Crédito: Inês Campelo/MZ Conteúdo

“É preocupante, mas ainda não é alarmante”. A frase do médico Aristóteles Cardona Júnior define bem qual a situação da pandemia de covid-19 no sertão pernambucano. Segundo Cardona, que trabalha na atenção primária em Petrolina e é professor da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf), o contágio do novo coronavírus está crescendo na região, porém numa velocidade menor do que aconteceu nas capitais.

Somadas, as seis gerências regionais de saúde sertanejas tinham até quinta-feira, 16 de julho, 5.959 casos confirmados, o equivalente a menos de 8% dos quase 75 mil casos da doença identificados em Pernambuco. Atualmente, 216 pessoas estão internadas no sertão, das quais 31 em estado grave, com necessidade de tratamento intensivo.

De acordo com os estudos da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) sobre a interiorização da pandemia em Pernambuco, até o encerramento da 16ª semana epidemiológica, no dia 18 de abril, o interior tinha 9,5% dos casos confirmados no estado. Ao fim da 28ª semana, em 11 de julho, esse percentual havia subido para 67,2% do total.

A pedido da Marco Zero Conteúdo, o pesquisador da Fiocruz-PE Wayner Vieira, que é estatístico e epidemiologista, atualizou até a semana passada um estudo publicado em junho e que comprova o crescimento exponencial dos casos da doença no interior do estado.

Infográfico: Thiko Duarte/MZ Conteúdo | Fonte: Fiocruz-PE

A evolução dos números mostra que o mapa da desigualdade traça o caminho da epidemia. Por se tratar de uma doença de transmissão aérea, de fácil contágio, a Covid-19 traçou rotas amplas até chegar ao interior, desde pessoas que fizeram um movimento de retorno para voltar a morar em suas cidades de origem por conta da crise econômica até as idas e vindas de empresários e do próprio fluxo do abastecimento.

“Quais são as medidas de prevenção, desde a gripe espanhola? Higiene, lavar mãos, tomar banho… Mas como recomendar isso num país em que não há saneamento básico?”, provoca Wayner.

A expansão da covid-19 também é confirmada pelo monitoramento de um grupo interdisciplinar criado pela Univasf para acompanhar os números da doença, Aristóteles Cardona é o único médico desse grupo, composto também por professores de Engenharia, Biologia, Administração e Ciências da Computação.

De acordo com os cálculos mais recentes do grupo, a taxa de contágio na região de Petrolina está entre 1,61 e 1,72, ou seja, cada 10 infectados transmitem o vírus para mais 16 ou 17 pessoas. O crescimento da curva de casos deve continuar em alta até os primeiros dias de agosto, quando o chamado platô seria alcançado.

“Digo que a situação é preocupante porque o número de casos e de óbitos está em franca ascensão, mas não sei se iremos viver a situação de colapso que o Recife viveu”, pondera o professor de medicina da Univasf. Segundo ele, três fatores contribuem para conter a epidemia na região. Os dois primeiros valem para toda a região: o tempo maior para se preparar que a região dispôs, a menor densidade demográfica, com a população dispersa em sítios, projetos de irrigação ou pequenas cidades. O terceiro fator, válido para Petrolina, foi o distanciamento social imposto logo no início da crise sanitária.

Municípios sem estrutura

A pesquisadora da Fiocruz-PE Islândia Carvalho esteve recentemente no Sertão e confirma que uma das grandes preocupações é que as cidades mais distantes da capital não contam com hospitais preparados, então muitos casos precisam ser encaminhados à Região Metropolitana do Recife.

“Em muitos municípios, não há testagem forte nem acompanhamento de casos. Levamos estudantes para algumas dessas localidades para tentar dar um suporte científico e ajudar os gestores na tomada de decisão”, relata.

Por mais que as secretarias publiquem protocolos, as informações sobre como proceder e que medidas tomar não chegam de forma eficiente. Sem contar que cidades que têm interlocução com outros estados, como Exu, próximo ao Ceará, tendem a ficar mais expostas por carecerem de uma política específica de barreiras.

Muitas prefeituras estão distribuindo o “kit Covid-19”, com medicações como a ivermectina e o antibiótico azitromicina. Este primeiro ainda sem comprovação de eficácia in vivo. Mas, segundo Islândia, têm conseguido sucesso no controle da doenças as gestões que estão adotando medidas de isolamento de casos, vigilância epidemiológica, testagem, incentivo ao uso de máscaras, campanhas informativas, participação da comunidade e da atenção primária, com os agentes comunitários de saúde.

