Vacinação nas escolas da rede pública de Pernambuco
Crédito: Miva Filho/SES-PE

Quando teve início a vacinação contra a covid-19 no Brasil, em janeiro deste ano, as crianças e os adolescentes apareciam muito longe na fila de prioridades. Com as variantes gama, que causou os picos de casos e óbitos no Brasil, e delta, que se espalhou com velocidade impressionante e hoje é a dominante no mundo, foi se estabelecendo o consenso de que só com uma vacinação muito ampla a pandemia poderia ser controlada. Com pessoas acima de 50 anos já aptas para a terceira dose, e em um cenário em que não há mais escassez de doses de vacinas no Brasil, o desafio agora é ampliar a vacinação para adolescentes e crianças.

Para o público acima de 12 anos, a vacinação começou em Pernambuco no final de agosto com a aplicação da vacina de mRNA da Pfizer, que se provou segura e eficaz. Mas a cobertura vacinal ainda está longe do esperado. De acordo com o vacinômetro da secretaria estadual de Saúde, o grupo de 12 a 17 anos é o que está com o menor percentual: apenas 55,5% tomou a primeira dose.

Para o médico pediatra Eduardo Jorge, integrante do Departamento Científico de Imunizações da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), o adolescente é um público difícil de ser levado aos serviços de saúde. “Por isso, fazer a vacinação nas escolas é tão importante. É uma estratégia que as cidades têm que adotar: identificar quais os grupos e áreas deficitárias e levar a vacinação para onde esse público está”, diz o médico, que também é integrante dos comitês de imunização contra o coronavírus no Recife e em Pernambuco.

Para as crianças, menores de 12 anos, os desafios para a vacinação são maiores. Além do convencimento dos pais, mães e responsáveis para a importância e segurança da vacina, exige o desenvolvimento ou adaptação de vacinas que sejam adequadas para esse público.

Ontem, a Pfizer e a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) tiveram a primeira reunião para a pré-submissão do pedido da vacina para crianças de 5 a 11 anos. Foi um encontro para apresentar dados técnicos antes do envio formal do pedido. No começo de novembro, as agências de controle dos Estados Unidos aprovaram a vacina da Pfizer para essa faixa etária.

É comum que vacinas pediátricas tenham uma formulação diferente das vacinas para adultos – como doses menores ou mudanças nas soluções e adjuvantes. “Adjuvantes são muito importantes para gerar uma resposta local da vacina, faz com que se estimule o sistema imunológico a ir para aquele ambiente e ali encontrar os componentes da vacina. O mais comum e mais usado é o hidróxido de alumínio. É extremamente seguro. Não se muda o adjuvante porque está fazendo mal ou algo assim. É algo que faz parte dos testes para a formulação das vacinas. Em cima dos resultados em grupos, se escolhe a melhor formulação, desde a dose, o adjuvante e o tempo de aplicação entre as doses”, explica o imunologista e pesquisador da Universidade de São Paulo (USP), Gustavo Cabral.

No caso específico da vacina contra a covid-19 da Pfizer, a mudança maior foi na dosagem, que passou de 30 microgramas em adultos para 10 microgramas em crianças. “A mudança ou adaptação é porque, muitas vezes, não é necessário ter uma quantidade de vacina tão grande para gerar uma resposta imunológica. A criança já tem uma resposta imunológica muito boa com uma dose menor”, diz Cabral.

A vacina da Pfizer não usa adjuvante. “Para a vacina para crianças houve a mudança de composição de alguns ingredientes (soluções) para melhorar o armazenamento. Deixar a vacina mais estável em temperaturas mais altas”, explica a virologista Lorena Chaves, pesquisadora da universidade Emory Atlanta, nos Estados Unidos.

Custo-benefício tem de compensar

Na vacinação de adolescentes, houve muita confusão e desinformação sobre miocardite, uma inflamação do músculo cardíaco que pode ser uma reação rara à vacina da Pfizer. O Ministério da Saúde chegou a não recomendar a vacinação desse público em setembro – mas logo voltou atrás. Era uma decisão política – um pedido do presidente negacionista Jair Bolsonaro – e não baseada em estudos. Dados de uma nota técnica do próprio Ministério da Saúde afirmam que a miocardite atinge 0,043% dos vacinados.

Acomete principalmente jovens do sexo masculino. “A maioria evolui de forma boa, com um internamento de 2 a 3 dias, sem sequelas. O risco de um adolescente de ter covid e ter complicações cardíacas pela doença é bem maior. Não podemos, contudo, desconhecer que esse risco existe. Tem que se ficar atento, até para se fazer o diagnóstico precocemente. Dor torácica e apneia são sintomas em que se deve procurar uma unidade de saúde. Mas, entre o risco de adoecimento por covid-19 e uma baixíssima probabilidade de miocardite, o uso da vacina é muito favorável”, explica o pediatra Eduardo Jorge.

Se a segurança é de extrema importância para os adultos, para as crianças ela tem que ser redobrada. Isso porque as crianças não são um grupo de risco para a covid-19. “O benefício tem que ser muito alto para compensar qualquer risco. Por isso que as vacinas pediátricas têm que ser muito seguras. Acredito que para o controle da pandemia vamos precisar restringir ao máximo a circulação do vírus. E ampliar a vacinação para a pediatria é necessário. Temos vacinas que são seguras. Mesmo que as crianças tenham mais probabilidade de um acometimento leve, elas ainda podem transmitir. Para um retorno às escolas mais tranquilo e o fim da pandemia, a vacinação das crianças é necessária”, comenta o pediatra.

