100 mil mortes: a título de comparação, é como se tivesse morrido toda a população da cidade de Abreu e Lima, na RMR (crédito: Veetmano/Agência JC Mazella)

O Brasil chegou à triste marca de 100 mil mortos pelo novo coronavírus mergulhado numa profunda crise política. Sem ministro da saúde há quase 120 dias, o país está refém da inoperância do governo de Jair Bolsonaro (sem partido), que não tem sequer uma coordenação para colocar em prática o Plano Nacional de Enfrentamento à Pandemia de Covid-19. 

Quando o presidente, em mais uma fala desastrosa, diz para “tocar a vida” e “se safar desse problema”, é preciso questionar: a vida de quem? São as pessoas negras e periféricas, sobretudo as mulheres, as mais atingidas. São também os povos originários os principais alvos do genocídio institucionalizado.

O Brasil representa 3% da população mundial e concentra 14% dos óbitos. É o segundo país com mais mortes pela Covid-19, à frente de outros mais populosos como Índia e China, atrás somente dos Estados Unidos.   

Para se ter ideia do quão alarmante é a situação, a título de comparação é como se tivesse morrido toda a cidade de Abreu e Lima, na Região Metropolitana do Recife. Ou então como se tivessem morrido todos os habitantes dos bairros recifenses de Casa Amarela, Casa Forte, Encruzilhada, Espinheiro, Graças, Jaqueira, Poço da Panela, Rosarinho, Aflitos e Hipódromo.

(mapa: Thiko Duarte/MZ Conteúdo)
(mapa: Thiko Duarte/MZ Conteúdo)

Enquanto vidas lutam para não virar estatísticas, o governo se empenha em criar narrativas para sustentar a necropolítica, blindando a própria família presidencial, negando a ciência, promovendo a cloroquina e criticando a imprensa. Enquanto dezenas de milhares de famílias choram o luto dos óbitos, 42 bilionários brasileiros não só passaram incólumes pela pandemia como ficaram US$ 34 bilhões (R$ 195 milhões) mais ricos entre março e junho, segundo mostrou relatório da ONG Oxfam.    

“O que é emergência para o estado brasileiro enquanto 100 mil pessoas morrem? Não há como falar do enfrentamento ao coronavírus sem falar da desigualdade no Brasil”, enfatiza Anna Karla, especialista em gestão pública, mestranda em história e co-fundadora da Frente Favela Brasil.

A preocupação dela passa também pela sensação de normalização por conta da reabertura e do reforço da mídia tradicional, pressionada pelo poder econômico. “Estamos reabrindo o comércio e discutindo volta às aulas enquanto muita gente sequer teve acesso ao auxílio emergencial”, lembra. 

“Desde o início da pandemia tem sido assim, a condição que se colocou para as famílias pretas, periféricas e faveladas foi trabalhar ou proteger a família”, complementa Anna Karla, que também coloca em discussão a exaustão, sobretudo das mulheres, e os níveis de adoecimento mental e emocional nas comunidades.

(crédito: Thiko Duarte/MZ Conteúdo)

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Conselho luta por plano de enfrentamento

“Não é um governo que não sabe o que faz, ele sabe muito bem. O resultado é o que estamos vendo: mortes evitáveis acontecendo a dezenas de milhares”, afirma o presidente do Conselho Nacional de Saúde (CNS), Fernando Pigatto. Um Plano Nacional de Enfrentamento à Pandemia de Covid-19 foi construído pela Frente pela Vida, uma iniciativa formada por 14 entidades científicas da saúde e bioética e pelo próprio CNS. 

Bem aceito no Congresso Nacional, para servir de base para tomada de decisões, o plano ainda espera um simples retorno do Ministério da Saúde. “Para nós, esse governo é irresponsável, criminoso e genocida”, resume Pigatto. 

A ausência de coordenação, segundo ele, pode impactar também a aplicação da vacina no Brasil. Não adianta apenas reservar os R$ 1,9 bilhão anunciados, por meio da Medida Provisória publicada nesta quinta-feira (6), que destina verba para o acordo entre a Fiocruz e a AstraZeneca para a compra de 100 milhões de doses da futura vacina e para a transferência de tecnologia. 

“A MP reserva recurso, mas há outras questões que envolvem a distribuição depois e como fazer 210 milhões de pessoas terem acesso à vacina. Defendemos, assim como o SUS é para todos e todas, que a vacinação também seja”, antecipa o presidente do CNS.

A Frente pela Vida está convocando uma grande mobilização nas redes sociais demarcando o luto e a indignação diante da negligência do governo federal e em protesto à lamentável e evitável marca de 100 mil mortes pelo novo coronavírus. A proposta é estimular as pessoas a postar uma tela preta nas imagens de perfil, indignações e peças gráficas com as hashtags #100MilMortos #FrentePelaVida #LutoPelas100MilVidas. 

Ana Brito, professora da Faculdade de Ciências Médicas, médica epidemiologista e pesquisadora do Instituto Aggeu Magalhães, explica que o Brasil não está passando por uma diminuição de casos. O que existe é um distribuição desigual dos casos, um mosaico, com uma dinâmico de aceleração e desaceleração, a depender da localidade, mas ainda num patamar muito alto.

Sobre a vacina, a especialista afirma que ela precisa de três elementos básicos: eficácia, segurança e durabilidade. Ana lembra que a “história natural da Covid-19 está ainda em construção, a doença é um retrato em movimento”.

Por isso, é preciso seguir trabalhando com as armas disponíveis, que, por enquanto, não são medicamentosas. O processo de desenvolvimento e distribuição de vacinas costuma ser longo e complexo. Os países que conseguiram controle até agora o fizeram com base na cadeia de transmissão do vírus e em políticas públicas.