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“Era só um pedacinho, agora querem tudo”, desabafa morador da Vila Esperança ao saber que será despejado

Prefeitura do Recife muda de ideia e, de última hora, vai demolir borracharia na Vila Esperança

Giovanna Carneiro / 07/05/2024
Foto de Manoel Agripino em frente à sua borracharia. Ele é um homem idoso, negro, vestindo calças compridas de tecido claro, camisa azul escuro de mangas compridas e boné. Ele está sentado em uma cadeira de plástico branco. O estabelecimento é rústico, com uma placa Borracharia no alto da fachada, com telhado de zinco e uma calota de carro pendurada na parede externa, à esquerda da foto.

Crédito: Arnaldo Sete/MZ Conteúdo

“Era só um pedacinho, agora querem tudo”. O borracheiro Manoel Agripino dos Santos, de 72 anos, mora na Vila Esperança, no bairro de Monteiro, há 38 anos e trabalha em uma borracharia localizada ao lado da Escola de Referência Silva Jardim, mas seus dias de trabalho estão comprometidos e, agora, vive preocupado e inseguro.

Em meio às obras para a construção da ponte Jaime Gusmão, a borracharia de Manoel é um dos poucos imóveis que continuam de pé e podem ser visto da avenida Dezessete de Agosto, na Zona Norte. Mas isto deve mudar nos próximos dias. Ao lado do estabelecimento estão as máquinas e os destroços das casas que foram demolidas para dar espaço ao projeto viário da gestão municipal e, há cerca de 15 dias, o trabalhador autônomo recebeu o aviso de que seu imóvel também precisará ser desocupado.

“Eu só quero trabalhar, não quero sair daqui de jeito nenhum, se eu sair vai ser contra a minha vontade. Eu sou borracheiro há 60 anos, eu sou especialista em pneus”, declarou Manoel Agripino.

“Não tinha nenhum aviso de que a borracharia seria demolida e de repente chegaram aqui me dizendo que eu precisava ir lá [na Autarquia de Urbanização do Recife] negociar o valor que eu vou receber, mas é muito pouco, não vai dar para nada e eu nem faço questão, eu só quero continuar aqui para poder trabalhar fazendo o que eu sei fazer”, concluiu o borracheiro.

A imagem retrata um canteiro de obras em uma área urbana. O solo parece estar sendo escavado ou nivelado, com marcas de pneus visíveis. Há um trabalhador vestindo capacete e colete de segurança, observando a cena. No centro da imagem, uma máquina pesada amarela está operando. Ela provavelmente está envolvida na preparação ou reparo do terreno. Além do trabalhador em primeiro plano, outros trabalhadores estão espalhados pelo local, ocupados com várias tarefas relacionadas à construção. À direita da imagem, há um caminhão vermelho estacionado. Ele pode estar transportando materiais ou equipamentos para o canteiro de obras. Os edifícios baixos e muros brancos formam o perímetro do canteiro de obras. O céu acima está nublado, criando uma atmosfera sombria.

Máquinas e escombros estão em torno da borracharia de Manoel Agripino.

Crédito: Arnaldo Sete/MZ Conteúdo

Despejado pela segunda vez

Esta não é a primeira vez que a borracharia de Manoel Agripino é demolida pela Prefeitura do Recife. Antes, o estabelecimento funcionava próximo à praça de Casa Forte, no terreno que foi desocupado para a construção de um novo shopping chamado Burle Garden Mall, do empresário Ítalo Santos. Ele foi realocado para a Vila Esperança há pouco mais de três anos.

“Eu já tinha minha casa aqui na Vila, então quando recebi da prefeitura o imóvel onde a borracharia funciona hoje foi ótimo, mas agora eu não sei mais como vai ser depois que derrubarem aqui”, disse o borracheiro.

Em nota enviada à Marco Zero – leia na íntegra ao final da reportagem – , a Autarquia de Urbanização do Recife (URB) da Prefeitura do Recife afirmou que “para construir este sistema viário, será necessário desapropriar 54 imóveis – algo que já estava previsto desde o início do projeto. Deste total, 37 foram negociados – dos quais 25 já receberam a indenização, 15 optaram por morar no habitacional que está sendo construído pela Prefeitura do Recife. Outros dois não aceitaram o valor e judicializaram a negociação”.

Na Vila Esperança, o clima entre os moradores que permaneceram no local é de insegurança por não terem detalhes do projeto da construção da ponte e por não terem certeza se outros imóveis serão demolidos. Além disso, algumas casas estão muito próximas das estradas que estão sendo construídas.

Enquanto aguarda um retorno da Prefeitura do Recife, Manoel Agripino afirma que não pretende negociar sua borracharia: “eu posso até sair, mas não vou sair conformado não”. 

Nota da URB na íntegra

A Autarquia de Urbanização do Recife (URB) esclarece que as obras da ponte Engenheiro Jaime Gusmão, que cruzará o Rio Capibaribe para interligar os bairros da Iputinga e do Monteiro, beneficiando diretamente cerca de 60 mil pessoas, seguem avançadas. A etapa principal dos trabalhos foi finalizada em dezembro do ano passado. Nesta fase, foram feitas as fundações, os pilares e o tabuleiro da ponte, além das implantações dos passeios, e guarda-corpos. Por fim, será realizado o asfaltamento e a ciclovia. Para execução do serviço, foram necessárias desapropriações de 52 imóveis da comunidade Vila Esperança- todos já foram desocupados e as indenizações pagas – apenas dois estão em processo de pagamento, uma vez que foram negociados por via jurídica.  

Já a segunda etapa diz respeito à ligação da ponte com o solo, devendo ser entregue no segundo semestre deste ano, junto com a primeira fase. Estão sendo investidos R$ 40 milhões na construção deste sistema viário. Do lado do bairro da Iputinga, foram feitos os passeios em concreto, assentamento de meio-fio, drenagem das ruas principais, muro de escamas e aterro da terra armada. Já do lado do Monteiro, estão sendo executados, neste momento, o muro de escamas, aterro da terra armada e a reforma da praça do bairro. Além disso, já foram concluídos os asfaltamentos de duas ruas. 

Para construir este sistema viário, será necessário desapropriar 54 imóveis – algo que já estava previsto desde o início do projeto. Deste total, 37 foram negociados – dos quais 25 já receberam a indenização, 15 optaram por morar no habitacional que está sendo construído pela Prefeitura do Recife. Outros dois não aceitaram o valor e judicializaram a negociação. 

A URB aproveita para explicar que cada imóvel é avaliado individualmente e recebe um valor que varia de acordo com questões como existência de documentação legal, área construída e benfeitorias realizadas pelos moradores. Os valores oferecidos são baseados em tabela atualizada anualmente e validada pelos órgãos de controle, como Tribunal de Contas do Estado e Caixa Econômica Federal. No local, a URB também está construindo um conjunto habitacional, com 75 apartamentos, como opção de moradia para que as famílias residentes na Zona Especial de Interesse Social (ZEIS) Vila Esperança/Cabocó, afetadas pela construção da Ponte Jaime Gusmão, possam permanecer no local. A obra já está em andamento, com investimentos em torno de R$ 10,5 milhões. Além disso, a comunidade ganhará também uma creche.

 

AUTOR
Foto Giovanna Carneiro
Giovanna Carneiro

Jornalista e mestra em Comunicação pela Universidade Federal de Pernambuco.