PSB aposta na força eleitoral da família Hacker no Litoral Sul de Pernambuco. Crédito: redes Sociais

Gabriel Neves, especial para a Marco Zero Conteúdo

A família Hacker está disputando a reeleição em duas das três cidades que comanda no litoral sul pernambucano. Em Tamandaré, Sérgio Hacker (PSB) tenta se reeleger. Em Rio Formoso, Isabel Hacker (PSB), mãe de Sérgio, também tenta a reeleição. Já na cidade de Sirinhaém, Franz Hacker (PSB), tio de Sérgio e irmão de Isabel, está empenhado em fazer seu sucessor no executivo e, sobretudo, eleger seu irmão Berg Hacker (PSD) para o legislativo. 

A família entra na disputa deste ano sob o peso da repercussão nacional da morte do menino Miguel Otávio Santana da Silva, criança de apenas cinco anos que caiu do nono andar de um prédio de luxo, no Recife, por ter sido deixado sozinho por Sarí Mariana Gaspar Corte Real, esposa de Sérgio Hacker.

A morte de Miguel gerou uma grande comoção em todo o país, incluindo as três cidades governadas pelos Hacker. Miguel era filho de Mirtes Renata Souza, trabalhadora doméstica que prestava serviços para Sarí e Sérgio. Miguel, que devia estar sob os cuidados da ex-patroa de Mirtes, morreu enquanto a mãe trabalhava passeando com os cachorros de Sarí. A patroa chegou a ser presa, mas foi logo solta após pagar 20 mil reais de fiança.

Protestos foram realizados no Recife e em Tamandaré, pedindo Justiça e atenção ao caso. Sarí Corte Real foi indiciada pela Polícia Civil de Pernambuco por abandono de incapaz com resultado em morte. O Ministério Público de Pernambuco (MPPE), em seguida, denunciou Sarí com o mesmo entendimento, adicionando o fato de que o crime foi cometido em meio à pandemia do novo coronavírus. A esposa de Sérgio Hacker se tornou ré no dia 14 de julho, após o juiz da 1ª Vara de Crimes contra a Criança e o Adolescente da Capital aceitar a denúncia oferecida pelo MPPE.

No dia 4 de junho, o Jornal do Commercio publicou reportagem mostrando que Mirtes estava registrada como funcionária da Prefeitura de Tamandaré, enquanto trabalhava na casa do prefeito. O MPPE pediu a cassação do mandato de Sérgio Hacker por usar recursos públicos para pagar por serviços realizados em suas propriedades, serviços de trabalho doméstico. Sérgio já devolveu o dinheiro aos cofres públicos.

Sob pressão após a repercussão nacional da morte do menino Miguel, Sérgio Hacker está em campanha pela reeleição a prefeito de Tamandaré. Crédito: Perfil do Facebook político de Sérgio Hacker

Hegemonia política

O padrão de comportamento de um clã político é o seu funcionamento como uma organização informal voltada para a ação política. O controle do processo político por parte de um clã permite a sua própria sobrevivência, pois ter esse controle é ter domínio sobre cargos, recursos, partidos e mandatos. Essas afirmações são de Vanuccio Medeiros Pimentel, doutor em Ciência Política e professor no complexo educacional Asces-Unita, em Caruaru. Ele escreveu uma tese intitulada de A primazia dos clãs: a família na política nordestina, publicada em 2014, pelo Departamento de Ciência Política, da Universidade Federal de Pernambuco.

Com a família Hacker não é diferente. O grupo, que está na política institucional desde 1992, tem sob sua administração recursos da ordem de 230 milhões de reais ao ano, se contarmos as receitas das três prefeituras que comandam. Em todas as cidades, a família tem maioria nas câmaras municipais, alianças políticas com outras famílias de sobrenomes conhecidos localmente e forte influência sobre entidades de classe, como sindicatos de trabalhadores rurais e associações de pescadores. 

Família Hacker está novamente mobilizada para manter hegemonia política em Tamandaré, Sirinhaém e Rio Formoso. Crédito: Redes Sociais

No histórico dos Hacker, de 1992 até aqui, a família disputou diretamente 15 eleições em diferentes cidades. Destas, o grupo só perdeu uma, que foi em Tamandaré, no ano de 2004. Hildo Hacker Júnior, na sua primeira eleição, perdeu para Paulo Romero, um candidato apoiado por Paulo Guimarães, que foi prefeito da cidade de 1996 a 2004 e hoje está candidato à Prefeitura de Tamandaré pelo PCdoB.

O poder político está associado também ao poder econômico. Além da família ser proprietária de empresas do ramo imobiliário, postos de gasolina, empresas do comércio varejista de gás e de empresa do comércio atacadista de matérias primas agrícolas, o grupo, por estar a frente de três prefeituras, também administra cargos, licenças, territórios e transportes.

