Gessica Beda e as mulheres na gravação do videoclipe em homenagem a Marielle Franco nas ruas da Bomba do Hemetério, zona norte do Recife. Crédito: Coletivo Força Tururu

Nesta sexta-feira (20), Dia Nacional da Consciência Negra, o Coletivo Força Tururu lançará em suas redes sociais o videoclipe da música Marielle, composição de Gessica Beda. As gravações realizadas pela equipe do Coletivo aconteceram na Bomba do Hemetério, zona norte do Recife, bairro onde Gessica mora, e também no Centro da Cidade.

A música foi a vencedora do edital Canta pra Vida, promovido pelo Coletivo Força Tururu com o apoio da Escola de Ativismo. Para participar, era preciso ser mulher, acima de 18 anos, cantora e compositora de Abreu e Lima, Paulista (cidade do Coletivo), Olinda, Recife, Camaragibe ou Jaboatão. A letra da música inscrita deveria tratar de alguns dos seguintes temas: resistência, luta social, enfrentamento ao preconceito, organização popular, amor à vida.

Ao todo, 20 cantoras e compositoras se inscreveram. O anúncio da vencedora aconteceu em agosto. Na sequência, foi feita a gravação da música no estúdio Duca do Beat, na Bomba do Hemetério. Nas últimas semanas, começaram as gravações nas ruas do bairro e do Centro. “Nós temos uma prática de fortalecimento de grupos e pessoas periféricas e decidimos dar uma força para as compositoras, apoiando sua produção”, conta o pedagogo André Fidélis, do Força Tururu.

Vencedora do edital, Gessica Beda está familiarizada com a música desde criança. Aos 12 anos fez parte de corais, depois estudou violão, balé clássico, teatro, frevo e dança contemporânea. Em entrevista para os integrantes do Coletivo Tururu, ela contou que toda essa experiência a fez transitar por diversas influências rítmicas, mas que o território tem um peso importante nas suascanções. “Por crescer entre a Bomba do Hemetério e o Alto do Pascoal fui muito influenciada e inspirada pelas vivências nesses lugares em minhas composições. Na música da Marielle, especificamente, fui inspirada pela indignação diante da história da morte dela”, contou.

A vereadora do Rio de Janeiro Marielle Franco (Psol) e o motorista Anderson Gomes foram assassinados a tiros no dia 14 de março de 2018. Passados mais de dois anos das mortes, a Polícia não revelou quem foram os mandantes do crime.

Quando escreveu a música, há mais de um ano, Gessica estava pressionada para entregar um trabalho da faculdade e angustiada com a memória de Marielle e do assassinato. “Comecei a pesquisar, anotar detalhes… e tudo na minha cabeça foi se organizando. Em um dia acabei a música e pra mim foi como um consolo diante da história. O trabalho da faculdade atrasou, mas a música saiu”.

Gessica soube do edital pelo Instagram do Tururu e agora está finalmente poderá atender à pressão dos amigos que queriam que ela gravasse a música de todo jeito. “Estou muito feliz e empolgada. Não só pela realização do clipe e a gravação, mas por toda a equipe estar engajada na ideia e no discurso que a música traz. Isso, nenhum dinheiro compra”.

Equipe do Coletivo Tururu com Gessica Beda nas filmagens do videoclipe. Crédito: Coletivo Força Tururu

Formação e informação

Criado há 12 anos na comunidade do Tururu, em Paulista, o Coletivo Força Tururu é uma referência na comunicação popular da Região Metropolitana do Recife. Alêm da produção de conteúdo local, tem uma atuação importante no apoio e na formação de outros grupos de comunicação periféricos.

Em outubro o grupo realizou oficinas nas comunidades do Alto do Sol Nascente, em Olinda, e no Córrego do Jenipapo, no Recife, sempre em parceria com coletivos das comunidades locais, como o Grupo Sol e o Jenipapo em Foco.

Para os integrantes do Tururu, a comunicação popular é uma das formas mais importantes de empoderamento e fortalecimento das comunidades para criar estratégias de incidência e mudanças nos territórios periféricos.

O Coletivo Tururu compõe a Rede Coppa, Rede de Coletivos Populares de Paulista, juntamente com o Escambo Coletivo, o Observatório de Maranguape I, o coletivo M1 e o Coletivas.

Nestas eleições 2020, os movimentos se juntaram para colocar nas ruas das periferias uma campanha contra o clientelismo, com a produção de vídeos, lambes e ações nas redes sociais. “Somos contra os políticos assistencialistas, que querem que os problemas continuem a existir para eles oferecerem seus pequenos serviços. Nosso lado é dos que defendem pautas de luta social e dos direitos humanos e que valorizam as comunidades”, explica André Fidelis.

Os coletivos periféricos têm tido um papel relevante durante a pandemia no trabalho cotidiano de fazer frente à desinformação e às fake news que circulam sobre a prevenção e o tratamento da Covid-19. Estiveram à frente também da arrecadação de alimentos e materiais de higiene, bem como das ações políticas de pressão sobre o poder público para garantir água, merenda escolar e apoio às famílias mais vulneráveis.