Crédito: Andrea Rego Barros/PCR/Arquivo

Nas última semanas, um estudo realizado por dois professores da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) sugerindo que medidas como lockdown e quarentena aumentariam a mortalidade por covid-19, foi publicado por sites bolsonaristas e está sendo compartilhado freneticamente em grupos e redes de apoiadores do presidente da República, um estudo. A divulgação dos resultados da pesquisa do professor de psicologia cognitiva Bruno Campello de Souza e do seu pai, Fernando Menezes Campello de Souza, doutor em Engenharia Elétrica e professor do centro de Tecnologia, causou incômodo na universidade, principalmente por se tratar de um preprint, ou seja, ainda não foi concluído e revisado por outros pesquisadores.

Assim que o conteúdo começou a viralizar, a UFPE emitiu uma nota na tentativa de descolar sua imagem dos argumentos utilizados pelo bolsonarismo. Inicialmente a nota afirma que a instituição respeita “a liberdade de cátedra e a diversidade de pensamentos na comunidade acadêmica”, mas sem seguida faz referência aos “mais de 100 estudos da Universidade sobre o enfrentamento da pandemia, há publicações em periódicos consolidados, revisados por pares, que destacam a importância do isolamento social para reduzir a disseminação do coronavírus”.

Após a nota oficial, o site da universidade publicou uma matéria cujo título enfatiza o quanto o quanto a instituição deseja desvincular-se do estudo alinhado às teses de Jair Bolsonaro: Pesquisadores da UFPE comprovam eficácia do isolamento social no combate à transmissão do coronavírus.

A ouvidora da universidade, a professora do departamento de Psicologia, Wedna Cristina Marinho Galindo, já havia reagido quando o Terça Livre, uma dos portais investigados no inquérito das fake news em andamento no STF, postou os resultados do tal estudo. Usando sua conta pessoal do twitter, a ouvidora disse que “trabalho científico sem avaliação de pares não atende exigência de rigor para publicação. Não entendo como o arquivo com suposto relatório de pesquisa está em circulação”. Em entrevista, Wedna Galindo confirmou e endossou o conteúdo do tuíte.

Para comentar o estudo, a Marco Zero ouviu três respeitados e reconhecidos pesquisadores pernambucanos que atuam em áreas distintas, mas que se completam: um estatístico, um epidemiologista e um virologista, todos trabalhando ativamente no combate à Covid-19. Todos defendem o lockdown.

“Premissas falhas, dados falhos, análise falha”

O médico virologista Ernesto Marques, pesquisador em saúde pública da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e professor de doenças infecciosas na Universidade de Pittsburgh (EUA), ficou indignado ao tomar conhecimento do conteúdo. “Esse artigo é absurdo. Não é um artigo científic, porém, está sendo divulgado como tal. Não é uma questão de diferença de opinião acadêmica, pois as premissas são falhas, os dados são falhos e a análise é falha”, analisa.

De acordo com ele, os autores cometem vários “erros seletivos visando propositadamente confundir a comunidade leiga, criando uma ilusão de evidência supostamente cientifica”. Tem mais: “O pior é que eles não consideram que entre o dia do início dos sintomas e o dia do óbito há uma variação de 30 a 80 dias. Ou seja, a maioria das mortes dos primeiros 50 dias são relacionadas a infecções anteriores às medidas de distanciamento social”, observa.

Ele afirma que os autores não têm calibre para discutir com os pares. “E querem fazer um debate acadêmico em público, dando uma impressão de que o que apresentam tem mérito igual a mais de 100 anos de experiência com quarentenas”, reclama.

Marques escreveu uma carta pedindo que o Ministério Público de Pernambuco (MPPE) apure quais as motivações para a divulgação do artigo durante a maior crise de saúde pública já registrada no Brasil. “Os autores tentam derivar a uma relação causal a partir de um estudo puramente observacional, sem nenhum controle e sem um mecanismo plausível que possa explicar o efeito observado. É uma lógica idêntica a se observar que o galo canta e que em seguida o sol nasce, e concluir que o sol nasce porque o galo canta”, afirma.

“Efeitos positivos maiores que os negativos”

O estatístico Gauss Moutinho Cordeiro, professor titular da UFPE e doutor em estatística pelo Imperial College de Londres, não quis tecer comentários específicos sobre o estudo por se tratar de um “artigo ainda não publicado” e por ser amigo de um dos autores, Fernando Campello, há mais de 30 anos.

