Crédito: Instituto Capibaribe

Em 1955, o educador Paulo Freire, inquieto com a educação acrítica usada como instrumento de opressão da sociedade conservadora do Recife na época, resolveu fundar o Instituto Capibaribe. Exatamente 66 anos depois, a escola deixada como um dos inúmeros legados do patrono da educação brasileira reafirma uma de suas diretrizes, a responsabilidade social, ao se posicionar contra o retorno imediato das aulas em meio ao pior momento da pandemia do coronavírus.

São aproximadamente 520 alunos distribuídos em turmas do ensino infantil a partir dos dois anos de idade até adolescentes cursando as séries do ensino fundamental 1 e 2, isso sem contar o corpo de funcionários das áreas pedagógicas, administrativas e de manutenção. Todos permanecem em casa, mesmo com a autorização do governo de Pernambuco para a retomada gradual das atividades educacionais das redes públicas e particulares, que começou nessa segunda-feira, 5 de abril.

O movimento do Instituto vai de encontro à pressão exercida pelo próprio setor privado, mas segue alinhado com a ciência. “Nesse momento, quando a gente verifica que a pandemia sai do controle, começa a ter um aumento expressivo de contágio e, o mais preocupante para gente, é a situação de saturação das redes hospitalares. A realidade é que as pessoas podem adoecer e certamente não terão como se cuidar, e nós não temos o direito de expor nossos funcionários, estudantes e suas famílias a isso. Achamos prudente permanecer com o trabalho remoto por mais 14 dias”, afirma a diretora do Instituto Capibaribe, Mônica Antunes Melo.

Assim como qualquer unidade educacional, o Instituto Capibaribe foi pego de surpresa com a pandemia em março do ano passado. Desde então, a escola montou um comitê que incluía, além dos nove integrantes do grupo gestor da instituição, representantes dos funcionários, das famílias, médicos, arquitetos e outros profissionais que pudessem contribuir com um plano de retomada das aulas presenciais. O trabalho da equipe foi provado com o retorno às salas de aulas em dezembro, quando se instalou o modelo de ensino semipresencial com turmas divididas.

“Tivemos apenas um caso de um aluno com covid, que, graças ao monitoramento que realizamos na escola, confirmamos que o contágio aconteceu fora do Instituto. Mesmo assim suspendemos as aulas presenciais da turma por 14 dias. No nosso protocolo, as aulas estavam ocorrendo três vezes na semana de modo presencial, com distanciamento e toda segurança. A dificuldade maior é a questão pedagógica, pois para as professoras manterem o programa ora presencial ora virtual, exige muito esforço”, explica Mônica.

No início de março, diante do avanço da covid-19 no estado, o Instituto Capibaribe enviou uma carta ao governador de Pernambuco e ex-aluno da entidade, Paulo Câmara (PSB), fazendo um apelo para que o gestor tomasse as decisões necessárias “mesmo contrariando interesses econômicos, para que se evite uma crise sanitária irreversível”. O documento então reforça que é preciso o governo se posicionar de acordo com a ciência para defender a vida, mas a escolha do socialista foi o contrário.

Rodrigo Lins, pai de Lara, aluna do Instituto Capibaribe, concorda com a decisão da escola (crédito: arquivo pessoal)

Para o professor Rodrigo Lins, pai da aluna Lara Lins, de dois anos, a decisão da escola foi a melhor. Sem negar a dificuldade de manter a filha nas aulas online ao mesmo tempo que cuida do outro filho de apenas um ano, o docente destaca que a escolha agora deve ser tomada pensando no coletivo.

“Todos os meses a escola manda um questionário para decidirmos pela aula totalmente virtual ou semipresencial, a gente tá vendo que o contágio ainda está muito alto e as UTIs muito cheias, então manter as crianças em casa é a decisão correta”, comenta.

De acordo com Mônica, no momento uma professora e dois funcionários da limpeza estão com covid-19, todos estão bem e também sendo monitorados. “Seguimos trabalhando muito na organização dos programas das aulas online, que pelo menos três vezes por semana devem ser síncronas. Nossa previsão é voltar com o semipresencial no dia 19, até lá seguimos acompanhando a situação da pandemia”, diz a diretora.

Leia a íntegra da carta enviada ao governador Paulo Câmara:

CARTA ABERTA AO GOVERNO DO ESTADO DE PERNAMBUCO

O Instituto Capibaribe é uma escola particular, sem fins lucrativos, localizada no bairro das Graças, que há 66 anos dedica-se ao desenvolvimento intelectual e à formação cidadã de crianças e de adolescentes na cidade do Recife. Com o nome em homenagem ao nosso Rio, escolhido pelo professor Paulo Freire, seu fundador e primeiro diretor, esta escola foi criada no berço dos ideais democráticos, sempre pautada pelos princípios da justiça, em direção ao bem da coletividade.

Considerando o papel social da escola como espaço não só de construção do conhecimento, mas, também, como um lugar de relações sociais que contribui para o equilíbrio emocional das crianças e dos/as adolescentes, neste tempo de pandemia, estamos mantendo o ensino semipresencial, seguindo as determinações do Governo do Estado. A importância do funcionamento das escolas, públicas e particulares, é evidente, e, portanto, deveriam ser consideradas como equipamentos essenciais, e terem sido incluídas no primeiro grupo a receber a vacina anti covid, com cobertura a todos funcionários/as. No entanto, ainda aguardamos uma iniciativa concreta por parte das autoridades governantes, em tratar os trabalhadores/as da educação, como prioritários para receberem a vacina e protegerem a si e aos outros/as no exercício de sua tarefa.

Neste momento, em que a pandemia avança e as redes hospitalares estão saturadas, inquieta-nos os riscos aos quais os funcionários/as se expõem, pela quantidade de pessoas com que convivem no trabalho, e, também, nos trajetos entre suas casas e a escola, principalmente aqueles/as que usam transporte coletivo, e que têm menos condições de fazer o distanciamento social.

Diante do exposto, preocupa-nos nossa obrigação de proteger a vida de toda a comunidade escolar e da população em geral. Estamos diante de um dilema entre continuar com aulas presenciais, de acordo com as orientações do Governo, e a consciência que temos da possibilidade real de estarmos colocando em risco a vida das pessoas, contribuindo para a aceleração dos contágios.
Por outro lado, acreditamos que, no cenário da pandemia, uma ação isolada não é suficiente para conter um problema que é de ordem coletiva.

Permaneceremos atentos/as, confiantes na responsabilidade do Governo do Estado em adotar os encaminhamentos necessários, mesmo contrariando interesses econômicos, para que se evite uma crise sanitária irreversível, como vem sendo anunciada por diversos cientistas reconhecidos, caso não se pense em fazer um lockdown efetivo.

A coragem em defender a vida no momento presente é fundamental para diminuirmos as consequências do problema que estamos acumulando para um futuro próximo. Cada vida perdida é uma história, é um filho/a, um irmão/ã, um pai/mãe. Acreditamos que a vida de todos/as precisa ser preservada, para que tudo mais venha a ter sentido.

Por fim, apelamos à Vossa Excelência e às demais autoridades, que avaliem a situação do Estado de Pernambuco à luz da Ciência, que escutem os /as profissionais especializados/as em saúde pública, e atuem em defesa da vida, frente à pressão do Mercado.

Atenciosamente,

Direção do Instituto Capibaribe
Recife, 12 de março de 2021

Esta reportagem é uma produção do Programa de Diversidade nas Redações, realizado pela Énois – Laboratório de Jornalismo Representativo, com o apoio do Google News Initiative”.