Vera Pessoa (PCdoB), candidata a vice-prefeita de Tamandaré ao lado de Paulo Guimarães (PCdoB), garante que a candidatura de Sérgio Hacker, neste ano, está mais retraída, sob pressão da repercussão da morte do menino Miguel. Quem também concorda com essa afirmação é Bebeto (PDT), candidato a prefeito na mesma cidade. Vera acredita que o chefe do poder executivo de Tamandaré empregará uma força maior de mobilização para a campanha na reta final, quando estiver mais próximo do dia 15 de novembro.

Apesar da aliança estadual com o PSB, o PCdoB da vice-governadora Luciana Santos apresentou uma chapa própria com Paulo e Vera contra os Hacker em Tamandaré. Crédito: Instagram de Paulo Guimarães 65

Em Rio Formoso, Ivaneide Moura, candidata a prefeita pelo PT, considera a disputa desigual com a família Hacker: “não é nem um xadrez, é um jogo vencido praticamente, considerando as práticas executadas nesse processo político”.

Ivaneide chama atenção para as comemorações do 7 de setembro e do Setembro Amarelo deste ano. Para ela, foi um mês “hiper amarelo”, com funcionários usando roupas desta cor constantemente, em contrapartida a um outubro rosa não tão expressivo. Amarelo é a cor predominante do PSB, partido da prefeita Isabel Hacker.

Em Sirinhaém, o contexto é ainda mais específico. Isso porque o prefeito Franz Hacker está no fim do seu segundo mandato e tenta fazer seu sucessor, o presidente da Câmara Coelhinho (PSB), ao mesmo tempo que está empenhado na candidatura de Berg ao legislativo. Para Jameson Rafael (PSL), candidato a vereador na cidade, a prioridade de Franz é eleger o irmão.

Camila Machado (PP), candidata a prefeita em Sirinhaém e atual vice-prefeita da cidade, concorda com Jameson. Ela rompeu com o prefeito no início do ano. 

A aliança de 2016 entre o grupo político de Camila, antes encabeçado por seu pai, Alberto Machado (PSB), e a família Hacker, que sempre foram adversários históricos, foi orientada pela cúpula do PSB de Pernambuco, partido em que Camila militou por 17 anos e acabou se desfiliando este ano. Embora a candidata seja criticada pela aliança, ela diz que, nesses três anos, não teve poder de decisão, ainda que estivesse presente em eventos institucionais ao lado do prefeito.

Vice-prefeita na gestão de Franz Hacker, em Sirinhaém, Camila Machado deixou o PSB para enfrentar a família nas urnas pelo PP. Crédito: Instagram Camila Machado Oficial

Ao ser questionada sobre sua filiação ao PP, a candidata diz que foi um partido que lhe acolheu para defender o seu projeto, e que “os partidos de esquerda não me davam a garantia eleitoral de estar nesta disputa”.

Fazer uma bancada forte no legislativo seria importante para o atual prefeito de Sirinhaém aprovar as contas ainda pendentes da sua gestão na Câmara.

Franz é réu em ao menos três ações civis de improbidade administrativa e aguarda, ainda, julgamentos no TCE. As acusações são de não recolher contribuições previdenciárias em tempo determinado, gerando prejuízo superior a 70 mil reais aos cofres públicos; de ter realizado pagamentos que chegam a quase 700 mil reais em honorários advocatícios, sem qualquer processo de licitação; e de ter contratado 540 pessoas de forma irregular; além de outras questões.

A Marco Zero Conteúdo publicou, em 11 de julho, reportagem que mostrou que as prefeituras de Sirinhaém, Rio Formoso e Tamandaré, comandadas pelos Hacker, contrataram postos de gasolina de empresário ligado econômica e afetivamente à família. Foram mais de 7 milhões de reais em contratações, em sua maioria firmadas a partir de pregões presenciais sem qualquer concorrência ou por meio de dispensas de licitação.

Gustavo Marques não sabe dizer em que medida essas questões vão impactar a candidatura de Sérgio Hacker em Tamandaré. É importante lembrar que o atual vice-prefeito, conhecido como Mundinho (Patriota), rompeu com o prefeito Sérgio Hacker e está candidato também a vice junto a Carrapicho (Republicanos), em Tamandaré. Mundinho não caminha politicamente ao lado de Sérgio desde 2018.

