Movimento intenso nas ruas de Camaragibe, um dia depois do fim das medidas mais restritivas de isolamento social. Crédito: João Carlos Mazella/Agência JCMazella

Com Pernambuco chegando aos 35 mil casos e 2.875 mortos pela Covid-19, o governo do estado apresentou um plano de reabertura das atividades econômicas. A quarentena rígida, também conhecida como lockdown, foi encerrada no domingo (31). Apesar de não cumprir as principais recomendações da Organização Mundial de Saúde (OMS) para iniciar a reabertura, o estado já montou um cronograma para os próximos 15 dias e o comércio atacadista volta a funcionar no dia 8. Em 15 dias, salões de beleza e de estética também estarão autorizados a voltar. Nesta segunda (1), lojas de construção já puderam receber clientes.

Em coletiva virtual, os secretários de Saúde, André Longo, Desenvolvimento Econômico, Bruno Schwambach, e de Planejamento, Alexandre Rebêlo, citaram basicamente dois fatores para o planejamento da reabertura, em um período de 11 semanas: uma tendência de achatamento da curva de novos casos e óbitos e uma diminuição da pressão sob o sistema de saúde.

Entidades que atuam na linha de frente contra a Covid-19 e especialistas ouvidos pela Marco Zero, porém, alertam: é prematuro, agora, qualquer planejamento para reabertura. Isso considerando apenas os aspectos de saúde, que foram os citados pelo governo.

Tanto em vídeo do governador Paulo Câmara (PSB) divulgado no domingo (31) quanto na coletiva desta segunda (1), foi mostrado um estudo do Instituto para Redução de Riscos e Desastres de Pernambuco (IRRD) que apontaria uma tendência de estabilização de casos. Com isso, os secretários enfatizaram que o crescimento da Covid-19 em Pernambuco está estabilizado, ainda que em um patamar alto.

Mas não é bem assim. Os dados são ainda muito recentes e voláteis. Os secretários repetiram que era a primeira vez que a taxa de reprodução efetiva (Re) ficava abaixo de 1, o que também não é correto. O índice mede quantas pessoas infectadas contaminam outras: durante cinco dias na semana passada, com o lockdown em cinco cidades do Grande Recife, esse índice chegou a 0,98. Ou seja, cada 100 pessoas contaminadas passam a doença para outras 98 pessoas. Em pelo menos duas outras ocasiões a taxa ficou abaixo de 1 no estado e depois voltou a crescer.

Especialistas afirmam que para que haja uma real estabilização e posterior queda de contágio, a taxa de propagação da infecção deve se manter por pelo menos duas semanas abaixo de 1. A OMS orienta que a reabertura aconteça não em um período de estabilização, chamado de platô, mas sim quando é registrada queda na curva. E quando ela é mantida por pelo menos duas semanas – tempo máximo de incubação do vírus.

Confira aqui o plano de reabertura completo

Citado nominalmente pelo secretário Alexandre Rêbelo na coletiva, o cientista do IRRD Jones Albuquerque é categórico ao afirmar que a quarentena obrigatória deveria continuar. E que ainda é muito cedo para apontar uma tendência de estabilização nos casos. “Há uma oscilação altíssima. Temos que fazer uma média de sete dias abaixo de 1 para indicar uma tendência. Vamos comemorar agora? Não. Vamos aguardar até o final desta semana, com mais números de dias úteis, para ter um panorama sobre essa tendência de estabilização”, diz.

O cientista também aponta que não há nada no boletim epidemiológico do IRRD que possa basear uma abertura do comércio. “Espero que o governador não ceda às pressões econômicas. Não vale a pena perder milhares de vida por conta dessas pressões”, alertou, antes da coletiva do Governo de Pernambuco. “Hoje as ruas estavam cheias de gente. Quero acreditar que seja porque estavam em casa na quarentena e agora saíram rapidinho para comprar algo de necessidade e vão voltar para casa e permanecer lá. Se essa quantidade de gente se manter nas ruas, vamos ter algo muito, muito pior do que tivemos até agora”, afirma Jones.

Em Pernambuco, o número de óbitos tem dobrado a cada 17 dias. Se se manter assim, o estado pode chegar ao final do mês com mais de 10 mil mortes pela Covid-19.

Médico sanitarista e doutor em saúde pública pela Fiocruz, Tiago Feitosa, da Rede Solidária em Defesa da Vida, credita à quarentena rígida a estabilização por cinco dias dos casos, mas o impacto não pode ser mensurado agora. “Cinco dias é uma quantidade de dias pequenos para se fazer essa análise. Eu acho que há sim sinais de uma estabilização. No entanto, para que uma abertura seja segura, tem que haver o decréscimo. No mundo todo, se utilizou 14 dias para ter alguma noção de impacto de uma intervenção. E só se aconselha reabertura quando há um decréscimo de duas semanas em número de casos e óbitos”, afirma.

Com a abertura agora, ainda que gradual, há o risco de uma segunda onda, com outro pico alto. “E aí voltamos ao zero, com novo isolamento rígido, novas campanhas. É um risco grande”, diz.

Essa discussão, claro, é do ponto de vista exclusivo da saúde pública. “Entendo que existem outros aspectos. Do desemprego, da arrecadação, da economia. Do governo federal que não garante recursos para que as pessoas fiquem em casa. Mas é importante que haja clareza na comunicação com a população, dizendo os elementos reais para a abertura”, critica Feitosa.

