discutir a conexão insuficiente, de má qualidade, limitada”, alerta.

Pesquisadora defende que é preciso debater qualidade da conexão de internet.

Ainda segundo a pesquisa TIC, o Nordeste é a região menos conectada, com 71% da população com acesso à internet. A região, no entanto, está empatada com o Norte no primeiro lugar no que diz respeito à quantidade de usuários de Internet que usam telefone celular de forma exclusiva, com 66%.

Apesar de ser um terreno complexo e extremamente técnico, Pita defende que há possibilidade de atuação de governos estaduais no campo das políticas públicas locais de acesso à internet. Um exemplo que ela destaca é o cinturão digital construído no Ceará. “Lá foi feito um cinturão digital, com construção de um anel ótico no entorno do estado, e os pequenos provedores locais puderam construir pedacinhos de rede a partir do cinturão que foi financiado pelo Estado, para levar conexão para dentro do estado. Então foi muito interessante, é um caso de sucesso em termos de ampliação do acesso e também de geração de emprego”, conta. Para a pesquisadora e ativista, movimentos sociais podem e precisam pressionar governos estaduais também neste campo.

O desafio da aula online

Luciana Nunes, formada em letras, especializada em literatura, é coordenadora de logística do Projeto Rumo à Universidade (PRU), mas sua história com o cursinho começou há mais de 20 anos, quando foi aluna da iniciativa que foi criada em 1994, no Recife, e hoje funciona no Prédio de Engenharia da UFPE. O PRU atende cerca de 700 estudantes, e tem 68 professores voluntários.

Desde que o início da pandemia, Luciana e a equipe vêm tentando aprender como dar continuidade ao trabalho realizado há anos, mas dessa vez no ambiente virtual. Os desafios são muitos e, em boa parte deles, o cursinho não pode ajudar.

“Um professor teve a ideia de aplicar um questionário para entender como é a situação da casa, se tinha energia, se tinha água, alimentação, como estava o apoio familiar e a gente ficou assustadíssimo com a realidade dos alunos, da falta de motivação. Eles estão muito ansiosos também”, conta. A partir dessa ação, os voluntários organizaram uma arrecadação de recursos para fornecer cestas básicas às famílias dos estudantes em situação mais vulnerável.

A desistência de alunos também assustou a equipe. No início do ano, o PRU tinha 700 estudantes matriculados, mas no início das aulas virtuais uma aula boa chegava a ter 50 pessoas online. “Quando chega num pico de ter 30 ou 40 alunos é motivo de felicidade. Estamos tendo muitas dificuldades com as plataformas também. Fizemos reunião com os estudantes que estão conseguindo participar para entender quais são as principais dificuldades para acessar. Vimos que as aulas começavam e acabavam, às vezes, com 12 pessoas. A gente perguntou e eles diziam que a internet ficava caindo, não conseguiram conectar”, conta.

Aulas online do PRU.

Com o projeto “4G para estudar”, Luciana acredita que será possível retomar a participação de estudantes que tinham dificuldade de internet em casa, dependente da conexão móvel. Para isso, eles fizeram uma nova rodada de mobilização, tentando entrar em contato com todos. “Nós vemos que enquanto as comunidades, o povo, está se juntando para fazer, as empresas e o governo não estão fazendo. Isso é mais um questionamento que a gente quer levar para nossos estudantes pensarem”, afirma.

O pré-vestibular comunitário Carolina de Jesus foi criado em 2019 e já no começo das atividades de 2020 teve que enfrentar o desafio da reorganização por causa da pandemia. O projeto está localizado na Erem Othon Paraíso e na Erem Padre Nercio, ambas em bairros periféricos do Recife, e tem mais de 40 professores voluntários e 122 alunos nos dois polos. Jhulia Nelly, coordenadora do projeto, diz que desde o começo da pandemia a equipe do cursinho entendeu que não só o estudo ficaria comprometido, mas outras dimensões da vida dos alunos também sofreriam.

“Quando começou a pandemia a gente entendeu que o ritmo ia ser diferente daquele para os estudantes de escola particular e que são super focados em aprovação. As pessoas que têm os recursos iam continuar estudando loucamente e nossos alunos não só têm essa dificuldade com o acesso à internet, mas os demais problemas como, por exemplo, o auxílio governamental”, diz. Segundo ela, entre os estudantes há pessoas em grupo de risco, trabalhadores que não têm como trabalhar de home office, pessoas que não conseguiram o auxílio emergencial, mães com filhos pequenos.

“Estamos tentando retornar contato com eles. Já era mais difícil para estudantes negros, da periferia, acessarem a universidade, então a gente tem uma visão muito crítica. Um dos nossos pilares é trabalhar com nosso alunos isso: se a gente pensar num mundo igualitário, um cursinho como o nosso nem deveria existir. O acesso à universidade deveria ser democrático, mas não é”, analisa.

Administrando a ansiedade e a esperança

A estudante Ellem Diana Silva, de 25 anos, se matriculou pela primeira vez no PRU neste ano. Ela já prestou vestibular uma vez, mas não passou. Dessa vez, se organizou para conseguir estudar com mais afinco para obter a aprovação no curso de Direito. Ela é uma das que continua tentando acompanhar as aulas, mas enfrenta diversas dificuldades. “Antes da pandemia eu ficava indo para o CTG que é onde acontece as aulas. Cada professor dava assunto de uma disciplina e durante a semana eu ficava revisando, mas agora tô tendo dificuldade por conta de internet. Aqui em casa a gente tem acesso, mas faz um mês que tá ruim”, relata.

Para ela, o acesso ao 4G pode ajudar a superar essa barreira, mas a ansiedade e a preocupação com o futuro é algo que vem a acompanhando há meses. “Eu estou tentando me reorganizar porque tenho ansiedade. Eu estou dando atenção aos estudos, tentando achar um horário que seja melhor para estudar. Minha maior preocupação, para falar a verdade, é se eu vou conseguir passar na prova do ENEM”, confessa.

Ellem considerou até desistir de fazer a prova, mas o apoio do namorado ajuda a continuar estudando. “Antes eu não tinha dificuldade de estudar, mas agora eu estou tendo. É muita preocupação com a questão das datas das provas. Além da internet, eu estou tendo muita dificuldade de concentração”, conta. Para ela, considerando o tempo e a qualidade do estudo, o melhor seria a prova ser o mais distante possível, mas às vezes ela pensa que “acabar logo” pelo menos encerraria a ansiedade.

AUTOR
Foto Débora Britto
Débora Britto

Mulher negra e jornalista antirracista. Formada pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), também tem formação em Direitos Humanos pelo Instituto de Direitos Humanos da Catalunha. Trabalhou no Centro de Cultura Luiz Freire - ONG de defesa dos direitos humanos - e é integrante do Terral Coletivo de Comunicação Popular, grupo que atua na formação de comunicadoras/es populares e na defesa do Direito à Comunicação.