Elas são de Brasília Teimosa, bairro popular da Zona Sul do Recife. Reúnem-se semanalmente no anexo de uma ong antiga da comunidade, próximo à Praça São Pedro e a alguns passos da orla que há 16 anos passou por um processo de urbanização marcado pela resistência e a luta dos seus moradores. No dia 11 de agosto, Carminha, Joana, Carol, Simone, Jhúlia e Mônica embarcarão em um ônibus rumo a Brasília levando a teimosia político-histórica do bairro recifense em apoio à 6ª Marcha das Margaridas. É um pedaço da cidade marchando ao lado da zona rural, mostrando que a soberania alimentar deve ser uma reivindicação de todos.

A participação dessas mulheres na marcha simboliza, sobretudo, a união da agenda feminista que tomará conta do Distrito Federal do dia 9 até o dia 15 de agosto. Nos quatro primeiros dias acontecerá o Fórum Nacional de Mulheres Indígenas, que terá como desfecho a 1ª Marcha de Mulheres Indígenas. Duas mil representantes desses povos de todo o Brasil irão se juntar às cerca de 100 mil margaridas no dia 13 e marchar no dia 14. As organizações feministas continuam com as mobilizações até o dia 15.

O propósito é marcar território e reafirmar a força das mulheres diante do governo Jair Bolsonaro (PSL), que não dialoga com os movimentos feministas e, principalmente, com os segmentos indígenas e da zona rural. Na última sexta-feira (21), o governo divulgou uma medida provisória que transfere da Fundação Nacional do Índio (Funai) para o Ministério da Agricultura a responsabilidade pela demarcação de terras indígenas.

A medida, publicada no Diário Oficial da União no dia 19, tem força de lei e já entrou em vigor, mas precisa ser aprovada pelo Congresso em 120 dias caso contrário perde o seu efeito. A decisão é encarada pelos movimentos indígenas como mais uma tentativa de desmonte da política indigenista brasileira. Sobre o campo, é necessário lembrar que, em sete meses, o governo Bolsonaro liberou 239 novos agrotóxicos no país, medida que os movimentos das agricultoras familiares rechaça. Já que a pauta das margaridas propõe a expansão da agroecologia, uma agricultura ecológica e sustentável.

É nesse contexto que essas seis mulheres da periferia recifense marcharão ao lado de outros segmentos feministas de todo país. Elas se organizam na Marcha Mundial das Mulheres de Pernambuco (MMM-PE) e estão se preparando para acompanhar as margaridas, entendendo as pautas do campo e identificando as semelhanças entre as mulheres dos meios urbano e rural.

No dia 11 de agosto, a Marco Zero Conteúdo também acompanhará a viagem ao lado das margaridas com destino a Brasília. Uma cobertura jornalística intensa que vem sendo preparada nas últimas semanas. Todo conteúdo produzido poderá ser acessado em nosso site e nas redes do coletivo.

Quem são elas

Ao subir as escadas do anexo do Centro Educacional Profissionalizante do Flau, em Brasília Teimosa, nas tardes de quinta-feira, é quase impossível não abrir um sorriso no rosto ao olhar o tanto de meninas que brincam na sala ao lado enquanto as mulheres em roda se reúnem e se organizam. Para as meninas, é mais um momento de brincadeira. Para as mulheres, um momento de olhar para si e para as outras com cuidado.

Há empolgação quando a discussão acontece sobre oficinas de produção de vassouras, receitas culinárias para produzir e vender ou sobre o ofício de costurar. E não é preciso divagar muito para entender o que isso diz a respeito da importância da autonomia financeira das mulheres no combate à violência praticada diariamente contra elas. Seja dentro de casa ou pelas mãos do Estado.

A pauta do encontro escrita no papel e colada na parede foi estabelecida por elas no início da reunião. Entre os assuntos, está a reportagem da Marco Zero, a preparação do Grito dos Excluídos e a ida à Marcha das Margaridas. Ao todo, cerca de 25 mulheres participam do grupo, mas só seis viajarão a Brasília. Uma a uma, elas vão saindo da sala para contar suas histórias.

Crédito: Helena Dias/MZ Conteúdo

Pauta do grupo de mulheres no anexo do Centro Educacional Profissionalizante do Flau. Crédito: Helena Dias/MZ Conteúdo

Maria do Carmo Matias da Silva, conhecida como Carminha, tem 63 anos e mora em Brasília Teimosa desde que nasceu, quando a ocupação do local ainda era recente. Tem sorriso fácil e disposição, apesar de algumas companheiras estarem atentas à combinação da sua idade com a peleja de viajar dois dias de ônibus até o Distrito Federal. Na cidade e no campo, o que não faltam são histórias de mulheres mães que criam seus filhos sozinhas. Enfrentando o abandono parental por parte dos pais das crianças, e virando a única fonte de apoio financeiro e emocional da família.