Para Camila Machado, o sentimento de mudança está tomando conta da campanha em Sirinhaém. Como uma prova disso e de que o adversário sabe dessa dinâmica, a candidata do PP aponta o slogan da candidatura de Coelhinho, apoiado por Franz Hacker: “a mudança que o povo quer”. É mais comum as candidaturas apoiadas pelas gestões imprimirem um slogan que evidencia continuidade ou prosseguimento dos trabalhos, o que evidentemente não é o caso em Sirinhaém.

Para Jameson Rafael, a população de Sirinhaém está cansada por ter o mesmo secretariado há 24 anos. Isso faz com que a cidade permaneça com a mesma forma de gestão. Indicadores do Ideb para os anos finais do fundamental, por exemplo, não atingem a meta há mais de dez anos em Sirinhaém.

Em Rio Formoso, o foco dos discursos dos candidatos da oposição é a Lei 1632/17, promulgada pela prefeita Isabel Hacker e que modificou a Lei 1088/90, retirando dos salários dos servidores públicos municipais os adicionais por insalubridade, condições penosas e perigosas e o adicional por tempo de serviço. Os opositores têm explorado também a extinção do plano de cargos e carreiras e a revogação do artigo 70, da Lei 1088/90, que proibia funcionárias gestantes ou lactantes de trabalharem em atividades consideradas penosas, insalubres ou perigosas.

Estas eleições são as que apresentam o maior número de candidaturas majoritárias em 20 anos nas cidades de Sirinhaém e Tamandaré. Em Rio Formoso, desde 2004 que não se tinha mais de três candidaturas. Os palanques divididos podem dificultar a situação para a oposição. Mesmo que as gestões das três cidades tenham algum desgaste, a quantidade de candidaturas de oposição pode dispersar os votos e dificultar a vitória sobre os candidatos da família Hacker ou apoiados por eles.

Candidaturas proporcionais

A desproporção das campanhas eleitorais nas três cidades é evidente a partir do levantamento do número de candidatos e candidatas ao legislativo lançadas em cada frente. 

Em Tamandaré, Sérgio Hacker reúne quatro partidos que somam 62 candidaturas ao legislativo da cidade. Já os quatro adversários do prefeito juntos têm 68 candidaturas. Quem mais se sobressai, nesse contexto, na oposição, é o candidato Carrapicho (Republicanos), que tem 55 candidaturas e três partidos na sua coligação.

A candidatura de Paulo Guimarães, quando estava começando a se mexer, havia formado um bloco com três partidos: PCdoB, PT e PDT, uma frente de esquerda. Desses, somente o último tem candidatos ao legislativo, que são 12 no total. Porém, em última hora, Bebeto se lançou candidato a prefeito pelo PDT, causando um racha entre essas candidaturas da proporcional. Metade ficou com Bebeto e a outra metade continuou com o candidato Paulo Guimarães. Além desses, tem Amadeu, candidato a prefeito de Tamandaré pelo Cidadania. A chapa tem uma candidata a vereadora.

Em Rio Formoso, são quatro candidaturas que estão se colocando. Três são mulheres. Isabel Hacker conseguiu reunir quatro partidos e 51 candidaturas ao legislativo. Edivaldo (PTB), candidato do ex-senador Armando Monteiro, em Rio Formoso, encabeça uma frente com três partidos que têm 47 candidaturas ao legislativo.

Abnair (PP), que não tem coligação, disputa as proporcionais com 16 candidaturas. E Ivaneide (PT), que também não tem coligação, disputa a eleição com 5 candidaturas ao legislativo.

Por fim, em Sirinhaém, Coelhinho (PSB), candidato da família Hacker, tem 57 candidatos nas proporcionais, numa frente que reúne seis partidos. A segunda frente com maior número de candidaturas ao legislativo é encabeçada por Nido da Loja (PSL), com 33 pessoas, apesar de não ter quase nenhuma expressão política na majoritária. São três partidos com Nido.

A candidata Camila Machado (PP) tem a maior coligação, com sete partidos, e 30 candidaturas nas proporcionais. Gilma Urquiza (PL) tem 28 candidaturas numa coligação com três partidos. Já Moises Éi (Avante), sem coligação, apresenta seis candidaturas ao legislativo.

No processo de apuração desta reportagem, foram escolhidas fontes de diferentes grupos políticos, incluindo as oposições e a própria família Hacker. Entrei em contato com Isabel, Franz, Berg e Sérgio Hacker. Os três primeiros não responderam à solicitação de entrevista que foi feita via aplicativo de mensagens.

Já Sérgio se negou a conversar porque, após uma “análise” do portal da Marco Zero Conteúdo supostamente feita pela sua assessoria, achou “uma parcialidade nos conteúdos”. O prefeito de Tamandaré ainda afirmou que “acreditamos que vocês possuem ligações políticas, e provavelmente essa matéria sairá de maneira descontextualizada”. Em seguida, bloqueou-me.