O professor, contudo, fez uma ampla defesa do lockdown como medida eficaz para o combate da disseminação do novo coronavírus. “É claro como o Teorema de Pitágoras: o lockdown reduz o número de contatos entre as pessoas durante o período de sua aplicação e, assim nunca poderá aumentar o número de infectados neste período e nem mesmo no curto prazo a posteriori, supondo que as demais condições persistam constantes”, afirmou. “Todo lockdown é uma medida paliativa, mas necessária para reduzir a sobrecarga nos hospitais (públicos e privados). Sem esse mecanismo, muitas pessoas irão morrer de imediato nas filas de espera por leitos hospitalares quando o sistema está colapsado. Os efeitos positivos do lockdown sempre são maiores que os negativos”, diz.

Eleito um dos cientistas mas influentes do mundo pela revista científica Pos Biology, Gauss lembra que o lockdown sempre foi usado por pesquisadores do mundo inteiro. “Por que almejar que a roda brasileira de combate à pandemia fique ainda mais quadrada?”, questiona.

O estatístico cita Portugal como bom exemplo para a importância do lockdown. “É um país que tem uma população próxima a de Pernambuco, de pouco mais de 10 milhões de habitantes. Portugal entrou em regime de lockdown completo a partir de 15 de janeiro por conta das aglomerações natalinas e da rápida disseminação da cepa britânica do vírus. Tanto a média móvel de 7 dias de casos confirmados quanto a correspondente de óbitos começaram a decair rapidamente desde o início de fevereiro devido exclusivamente ao lockdown que deve ser prolongado até o final de março. Aqui em Pernambuco, acredito que só teremos êxito com um lockdown até a metade de abril possibilitando depois a abertura do comércio, desde que com um policiamento ostensivo para evitar aglomerações”, calcula.

Para Gauss, o lockdown só tem efeito negativo quando se vai para os aspectos econômicos. “Principalmente em populações mais vulneráveis, decorrentes da perda salarial. Para evitar esse aumento relativo de infecções, o Governo deve disponibilizar auxílios emergenciais de valor considerável enquanto durar o lockdown”, sugere. “Nunca houve um lockdown rigoroso em Pernambuco. Gostaria de salientar que aquele período de quarentena entre 18 e 28 de março do ano passado, decretado pelo Governo de Pernambuco, foi desastroso com aglomerações de pessoas sem máscaras em praças e ruas. Todo lockdown deve ser feito com fiscalização e medidas punitivas”, afirma.

Gauss Cordeiro explica que nunca houve lockdwon para valer em Recife. Crédito: Inês Campelo/MZ Conteúdo


Além da disseminação das novas variantes, que são muito mais transmissíveis, o professor da UFPE credita o novo pico da Covid-19 a um relaxamento do distanciamento social que começou ainda lá em setembro. “Praias e finais de semana sem controle em setembro, campanhas eleitorais em outubro e novembro, comemorações de final de ano e férias em janeiro e fevereiro, deram início ao caos que estamos vivenciando. As médias móveis de 7 dias de casos confirmados e de óbitos em Pernambuco cresceram linearmente desde a 1ª semana de novembro, só que a média móvel de óbitos mudou para um crescimento rápido (quadrático) a partir da 1ª semana de março deste ano. De forma similar, no Brasil, o crescimento linear dos casos e de óbitos começou na 2ª semana de novembro, só que a evolução de óbitos passou a ser exponencial (média móvel atual de 2.349) a partir da última semana de fevereiro. A pandemia funciona como um grande incêndio. Só que no Brasil, não se combate os focos”, diz.

“Pesquisador tem de ser responsável pelos seus atos”

O epidemiologista Onício Leal, que é pesquisador de pós-doutorado no departamento de economia da Universidade de Zurich, na Suíça, afirma que primeiro de tudo é preciso deixar bem claro que não se trata de um artigo científico. Mas de um material que não foi oficialmente publicado em canto nenhum. “É um preprint. E qual a diferença disso para um artigo revisado por pares? é que, além da contribuição do editor do períodico científico, além da aprovação do editor chefe do periódico, um artigo científico para ser publicado precisa passar por um escrutínio, uma crítica, que às vezes é feita por cinco, seis pesquisadores. Isso serve para confrontar se os achados que foram encontrados de fato fazem sentido. Ou se foram situações espúrias. Até chegar nesse processo, um preprint nada mais é que um relatório, estruturado no formato de um artigo científico, mas que expressa exclusivamente a visão dos pesquisadores, que podem estar errados”, esclarece, afirmando que preprints não deveriam receber tamanha atenção.

Com a experiência de quem trabalha há 11 anos com tecnologias para combate de epidemias e já foi consultor do fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), Organização Panamericana da Saúde (OPAS), Banco Interamericano de Desenvolvimento, Ministério da Saúde e secretaria estadual e municipal de Saúde, Onício levanta dois pontos que põem em xeque o artigo.

