Crédito: José Paulo Lacerda/CNI

Horas antes de o governo de Pernambuco anunciar a quarentena mais rígida por 11 dias a partir de quinta-feira (18), representantes das principais entidades empresariais do estado convocaram a imprensa para reclamar da falta de diálogo com a gestão Paulo Câmara (PSB) durante a pandemia. A tentativa de pressionar o Palácio do Campo das Princesas acabou não funcionando, por ora, mas o intitulado Movimento Pró-Pernambuco – que reúne membros da indústria, comércio e serviços – sinalizou que os “responsáveis por mais de 90% do PIB” vão intensificar o lobby em favor dos CNPJs.

Com um discurso alinhado depois de uma reunião privada ocorrida pela manhã, os empresários sustentaram o argumento de que queriam trabalhar em conjunto com o “seu principal sócio”, o governo, no enfrentamento ao coronavírus. Embora, responsáveis pelo o que estado produz e arrecada, como repetem, eles não se sentem partícipes da solução da crise e cobram assento no Gabinete de Enfrentamento à Covid-19 – núcleo duro do governo que acompanha diariamente os dados da pandemia e define as ações.

Há um ano, o governo de Pernambuco publicou o decreto que instituiu o Comitê Estadual Socioeconômico de Enfrentamento ao Coronavírus, mas segundo os empresários o grupo nunca funcionou como instância de debates, apenas para o repasse dos informes do gabinete.

Integrar o grupo que reúne secretários, médicos, cientistas e outros técnicos do governo, defendem os empresários, evitaria a falta de transparência nas tomadas de decisão do governo e a surpresa que cada decreto provoca nos patrões e empregados. Acusando a gestão Paulo Câmara de contribuir com o aumento do pânico na sociedade, que há uma semana convive com a circulação de rumores de lockdown, os empreendedores usaram discurso do medo para defender a abertura total dos negócios.

“Sempre ajudamos [o governo] com cestas básicas, recuperando ventiladores [hospitalares], de repente uma notícia de lockdown, não somos avisados nem discutimos o assunto. Pesquisa nossa mostra que 92% dos industriais não têm perspectiva de admitir. O estado está afetando a si próprio com a queda da economia vem a possibilidade do aumento da violência”, afirmou o presidente da Federação das Indústrias de Pernambuco, Ricardo Essinger.

“Nós geramos muitos empregos e impostos para o governo. Do lockdown do ano passado ninguém se recuperou. Medidas mais agressivas agora com certeza vão provocar o fechamento de diversas lojas e mais desemprego”, disse o presidente da Federação das Câmaras dos Dirigentes Lojistas de Pernambuco (FCDL-PE), Eduardo Catão.

Os empresários dizem reconhecer o avanço do vírus em Pernambuco, inclusive, que tiveram pessoas mais próximas afetadas pela Covid-19 e que a nova cepa do patógeno tem atingido os mais jovens. Contudo, para o conselheiro da Associação Comercial e Empresarial de Caruaru (Acic), Luverson Ferreira, a solução estaria na capacidade do governo de abrir novos leitos de UTI.

“Temos que trazer à tona que Pernambuco tem uma estrutura de saúde diferenciada em relação a outros estados do Nordeste, com uma taxa de leitos de UTI em relação a 100 mil habitantes muito melhor que outros lugares do Brasil. O governo não deve ceder à pressão por decisão política de um conglomerado de governadores”, alegou Ferreira.

O presidente do Movimento Pró-Pernambuco, Avelar Loureiro Filho, emitiu uma nota minutos depois da confirmação das medidas mais rígidas em Pernambuco, ponderando o discurso apresentado na coletiva. Segundo o empresário, o novo decreto “em linhas gerais, era o que o setor esperava”. “Na próxima quinta-feira, estaremos em reunião com representantes do governo em busca dessa e outras soluções para minimizar o impacto dessas medidas”, informou o texto.

“Diálogo nunca faltou”

Em entrevista transmitida pela internet, o secretário de Planejamento e Gestão, Alexandre Rebelo, disse que a reclamação dos empresários é “frustração” por não terem os pleitos atendidos, mas que o diálogo nunca faltou. Rebelo não respondeu se o governo atenderá o principal pedido dos empreendedores que é ter um assento, mesmo que como ouvinte, no Gabinete de Enfrentamento à Covid-19.

O secretário lembrou que a gestão Paulo Câmara lançou uma linha de crédito emergencial para as pequenas empresas e enviou para a Assembleia Legislativa um projeto de lei para um novo Programa de Recuperação Fiscal (Refis). Rebelo ainda culpou o governo Jair Bolsonaro (sem partido) pela falta de uma “rede de proteção maior” aos empresários.

Esta reportagem é uma produção do Programa de Diversidade nas Redações, realizado pela Énois – Laboratório de Jornalismo Representativo, com o apoio do Google News Initiative”.

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