Sistema de saúde ainda sob pressão

Na rede pública de Pernambuco, a ocupação das UTIs está em 96% – o que é apenas o tempo de retirar um paciente e colocar outro. Mas um dado positivo citado pelo secretário da Saúde André Longo foi a diminuição da fila de espera para conseguir uma UTI. “Já chegamos a ter perto de 300 pacientes na fila. Conseguimos uma estabilidade nos casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave (Srag) nas últimas duas semanas e, da última vez que olhei, a lista de espera por UTI estava em menos de 60 pessoas”, afirmou.

Para Feitosa, ter 60 pessoas na fila por uma UTI ainda é um número altíssimo. “São 60 pessoas que podem morrer porque não tiveram o atendimento necessário. Essas pessoas não estão tendo acesso ao que pode fazer com que permaneçam vivas. A fila deveria ser zerada antes de se pensar em agregar mais gente para essa fila”, diz.

Na linha de frente, enfermeiros e técnicos receberam a notícia da reabertura como uma bomba. “É um absurdo. O que estamos vendo são hospitais cheios, profissionais tendo que substituir duas ou três pessoas porque não há outros enfermeiros disponíveis. Profissionais dobrando plantão e as pessoas nas ruas”, reclama a presidente do Sindicato dos Enfermeiros de Pernambuco, Ludmilla Outtes.

Ela afirma que o sindicato tem notado um aumento de pacientes que estão vindo do interior para a capital. “Há uma interiorização dos casos, que é onde tem mais deficiência de leitos. O que a gente está prevendo é uma situação mais crítica. Não chegamos nem perto do isolamento ideal e já estão reabrindo”, critica. O ideal seria 70% e Pernambuco tem ficado na casa dos 50% de isolamento. Com o lockdown, chegou a 64%, mas no fim de semana.

Presidente do Satenpe, sindicato que representa técnicos e auxiliares de enfermagem, Francis Herbert diz que muitos pacientes da periferia, com sintomas leves e moderados, já não procuram as unidades de saúde porque sabem que não serão atendidos. “Está atingindo as classe mais pobres, morros, favelas, e se espalhando no interior. Entendo que o secretário de Saúde quer trazer palavras de segurança, mas a abertura é muito prematura”, afirma.

O sindicato calcula que até 60% dos profissionais da saúde adoeceram ou vão adoecer por conta do novo coronavírus. “Se continuar do jeito que está, vai haver um blackout. Não teremos mais profissionais de saúde para atender a população”, alerta. Já são quase 9 mil profissionais infectados, de acordo com os dados da Secretaria Estadual de Saúde.

Os dois sindicatos ouvidos pela Marco Zero também afirmam que os Equipamentos Individuais de Seguranças (EPIs) que estão sendo distribuídos em Pernambuco não atendem aos padrões recomendados. “Muito material está vindo direto da China, sem validação. Temos visto até máscaras N95 sem filtro”, denuncia Ludmilla Outtes.

Dificuldade para testagem

Um dos critérios para a reabertura recomendados pela OMS é a capacidade de se fazer testes em massa. Nisso, Brasil e Pernambuco estão bem longe. “O estado está em décimo em um país que é o lanterninha em testagem”, lamenta Tiago Feitosa. O Brasil fez 4.415 testes por milhão de habitantes, ficando atrás apenas da Índia e do México entre os 20 países mais atingidos pela Covid-19.

Até profissionais da saúde encontram dificuldade para conseguir fazer o teste. “Hoje uma enfermeira tentou fazer o teste pela rede pública, que disponibiliza testes só para profissionais de saúde, e agendou para o dia 15. É tempo demais. Ou você paga do bolso ou fica sem saber se teve ou não”, afirma a presidente do Sindicato dos Enfermeiros. Em laboratórios privados, o teste custa em torno de R$ 250,00.

Sem testes suficientes, os critérios para a reabertura ficam ainda mais nebulosos. “Se não tem como ter teste, tem que ser superado de outra forma. O percurso que a epidemia está tomando em direção ao interior e às periferias é preocupante. Só se testa pobre quando ele morre ou quando está internado em algum hospital grande. É mais difícil a assistência e a testagem . E, agora, é que estamos mesmo às escuras, porque a interiorização dificulta a gente a entender”, comenta Feitosa.

Na coletiva, foi anunciado que, nessas primeiras duas semanas, o Grande Recife e o Interior irão seguir o mesmo cronograma, mas que as próximas fases deverão ser pensadas de acordo com as dinâmicas do coronavírus em cada uma das regiões.

Monitoramento da epidemia

Um anúncio positivo na coletiva foi o de que a Secretaria Estadual de Saúde, em parceria com o Instituto Aggeu Magalhães/Fiocruz-PE, vai conduzir um inquérito de soroprevalência de anticorpos do novo coronavírus em doadores de sangue do Hemope. O estudo vai servir para monitorar a epidemia – inclusive em assintomáticos – e também para avaliar a produção de plasma convalescente, que está sendo estudado como alternativa de tratamento da Covid-19.

O estudo deverá testar 18 mil amostras de sangue em um período de 12 meses. Amostras de janeiro a maio de 2020 serão testadas prospectivamente e a partir de deste mês até dezembro.

No Brasil, a Universidade Federal de Pelotas faz estudo semelhante e divulgou na semana passada o resultado da primeira fase. Nele, apenas 3% dos 240 testados em Pernambuco apresentavam imunidade ao novo coronavírus.