O primeiro é base de dados que ele usa, o índice de distanciamento social desenvolvido pela empresa In Loco. “Esse índice no ano passado levantou muita polêmica entre os epidemiologistas. A metodologia de como esse índice é elaborado nunca foi revelada. Isso não gera credibilidade. O epidemiologista Jones Albuquerque afirma que é um índice de isolamento tecnológico, e não social. Se há uma pessoa saindo e que volta para casa e infecta os familiares, isso não é coberto por esse índice”, afirma, lembrando que há outras empresas que fazem levantamentos semelhantes, mas com metodologias distintas.

“Uma delas é Cuebiq, que fez parceria com várias instituições os Estados Unidos. A Cuebiq traz esses estudos de mobilidade de uma outra maneira, com uma transparência gigante e trabalhando junto com pesquisadores de sistemas complexos, de epidemiologistas, de físicos, que entendem a dinâmica envolvida em uma pandemia como a da Covid-19. Essa associação de diversos agentes, instituições e pesquisadores significa que os interesses de aproveitar o momento para alavancar um diferencial tecnológico se perdem e o que sobressai é de fato a ciência. Se você não utiliza um dado que está muito claro de como ele é levantado, fica difícil você achar que aqueles resultados são de fato consistentes”.

O segundo ponto levantado pelo pesquisador é a ausência dos contrafatuais. “Sem o contrafatual, fica muito difícil de se ter certezas. Um bom exemplo é a discussão sobre a abertura e fechamento de escolas. Muitos estudos falam que reabrir escolas aumenta a transmissão, mas há poucos estudos mostrando como a pandemia se comportou com as escolas fechadas. E aí quando você coloca isso na balança, essa ausência de contrafatual é sempre prejudicial nesse tipo de estudo que eles fizeram. Não vou nem entrar na questão de domínio de conhecimento, porque nenhum dos dois é da área de epidemiologia ou de sistemas complexos, que são os profissionais que mais se dedicam ao estudo de transmissão de doenças infecciosas. Se fossem, por exemplo, economistas olhando para esse estudo, iriam falar também da ausência do contrafatual. É uma fragilidade muito grande para o tipo de conclusão que fizeram com isso”, aponta.

Para Onício Leal, a ciência precisa sim estar livre, mas uma vez em que uma pesquisa quer transformar um achado em impacto na sociedade, ainda mais no contexto de pandemia que estamos vivendo, o pesquisador precisa ter responsabilidade para entender o impacto daquilo que ele propõe. “Não estou dizendo que os pesquisadores foram irresponsáveis, mas se eles de fato querem provar isso, então se submetam à revisão por pares. Submetam o preprint a um periódico que vai olhar com detalhes e vai fazer o escrutínio e as críticas. Da mesma maneira que esse preprint é um absurdo, no sentido de querer ganhar espaço como uma via alternativa, existem vários outros preprints no Brasil e no mundo que vão de encontro ao que vem sendo estabelecido no combate à Covid. O problema é que quando esses preprints se submetem a uma avaliação científica, não sobrevivem às críticas dos revisores e editores. O pesquisador precisa ser muito responsável dos seus atos, sobretudo nesse momento que estamos vivendo. “

O que diz o autor do estudo

Bruno Campello de Souza rebate as críticas ao seu trabalho. Antes de participar de uma audiência na comissão de Saúde da Assembleia Legislativa de Pernambuco, onde teve 10 minutos para contestar as medidas de isolamento social, ele disse que “adoraria um debate amplo com todos os pesquisadores mencionados”. Segundo ele, “os críticos se sentem incomodados com os resultados obtidos, geralmente as críticas que recebo são baseadas na conclusão ser contra a opinião de alguma pessoa ou instituição. Adoraria abordar a metodologia”. Nenhuma das críticas dos cientistas ouvidos pela Marco Zero é baseada em opiniões pessoais.

Com uma retórica ofensiva, Souza defende seu trabalho recorrendo ao que ele chama de “falácia lógica a serem evitadas na ciência”. Em resumo, ele acredita estar sendo vítima de ataques ou preconceitos por pessoas que “negam a validade de uma proposição por meio de ataque pessoal ao proponente; sustentam a validade de uma proposição com base no fato de que muitas pessoas (ou a maioria delas) a aceitam; e aceitam uma ideia com base na autoridade do proponente”.

Bruno diz que irá publicar seu artigo em revista científica, com revisão de pares, mas não informou em qual, nem quando.