Candidato a prefeito de Pesqueira, o cacique Marquinhos Xucuru tem sido apontado como favorito pelas pesquisas locais. Crédito: Divulgação

Há 20 anos o cacique Marquinhos Xukuru, 42, lidera a nação indígena formada por cerca de 10,5 mil pessoas distribuídas em 24 aldeias, no sertão de Pernambuco. Experiente na luta pela garantia de direitos de seu povo, notabilizou-se dentro e fora do Brasil por suas ações políticas que extrapolam os limites do território sagrado herdado dos antepassados.

Agora, depois de acumular vitórias que permitiram entre outras conquistas a recuperação da terra para seus concidadãos indígenas, Marquinhos Xukuru assume uma nova frente de luta: as eleições 2020. Estreante em corridas eleitorais, o cacique pode se tornar o primeiro indígena prefeito no estado caso se confirmem as pesquisas de intenção de voto que apontam sua vitória em Pesqueira.

Embora filiado a um partido de direita, que tem como figuras o prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, o cacique Marquinhos integra a coligação “Pesqueira de todos nós” formada por PL, PTB e PT e conta com o apoio de quadros importantes da esquerda brasileira.

Em vídeos publicados em suas redes sociais oficiais, o candidato aparece ao lado do deputado federal Túlio Gadêlha (PDT). O pedetista, que tem seu partido compondo outra chapa concorrente à prefeitura de Pesqueira ao lado do Psol, pede votos para Marquinhos e revela que a candidatura do cacique é um “sonho realizado”. Em outras duas postagens, o candidato recebe a “bênção” do senador Humberto Costa (PT) e do deputado estadual e ex-presidente da Fetape (PT), Doriel Barros.

“Foi quase um ano pensando na possibilidade de disputar essas eleições e a decisão veio após ouvir meu povo e também várias pessoas de Pesqueira. Agora queremos levar esse trabalho de excelência, que desenvolvemos com os indígenas, para toda cidade, com uma gestão participativa”, afirmou o cacique, que concorre às eleições pelo Republicanos.

Marquinhos Xukuru não é o único indígena concorrendo a um cargo eletivo no pleito deste ano, em Pernambuco. Ao todo, de acordo com dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), 125 indígenas inscreveram suas candidaturas para prefeito, vice-prefeito e vereador. O número é maior do que o registrado nas eleições de 2016, quando 104 indígenas se lançaram a prefeituras e câmaras municipais.

A busca por novos espaços de debates que vão além daqueles setorizados, como os conselhos municipais, por exemplo, é um dos motivos que tem levado os indígenas a demarcar território nas urnas. Os candidatos também atribuem a decisão à consolidação de ações políticas anti-indigenistas, sobretudo, após o início do governo de extrema-direita do presidente Jair Bolsonaro (sem partido).

A educadora Francisca Kambiwá tem 59 anos e, destes, 43 foram dedicados à consolidação de escolas para seu povo aldeado em Ibimirim. Sob o risco real de ver o desmonte da educação para os indígenas, resolveu entrar na câmara de vereadores da cidade. “Sempre resisti aos convites para entrar na política, mas na atual gestão perdemos funcionários que eram cedidos a nossas escolas, nos deixando em uma situação difícil, então assumi essa luta”, contou a candidata pelo PC do B.

O desmonte da educação em Ibimirim motivou a candidatura de Francisca Kambiwá à câmara de vereadores. Crédito: Divulgação

Para o coordenador executivo da Associação dos Povos Indígenas do Nordeste, Minas Gerais e Espírito Santo (Apoinme), Sarapó Pankararu, o crescimento do número de candidaturas indígenas é muito positivo para a luta dos povos tradicionais. Muito embora, segundo ele, sobretudo os eleitores precisam atentar para o discurso desses candidatos e os compromissos que estão assumindo, uma vez que para o TSE o que se registra são pessoas que se autodeclaram indígenas.

“A Apoinme está acompanhando de perto essas candidaturas ditas indígenas. Não vemos nem como aliados nem como adversários os que se passam por indígenas ou descendentes, mas trabalhamos com os povos que verdadeiramente estão em busca dos direitos dos indígenas”, disse Sarapó Pankararu.

Desafios

A invisibilidade imposta às minorias étnicas ganha força quando os indígenas se colocam na disputa eleitoral, e esse se torna mais um desafio a ser superado na busca pelo voto. Segundo os próprios candidatos e candidatas, os adversários tentam “empurrar” os indígenas apenas para a arena dos assuntos identitários como forma de silenciá-los no debate público.

“É um estigma que os adversários tentam criar sobre os candidatos indígenas. Toda candidatura é difícil, principalmente, para quem está entrando pela primeira vez e precisa enfrentar grupos que há anos sabem fazer politicagem”, afirmou o cacique Marquinhos Xukuru.

Professor do Departamento de Antropologia e Museologia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Renato Athias acompanha desde 1987 os indígenas nas eleições no Amazonas e aqui no estado. De acordo com o pesquisador, a tentativa de limitar essas candidaturas a uma pauta apenas indígena não faz sentido.

“Há um preconceito muito grande em relação a essas candidaturas. O indígena que está na arena eleitoral, fortalecendo nosso sistema de democracia representativa, é uma liderança que tem muita habilidade política. Primeiro, com sua própria população que o legitimou para estar naquela disputa. Depois, dentro do partido que tem sua bolha furada por esse candidato ou candidata”, argumenta Athias, que também coordena o Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Etnicidade (Nepe) da UFPE.

Foi com a ampliação do debate para além do território dos Pankarás, em Carnaubeira da Penha, que a cacique Dorinha Pankará, 53, se tornou, em 2012, a primeira mulher e indígena a conquistar uma vaga na câmara de vereadores da cidade. “No início não foi fácil, me sentia excluída, mas fui dialogando com os outros vereadores. Não só como indígena, mas também como mulher, precisamos mostrar ao mundo que somos capazes de ocupar qualquer espaço”, disse.

Mesmo candidata pelo MDB, a cacique Dorinha Pankará se coloca na oposição ao governo Bolsonaro. Crédito: Divulgação

A cacique que foi vereadora pelo PT, já passou pelo PL e agora é filiada ao MDB, tentará repetir o feito nas eleições deste ano. A legenda, base do Governo Federal no Congresso Nacional, é outro dilema na campanha. “Alguns perguntam porque estou em um partido que apoia Bolsonaro em Brasília, mas aqui nós não apoiamos o presidente. Nosso foco é a cidade. O mais importante são as ações que faremos aqui”, contou.

A vinculação com a agremiação partidária, defende o pesquisador Renato Athias, não interfere nas candidaturas indígenas e as escolhas em nível municipal são mais pragmáticas. “O partido é só o guarda-chuva que abriga aquele candidato. Temos exemplos no Amazonas de fóruns suprapartidários com indígenas que exercem cargos eletivos e discutem juntos as políticas públicas de suas cidades, não interessa a linha ideológica da legenda”, explicou.

Missionário da Regional Nordeste do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), Angelo Bueno pondera que é preciso esperar para analisar a atuação dos candidatos eleitos por uma sigla que, no campo nacional, esteja alinhada ao governo Bolsonaro. “É preciso levar em conta a autonomia do indígena eleito. O importante é que eles não se deixem iludir pela pauta nefasta desse governo e não esqueçam da luta diária que estamos travando”, declarou.