A virologista Lorena Chaves também afirma que a vacinação das crianças é de extrema importância para o controle da pandemia. “É fundamental. Crianças adoecem e transmitem o novo coronavírus, então é uma população que precisa ser protegida também. Crianças frequentam ambientes escolares que são fechados (em grande maioria) e com muitas pessoas, então é um ambiente de circulação de vírus e transmissão. Além disso, crianças expostas ao vírus de forma vulnerável vão acabar sendo hospedeiros para seleção de variantes mais transmissíveis e adaptadas”, afirma.
A tendência é de que a vacina pediátrica da Pfizer seja aprovada pela Anvisa, uma vez que já recebeu a chancela dos órgãos de controle dos Estados Unidos. Mas deve começar a ser aplicada no Brasil somente em janeiro. Isso porque ainda precisa da negociação e compra da vacina pelo Ministério da Saúde, já que é uma formulação nova, e não apenas uma dose reduzida.

Vacinação nas escolas da rede pública de Pernambuco
Pfizer já foi aprovada nos EUA e Chile vacina crianças com Coronavac desde setembro. Crédito: Miva Filho/SES-PE

Coronavac é candidata natural

Por ser uma vacina de vírus inativado, tecnologia amplamente usada nas vacinas pediátricas, a Coronavac surgiu como uma opção natural para as crianças. “É um tipo de vacina que a pediatria está acostumada. Vacinas como a de Hepatite A e a da gripe também são de vírus inativado e usadas há décadas em crianças. Os efeitos adversos são poucos e brandos”, comenta Eduardo Jorge.

Cientistas como Júlio Croda, da Fiocruz, têm repetido em diversas entrevistas e textos a necessidade de inclusão da Coronavac no Programa Nacional de Imunizações (PNI) para as crianças. Após a compra de 100 milhões de doses no começo do ano, o Ministério da Saúde não fez novo contrato com o Instituto Butantan, nem incluiu a Coronavac no PNI. As vacinas da Pfizer e da AstraZeneca/Fiocruz já foram incluídas no programa.

Com tradição em campanhas de vacinação robustas e de vanguarda, o Chile aplica a Coronavac desde meados de setembro em crianças acima de cinco anos. “Na semana passada o Chile já publicou um estudo com a Coronavac nas crianças de lá. Não houve registro de reações graves e o estudo mostrou que as crianças respondem bem à vacina, com boa produção de anticorpos”, diz o pediatra.

No Brasil, o Butantan solicitou à Anvisa, ainda em agosto, a autorização para uso da Coronavac a partir dos três anos. A solicitação foi negada na época, por insuficiência de dados. No começo de novembro, o Butantan encaminhou à Anvisa novos dados de estudos feitos na China, onde a vacina é usada também a partir dos três anos.

A Sinovac, fabricante da Coronavac, também informou nesta semana que os resultados preliminares dos ensaios clínicos de fase três da vacina Coronavac com essa faixa etária mostraram segurança. Os testes foram feitos na África do Sul, no Chile, na Malásia e nas Filipinas. Nenhuma reação adversa grave foi reportada.

No caso da Coronavac, não há necessidade de troca de adjuvante nem de diminuição da dose. Os testes foram conduzidos com as duas doses da vacina, assim como aconteceu também com a da Pfizer. “O que pode mudar, no futuro, é passar a ser apenas uma dose para crianças. Isso porque elas costumam ter uma resposta imunológica muito melhor que os adultos. Na vacina de HPV, por exemplo, para pessoas com mais de 15 anos são necessárias três doses, enquanto para os menores de 15 anos apenas duas doses bastam, já que a resposta imunológica é tão robusta como na dose plena”, explica.

A expectativa agora é de que o Butantan faça um novo pedido para autorização da Anvisa ainda neste ano. Um possível entrave é a demora com que o Butantan tem conduzido as publicações das pesquisas. Quando a agência negou a aprovação da vacina pediátrica em agosto, a relatora Meiruze Freitas lembrou que o instituto ainda não havia publicado os dados de fase três dos testes da Coronavac em adultos no Brasil. O estudo em Serrana, que teve ótimos resultados na prevenção de mortes, também não foi publicado em revista científica.

Mais mentiras e ameaças na internet

No fim de outubro, a Anvisa divulgou que seus diretores receberam ameaças de morte na hipótese de aprovação do uso de vacinas contra a covid-19 para crianças. Na sexta-feira passada, o autor das ameaças foi identificado pela Polícia Civil do Paraná. Em depoimento, ele disse que estaria arrependido. O inquérito sobre o caso ainda não foi concluído.

O imunologista Gustavo Cabral, que também atua com divulgação científica na internet, prevê que a desinformação sobre as vacinas para crianças deve aumentar ainda mais. “Em breve vão começar os testes com as vacinas para bebês a partir dos seis meses. Acho que o movimento antivacina vai entrar pesado com informações falsas. É preciso ficar muito atento às informações que circulam na internet”, comenta.

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