Crédito: SES-PE

Pernambuco vive uma crise de doenças respiratórias graves em crianças jamais vista. Hoje, são 80 crianças e bebês esperando por um leito de UTI na rede pública, mais 26 em busca de um leito de enfermaria. Com a superlotação de UPAs e hospitais, o Governo do Estado vai dobrar a quantidade de leitos de UTI: deve chegar a 80 novas vagas na próxima semana.

Nos últimos dias já foram inaugurados 10 leitos de UTI no Hospital e Maternidade Santa Maria, em Araripina, e mais 10 leitos no Hospital Eduardo Campos, em Serra Talhada. Para os próximos dias estão previstos 30 leitos de UTI: dez na Maternidade Brites Albuquerque (totalizando 40 leitos), mais dez na UPAE de Goiana e dez leitos no Hospital Regional de Palmares.

Até a próxima semana, serão mais 10 leitos no Memorial Guararapes, em Jaboatão, mais dez no Maria Lucinda, e dez no Hospital Jesus Pequenino, em Bezerros. Além desses leitos de UTI, hoje oito leitos foram abertos na enfermaria do Hospital Maria Lucinda, todos com suporte ventilatório. “Há uma tentativa de descentralizar os leitos e aproveitar as equipes de pediatras que existem nas regiões. Aqui, na Região Metropolitana do Recife, os intensivistas pediatras estão sendo muito demandados e disputados entre a rede pública e a rede privada”, afirmou o secretário estadual de saúde, André Longo.

A sazonalidade para vírus respiratórios em Pernambuco geralmente começa no mês de março e segue até junho. Por conta disso, as máscaras seguem obrigatórias nas escolas e creches. “A rede hospitalar privada também está pressionada. E não é só em Pernambuco, vários estados do Nordeste e já no Sudeste também”, disse Longo.

Para o secretário de Saúde, esse aumento de casos graves, que demandam internação, foi inesperado. No ano passado, o estado registrava, em média, 53 solicitações por leitos de UTI infantis por semana. Na semana passada esse número triplicou: foram 150 solicitações. “Isso é algo que extrapola qualquer planejamento”, disse o secretário. “Vamos abrir leitos, mas é necessário reduzir a taxa de transmissão”.

Uma das dificuldades para aumentar o atendimento é falta de pediatras intensivistas no mercado. O secretario afirmou que com a nomeação nesta quarta-feira, 18 de maio, de 369 concursados, praticamente zerou a fila de médicos aprovados em concursos no estado. Dos 72 médicos convocados hoje, 14 são pediatras. A maioria deve ir para o Hospital Barão de Lucena e Hospital da Restauração.

Quais vírus estão causando os casos graves?

De acordo com o secretário André Longo, há dez semanas Pernambuco se encontra com taxa de positividade para covid-19 em torno dos 3%. Houve uma oscilação maior nas últimas duas semanas – há um mês foi retirada a obrigatoriedade de máscaras em locais internos -, mas a positividade ainda segue na casa dos 3%.

Testes feitos nas crianças e bebês internados revelam que os agentes causadores das doenças são velhos conhecidos. Nos bebês de zero a dois anos, a prevalência é do vírus sincicial respiratório (VSR), responsável por 40% dos casos. Nas demais faixas, a prevalência é do rinovírus: 66% entre crianças de 6 a 9 anos e 20% das entre 3 e 5 anos.

De acordo com Longo, o vírus da Influenza, cuja variante H3N2 provocou uma grande epidemia entre o final do ano passado e o começo deste ano, não está sendo muito encontrado nas amostras analisadas.

Eduardo Jorge da Fonseca. Crédito: MIva Filho/SES-PE

Apesar da maioria ser de casos leves, chama a atenção um número muito maior de casos graves, não encontrado em anos anteriores. Para o pediatra Eduardo Jorge da Fonseca, vice-presidente da Sociedade de Pediatria de Pernambuco, a gravidade aumentada pode encontrar explicação no distanciamento social durante a pandemia da covid-19. “Quem engravidou de 2020 para cá ficou mais em casa, usou máscara e teve mais cuidado. Foram grávidas que ficaram menos doentes e passaram menos anticorpos para os recém-nascidos, essas crianças que hoje têm de um a dois anos de ano”, afirmou o pediatra, que participou da coletiva de imprensa.

Ele também pondera que não há uma única causa para o aumento de casos que está sendo visto agora. Era esperado que, depois da pandemia, com o retorno à normalidade, houvesse o aumento de vírus respiratórios. Mas não era esperado esse comportamento de maior gravidade”, afirmou.

As recomendações para evitar que crianças sejam expostas aos vírus sazonais já são bem conhecidas para quem está há mais de dois anos na pandemia da covid-19. E devem ser seguidas por toda a família: usar máscaras em ambientes internos, lavar as mãos com frequência e evitar aglomerações, incluindo festas infantis e shoppings centers. O pediatra também recomenda que crianças com menos de cinco anos, se possível, fiquem em casa pelas próximas duas semanas.

“Isso tudo é necessário neste momento porque estamos no pico da circulação desses vírus respiratórios. Esperamos que em junho esses números comecem a reduzir e desafogar o sistema de saúde”, disse Eduardo Jorge. Para quem já apresenta os primeiros sintomas, lavar as narinas com soro ajuda a reduzir a transmissibilidade e resolver quadros mais benignos.

Os familiares devem ficar atentos aos sinais de piora, para buscar ajuda imediata nas unidades de saúde. “Crianças com febre há mais de três dias, com desconforto respiratório ou dificuldade para respirar, que não querem mais comer ou tomar líquido. Esses são sinais de perigo que indicam a necessidade de se ir para uma emergência pediátrica”, enumerou o pediatra. “Mesmo os pacientes que fazem bronquiolite grave causada por vírus sincicial respiratório (VSR) têm uma boa evolução, na maioria dos casos. É uma dor ter um filho internado em UTI, mas ressaltamos que mesmo os casos graves evoluem geralmente bem”, tranquilizou Eduardo Jorge.

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