Carminha se identifica com essa realidade e, quando questionada se acredita que a situação também é enfrentada por algumas agricultoras que participam da Marcha das Margaridas, ela confirma. Teve o único filho aos 15 anos e se virou em muitos trabalhos, inclusive como garçonete, para dar conta de ter o que comer.

Hoje, tem novas preocupações. Teme dificuldades para se aposentar daqui a dois anos, já que não conseguiu contribuir com a previdência desde os trabalhos informais até quando se tornou dona de casa. Ela se diz feliz pela ida à marcha. “A gente precisa se unir para conseguir acabar com a violência contra as mulheres, viu? E conseguir a soltura de Lula também”.

“Nascida e criada” no bairro, como ela mesmo afirma, Joanair Maria da Silva, de 57 anos, é chamada de Joana ou Jana pelas companheiras. Junto ao filho de 19 anos, tem enfrentado o desemprego. Faz um mês que está participando do grupo organizado pela Marcha Mundial das Mulheres de Pernambuco e chegou lá a convite da amiga Sabrina. Há tanto tempo na comunidade, Jana viu Brasília Teimosa dar adeus às palafitas no ano de 2003 e passar por transformações urbanísticas que garantiram moradias mais dignas para população. Conta que a demanda urgente do local é o acesso dos jovens às oportunidades de estudo e trabalho.

Segundo ela, muitas mães “perdem os seus filhos para as drogas” no bairro. Ela coloca essa necessidade de oportunidade como um direito a ser garantido para as mulheres e suas famílias e vê a questão como uma reivindicação da cidade e do campo. “Espero coisas muito boas da Marcha das Margaridas. Mostrar força e coragem em nossa defesa”.

Já Mônica Maria Alves, de 49 anos, fala que as idas às reuniões de quinta têm trazido aprendizados para a vida. Ela enxerga a viagem a Brasília da mesma forma. Lembra que se tornou dona de casa há mais de 20 anos e não mais trabalhou em outro lugar desde então. No grupo, o contato com a costura é o que ela mais gosta. “Eu sou mãe de três filhos. Parei os estudos na 8ª série e tive que seguir em frente. A gente tem a oportunidade de melhorar, né?”, conta.

Mãe e filha, Carolina Patrícia dos Santos e Jhúlia Estheffany, vivenciarão a marcha juntas. Carol, de 49 anos, é educadora popular e está na MMM-PE com a filha de 14 anos há cerca de três meses. Jhúlia é a quarta dos seus sete filhos e faz dança no Centro Educacional Profissionalizante do Flau, mais conhecido como “Turma do Flau”. A relação das duas com o centro é antiga. Carol já trabalhou como cozinheira na ong e, posteriormente, atuou como educadora popular em vários projetos. Jhúlia realiza apresentações de dança e já representou os adolescentes integrantes da organização em manifestações políticas. Foi através da turma, que elas tomaram conhecimento do grupo de mulheres e decidiram participar.

Crédito: Helena Dias/MZ Conteúdo

Enquanto as mulheres se reúnem, as crianças brincam nas dependências da ong. Crédito: Helena Dias/MZ Conteúdo

Perguntada de como tem sido a preparação para a mobilização com as margaridas, Carol diz que já tem uma aproximação com as mulheres da zona rural, mas agora as pautas estão mais claras e unidas. “A força e a coragem de lutar a gente tem igual. Eu as admiro muito, principalmente as que lutam para ter um pedaço de terra. Nós demoramos muito para ter nossos direitos garantidos e ver nossos direitos perdidos é muito triste. Independente de Bolsonaro ou não, vamos continuar lutando sempre”.

Jhúlia compartilha do mesmo pensamento da mãe. Está empolgada em conhecer os grupos feministas de várias partes do país, em Brasília. Acredita que a “mistura” vai dar bons frutos. “Estamos fazendo as reuniões e pensando em tudo o que vamos falar lá. A gente quer saber mesmo é de lutar, porque está muito difícil no Brasil. Ser mulher é difícil e precisamos dos nossos direitos”.

No mesmo passo, segue Simone Gomes da Silva, de 39 anos. Nasceu no bairro periférico da Zona Sul do Recife, é mãe de quatro filhos e está desempregada. Fala que encontrou um lugar de “acolhimento e autoestima” no grupo de mulheres. Se sente preparada para a Marcha das Margaridas, porque está estudando durante a rotina semanal das reuniões. “É tudo pelos nossos direitos. Todas as mulheres têm o direito a ter um trabalho. Tem gente que passa coisas bem piores do que eu aqui na cidade. Principalmente para as pessoas mais pobres do campo, acho que o machismo e o racismo são mais fortes nesses lugares”.