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Quando o assunto é política nem às 7h da manhã de um sábado, no meio da feira livre na rua, nós podemos escapar. A atividade tradicional de todo goianense nos fins de semana voltou a se tornar, em pleno mês de março, um palco de disputa eleitoral. Enquanto caminho em meio aos frutos, frutas, carnes e guloseimas, vejo um grupo se aproximando, duas pessoas com câmeras e celulares nas mãos e quase todos vestidos de azul. Pergunto: “o que é isso?” e minha mãe prontamente responde: “eleição começou”.
O candidato a prefeitura cumprimenta feirantes, posa para fotos com os fregueses. Passa sem ouvir os comentários: “tudo acordando cedo pra fazer campanha”; “só aparece na feira nessa época, depois que é eleito nem pisa mais aqui”; “começou de novo, né?”. Sim, começou de novo.
No dia 4 de maio, os eleitores da cidade de Goiana, na Mata Norte de Pernambuco, voltarão às urnas para decidir de forma definitiva quem será o próximo prefeito da cidade. Apesar dos dois candidatos Eduardo Batista (Avante) e Marcílio Régio (PP) terem ido à feira do sábado pedir votos, oficialmente, a campanha eleitoral para o pleito suplementar recomeçou nesta terça-feira, 25 de março.
Na verdade, a disputa iniciou há meses. Em dezembro de 2024, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) indeferiu o registro de candidatura do então prefeito Eduardo Honório (União Brasil) e anulou o resultado da eleição que havia sido favorável ao candidato reeleito. Em uma disputa com outros quatro candidatos – Quinho Fenelon (Republicanos), Walter da ETP (PL), Fernando Veloso (Agir) e Borbinha do Varejão (PDT) – Honório venceu com a expressiva votação de 78,16% dos votos válidos.
O registro da candidatura de Eduardo Honório foi indeferido pelo TRE-PE porque ele assumiu a gestão municipal entre os anos de 2016 e 2020, quando era vice de Osvaldo Rabelo Filho, que adoeceu durante o mandato e morreu em 2021. Como havia sido reeleito em 2020, a Justiça Eleitoral considerou que este seria seu terceiro mandato consecutivo no cargo, prática vedada pelo artigo 14 da Constituição Federal.
Mesmo que o Tribunal Regional Eleitoral (TRE) já houvesse decidido pelo indeferimento da sua candidatura, Eduardo Honório preferiu pagar para ver e levou o processo até as últimas instâncias, concorrendo sub judice.
Quando os goianenses foram às urnas, em outubro, não faltavam boatos na cidade. O mais recorrente dizia que, caso Honório recebesse mais de 70% dos votos, sua vitória seria inquestionável e o apoio popular pressionaria o TSE a deixar as coisas como estavam. Se o ex-prefeito apostava nessa possibilidade, se deu mal.
Honório nunca negou que, se o TSE cassasse sua candidatura, o plano era tornar a candidata Paula Brito (PP), aliada de longa data de Honório, a vereadora mais votada da cidade porque assim ela teria grandes chances de assumir a presidência da Câmara Municipal. Com isso, o então prefeito continuaria tendo influência na gestão do município.
Porém, nenhum dos planos deu certo. Paula Brito ficou em terceiro lugar, não se elegeu presidente do legislstivo nem viabilizou sua candidatura a prefeita. A situação confortável de Eduardo Honório deixou de existir e, agora, o poder do seu grupo político está em risco.
Curiosamente, de todos os candidatos que disputaram o pleito em 2024, nenhum concorrerá nesta eleição suplementar. Sem viabilizar Paula Brito, Eduardo Honório decidiu dar apoio à candidatura do ex-vereador e ex-vice prefeito de Goiana, Marcílio Régio (PP). Do outro lado está o presidente da Câmara de Vereadores e prefeito interino da cidade, Eduardo Batista (Avante).
Batista, que foi um aliado de Honório durante sua gestão, foi eleito presidente com 13 dos 17 votos dos vereadores e vereadoras da Câmara. Durante a disputa pelo comando do legislativo, o novo cenário político do município se desenhava, com apoiadores do ex-prefeito o abandonando e se aliando a Batista, que, como determina a legislação assumiu a função de prefeito interino, passando a ter o controle da “caneta” que assina as nomeações de cargos comissionados e os contratos.
Quatro vereadores anularam os votos na eleição para a presidência da Câmara e se mantiveram fieis a Honório, inclusive apoiando Marcílio Régio. Os demais declararam apoio a Eduardo Batista na disputa pela prefeitura.
As mudanças também são sentidas em parte da população, principalmente por aquelas pessoas que integram o quadro de funcionários contratados da prefeitura da cidade. Desde que assumiu, Eduardo Batista tem promovido uma troca nos cargos e secretarias do município. A regra é clara: quem apoia Marcílio Régio não integra a atual gestão que assume a prefeitura de forma interina. Como não podia deixar de ser, há relatos de perseguição política circulando nas redes sociais;
Desde janeiro, Honório cumpre uma agenda cheia de compromissos por Goiana. Visitando obras realizadas em seu mandato, conversando com as pessoas nas ruas, promovendo caminhadas junto aos seus aliados e componentes da chapa que tem Marcílio Régio como candidato a prefeito e Lícia Maciel (PT) como vice.
“Peço a vocês que a procuração que me deram, com mais de 42 mil votos, que passem para Lícia e Marcílio. Eles não irão decepcionar”, discursou o ex-prefeito de Goiana durante a convenção que oficializou a candidatura de Régio, no dia 17 de março.
Neste mesmo dia, acontecia também a convenção da chapa composta pelo candidato a prefeito Eduardo Batista (Avante) e seu vice, o também vereador Pedro Henrique (Republicanos). Durante seu discurso na convenção, Batista criticou a morosidade dos projetos realizados pela antiga gestão e prometeu “fazer Goiana grande”.
“Desde que assumi o desafio de gerir o município, tenho me dedicado dia e noite a retomar as obras paradas, a acelerar o ritmo do que vinha devagar, e botar pra funcionar o que tem e iniciar os projetos que Goiana precisa”, declarou o candidato à prefeitura.
Jornalista e mestra em Comunicação pela Universidade Federal de Pernambuco.