No país onde o presidente da República faz piada de quase 20 mil mortos e indústrias e comerciantes aumentam preços de produtos essenciais em plena pandemia, vira notícia instantânea um homem que admite já ter o bastante para viver e pede que parem de depositar dinheiro em sua conta.

O nome desse homem é Joaquim Antônio da Silva. Nas ruas da Boa Vista, centro do Recife, cheias de Joaquins e Antônios, ele é mais conhecido pelo seu estranho apelido: Barruada.

Não fosse o tal vídeo, sua fama teria ficado restrita a ex-alunos e alunas do Colégio Salesiano e a quem já experimentou o cachorro-quente que ele vende, há quase 50 anos, nas calçadas da rua Dom Bosco. O fato de manter inalterada a qualidade do cachorro-quente desde a década de 1970 talvez bastasse para eternizá-lo na história não escrita do Recife.

Agora, emissoras de tevê, jornais e rádios querem entrevistá-lo porque ele é honesto.  

E tudo começou por causa do aperto financeiro em que se viu depois de mais de dois meses parado, sem poder colocar sua carrocinha na rua para vender os famosos lanches.

“Eu tinha umas reservas, mas elas acabaram. Fiquei aperriado e pedi ajuda a um menino amigo meu, um advogado que estudou no Salesiano. Gravei o vídeo e ele botou num grupo de whatsapp onde tem outros meninos e outras meninas que foram do Salesiano”. Ele acreditava que a ajuda viria apenas dos 30 ou 40 amigos da turma do advogado amigo – cujo nome não revela de jeito nenhum.

Apesar de morar sozinho num quitinete na rua do Hospício, em frente ao teatro do Parque, Barruada ajuda no sustento das famílias de três filhos e seis netos.

Dois dias depois, centenas de pessoas depositaram alguns milhares de reais na conta corrente do marido de sua neta. O resultado assustou Barruada, homem arredio, de notório mau humor.

Imediatamente, gravou um novo vídeo repleto de sinceridade: “Vamos parar por favor. Com o que vocês me ajudaram já dá pra vencer essa batalha”.

O novo vídeo viralizou, está sendo repassado de grupo em grupo. Em poucas horas, chegou às redações dos veículos de comunicação. Nos grupos, há boatos que Fátima Bernardes quer entrevistá-lo. Algumas pessoas compartilham sua própria emoção, dizendo que choraram diante da dignidade de Barruada.

Algumas mensagens revelam até o tamanho da fortuna que o intimidou: R$ 8 mil. Depois que ele pediu para parar, o montante arrecadado teria chegado a R$ 19 mil. Tamanha repercussão o incomodou ainda mais: “Foi pior. Agora tá todo mundo atrás de mim. O telefone tá de um jeito que não pára”.

Aos 72 anos, asmático e apenas com um pulmão, Barruada não quer saber de muito movimento em seu pequeno apartamento e dá logo o aviso: só dá entrevista se não precisar sair de casa. “Não desço pra rua por dinheiro nenhum do mundo. Minha neta é que compra tudo pra mim, resolve as coisas todas. E quando as compras chegam, tenho o maior cuidado em lavar, passar álcool”.

Afeto e memória

As palavras de Barruada comovem, porém que o conhece fica ainda mais tocado – como é o caso deste escriba, também ex-aluno do Salesiano. A jornalista Christianne Alcântara morou na rua Dom Bosco e concluiu o ensino médio no colégio em 1988. Ver Barruada depois de tanto tempo a emocionou: “Se existe um sabor da minha época de adolescente  que não consigo esquecer é o do cachorro-quente de Barruada. Não me esqueço ainda dos gritos, quando eu caprichava no queijo ralado. Memória afetiva é isso”.

Morador da rua do Progresso há, pelo menos, três décadas, Otávio Toscano ainda costuma andar alguns quarteirões para matar a fome (ou o desejo) na rua Dom Bosco. “A Boa Vista tem muitas caras. É caminho de todo mundo. Mas, quem mora aqui sabe que o prazer está nas pequenas coisas. E o cachorro de Barruada cresceu com a gente. Não tem um morador das antigas que não goste deles. Cachorro é o de Barruada”.

Toscano revela que os moradores do bairro chegaram a organizar uma cota paralela para ajudá-lo. Ele mandou recado dizendo que não queria.

Curiosamente, o protagonista desse texto nada tem de simpático. Pelo contrário, é mal-humorado, caladão. O músico Eduardo Farias, outro frequentador do carrinho de cachorro-quente na adolescência, tenta encontrar uma explicação para tanto carisma: “Ele sempre dava fora em todo mundo, não gosta de piada. Mas a bondade às vezes e desconectada da simpatia”.

Barruada, que veio de Araçoiaba para vender chocolate na porta dos cinemas do Recife no meio dos anos 1960, faz pouco caso da fama, que, em sua percepção, não é nova nem repentina: “Esses meninos e meninas do Salesiano estão em todo canto. Tem doutor, engenheiro, advogado. Às vezes, vou no hospital, tá lá um médico que me conhece do tempo do colégio. Tô andando na rua, encosta um carrão com uma mulher rica me dando abraço. Muita gente me conhece, mas a maioria das vezes eu nem lembro quem é”.