Municípios com dificuldade de realizar ações consideradas básicas tendem a ser os mais vulneráveis, já que falta um planejamento regional. “Na capital, a sensação é que a pandemia, depois que foi para o interior, acabou, mostrando a desigualdade”, resume.

Comércio e campanha eleitoral

O secretário-executivo do Consórcio Intermunicipal do Sertão do Araripe (Cisape), Marcelo Coelho, se mostra preocupado com a situação da região: “Trindade, Ipubi e Araripina, que formam o polo gesseiro, estão uma loucura, a mortalidade é alta”.

O comércio está com restrições, mas segue funcionando e aquecido. Marcelo, dono de uma pequena fábrica de placas, diz que nunca vendeu tanto. Em Trindade, onde vive, há muita gente circulando sem máscara, apesar das campanhas.

Trindade tem a única UPA 24h da região, mas não tem UTI. As opções mais próximas são em Araripina (distante 35 quilômetros) e Ouricuri (25 quilômetros).

A movimentação do comércio se junta à mobilização por conta da proximidade das eleições municipais. No interior, as campanhas são feitas no corpo a corpo, casa a casa. Os candidatos já estão se movimentando e os cabos eleitorais, na ativa.

Infográfico: Thiko Duarte/MZ Conteúdo

Da classe média à periferia

Em Petrolina, o vírus seguiu o mesmo caminho que na maior parte das grandes cidades brasileiras. Desembarcou de avião nos voos que chegam diariamente de Recife e São Paulo, fez suas primeiras vítimas na classe média e agora, enquanto se espalha nos bairros periféricos da cidade, segue rumo à zona rural.

As medidas restritivas adotadas nas primeiras semanas de março, logo que poucos casos foram confirmados, contiveram a disseminação da doença por algum tempo. “A gestão municipal acertou ao fechar o comércio e a reduzir os atendimentos até mesmo nas unidades de saúde, mas a necessidade de retomar a economia acabou falando alto”, elogia a médica a Érika Vasconcelos Florentino.

Na Unidade de Saúde da Família coordenada por Érika no bairro de Pedra Linda, uma das mais movimentadas da cidade, a quantidade de pessoas que chegam com sintomas da covid-19 só faz crescer.

Em seu posto de trabalho, ela é testemunha da expansão do vírus. “Hoje, por exemplo, atendemos 45 pessoas que classificamos como sintomáticos respiratórios. Só daqui a cerca de oito a dez dias essas pessoas terão confirmação após realizar o teste”. Érika explica que “a prefeitura adquiriu testes e tem uma política de testar todas as pessoas sintomáticos, mesmo sendo sintomas leves”.

Na segunda-feira, 13, dia em que a médica conversou com a equipe de reportagem, 36 pessoas haviam morrido de covid-19 em Petrolina. Quando esse texto estava sendo escrito, os dados oficiais do Governo do Estado já indicavam 40 óbitos.

Alerta vermelho na UTI

Do ponto de vista de quem trabalha 48 semanais na UTI do hospital de campanha instalado no Hospital Universitário, há motivos para alarme, sim. É o que garante Pedro Diniz, médico especializado em emergências e tratamento intensivo. “Já não está tão tranquilo. Já chegamos a ter ocupados 18 dos 20 leitos. Estamos recebendo pacientes muito graves vindos das zonas rurais de vários municípios, de Ipubi a Orocó; de Salgueiro a Lagoa Grande”.

Em Petrolina estão 35 leitos de UTI destinados a atender os pacientes com covid tanto da VIII gerência Regional, sediada no município, quanto das VII e IX gerências, responsáveis pelos municípios em torno de Salgueiro e Ouricuri. E são exatamente os pacientes transferidos dos outros municípios que chegam em situação mais grave.

“Os moradores idosos da zona rural são pessoas que viveram cinco, seis décadas sem acesso à saúde. Em geral, são pessoas com a saúde mais frágil do que os moradores das grandes cidades na mesma faixa etária”, explica Pedro. A demora no diagnóstico complica ainda mais as coisas. Em consequência, a taxa de mortalidade da UTI do hospital de campanha é alta: a cada dez pacientes que deram entrada, quatro morreram.

Para o médico, se o crescimento do contágio continuar gradual será possível evitar o colapso – e a formação de fila de espera – na UTI. “A covid exige longas internações na UTI. São semanas e mais semanas com muitas intervenções diárias, como hemodiálise, ventilação mecânica. Não é um plantão comum, é exaustivo”, afirma, com a experiência de quem vive a rotina de UTIs desde que se formou na Universidade Federal de Minas Gerais, há 15 anos.

Pedro Diniz na UTI do hospital de campanha, após reanimar uma paciente