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Família Bolsonaro provocou 801 ataques à imprensa no Twitter, constata pesquisa da Abraji

Giovanna Carneiro / 14/07/2022
No alto da rampa do Palácio do Planalto, Bolsonaro, de máscara, cercado de outras pessoas com máscara, paletó e gravata, olha para baixo enquanto fala com vários jornalistas cujos microfones, gravadores e câmeras estão apontadas para cima, para capturar sua imagem e voz. Ao fundo, as vidraças colunas do Palácio.

Em um ano e quatro meses, Jair Bolsonaro e seus filhos Flávio Bolsonaro (PP-RJ), Eduardo Bolsonaro (PL-SP) e Carlos Bolsonaro (Republicanos – RJ), incitaram ataques à imprensa 801 vezes por meio de publicações e interações no Twitter. O dado foi divulgado pela Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) que, entre 1º de janeiro de 2021 e 5 de maio de 2022, analisou 14.918 tweets e retweets feitos pelo presidente da república e seus filhos com cargos eletivos. 

Dados dos monitoramentos de ataques e violência de gênero contra jornalistas da Abraji demonstram que, nos últimos dois anos, o clã Bolsonaro, seguidos por aliados e apoiadores do governo, lideram como principais autores de ataques contra profissionais ou veículos da imprensa. O vereador Carlos Bolsonaro foi o integrante da família que mais atacou veículos de comunicação e jornalistas com 351 publicações, respostas e compartilhamentos de assuntos hostis no Twitter. Em seguida, estão o deputado federal Eduardo Bolsonaro, com 340 ataques e conteúdos ofensivos, e o senador Flávio Bolsonaro, com 76. Já o presidente Jair Bolsonaro somou 34 postagens e repostagens sobre a imprensa, com conteúdos que afirmaram uma postura agressiva contra a mídia e aos comunicadores. 

Em relação ao conteúdo das postagens sobre a mídia feitas por membros da família Bolsonaro, ataques, críticas e tentativas de descredibilização da imprensa foram maioria e chegaram a ser mencionados em 73% dos tweets do presidente e seus filhos. Os discursos estigmatizantes proferidos por autoridades e as campanhas sistemáticas de intimidação a jornalistas despontam como os principais tipos de agressão contra a imprensa, chegando a 74,6% dos casos registrados em 2021 e 64,5% dos episódios identificados entre janeiro de 2022 até o momento. 

Print de publicação do Twitter do presidente Jair Bolsonaro

Print de uma publicação do Twitter de Eduardo Bolsonaro (PL-SP)

Uma rede formada por políticos e influenciadores

Os dados coletados pela Abraji evidenciam o potencial das redes sociais como ferramentas de ataques contra jornalistas e membros da imprensa, uma vez que 62,5% dos alertas realizados por profissionais de comunicação em 2021 e 60,1% em 2022 tiveram origem ou repercussão na internet. As informações revelam um padrão de violência contra a imprensa que cresce no ambiente online: atores políticos iniciam a hostilização e seus seguidores a amplificam. Com isso, uma rede de ataques é formada e espalhada de forma articulada. 

A exemplo disso estão os casos das jornalistas Míriam Leitão e Vanessa Lippelt. Em abril de 2022, Eduardo Bolsonaro fez uma publicação no Twitter debochando da prisão e da tortura sofridas por Míriam Leitão no período da ditadura militar no Brasil, a agressão ecoou e a jornalista foi vítima de diversos ataques na internet. Já a editora do site Congresso em Foco, Vanessa Lippelt, passou a sofrer ataques e ameaças de violência – inclusive de estupro – após a publicação de um matéria que revelava a mobilização de um fórum anônimo para produzir conteúdo com desinformações em favor do presidente.

A análise dos tweets da família Bolsonaro sobre a imprensa revelou uma rede de conexões entre contas que são frequentemente respondidas e retweetadas pelo quatro políticos em seus ataques. Essa rede é majoritariamente formada por figuras políticas conhecidas nacionalmente e influenciadores que possuem milhares de seguidores no Twitter. 

Um gráfico feito pela Abraji mostra as conexões entre os perfis da família Bolsonaro e contas no Twitter que receberam interações em ataques contra a imprensa.

O vereador Carlos Bolsonaro  interage frequentemente com as contas de Elisa Brom (@brom_elisa), que tem 125,3 mil seguidores na plataforma; Iara BG (@iaragb), com 74 mil seguidores; e Sarita Coelho (@saritacoelho), com 74,5 mil seguidores. Carlos também divide ataques com o influenciador Kim Paim (@kimpaim), que possui 678,2 mil seguidores no Twitter e 629 mil inscritos no YouTube, e com atores políticos como o ex-secretário especial de Cultura, Mário Frias (@mfriasoficial), o chefe do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República, General Heleno (@gen_heleno), o ex-secretário nacional de Incentivo e Fomento à Cultura, André Porciúncula (@andreporci), o comentarista político Rodrigo Constantino (@RConstantino) e o pastor Marco Feliciano (@marcofeliciano).

Print de publicações do Twitter do vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos - RJ)

O deputado federal Eduardo Bolsonaro retweetou com frequência seus próprios conteúdos e, assim como o irmão, interagiu com Elisa Brom, André Porciuncula, General Heleno, Kim Paim e Rodrigo Constantino. Já o senador Flávio Bolsonaro deu visibilidade aos tweets de perfis da própria família, compartilhando com frequência conteúdos de Carlos e Jair Bolsonaro, e também de contas influentes na plataforma, como TeAtualizei (@taoquei1), com 1,1 milhões de seguidores, e do ministro das Comunicações, Fabio Faria (@fabiofaria), com 495,7 mil seguidores.

Entre os ataques à imprensa feitos pelo presidente Jair Bolsonaro, 5,9 são retweets e 50% são respostas – todas à própria conta. Bolsonaro só compartilhou publicações do filho Carlos e do comandante da Força Aérea Brasileira, Brigadeiro Baptista Jr (@CBaptistaJr).

Publicação de Jair Bolsonaro no Twitter em abril de 2021. Crédito: reprodução / Twitter

Esta reportagem foi produzida com apoio do Report for the World, uma iniciativa do The GroundTruth Project.

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