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Estrela Brilhante de Igarassu celebra 200 anos. E ele é apenas o 2º maracatu mais antigo do Brasil

Jeniffer Oliveira / 06/02/2024
Foto colorida de ensaio de maracatu à noite, com passistas em torno de uma mulher negra idosa, vestida com longo vestido azul, de saia armada, dançando no meio da rua.

Pouco antes do último ensaio pré-carnaval começar, os homens do Maracatu Estrela Brilhante de Igarassu já afinavam seus instrumentos. Aperta para cá, ajusta para lá, testa o som e, pronto, começavam os preparativos para o arrastão. Tão esperado quanto o próprio carnaval, o último ensaio sai levando a força do maracatu pelas ruas do sítio histórico de Igarassu. 

A saída acontece da rua Barbosa Lima, onde está localizada a sede. A intenção é fazer uma volta pelo Sítio Histórico, passando pela rua Tiradentes, e seguindo o trajeto pela avenida principal, a avenida Vinte e Sete de Setembro. O cortejo segue pelo gramado de Igarassu e passa pela igreja Santos Cosme e Damião de volta à sede da nação. 

É em Igarassu, cidade litorânea, a aproximadamente 28 quilômetros de Recife, que habita o segundo maracatu de baque virado mais antigo do Brasil. O primeiro maracatu registrado é o Nação Elefante, fundado em 1800 no Recife. Patrimônio vivo de Pernambuco desde 2009, o Maracatu Estrela Brilhante de Igarassu continua o legado iniciado no século 19. Prestes a completar 200 anos, foi passando de geração em geração e, hoje, é comandado por Mestre Gilmar e sua filha Wilka Shirly, descendentes dos fundadores. 

Entende-se como baque virado ou “nação”, o maracatu composto por grupos percussivos formados por alfaias, gonguês, taróis e caixas, apresentando um cortejo, com trajes trabalhados em pedrarias, bordados e tecidos representando as antigas coroações de reis e rainhas do Congo. 

Fundado em dezembro de 1824, mesma época em que acontecia a Confederação do Equador, iniciada aqui em Pernambuco, a história da agremiação começou em Vila Velha, em Itamaracá, então pertencente ao município de Igarassu. Anos depois, firmou raízes no Alto do Rosário, comunidade do sítio histórico da cidade. 

Foi no Alto do Rosário que a matricarca da família, dona Mariú e seu marido, conhecido como “seu Neusa”, criaram os filhos e netos entre batuques, loas e toadas. A filha do casal, Olga, seguiu a tradição. E foi assim que o Mestre Gilmar de Santana, filho de Olga, cresceu aprendendo as artes e ofícios do maracatu. Com seus 55 anos, teve a “nação” presente em sua vida desde o nascimento. 

“Dos cinco filhos, eu era o mais agarrado na barra da saia da minha mãe. Levei muito cascudo porque desde pequeno eu ‘aperreava’ ela toda hora querendo aprender o maracatu, o coco de roda. Eu fui o único que me dediquei e aprendi tudo dos dois ritmos”, relembra o mestre. 

Seguindo os passos do pai, Wilka Shirly, é vocalista do maracatu, puxando toadas ao lado do mestre. “Pra mim é uma honra, eu amo esse maracatu. Costumo dizer que sempre participei do maracatu desde o ventre da minha mãe. Então, quando eu venho pros ensaios e vejo isso acontecer, a comunidade nos acolher, é gratificante”, afirma Wilka. 

 Mestre Gilmar no ensaio do Maracatu Estrela Brilhante, que em 2024 comemora seus 200 anos de existência. Crédito: Arnaldo Sete/MZ Conteúdo

Não é de hoje que a comunidade participa dos ensaios, na percussão, na dança, nos eventos e na produção. Há muitos anos, a tradição passa de família para família também entre os componentes da nação. A atual Dama do Paço e uma das baianas mais antigas do Estrela Brilhante, Joana Lino, de 75 anos, começou a dançar levada pela sua mãe, conhecida como dona Biu, também uma Dama do Paço. Aos 10 anos de idade, já saía para dançar com a mãe. Hoje, ela é a quarta Dama depois de dona Biu. “Eu sinto uma alegria tão grande que você nem imagina. Eu deixo tudo pra dançar, você acredita?”, revela em meio à empolgação.

Na cultura da Nação, as Damas de Paço são uma ou duas mulheres que carregam as calungas, bonecas que representam as forças dos ancestrais. E as baianas, na verdade, são conhecidas como Yabás. 

No ano passado, em torno de 95 pessoas desfilaram nos cortejos de carnaval com o grupo. Turistas e visitantes de vários lugares do Brasil e também de outros países vão até Igarassu só para desfilar no carnaval como integrantes da “nação”, conhecida por sua receptividade e acolhimento. No arrastão foi possível perceber sotaques de diferentes regiões do Brasil e conversas em outros idiomas, como inglês, italiano e espanhol. A expectativa é que mais pessoas cheguem até o carnaval.

“Sempre quando tem evento, quando tem cortejo, a comunidade acompanha a gente. A gente trabalha com projetos sociais na nossa sede, então ajuda a juntar mais a galera pra perto. Eles nos acolhem muito bem”, reitera Wilka, falando sobre a participação da comunidade.

Este ano, o Estrela Brilhante de Igarassu será o homenageado no carnaval da cidade pela primeira vez, mas as celebrações do bicentenário ultrapassam os limites da cidade. Nesta terça-feira, 6 de fevereiro, o grupo também vai ser homenageado no 11º Encontro de Mestres e e Mestra Regente de Maracatu Nação, que acontece a partir das 19h, na Praça do Arsenal, no Recife Antigo.

 Ensaio do Maracatu Estrela Brilhante no sítio histórico de Igarassu Foto: Arnaldo Sete/MZ Conteúdo.