Crédito: Roberto Soares/Alepe

Na semana passada a Comissão de Saúde e Assistência Social da Assembleia Legislativa de Pernambuco (Alepe) promoveu uma audiência pública contra as vacinas. Isso mesmo: em um estado em que mais de 20 mil pessoas já morreram de covid-19 e em que o percentual de vacinados é de 63,22%, abaixo da média nacional de 66,1%, dinheiro público e o trabalho de servidores públicos foram usados para uma audiência que contou com a participação de dez negacionistas e o relato de uma mulher que se apresenta como “mãe de uma vítima da vacina”.

Por mais de três horas, na quinta-feira, 9 de dezembro, os “especialistas” que palestraram na audiência presidida pela deputada Clarissa Tércio (PSC) desfilaram um rosário de mentiras, delírios e pseudociência. Seria necessário não uma reportagem, mas um veículo de notícias para desmentir todas as abobrinhas levadas ao público. Só um exemplo: a vacina vai deixar os soldados brasileiros das Forças Armadas inválidos, acabando com a soberania nacional e fazendo com que o Brasil seja invadido por forças comunistas.

Como a maioria do conteúdo foi desinformação amplamente compartilhadas no WhatsApp e outros aplicativos e sites, já foram em boa parte desmentidas pelos sites de checagem. Aqui, você confere quase todas elas, desmentidas pelo Projeto Comprova, Aos Fatos, Boatos.org e G1.

Apesar de ter sido presidida pela deputada Clarissa Tércio, notória negacionista da pandemia e apoiadora do presidente Jair Bolsonaro, não se tratou de uma audiência do mandato dela. Por unanimidade, os deputados que fazem parte da Comissão de Saúde e Assistência Social da Alepe aprovaram a realização da audiência, sabendo que seria um espaço para a divulgação de discurso antivacinas.

A Comissão de Saúde e Assistência Social é presidida pela deputada Roberta Arraes (PP) e conta com o líder do governo Isaltino Nascimento (PSB) na vice-presidência, além de Simone Santana (PSB), Cleiton Collins (PP) e a própria Clarissa Tércio. Na suplência, completam a comissão João Paulo (PCdoB), Laura Gomes (PSB), Alessandra Vieira (PSDB), Antônio Fernando (PSC), e Fabíola Cabral (PP).

Como isso aconteceu? O vice-presidente da Comissão, o deputado Isaltino Nascimento, afirma que foi uma decisão política dar o aval da Comissão de Saúde para a reunião antivax. “Não impedimos [a audiência] para ela [Clarissa] não vir com o discurso de ser contra uma audiência pública, entendeu? de ser censor, de censurar, né? Foram vários aspectos analisados e preferimos deixar o show particular dela, mas foi pensado politicamente”, afirmou, em entrevista à Marco Zero.

Ao mesmo tempo, Isaltino também afirma que foi estratégica a não participação na audiência da grande maioria dos integrantes da Comissão de Saúde. “A gente deixou ela ficar sozinha jogando com a plateia dela. Se participasse a gente iria colocar azeitona na empada dela. Então a gente fez a opção política, a maioria de esquerda preferiu deixar ela lá. Se qualquer um de nós fosse participar, a gente ia estar dando fôlego pra ela. Praticamente foi pra bolha dela, né? Foi tático não participar”, afirmou.

Mas não foi bem assim que aconteceu. Também integrante da Comissão, o deputado João Paulo (PCdoB) foi o único com juízo a entrar na audiência. Virou um alvo fácil de xingamentos nos comentários e dos palestrantes e foi destratado pela própria Clarissa Tércio. “Ela não queria me dar a palavra, dizendo que eu não havia sido convidado. Não só como integrante da comissão de saúde, mas como deputado, tenho direito à palavra nas audiências públicas”, disse, em entrevista à MZ.

A rápida participação de João Paulo serviu para dar face a um inimigo ali dentro daquela audiência e ajudou Clarissa Tércio a vender o discurso de censura e perseguição. Por diversas vezes ao longo da transmissão, ela citou que o YouTube iria tirar a audiência do ar e que havia protestos na Alepe contra a audiência. O deputado João Paulo ainda tentou entrar ao fim da reunião virtual, mas foi barrado pela deputada, segundo relatou a Marco Zero.

