Crédito: Arnaldo Sete/MZ Conteúdo

A água subiu rápido, muito rápido e a correnteza veio forte. Acostumados com as inundações, os moradores da comunidade do Sapo Nu, no Curado, não imaginavam que essa seria a pior de todas. O rio Tejipió – que corta a região – transbordou e as águas avançaram sem obstáculos sobre as casas na madrugada do sábado (28). Apesar dos apelos por telefone, o socorro dos bombeiros e da defesa civil não chegou e os vizinhos precisaram improvisar os mais diversos meios para salvar vidas numa situação de caos.

“Aqui nós mesmos fomos os bombeiros”, relata o office boy Fernando da Silva, 33 anos, morador da Colina, um morro ao lado do Sapu Nu. Ele dormia na casa da sogra na área de baixo e, diante do desespero dos moradores, se juntou a outros jovens para resgatar dezenas de pessoas, muitas crianças e idosos, que estavam ilhadas nas suas residências há muitas horas temendo pelo pior. Precisaram agir por conta própria para evitar uma tragédia.

Na quarta-feira à tarde (1), uma equipe da Marco Zero Conteúdo visitou a comunidade. Passados cinco dias da enchente, o cenário de devastação ainda está por toda parte. Na lama acumulada, nos móveis destroçados, nas roupas, livros, brinquedos, colchões e eletrodomésticos inutilizados se avolumando do lado de fora das casas. Mas especialmente na memória de cada família. Mães, pais, avós e avôs que zelaram para que os filhos, filhas, netos e netas não fossem arrastados pela correnteza.

O mutirão salvou a vida de famílias como a do motorista Martinélio Anaíldo da Silva, 47. Ele, a esposa Rafaela e os filhos Adriele e Lucas, de 21 e 15 anos, ficaram de 3h da madrugada até 17h30 dentro da casa inundada. Na residência da frente, a auxiliar administrativa Lauriene Rodrigues da Silva, 40, temeu pela vida da filha Isadora, de oito anos. O marido, Cristiano, quebrou a telha para a família se refugiar no telhado ao lado da caixa dágua, onde ficaram por quatro horas até a ajuda chegar.

Do alto de sua casa, na Rua Camponesa, Lauriene, Cristiano e Isadora viram as famílias de Martinélio e das residências vizinhas de Tiago, Gilma e Deusaura serem salvas num bote improvisado com um grande isopor e cordas. Em outros lugares da comunidade, o socorro chegou de jangada e até em portas de geladeiras. Apesar de toda destruição e da força das águas do rio Tejipió, não houve vítimas fatais.

Muito moradores, no entanto, estão de luto pela morte de parentes em outras regiões de moradia precária do Grande Recife atingidas pelas fortes chuvas dos últimos dias. Marceneiro, serralheiro e soldador, Leandro Alves, 43 anos, perdeu o neto de apenas 10 meses de vida quando a casa onde sua filha Letícia, 17, e o marido viviam no Ibura foi atingida por um deslizamento de barreiras. Desde então, ele acolheu a filha no Sapo Nu.

Nesta quarta (1), Leandro reclamava da falta de apoio dos órgãos públicos no socorro às vítimas da enchente na comunidade. “Nem Bombeiros, nem Celpe, nem Exército, nem Marinha, nem Defesa Civil apareceram por aqui”. Agora, ele pede caminhões para levar os destroços que tomam as ruas. “Imagine se acontece uma nova enchente com todo esse entulho por aí”. Na rua ao lado, a primeira equipe da Prefeitura do Recife começava a trabalhar na desobstrução dos caminhos com um trator.

Por toda parte percebia-se um certo sentimento de revolta pela indiferença do poder público e da imprensa. “Vocês são os primeiros que chegam por aqui.”, foi um comentário frequente enquanto a equipe da MZ circulava pelas ruas enlameadas da comunidade.

Essa invisibilização machuca, mas não paralisa os moradores de Sapo Nu. Na terça (31), um grupo deles bloqueou a pista da BR-232 para exigir o religamento da energia de algumas ruas que estavam sem luz desde o sábado. O protesto foi desmobilizado pela Polícia Rodoviária Federal, mas surtiu efeito e a Celpe fez o religamento.

Gilma José Rodrigues mora sozinha à beira do rio Tejipió e precisou da ajuda dos vizinhos para ser socorrida num bote feito de isopor e cordas. Crédito: Arnaldo Sete

O companheirismo que salvou vidas no sábado continua fazendo a diferença para a reconstrução de Sapo Nu. Em cada esquina é possível ver o apoio de amigos e vizinhos na limpeza compartilhada das casas e na ajuda para o transporte dos objetos e móveis que restaram. A atuação de coletivos periféricos e de jovens ativistas tem garantido a segurança alimentar e a proteção de muita gente que perdeu todos os bens materiais.

Uma dessas pessoas que não tem medido esforços para ajudar é a estudante de ciências sociais da UFPE, Judy Maria de Amorim, 23, cuja família foi diretamente afetada pela inundação em Sapo Nu. Ela e um grupo de amigas vêm se dedicando desde o fim de semana a organizar o recebimento e entrega de doações de alimentos, roupas e materiais de higiene aos moradores mais atingidos. “A situação é muito grave. Temos que fazer a nossa parte”, explica.

Esse pequeno relato das histórias vividas em Sapo Nu deve muito a Judy, que foi nossa guia pela comunidade.

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COMO AJUDAR OS MORADORES DE SAPO NU E OUTRAS COMUNIDADES PRÓXIMAS

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Pix: judyamorim1@gmail.com JUDY MARIA DE AMORIM

Endereço: MERCEARIA DO VAVÁ, NO FINAL DA RUA THOMAZ LIMA, COMUNIDADE DO SAPO NU, CURADO

Tipo de doações necessárias: ALIMENTOS NÃO PERECÍVEIS, COLCHÕES, ÁGUA, PRODUTOS DE HIGIENE E LIMPEZA, FRALDAS, ABSORVENTES, LENÇÓIS E AGASALHOS.

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Pix: 133.520.574-86 BRUNA ALVES DE LIMA (Coletivos @perifericas e @espacoculturaldasmarias)

Endereço: RUA QUARENTA E NOVE, 40, ZUMBI DO PACHECO

Tipo de doações necessárias: ALIMENTOS NÃO PERECÍVEIS, COLCHÕES, ÁGUA, PRODUTOS DE HIGIENE E LIMPEZA, FRALDAS, ABSORVENTES, LENÇÓIS E AGASALHOS.

As imagens desta reportagem foram produzidas com apoio do Report for the World, uma iniciativa do The GroundTruth Project.

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