O deputado também enfatizou que a aprovação da comissão de Saúde à audiência pública foi para “ter um contraponto” e Clarissa Tércio não usar o discurso de perseguição. Como se vê, não adiantou. Além de propagar mentiras para milhares de pessoas que acompanharam a audiência, com a chancela da Alepe, ela conseguiu furar (além de ampliar) a bolha: houve matérias sobre a audiência na TV Alepe e no site. João Paulo afirmou que pretende convocar uma nova audiência pública para desmentir tudo que se passou nessa outra.

O deputado Alberto Feitosa foi outro deputado que participou da audiência, mas como apoiador da causa. Com uma cruz no peito onde se lia “não vacinado”, o ex-secretário de turismo da gestão de Geraldo Júlio (PSB) no Recife, apoiou discursos em que se comparava o holocausto dos judeus no 2º Guerra Mundial ao passaporte da vacina contra a covid-19.

Desinformação não pode ter o aval das instituições

O discurso usado pelos deputados pró-vacinas para votar a favor da audiência pública dos antivacinas não encontra espaço no debate público sobre desinformação. Ao falar em contraponto, os deputados estabelecem que há uma oposição justa. Não é o caso. Enquanto cientistas trabalham com pesquisas, incertezas e fatos, os negacionistas usam de falácias, verdades absolutas e distorções.

“Não, não há simetria alguma”, reclama o cientista e professor Jones Albuquerque, da Academia Pernambucana de Ciências (APC), pesquisador do Laboratório de Imunopatologia Keizo Asami (LIKA-UFPE) e à frente do Instituto para Redução de Riscos e Desastres (IRRD-PE). “Eu vejo [a audiência pública contra vacinas] como um absoluto desserviço ao bem-estar da população e da sociedade que os deputados, supostamente, deveriam representar e zelar pela saúde de todos”, diz. “A (revista) The Economist publicou um cenário mundial de países em combate a Ômicron. E o Brasil só está onde está (em terceiro lugar entre os países com maior proteção) por causa exatamente da vacina”, afirma.

Antes da pandemia, ainda em 2019, o cientista irlandês David Robert Grimes, demonstrava profunda preocupação com esse falso “outro lado”. No artigo Um ato de equilíbrio perigoso, publicado na EMBO Reports, ele alertava que o falso equilíbrio é perigoso porque amplifica e dá credibilidade à desinformação e mentiras. “Se uma posição é apoiada por uma abundância de evidências enquanto outra está totalmente desprovida disso, é profundamente errado oferecer cobertura e tempo de transmissão iguais para ambas as posições”, escreveu.

YouTube retira vídeo do ar

Print do YouTube

Não era para menos. Ao contar com uma galáxia de negacionistas e divulgação farta e irrestrita das mais paranoicas mentiras sobre vacinas e covid-9, era esperado que o YouTube retirasse o vídeo do ar. O que realmente aconteceu dois dias após a audiência. Enquanto a Marco Zero acompanhou ao vivo a audiência, em nenhum momento havia menos de 650 pessoas online.

Hoje, quem tenta acessar o link da audiência pública se depara com a mensagem padrão: “Este vídeo foi removido por violar as diretrizes da comunidade do YouTube”.

O mandato de Clarissa Tércio afirma que foram 12 mil visualizações no total e que foi o vídeo mais visto do canal da Alepe. Não custa repetir: serviço público usado para espalhar mentiras para milhares de pessoas com o aval da Comissão de Saúde da Assembleia Legislativa de Pernambuco.

Na última reunião da Comissão de Saúde do ano, nesta terça-feira (14), participaram apenas a presidente Roberta Arraes, o vice-presidente Isaltino Nascimento e a deputada Simone Santana. Nada se falou diretamente sobre a audiência antivacinas. Mas, ao final, a deputada Roberta Arraes, agradeceu o trabalho do secretário estadual de saúde André Longo e o comitê científico contra a covid-19. “Quero pedir que as que as pessoas continuem com o sentimento da vacinação . Não acredito na falsa ideologia de não se vacinar. Precisamos sim levantar a bandeira da imunização. Isso é importantíssimo. E não esquecer também das máscaras”, afirmou.

A Marco Zero entrou em contato com a assessoria de comunicação da Alepe para saber a razão oficial da realização da audiência pública contra vacinas, além de perguntar sobre a retirada do vídeo do YouTube e a realização de uma nova audiência pública sobre vacinas. Até a publicação dessa matéria, não obtivemos respostas.

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